“Observar em silêncio é melhor que dizer algo”

Esta crónica surgiu no âmbito de um desafio lançado pelo blog  https://aestranhamente.com que, procurando novos autores, lançou um desafio: enviarmos um texto nosso (eu enviei o conto “O Sonho comanda a vida”) e escrever um texto partindo da frase “Observar em silêncio é melhor que dizer algo”. Criei, partindo da frase que acabei por tomar como título, esta crónica que hoje vos deixo. Espero que parem uns instantes para a ler. (E depois…partilhem!!)pablo-basagoiti-2170-unsplash

Photo by Pablo Basagoiti on Unsplash

Observar em silêncio é melhor que dizer algo – poderia ser uma das máximas da minha vida. Estou plenamente convicta que esta é uma das atitudes mais sábias que terei aprendido ao longo das minhas quatro décadas.

A verdade é que até há algum tempo eu não era nada assim. Poderia dizer que, quando era “Menina e moça”, era aquilo que em Portugal se chama de “uma rapariga sem papas na língua”. Sempre gostei de falar, de exprimir as minhas ideias, os meus pontos de vista. Sempre gostei de contar aos outros sobre aquele livro ou aquele filme que tinha visto e que era tão, mas tão bom, que tinham absolutamente de ler ou ver. E assumo que me dava um prazer enorme perceber quão persuasivo era o meu discurso, quando a pessoa me vinha falar do livro ou do filme que tinha acabado por ler/ ver por causa da minha crítica positiva. Assumo que estas características da meninice e da juventude não se perderam com a idade adulta. Talvez seja essa a razão por manter um blog de escrita de crónicas e contos e mais umas quantas páginas no Facebook onde vou falando e escrevendo sobre todo e qualquer tema de que me possa lembrar, onde vou criando histórias de um mundo real ou alternativo.

É um facto que mantenho a vontade de falar e opinar sobre o muito que me rodeia, sobre o que gosto mais e o que gosto menos. Contudo, percebi com a idade que, para poder falar com qualidade sobre os assuntos que pretendia abordar, eu tinha, primeiro, que observar. Isso era algo que eu fazia bem menos, na juventude. Certa que era a detentora do saber único, fazia ouvir a minha voz bem alto até porque estava convencida que era aquele que falava mais alto quem era o senhor da razão. Expunha os meus pontos de vista certa que não haveria outro ponto de vista válido. Expunha os meus pensamentos e sentimentos mais profundos com a maior facilidade porque pensava que o mundo era construído através da palavra. Nada de extremamente importante poderia ser dito apenas com um gesto ou um olhar.

Com o passar dos anos comecei a perceber que esta não era a melhor atitude. Ao impor a minha voz e a minha verdade, estava a escapar-me a voz e a verdade dos outros. E ao escapar-me a verdade dos outros estariam a fugir-me, simultaneamente, os seus mundos e a sua forma de os observar. Percebi que ouvir e observar o outro pode ser extremamente enriquecedor para mim, para a minha formação, percebendo que existem outras perspetivas igualmente válidas sobre assuntos variados.

Simultaneamente, com uma maior calma em observar os comportamentos dos outros, surgiu uma maior serenidade em relação a tudo o que me rodeia. Passei a dar tempo a mim mesma para estar inativa: hoje dou tempo a mim mesma para me sentar, sozinha, numa esplanada e observar as pessoas que me rodeiam. Tantas e tantas acabaram por ser esboços das personagens dos meus contos. Hoje dou tempo a mim mesma para parar o carro e observar a natureza apenas e só porque está a nascer o sol ou, pelo contrário, ele se está a pôr. Quanta inspiração para a minha escrita não me surgiu dessa quietude e observação em silêncio?

Por fim, ao ter aprendido a observar mais antes de ser “uma conversadora sem atalho” (outra das expressões que utilizamos para alguém que fala muito e que conversa imenso), consegui perceber que nós, os seres humanos, comunicamos bem mais por gestos, olhares e comportamentos do que por palavras. Percebi que podemos dizer “amo-te” apenas com um abraço apertado ou com um olhar mais profundo. Contudo, percebi, também, que as palavras doces que saem da boca podem ser completamente contrárias ao que observamos no gesto da pessoa que as diz. Percebi que nem todos os seres humanos são puros, nem todas as amizades são verdadeiras, nem todos os que dizem, por palavras, amar, amam mesmo. E percebi que todas estas conclusões são mais fáceis de tirar se me dedicar mais à observação do que à locução.

Não poderei dizer que mudei a 100%. A minha natureza é naturalmente conversadora. Continuo a gostar de conversar com quem encontro na rua com disponibilidade (mental e temporal) para dar dois dedos de conversa. Continuo a gostar de expor as minhas ideias e os meus pensamentos (Condição para se ter um blog de escrita, penso eu!). Mas o tempo que passou por mim trouxe calmaria e serenidade a uma pessoa que era, acima de tudo, tempestade. O tempo que passou por mim trouxe-me a certeza que parar, sentar e observar, parar, sentar e ouvir são altamente enriquecedores. Por fim, o tempo que passou por mim ensinou-me que aprendo bem mais sobre os seres humanos que me rodeiam observando-os em silêncio do que falando e expondo a minha natureza!

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O Fim do caminho

Hoje venho propor-vos um texto ligeiramente diferente do que costuma ser apresentado por cá. A razão principal residirá no facto de ter sido escrito a duas mãos!

Passo a explicar: num desafio lançado pelo meu amigo Balthasar Sete-sóis para a sua rubrica “PASSA-PALAVRA”, integrada no programa de rádio da Popular FM, “Amantes da Poesia”, escrevemos um texto que teve por base a imagem que se segue, previamente escolhida pelos seus leitores. passapalavra

O texto que resultou dessa experiência foi declamado (com grande qualidade, diga-se) pelo próprio Balthasar no programa da noite passada.

Partilho agora com vocês o resultado deste texto, escrito a duas mãos, que tanto gosto meu deu escrever!

“O fim do caminho”

Há muito que eles tinham deixado de ser “eles”. Aquela união que fazia parecer que um mais um não resultava em dois, mas apenas em um, contrariando as mais elementares leis da matemática, se não desaparecera, encontrava-se profundamente adormecida.

Do casal que outrora olhava na mesma direção, que perspetivava o melhor dos futuros, que procurava respirar o mesmo ar, pouco restava.

As mãos que, em tempos idos, haviam trocado tanto prazer, que tinham sentido tanto gosto em acariciar, afagar e acarinhar, pendiam agora, lamentavelmente, ao longo do corpo, inertes, incapazes de efetuar qualquer gesto de carinho, de amor e muito menos de paixão.

Quando ele, já cansado, escancarou as portas do coração, deixou fugir, pela fresta aberta da desilusão, as traças desbotadas que guardava no estômago desde o dia em que o corpo dela o havia abandonado, deixando-o entregue ao fado que toda a vida quis evitar. Acordado, vivia dias cinzentos, respirava a custo e encostava os ombros no ombro de quem quisesse.

O cheiro dos corpos desapareceu e as bocas insípidas e húmidas onde colava a sua, tão deserta, faziam-no desacreditar em oásis perdidos no caminho que trilhava sozinho com ela a seu lado.

E ela, vazia dos sonhos que ele lhe havia semeado, deixou-se embalar pelo comboio entediante, esquecendo no apeadeiro onde entrou, o amor que um dia os uniu.

Ambos entendiam que o único caminho possível era aceitar que aquele amor tinha, irremediavelmente, naufragado. Sentiam-se como uma velha casa devoluta onde o espaço, vasto como o interior oco de uma concha, era ocupado pelas teias de aranha que simbolizam o abandono.

As memórias boas, que tinham sido vividas naquele pretérito perfeito e que ainda habitavam nas suas mentes, escapavam-se como pássaros negros, levantando voo na última primavera das suas vidas. Tinham chegado ao fim do caminho e essa era uma certeza, dolorosamente, inabalável.

Frente a frente, afundaram-se no olhar um do outro, contemplando aquela que seria a hora parada que marcaria para sempre aquela despedida.

Ela, que sempre fora a mais sonhadora, ergueu, num átimo, a sua mão para acariciar, pela última vez, aquele rosto que tanto amara, mas congelou o seu gesto a meio caminho, recolheu a mão que ainda lhe afagava o coração dolorido e baixou o olhar.

Nesse instante, a pequena chama de esperança, que tão rapidamente se acendera nele, extinguiu-se para sempre quando, nas costas decotadas, que ela lhe voltara cheia de certeza, leu as três letras avulsas que compunham a palavra FIM.

“Loucure-se”

O primeiro texto do ano, aqui na “Steff’s World – a soma dos dias” é uma crónica publicada no Semanário Registo que aborda a importância de, por vezes, ceder aos momentos de loucura, fugindo de todas as regras que nos impõem! Parem uns minutos para ler e partilhem a vossa opinião sobre o assunto! Enjoy!!

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Sou uma pessoa que gosta de gatos. Por isso, sempre partilhei a minha vida com felinos e partilho a minha casa com uma gata há mais de 13 anos. Tal partilha tem-me permitido observar e analisar muitos dos comportamentos dos felinos. E, tenho que o assumir, aprecio em muito a forma de ser dos gatos. A felina da casa apresenta duas características que muito me agradam. De um modo geral, e depois de um momento de maior atividade, a gata Carlota decide sempre descansar. E tenho a dizer que ver um gato a dormir oferece, a quem o observa, um sentimento de paz e uma calma fantásticos. Todo ele é tranquilidade e harmonia. Usando uma expressão muito nossa, “dormem o sono dos justos”! E quase que nos parecem sorrir quando estão deitados em algum sítio bem confortável que eles apreciem: ao sol e/ ou calor. É impossível não invejar essa paz, esse bem-estar que eles aparentam ter quando dormem. Outra das características que muito aprecio na gata que por cá vive é aquilo que denomino de “os cinco minutos de loucura” diários. Normalmente esses cinco minutos de loucura, que se caracterizam por corridas desenfreadas pelo corredor, miados que se assemelham a rugidos de leão, saltos em altura e até recriação de pequenas cenas de caça a qualquer coisa que se descubra pelo chão, acontecem pela manhã. E garanto que não acontecem por muito mais de dez/ quinze minutos. Passado este momento, o bicho volta à sua pacata vida de realizar a fotossíntese ao sol, comer e escolher outro local para dormir se o sol desapareceu. E do que tenho observado ao longo destes anos, a gata necessita deste momento de loucura para extravasar as suas energias de modo a poder repousar nos momentos a seguir.

É dessa observação, desta mistura de calma e loucura, que concluí que também nós seres humanos precisamos dos nossos cinco minutos de loucura para que o dia e a vida nos façam sentido. Haverá algo mais aborrecido e stressante do que uma vida seguida todos os dias pelas regras ditadas pela sociedade?

A ideia que tenho é que cada vez mais vivemos num ambiente em que temos de viver com as regras e pelas regras. E isso pode ser extremamente desgastante…para além de aborrecido. Todos os dias, se formos afortunados, temos de levantar ao som do despertador, vestir o nosso melhor ar de trabalhador eficiente e exercer a nossa atividade em, pelo menos, oito horas do nosso dia. E quando termina o trabalho? Vestimos um outro papel adequado à sociedade que nos rodeia: o de mãe/ pai, filha(o), mulher/ marido e, mais uma vez, cumprimos com os papéis que nos são atribuídos, da maneira mais eficiente que nos é possível. Procuramos nunca falhar porque a sociedade em que nos movemos não aceita falhanços. Temos de ser os melhores trabalhadores, os melhores pais, os melhores tudo…Pela graça de todos os santos temos um manancial de manuais de comportamento sempre à mão de semear, ali no Google, que nos podem ensinar tudo o que queremos para melhorar! Ali aprendemos a ser os melhores em todas as áreas!

E quanto ao nosso corpo? A mesma coisa. Impusemos (ou impuseram-nos) algo que já se vai assemelhando a uma ditadura. As milhentas apps que colocámos no nosso smartphone lembram-nos a toda a hora que é o momento de beber um copo de água, que ainda não demos os passos que estavam agendados para aquele dia, que ainda não realizámos o exercício físico que estava planeado para aquela semana, ou que não estamos a cumprir com o número de horas que devíamos dormir. Procuramos seguir planos alimentares que são saudáveis porque afinal a sociedade hoje manda que tenhamos uma alimentação equilibrada e que sejamos todos desportistas à procura da melhor condição física, condição essa que nos oferecerá a melhor qualidade de vida. E quando falhamos numa dessas 1001 coisas agendadas para o nosso dia? Quando não houve corrida porque estava frio e o sofá chamava por nós? E aquele dia da semana em que fomos jantar com uns amigos e nos excedemos tanto na comida como na bebida porque os amigos são dados a excessos? E o ter ido passear e ter esquecido completamente de beber os copos de água que deveriam ter sido bebidos ao longo do dia? E o ter saído com amigos, ter deitado bem mais tarde e não ter cumprido com o plano de horas de sono!? E?..E?.. E agora? Agora sentimos que falhamos no nosso plano de sermos “perfeitamente os melhores”! Aí chega o nosso sentimento de culpa. Pungente. Torturante. Sentimo-nos péssimos e falhados!

A tudo isso digo um veemente não! A tudo isto digo, “quebrem-se as regras!” É claro que não defendo um quebrar das regras total. Não defendo que se esqueça o despertador e o trabalho. Muito menos que se descure a profissão, a saúde ou os nossos papéis familiares. O que defendo é que se dê espaço aos “5 minutos da loucura” que a minha gata se oferece todos os dias. Que se quebrem algumas regras. Que haja um dia na semana em que não se contam calorias, em que se escolha vegetar num sofá, em que se abuse nos doces, nos chocolates ou naquilo que nos aprouver! Que se dê lugar, em certos momentos, aos excessos apenas e só porque nos apetece! Haja, por vezes, o esquecimento das regras sociais e faça-se o que realmente temos vontade de fazer! Sair do caminho previamente trilhado não significa que o mundo vai parar de girar. Muito pelo contrário. Ele irá continuar a sua rota, garanto!

 E nós? Nós, sem dúvida, sentir-nos-emos bem mais vivos depois destes momentos de loucura, depois desse momento de quebra das normas. Esquecer as regras de quando em vez só nos poderá trazer aquela sensação boa que sentimos quando descalçamos um sapato que nos apertava o pé. Como que uma cura para aquele pé dorido. Alívio e bem-estar para o nosso corpo e mente. Como tal, o conselho que deixo é que, para este novo ano que ainda agora se iniciou, siga estas ideias e, de vez em quando… “loucure-se”!

Oprah Winfrey – a personificação do sucesso

Iniciar o novo ano aqui na “Steff’s World – a soma dos dias” com a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”, implicava que escolhesse uma “ela” que não deixasse dúvidas sobre a sua excecionalidade. Escolhi para vos falar hoje uma mulher que foi, apenas com 19 anos, a primeira jornalista afro-americana de televisão. Uma mulher que para além de jornalista e apresentadora, é também atriz. Fruto dessa última profissão, foi nomeada, em 1985, para o Oscar de Melhor Atriz Secundária, pela sua inesquecível Sofia, no fabuloso filme de Steven Spielberg, “A cor púrpura”. O talk-show que apresenta foi ao longo de mais de duas décadas, um sucesso de audiências nos Estados Unidos da América. Venceu vários prémios Emmy com ele. Em 2000 lançou a revista O, The Oprah Magazine, uma publicação mensal para o público feminino. É proprietária da Harpo Films, uma produtora de filmes e dirige uma organização que apoia pessoas carenciadas, nomeadamente na África do Sul. De acordo com a revista Forbes, Oprah foi eleita a mulher negra mais rica do século XX. É claro que já devem ter identificado que a “Ela” do mês de janeiro, a “Ela” escolhida para iniciar mais um ano é a inigualável Oprah Winfrey.

Oprah Gail Winfrey nasceu a 29 de janeiro de 1954 em Kosciusko, um estado rural do Mississipi, de uma mãe que apenas tinha 18 anos quando deu à luz. Os seus primeiros anos de vida foram passados junto da sua avó que a ensinou a ler e a recitar os versos da Bíblia. Foram anos difíceis uma vez que a sua família era uma família com poucos recursos.

Com nove anos mudou-se, com a sua mãe, para um bairro pobre de Milwaukee, Wisconsin. Iniciaram-se aí os piores anos da sua vida. Aos 9 anos Oprah foi violada por um dos seus primos. Esta violação daria início a repetidas violações por parte de outros membros da família: um primo, um tio e um conhecido da família. Aos 13 anos, não aguentando mais a situação, fugiu de casa. Aos 14 anos, engravidou. O bebé nasceu prematuramente e morreu pouco tempo depois do nascimento. Depois disso, nunca mais se lhe reconheceu uma vontade de ser mãe, afirmando que por não ter tido uma boa mãe, não sentia que ela deveria ter filhos.

A rebeldia que demonstrava na adolescência (chegando a roubar) estiveram quase a levá-la para um reformatório. Para evitar essa ida para um centro de detenção, foi viver com o seu pai, em Nashville. O seu pai fez da educação de Oprah uma prioridade. Incentivava-a a estudar. Fazia com que entregasse relatórios dos livros que ela dia durante a semana. Diz-se que era obrigada a aprender cinco palavras novas por dia. O certo é que Oprah passou de uma quase delinquente para um membro do quadro de honra, ganhou o prémio de Miss Black America e foi eleita como a estudante mais popular de Nashville High School. Ficou em segundo lugar numa competição nacional sobre oratória, que lhe concedeu uma bolsa para a faculdade do Tennessee, onde escolheu estudar Comunicação. Nas próprias palavras de Oprah, o pai salvou a sua vida.

Iniciou a sua carreira em Nashville, apresentando o noticiário numa cadeia local de televisão. Tornou-se, assim, como 19 anos, a primeira mulher afro-americana a aparecer na televisão como jornalista. Após concluir os seus estudos na faculdade, permaneceu a trabalhar como jornalista em jornais locais. Em 1983, com 29 anos, mudou-se para Chicago a fim de apresentar um programa “AM Chicago”, à época um programa com baixa audiência. Contudo, o sucesso de Oprah foi incrível: conquistou rapidamente o público com a sua simpatia, humor e carisma, tornando, em poucos meses o talk-show de maior audiência na cidade de Chicago. Em 1986, o programa mudou de nome, tornando-se o The Oprah Winfrey Show. Ainda que pouco aceite pela crítica (Afirmando que o programa apelava ao sensacionalismo) os números de audiência eram gigantescos.

Em setembro de 1985, o The Oprah Winfrey Show passou a ser transmitido a nível nacional com uma audiência de 10 milhões de pessoas. É também nesse ano que Oprah participará no fantástico filme “A Cor Púrpura”, sendo nomeada para o Oscar e a sua performance aclamada pelos críticos de cinema. É ainda na primeira década de 80 que irá conhecer Stedman Graham, que se tornará seu companheiro até hoje.

E desde essa época, a carreira de Oprah nunca parou de subir. Além de protagonizar um dos maiores programas da televisão americana (que terminou em 2011), ela tornou-se presidente da Harpo Productions, é cofundadora do canal Oxygen e tem o seu próprio canal de televisão, o Oprah Winfrey Network, que a ocupa atualmente.

É inegável o poder e a importância que Oprah conquistou ao longo da sua vida. Aos 32 anos ela era milionária. Em 2004 passou a ser a primeira mulher negra a tornar-se bilionária. Foi muitas vezes apelidada de “a mulher mais poderosa do mundo”. O The Oprah Winfrey Show esteve presente em 140 países! Foi considerada a maior promotora de livros dos EUA, uma vez que quando ela anunciava o título do livro escolhido para o seu Clube do Livro (que ela discutia mensalmente no programa) o mesmo disparava automaticamente nas vendas.

Para além disso tudo… Oprah está envolvida em diversas causas humanitárias, tendo sido eleita como uma das americanas mais generosas do país. Sabe-se que distribui bolsas de estudo, ajuda os seus funcionários e que criou a Oprah’s Angel Network, organização que tem angariado dinheiro para projetos de caridade e projetos sociais no mundo inteiro. Para além disso, usa a sua influência para ajudar em causas importantes como a educação, a conscientização sobre o abuso sexual de crianças e a fome em África.

Não poderia deixar de falar, nesta rubrica, de Oprah Winfrey. Uma criança que nasceu num ambiente pobre e hostil, que passou por abuso sexual durante anos, poderia dar-se por derrotada logo no início de vida. Mas não foi esse o caso! Ela não se deixou abater por um início de vida menos bom, estudou e impôs-se num mundo que, sabemos, não é fácil para uma mulher e muito menos para uma mulher de pele negra. Aproveitou a sua maior qualidade (a capacidade de se ligar com o público e a grande empatia que consegue gerar nos seus convidados) e pô-la ao serviço da sua carreira. É uma mulher empreendedora, que procurou ir sempre mais além na profissão, aproveitando ao máximo todas as oportunidades que a vida lhe deu.

Em novembro de 2013 foi honrada com a Medalha Presidencial da Liberdade, prémio concedido por Barack Obama, e que é considerado a mais alta condecoração a que pode ter acesso um civil nos EUA.

Atrever-me-ia a dizer que o mundo precisa de mais mulheres como Oprah!

Um passeio pelas publicações de 2018…

Quem me segue sabe que publico, habitualmente, um texto por semana (Pelo menos). Assim sendo, contabilizámos, ao longo do ano de 2018, 12 meses, preenchidos por, pelo menos,1 texto por semana, ou seja, 4 textos por mês .  O que perfaz 48 textos repartidos entre crónicas, que abordaram temáticas várias, a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” com biografias que apenas obedeciam a dois critérios: ser mulher e terem-se destacado de alguma forma, e ainda, contos vários.

Este ano decidi destacar um texto de cada mês. É claro que, tendo todos sido escritos por mim, não será tarefa fácil. Mas, irei destacá-los, procurando explicar o porquê da escolha.

Acompanhem-me então nesta viagem, de janeiro a dezembro!

Janeiro – “Célia e eu”

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Publicado logo a 4 de janeiro, é um conto que aborda a temática da violência doméstica. Não sei o que me passou pela cabeça para iniciar o ano logo com um conto de tema tão pesado mas é um dos textos que escrevi que mais aprecio. Continuo a achar a ideia de ter como narrador uma aliança gira. Não te lembras? Passa por lá. Vale a pena reler.

Fevereiro – A crónica “Em 2018 vou dizer amo-te”

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Destaco-a porque fez parte dos desafios da Plataforma “Desafio-te”. Não me consigo lembrar se este foi um dos desafios que venci mas relembra-me os tempos em que escrevia para essa plataforma, o gosto de participar em concursos e o gosto de ser desafiada a escrever sobre um tema. Por outro lado, é um texto muito pessoal, que expõe muito de mim. É a escolha de fevereiro, 2018.

Março – O conto “Dietrichs que não foram nem Marlenes”

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Este foi dos meses mais difíceis de destacar um texto: se por um lado escrevi uma crónica sobre os anos 80 que até foi comentada pelo Nuno Markl, por outro iniciei a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” com a grande Édith Piaf. Ainda assim, de todas as personagens que fui criando, o “meu” Necas do conto “Dietrichs que não foram nem Marlenes” foi uma das personagens que me ficou no coração! Leiam ou releiam que vale a pena!

Abril – A crónica “Ser feliz é o melhor remédio”

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Dos vários textos publicados nesse mês, destaco a minha colaboração com o Jornal Registo com uma crónica que diz muito sobre a minha forma de ver o mundo: “Ser feliz é o melhor remédio”. Um texto a ler sempre que nos sentimos mais deprimidos!

Maio –  A crónica “Bonjour, maman”

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Num mês em que muito escrevi, a escolha não foi fácil. Se por um lado escrevi um conto cujo protagonista é uma criança “Tiago, a criança que sonhava…”, mais um protagonista que me ficou no coração, por outro lado escrevi o conto “Amélia, dos olhos doces”, cuja protagonista é uma idosa. Este último contou com a ilustração da amiga Din-din que ficou linda. Por estas razões seriam escolhas prováveis. Mas a crónica “Bonjour, maman” é algo que me saiu das entranhas, que me custou escrever mas que adoro reler de vez em quando. É a escolha de maio!

Junho – o conto “Viver para sempre”

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Partindo de alguns versos de “Forever young” dos Alphaville criei um conto sobre a possibilidade de viver para sempre, sobre a dificuldade que existe em nós de aceitar que envelhecemos e sobre a falta que os que partiram nos continuam a fazer. Um conto carregado de sentimentos e de boa energia. Se não leram…já sabem.

Julho – a crónica “As nossas avós”

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Mais uma escolha difícil. Se por um lado falei de uma mulher magnífica, Malala, por outro lado narrei a minha ida ao Rock in Rio. Adoro reler ambos os textos. Mas aquele que me deixa maiores e melhores recordações foi a crónica que publiquei no Jornal Registo, tendo ilustrado a mesma com uma foto das minhas duas avós. Foi uma pequena homenagem mas que marca este mês e até mesmo o ano.

Agosto – A crónica “Para lá do esquecimento”

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Uma crónica que surgiu do diálogo com uma amiga sobre a possibilidade de esquecer o nosso passado. Mais uma crónica muito pessoal e que por isso é o destaque do mês de agosto, mês em que foi publicada.

Setembro – O conto “Se me deixasses ser”

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Neste mês publiquei dois contos: “Se me deixasses ser…” e “Maria, nascida do lado errado da vida”. Gosto de ambos. Contudo, destaco o primeiro por ser, a meu ver, um conto ligeiro, visto na perspetiva de um personagem adolescente. Uma visão doce e sonhadora do amor. Merece o destaque do mês de setembro.

Outubro – A crónica “A minha mana Jô”

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Uma escolha difícil. Se por um lado escrevi um conto que se tornava a continuação de um conto que já tinha escrito (algo que não tinha previsto e que considero ter ficado interessante), escrevi pela primeira vez, na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”, sobre uma mulher portuguesa. Ambos os textos mereciam destaque. Mas foi neste mês que escrevi uma crónica tendo como protagonista a minha irmã que merece o destaque do mês de outubro. Uma crónica que tem muito de mim, muito pessoal e que ganha em interesse e beleza por isso.

Novembro – A crónica “O importante é viver uma vida fabulosa”

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Depois de ter visto o filme “Bohemian Rapsody”, escrevi uma crónica que me fez pensar sobre a importância de viver de acordo com as nossas próprias regras. Se não leram…passem por lá!

Dezembro – A crónica “Não gosto da noite de fim-de-ano”

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Não foi fácil escolher entre esta crónica e o conto cheio de luz e esperança que é o “Que as luzes de Natal continuem a brilhar…” A escolha recaiu nesta crónica por ser a última do ano fechando como que um ciclo.

E foi isto em 2018. Lembram-se de algum conto, crónica, biografia que vos tenha tocado? Partilhem comigo!

O que vos quero prometer? Que para o ano há mais. Espero encontrar-vos por cá!!!

Não gosto da noite de fim-de-ano

E o último texto de 2018 é uma crónica. Como o próprio título indica, um texto sobre o final do ano que se aproxima , sobre os festejos que com ele chegam. Leiam e depois digam-me de vossa justiça: gostam ou não gostam do fim-de-ano?

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Photo by Nine Kopfer on Unsplash

E eis que 2018 está perto de terminar…Bolas, ainda tenho tão presente o fim de 2017… Lembro-me perfeitamente do local onde estava quando estava a escrever a crónica do final de ano. Lembro de pensar no que tinha conseguido, no que tinha atingido e do que não tinha conseguido e não tinha atingido. No fundo, lembro perfeitamente do balanço realizado o ano passado. E assumo que ter tudo isto tão presente me perturba um pouquinho. Sempre ouvi dizer que quanto mais velhos ficamos, mais sentimos o tempo nos fugir por entre as mãos. É claro que isto não é novidade para mim. Tenho bem noção que nos meus 12/ 14 anos, os três meses de férias me pareciam intermináveis. Tenho a clara ideia que nessa idade os doze meses do ano levavam uma eternidade a passar. E é óbvio que nos últimos tempos tenho percebido que três meses passam num ápice e que rapidamente passamos do verão ao Natal, num saltinho passamos o inverno e voltamos à primavera e com mais um pulinho, estamos outra vez no verão. Esta sensação de que o tempo corre não é de agora (Não adormeci com 14 anos e acordei nos quarentas, claro!….) Mas, tenho de assumir que à medida que os anos vão passando, sinto cada vez mais esta “velocidade insana” no tempo que passa. 2018 decorreu sem que me desse conta. Num dia estava a fazer contas ao que tinha ganho e atingido em 2017 e no outro já estou a pensar em fazer um balanço de 2018. Num dia estava cheia de propósitos e boas intenções, carregada de esperanças para 2018 e no outro já tenho de estar a fazer contas à vida, a olhar para as decisões de 2018, verificando quais é que se mantiveram e quais foram rapidamente esquecidas. E sabem que mais?! Este ano não me apetece!!! Este ano não vou fazer balanços porque não quero. Pura e simplesmente não me apetece pensar que estou a um passo de entrar em 2019. E não me apetece pensar, sequer, que vem aí mais uma passagem de ano e mais uma noite de Réveillon.

E isso é mais uma coisa que a inexorável passagem do tempo me tem trazido. Lembro que na minha juventude adorava a noite de passagem de ano. Adorava a festa, os bailes, a explosão de alegria à meia-noite, a genuína certeza que o ano que estava a chegar traria tudo aquilo que os anos anteriores não nos tinham, egoisticamente, oferecido. Contudo, com o passar dos anos, tem-se criado em mim um desinteresse e um descaso em relação a tal data que eu própria estranho em mim. Assumo sem pejo que, neste momento, não gosto da noite de final de ano.

Diga-se, em abono da verdade, que gosto de um pormenor ou outro dessa noite. Gosto do facto de ter uma boa desculpa para poder envergar um vestido cheio de brilhos. Gosto da possibilidade de usar uma maquilhagem mais ousada! Gosto de passar uma parte do dia a cuidar de mim entre banhos demorados e cabeleireiros. No fundo gosto daquela parte mais fútil do dia/ noite em que decidimos que queremos estar no nosso melhor para receber de braços abertos o novo ano.

Toda esta preparação para abandonar o ano velho e receber o ano novo é feita numa pequena lufa-lufa para estar pronta à hora do jantar (que, correndo bem, se passará com amigos e/ ou família) que me agrada. E o jantar eu também aprecio. Ainda que não ligue muito à data, penso que seria triste estar nessa noite sozinha e em casa. Portanto, jantar com amigos, nessa noite, não deixa de ser simpático.

O problema chega à medida que a noite vai avançando. Quanto mais nos aproximamos da meia-noite, mais sinto o peso e a obrigação de “estar feliz”. E é aí que reside o busílis da questão! Eu raramente consigo sentir aquela alegria por ter assistido à passagem de mais um ano, não consigo sentir a euforia que é suposto sentir à meia-noite, não rejubilo quando assisto ao fogo-de-artifício.

Desengane-se quem pensa, neste momento, que fico a um canto sorumbática.            Festejo a chegada da meia-noite com as passas e o champanhe, abraço os que estão perto de mim, desejo, aos que estão ao meu lado e aos que estão longe um novo ano repleto de felicidade e de sucessos…mas a verdade é que faço isso tudo num esforço para me sentir e me apresentar feliz, quando no fundo, sinto que a alma está ali matizada em várias tonalidades mais escuras.

Penso que esta dificuldade em estar, de facto, feliz, se prende com este péssimo hábito que criei de fazer balanços apenas e só nesta época! Já houve anos em que escrevi os meus 12 desejos num papel e os voltei a ler um ano depois, para ver o que é que se tinha concretizado (Para perceber que muito poucos tinham sido os desejos realizados). Situações destas foram criando algum desalento, alguma sensação que o tempo corre mas nada de importante muda. E foram essas constatações que me levaram a olhar para essa noite de um modo menos animado e, sobretudo, de um modo menos esperançoso.

Posto isto, informo que tomei uma decisão: este ano não farei qualquer tipo de balanços. Não quero pensar sobre os desejos que tinha há um ano e sobre quais os que se concretizaram. Também tenho a certeza que não tomarei as famosas “resoluções de novo ano”. Não quero fazê-lo, uma vez que abandono as mesmas dois, três meses depois e nunca mais penso nelas até à fatídica noite do dia 31 de dezembro, noite em que concluo que, mais uma vez, abandonei as minhas boas resoluções!! Quero entrar em 2019 com o desejo de viver um dia de cada vez e de aceitar o que vier. Não criando expetativas, não terei desilusões. Não tomando resoluções, não irei constatar que as quebrei pouco tempo depois. Quero apenas pensar, à meia-noite, que tenho pela frente 365 dias que serão preenchidos com aquilo que a vida me quiser dar. Quero comer as minhas 12 passas a pensar “O que vier, que venha por bem”!

A passagem de ano 2018/ 2019 será assim. Espero estar por cá, no próximo ano, a contar-vos se estas decisões (afinal já tomei uma resolução de novo ano) surtiram efeito e se, deste modo, consegui reabilitar o meu gosto pela noite de fim de ano!

 

 

 

Feliz Natal

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Um pequeno apontamento para desejar um Feliz Natal a todos os que acompanham esta minha “Steff’s World – a soma dos dias”: aos que estão por cá desde o início, aos que, pelos comentários e pela sua assiduidade acabaram por se tornar amigos, aos que estão na página em estado intermitente, aos que chegaram há pouco… a todos, sem exceção, desejo um Natal feliz, de luz e de boas energias e que o novo ano seja preenchido com o brilho da felicidade!

Espero continuar a ver-vos por cá!

Que as luzes de Natal continuem a brilhar…

Dia de conto na “Steff’s World – a soma dos dias”! Provavelmente, o último conto destes 12 meses (o meu primeiro conto foi escrito em dezembro de 2017) e, com certeza, o último conto antes do Natal. Como tal, a temática tinha de recair sobre este tema: o Natal. Partindo dos versos de uma das minhas músicas preferidas de Natal – “Christmas lights” dos Coldplay, criei este conto que quis que fosse doce e carregado de esperança. Arranjem um tempinho para o ler e, se gostarem, partilharem! Enjoy!!!

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 Photo by Fred Heap on Unsplah

Christmas night, another fight

Tears we cried a flood

Got all kinds of poison in

Of poison in my blood (…)

Oh Christmas lights

Light up the street

Light up the fireworks in me

May all your troubles soon be gone

Those Christmas lights keep shining on

Christmas Lights – Coldplay

 

Graça saiu do escritório em que trabalhava às 16.30 em ponto. Sair às dezasseis e trinta! Quando fora a última vez que saíra tão cedo? Não se conseguia lembrar…eventualmente nem nunca acontecera tal coisa…É véspera de Natal e o patrão hoje decidiu que as portas fechariam mais cedo para todos. Tinha juntado todos os colegas do escritório, à hora de almoço e, depois de ter ofertado a todos uma caixinha de chocolates, tinha anunciado que, excecionalmente, as portas do escritório fechariam às 16.30 permitindo que todos fossem para casa mais cedo. Afinal, era véspera de Natal e todos mereciam ter tempo para organizar a ceia de Natal, tempo para se deslocar para junto das suas famílias e festejar condignamente o nascimento do Deus menino (tinham sido essas, exatamente, as suas palavras!) Graça acreditou nestas palavras apenas e só no minuto em que os seus pés transpuseram a soleira da porta. Em 10 anos de trabalho naquele escritório nunca tal tinha acontecido. O ano passado, ainda se lembra bem, tinha saído eram quase 21 horas! De acordo com o patrão tinha sido impossível fechar as portas antes, tantos eram os assuntos pendentes que tinham de ficar fechados, impreterivelmente, nesse dia. Lembra-se, perfeitamente, de ir no comboio de regresso a casa e ser a única naquela carruagem que se tornava sombria e assustadora… Chegara a casa quase às 23 horas para enfrentar a casa gelada e muda…a mãe já tinha jantado e já se tinha ido deitar…nada que não fosse esperado…havia anos que o Natal, a noite de consoada, era, para ambas, mais um dia normal, mais uma noite no calendário a passar em branco, sem acontecimentos dignos de recordar. Este ano o patrão estava diferente. Já tinha sentido que ele estava mais humano, mais tolerante e até mesmo mais compreensivo. Mas nunca esperara que dispensasse a todos tão cedo numa época tão próxima do fim do ano em que os negócios têm mesmo de ficar fechados! Seria tudo isso obra do neto que tinha nascido? Graça não tinha certezas mas desconfiava que aquele bebé tinha trazido ao de cima o que de melhor existia naquele ser humano! O certo é que hoje era véspera de Natal, eram 16.30 e as portas do escritório fechavam-se atrás das costas de Graça para só voltarem a abrir no dia 26 de dezembro!

Ao atravessar a porta do escritório, ainda a luz do dia brilhava. Que sensação estranha! Era a primeira vez em tantos anos que saía tão cedo do serviço! Aquela criança tinha mesmo mudado o patrão e a própria Graça sentia que a mudança também se fazia sentir dentro dela. Não festejava há muitos anos o Natal…aliás, os últimos festejos de Natal tinham decorrido ainda ela era criança, ainda ela tinha uma família, nos tempos que ela intitulava, na sua mente de “os tempos felizes”. Depois…depois o pai tinha saído de casa, tinha criado uma outra família e a tristeza e o silêncio tinham-se instalado naquela casa. Nunca mais a mãe fora a mesma pessoa, nunca mais se tinham festejado dias especiais, quer fosse aniversários, Natal, Ano novo, Páscoa… um manto sombrio tinha-se abatido sobre aquela casa e as habitantes da mesma. Graça tinha acabado de crescer junto a uma mãe afundada na tristeza e na autocomiseração, tendo-se tornado, com pouco mais de 12 anos, mãe da própria mãe, que com o passar do tempo passou a oscilar entre momentos de tristeza profunda e outros de euforia, numa verdadeira montanha russa de emoções, fruto de uma depressão nunca curada. Os anos foram passando e a vida tinha atingido uma quase normalidade para ambas as mulheres. Para o bem e para o mal, tinham continuado a viver juntas, na mesma casa de sempre. Ambas tinham tido relacionamentos mas, nem para uma, nem para a outra as coisas tinham resultado até ao momento. Como tal, continuavam a ser a família uma da outra, continuavam a partilhar o mesmo espaço com um gato e um periquito, vivendo uma vida sem grandes altos e baixos, uma vida morna que se caracterizaria por uma linha contínua.

Graça pensava nesta sua vida e nesta sua casa sem festejos e decidiu que este ano seria diferente! O patrão oferecera-lhe um bem sem valor: tempo!! Este ano tinha tempo para preparar uma ceia de Natal e ela ia acontecer! Ia passar pelo hipermercado mais perto, fazer algumas compras e este ano a mãe iria festejar o Natal! Estavam bem a tempo de recuperar a tradição de se sentarem à mesa, de partilhar conversas e emoções! Se assim pensou, melhor o fez! Quando duas horas mais tarde se encaminhava para casa, carregada com uma mochila cheia de compras e mais um saco em cada mão sentia-se cansada mas com uma emoção nova dentro dela. Considerava que tinha sido uma excelente resolução e que podia ser este um momento de viragem na vida dela e da mãe! “Basta de Natais cinzentos e sombrios” diria ela à mãe quando chegasse a casa! Hoje ia ser uma noite feliz!

Nada preparou Graça para o que viu quando abriu a porta de sua própria casa. A mãe, em lágrimas, tentava alcançar o pescoço de um homem que Graça nunca antes tinha visto, ao mesmo tempo que implorava para que ele não fosse embora. O homem, com um aspeto pouco recomendável, pensou ela, apenas abriu a boca para dizer:

“Acabou! Não quero estar aqui. Vou beber um copo com uns amigos e depois sigo para a minha casa.”

 Posto isto, desviou-se de forma pouco amena de Carla e sem um olhar para Graça, que continuava estática e muda na entrada da casa, saiu daquele apartamento não tendo, sequer, a preocupação de fechar a porta e muito menos de lançar um último olhar a Carla que se desfazia em lágrimas.

Carla atirou-se para o sofá chorando todas as lágrimas que tinha no seu corpo. Lamentava-se pela vida que tinha, da sua pouca sorte, de como a sua vida tinha acabado… Graça sabia de antemão que esta crise não iria passar nem nessa noite, nem nos dias seguintes. Já tinha assistido a tantos namoros da mãe que não tinham dado certo que sabia que não valia a pena tentar falar com a mãe e muito menos cozinhar porque a mãe iria recusar todo e qualquer alimento nos próximos dias. Avizinhavam-se dias negros e de depressão…logo hoje que ela tinha decidido celebrar a noite de Natal!… Graça sentiu o desalento descer por ela…continuava de pé, na entrada com os sacos que tinha nas mãos aos pés…e contrariamente ao que era expectável na Graça, que aceitava tudo com uma calma aparente, uma fúria avassaladora subiu por ela, traduzindo-se em palavras iradas e amargas que lançou à mãe. A discussão foi feia, a filha acusando a mãe de tornar a vida de todos impossível, de ser toda uma energia negativa, que sugava a alegria de todos. A mãe pouco reagiu. Apenas chorava e dizia que ninguém a entendia, que preferia morrer. Graça não aguentou mais. Estava tão cansada de ouvir esta conversa à mãe, estava tão cansada daquele estado depressivo que chegava sempre que um relacionamento, por curto que fosse, chegava ao fim… Pensou que precisava de sair daquela casa, de apanhar ar… Virou costas à mãe e saiu porta fora sem pensar em mais nada.

Uma vez na rua caminhou e caminhou e caminhou…aos poucos as lágrimas que corriam quatro a quatro pelas suas faces foram ficando mais espaçadas. O caminhar à medida que se ia instalando, cada vez mais, o frio da noite, estava a ajudá-la a recuperar o seu bem-estar e alguma calma. Quando deu por si não fazia ideia de onde estava. Olhou à sua volta. Estava numa pequena praceta, onde existia um jardim. Optou por se sentar, observando aquela pequena praceta que lhe pareceu magnífica. As luzes natalícias, espalhadas pelas árvores, davam um ar de conto de fadas ao local. Existiam, espalhados pelo relvado, bonecos de neve, um Pai Natal, acompanhado do seu trenó e de duas renas. Todos eles observavam, com um ar simpático, aquela mulher que se encontrava ali sentada olhando para o além… e tão perdida estava nos seus pensamentos que nem reparou no jovem que se aproximou e que se sentou ao lado dela. Apenas se deu conta quando ele lhe disse: “Olá, sou o José.”

Graça olhou para o estranho que lhe sorria com uns doces olhos castanhos. Não o conhecia de lado nenhum mas sentia que era alguém de confiável. “Olá José, sou a Graça”. É claro que a questão que se seguiu foi “o que fazia Graça naquele jardim, sozinha e com um ar tão triste, numa noite de Natal?”. E, sem pensar no estranho que era falar da sua vida para alguém que tinha conhecido há 5 minutos, acabou por resumir os acontecimentos em poucas palavras: “Noite de Natal/  mais uma briga (com a minha mãe)/ lágrimas que (ambas) choramos, (ao ponto de criar) uma verdadeira inundação… E eu sinto que tenho todo o tipo de veneno no meu sangue, que não tenho nada de bom para dar à minha mãe neste momento. Para dizer a verdade, sinto que não tenho nada de bom para dar nem à minha mãe nem a ninguém…Por isso, preferi sair de casa…estar sozinha…comigo e com os meus pensamentos.

José não comentou nada do que Graça lhe disse. Apenas ficou ouvindo atentamente, todo aquele desabafo que Graça precisava de ter. Percebia-lhe o desalento, percebia-lhe a tristeza e, acima de tudo, sabia que desabafar, nem que fosse com um estranho lhe iria fazer bem. Por isso a deixou falar e falar. Quando finalmente Graça se cansou, José disse-lhe: “Não posso fazer mais nada por ti que não seja fazer o que fiz: ouvir-te”. Dito isto, olhou em frente, parecendo observar um ponto que ela não sabia qual era e disse : “Sou fã de luzes de Natal. Elas criam um ambiente lindo e mágico, semeando em nós a ideia de que o mundo pode ser um lugar mais bonito e mais aprazível. Para mim, elas representam a magia do Natal. Por isso acredito que, na noite de Natal, tudo pode melhorar. Dito isto, olhou para a árvore que se encontrava à sua direita, iluminada e dirigindo-se à árvore disse:

–  “Ó luzes de Nata/ Iluminem as ruas/ Acendam os fogos-de-artifício em mim/ (Peço) que todos os teus problemas terminem logo e que essas luzes de Natal continuem a brilhar”.

Dito isto, voltou a olhar para a Graça, sorriu para ela explicando que aquela forma meio infantil de falar para a árvore tinha sido uma forma de dizer que basta acreditar na magia do Natal, acreditar que as coisas podem melhorar e elas irão melhorar mesmo. Terminou dizendo “nem sempre a vida nos presenteia com aquilo que queríamos. Mas por vezes traz-nos coisas boas que nem sabíamos que queríamos. Por isso, vou convidar-te para uma ceia de Natal diferente. A vida não te trouxe a ceia de Natal que almejavas mas, quem sabe, não gostas desta ceia que te vou propor?”

Graça não pensou muito e aceitou o convite. Não era habitual nela ter atitudes e comportamentos irrefletidos mas ele tinha uns olhos doces, com uma luz quente que transmitiam confiança. Não lhe parecia que ele tivesse algum tipo de intenção mais obscura. Por outro lado, não podia ficar sentada o resto da noite naquele banco de jardim…e voltar para casa estava fora de cogitação neste momento.

José levou-a para um pavilhão que fervilhava de gente. A muitos, José cumprimentou pelo próprio nome. Os desconhecidos, provavelmente sem abrigo, tendo em conta a roupa que envergavam, não só pareciam conhecer bem José como pareciam genuinamente felizes por vê-lo. Rapidamente percebeu que aquela noite ia ser de algum trabalho. Os convidados eram mais que muitos e todos precisavam de ser servidos: ajudou a servir pratos, ajudou a cortar pão, ajudou a abrir e a servir garrafas de vinho e sumo. E todos, sem exceção, que eram por ela servidos lhe agradeciam com um sorriso mais ou menos efusivo, com um “obrigado” e um “Feliz Natal, menina”. Foram horas a trabalhar sem tempo para respirar. De quando em vez via José, ao longe, também ele atarefado. Dirigiam um pequeno sorriso, um ao outro, e continuavam nas suas tarefas.

Apenas se sentou umas três horas depois de chegar ao pavilhão para, finalmente, jantar. Já todos os convidados estavam servidos, uns já tinham terminado e circulavam por ali, outros ainda se mantinham a terminar a refeição. Comeu, tal como os convidados, umas couves com bacalhau. Acompanhou tudo com um copo de vinho. E saboreou cada garfada, ao som das risadas, dos que com ela partilhavam a ceia, das muitas conversas que ouvia de pessoas que nunca tinha visto até aquele dia. E durante aquela noite, aquelas horas, Graça não pensou mais nos seus próprios problemas. Não pensou mais na sua mãe que, provavelmente, continuaria a chorar em casa por mais uma ilusão perdida. Pensou na vida complicada dos muitos que a rodeavam e que, provavelmente, tinham vidas bem mais difíceis que a sua. José chegou, sentou-se ao lado dela e disse-lhe: “50 cêntimos pelos teus pensamentos!”, pontuando esta frase com um sorriso. Graça olhou para ele, sorriu e respondeu:

-“Estava aqui a pensar que as luzes de Natal fizeram a sua magia. Elas trouxeram-me sorrisos, alegria e partilha. Trouxeram-me uma família de empréstimo num dia e numa hora que sentia que estava sozinha no mundo. Os meus problemas não acabaram, é um facto. Mas consegui esquecê-los por umas horas e consigo perspetiva-los de outra forma…de um modo menos egoísta”.

 José não respondeu. Limitou-se a olhar para Graça, para o seu rosto que parecia agora mais sereno e menos infeliz, com um sorriso. Olharam-se longamente. Depois de algum tempo, José quebrou o silêncio, dizendo “e se as luzes de Natal te trouxerem um abraço, tu aceita-lo?” Graça respondeu com um sorriso, tomando ela mesma a iniciativa de dar um abraço apertado a José. Graça sentiu que era o aconchego que lhe faltava para esta noite de Natal, que tinha começado tão mal, se tornar inesquecível. Aquele abraço e o beijo que se seguiu vinham carregados de promessas. E na mente de ambos foram relembradas as palavras de José umas horas antes “Ó luzes de Natal, iluminem as ruas/ acendam os fogos-de-artifício em mim/…e que essas luzes de Natal continuem a brilhar”.

Marie Curie

Hoje é dia da rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. A “ela” que vos trago hoje é sobejamente conhecida e não poderia deixar de ser abordada numa rubrica que quer falar de mulheres que foram e fizeram diferente. Espero que gostem de ficar a saber mais um pouco sobre a fantástica Marie Curie. Enjoy!

Escolher a “Ela que fez a diferença” de quem vos venho falar todos os meses é sempre uma tarefa complicada. Não porque existam poucas, muito pelo contrário, mas porque fica sempre difícil escolher uma mulher em detrimento da outra. A escolha deste mês recaiu sobre um dos primeiros nomes de que me lembrei quando criei esta rubrica para a Steff’s World – a Soma dos Dias mas que tem sido preterida, por uma razão ou por outra, por outros nomes.

A “Ela” de quem vos venho falar hoje foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne e a primeira mulher, numa época em que a ciência era dominada pelos homens, a ganhar o Prémio Nobel da Física! E foi a única pessoa até hoje a ganhar o Prémio Nobel duas vezes! Penso que a esta hora já todos saberão que hoje venho falar-vos de Marya Sklodowska, mais conhecida de todos por, Marie Curie.

Marie Curie nasceu na Polónia (numa época em que a Polónia ainda fazia parte do Império Russo) mais especificamente em Varsóvia, no dia 7 de novembro de 1867.

O interesse pela física chega pela mão do seu pai, que era professor de Física e Matemática. A sua mãe, que viria a falecer, vítima de tuberculose, quando Marya tinha apenas 10 anos, era uma pianista. Marya sofreria ainda uma outra perda na infância: a sua irmã mais velha virá a morrer vítima de tifo.

Marya não teve uma infância e adolescência fáceis: a família tinha perdido as suas propriedades e fortunas devido ao facto de se ter envolvido em ações patrióticas que visavam a restauração da independência da Polónia. Tal facto condenou Marya e a restante família a uma vida difícil. Iniciou a sua vida escolar em pequenas escolas da região de Varsóvia, obtendo um nível básico de formação científica com o seu pai. Graduou-se a nível secundário mas foi impedida de prosseguir com a sua educação a nível superior devido ao facto de ela ser mulher. É dessa época o envolvimento dela e da sua irmã Bronislawa com a Universidade Volante (uma instituição de ensino clandestina, pró Polónia, que desafiava as autoridades russas). Esta instituição tinha a particularidade de aceitar mulheres.

Tendo em conta as dificuldades monetárias, e a vontade de ambas estudarem, Marya combinou com a sua irmã apoiá-la financeiramente no prosseguimento de estudos, em medicina, na cidade de Paris para, posteriormente, receber o mesmo em troca. Por isso tornou-se governanta durante algum tempo. Ainda assim, Marya não tinha parado de estudar. Continuou os seus estudos de um modo independente lendo livros, trocando cartas e estudando por conta própria. Foi governanta até 1891. Aí começou a praticar num laboratório de química no Museu da Indústria e Agricultura; laboratório esse que era dirigido por um seu primo.

No final de 1891, e depois da irmã se formar, mudou-se para Paris tendo ido morar com a irmã e o cunhado. Prosseguiu, na Sorbonne, os estudos de física, matemática e química. Nesta época, Marie (nome pelo qual era conhecida em França) estudava de dia e ensinava à noite. Ainda assim, mal recebia o suficiente para se conseguir manter.

Concluiu a graduação em Física no ano de 1893, tendo começado a trabalhar num laboratório industrial. Continuou, paralelamente, os estudos, com o apoio de uma bolsa de estudo, tendo conseguido uma segunda graduação, em 1894, em Matemática.

Em 1895 conheceu Pierre Curie que trabalhava em pesquisas elétricas e magnéticas. Um ano depois estavam casados.

Três anos mais tarde, em 1898, Marie Curie (tendo já adotado o nome do marido) comunica a descoberta de um novo elemento a que deu o nome de “polónio”, em homenagem ao seu próprio país. Nas suas pesquisas o casal também foi o responsável por isolarem outro elemento radioativo, o “rádio” (termo criado por Marie). Em reconhecimento das suas grandes descobertas no campo, ainda recente, da radioatividade, o casal ganhou o Prémio Nobel da Física em 1903 (foi a primeira mulher a receber essa honra).

Em 1900 Marie Curie foi convidada para lecionar física na École Normal Supérieure, em Sévres. Em 1906, Pierre morre vítima de um atropelamento. Marie tinha sido indicada para substituir o próprio marido, na Sorbonne pouco tempo antes. Tornou-se na primeira mulher a ocupar a cadeira de professor na Sorbonne.

Após a morte do marido, Marie continuou a estudar a radioatividade, principalmente nas suas aplicações terapêuticas. Pela continuação dos estudos (sobre as propriedades do rádio e as características dos seus compostos), viria a ser contemplada, mais uma vez, com um Prémio Nobel, em 1911, desta feita da Química. Tornou-se, assim, a primeira personalidade a receber duas vezes o Prémio Nobel.

Teve ainda tempo, na sua vida, para fundar o Instituto do Rádio, em Paris, onde se formaram cientistas de grande importância e de se tornar membro da Academia de Medicina, em 1922.

Marie Curie viria a falecer em Sancellemoz, na Suíça, a 4 de julho de 1934, devido a uma leucemia causada pela constante exposição aos elementos radioativos.

Em 1995 os seus restos mortais foram transladados para o Panteão de Paris, tornando-se mais uma vez pioneira, pois foi a primeira mulher a ser sepultada nesse local.

A mulher de quem vos falei hoje foi e fez a diferença a vários níveis, como pudemos observar. Lutou com quanta força tinha para poder estudar, procurando superar as adversidades monetárias e as limitações que eram impostas às mulheres nas questões de educação. Revolucionou a perspetiva que se tinha sobre a mulher ao ser a primeira a ganhar um Prémio Nobel, numa época em que a ciência era dominada pelos homens. Foi a primeira pessoa a ganhar duas vezes um Prémio Nobel. Foi a primeira mulher a lecionar na Sorbonne. E, mesmo depois de morta, continuou a fazer a diferença tendo-se tornado a primeira mulher a repousar os seus restos mortais no Panteão de Paris. Marie Curie é, por excelência, a “Ela, que fez a diferença”!