Victor Hugo e Juliette – um amor explosivo e intemporal

No mês de Natal, mês em que se celebram bons sentimentos tais como o carinho, a amizade, a ternura, o amor, faz todo o sentido trazer-vos a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais” – amores intemporais”, rubrica essa onde são celebrados casais que vivenciaram um amor forte e intemporal.

Para hoje decidi trazer-vos um amor nascido e alimentado na cidade do amor por excelência – Paris. Convido-vos a fazer uma viagem ao passado até 1833 para ficarmos a conhecer um pouco mais sobre o amor que uniu o grande escritor francês Victor Hugo e a atriz Juliette Drouet.

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Juliette Drouet e Victor Hugo

Victor Hugo nasceu Victor Marie Hugo de seu nome a 26 de fevereiro de 1802 em Besançon e foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e artista. Para além disso foi um homem com grande atuação a nível político e um ativista pelos direitos humanos. Desde cedo foi considerado um menino precoce e ainda muito jovem tornou-se escritor, tendo sido premiado pela Academia francesa por um dos seus poemas com apenas 15 anos. A ele devemos obras maiores como Les Misérables e Notre-Dame de Paris, entre muitos outros romances.

A nível pessoal casou, com vinte anos, com a sua amiga de infância: Adèle Foucher. O casamento rapidamente deu frutos, tendo sido pai de 5 filhos. Ainda assim, em 1830, Adèle dirá que não quer mais filhos dando ao marido “liberdade” para passear por Paris desde que ele a não aborrecesse. Victor Hugo não se fará rogado tendo então partilhado prazeres e cama com mulheres várias de aristocratas a costureiras, passando por múltiplas atrizes.

Estávamos em 1833 quando estrearam duas peças de teatro de Victor Hugo – Lucrécia Bórgia e Marie Tudor. Uma jovem atriz, de seu nome Juliette Drouet, atuava em ambas. Este era um momento difícil para o escritor uma vez que tinha descoberto que a sua mulher o tinha traído com outro homem. O escritor sentia-se, naturalmente, frágil. É nessa época que Victor Hugo conhece Juliette. Rapidamente se aproximou dela e quinze dias após a estreia da peça Lucrécia Bórgia, em 16 de fevereiro de 1833, Juliette tornava-se amante de Victor Hugo, ambos consumidos por uma paixão que iria durar muitos anos.

Juliette não era uma atriz a quem fosse reconhecido um grande talento. Mas era, sem sombra de dúvida, dotada de uma enorme beleza. Já tinha participado em várias peças de teatro, tendo seduzido um grande número de homens com a sua formosura. Sabia-se que colecionava amantes na aristocracia europeia e que estes lhe providenciavam uma vida confortável a nível financeiro, assim como uma certa alegria de viver.

Como referi, o escritor e a atriz conheceram-se em 1833, aquando da representação da “Princesa Negroni” na peça Lucrécia Bórgia. Victor Hugo continuava casado, era pai de cinco filhos e tinha 31 anos. Contudo, apaixonou-se loucamente pelo charme e pela doçura de Juliette. O amor bateu à porta, à primeira vista, para ambos. Muito pouco tempo depois de se tornar amante de Victor Hugo, o escritor instalou a sua amada numa casa isolada no Les Metz, à época um lugarejo próximo da casa da sua própria família. Juliette renunciou, então, aos seus anteriores pretendentes ao mesmo tempo que renunciou à sua carreira como atriz – Victor Hugo era muito exigente e possessivo com ela e, como tal, rapidamente a convenceu a dar por terminada a sua carreira para assim ter todo o tempo do mundo para investir na relação e no amor deles. Juliette acabou por fechar-se em casa, desligar dos amigos e das festas que frequentava, saindo apenas quando dava o braço ao seu amante.

Ainda que Victor Hugo se tenha mantido casado, a relação entre ele e Juliette era plenamente vivida e assumida. Quando a filha de Juliette morre, inesperadamente, será V. Hugo que acompanhará o cortejo fúnebre, junto do pai da criança, uma vez que Juliette se encontra demasiado destruída com o acontecimento para conseguir assistir ao enterro da própria filha. Apesar do amor que os unia, as discussões entre o casal eram mais que muitas, sobretudo por problemas financeiros de Juliette, que apresentava muitas dívidas para com credores, e porque Victor Hugo continuava a colecionar amantes para além de Juliette. Ainda assim, a verdade é que eles se mantinham ao lado um do outro, eram o apoio com que o outro podia contar nos piores acontecimentos das suas vidas. Como vimos, V. Hugo marcou presença e apoiou Juliette aquando da morte da sua filha e Juliette retribuiu essa atenção quando uma das filhas de Victor Hugo, Léopoldine, também veio a falecer. Juliette acompanhá-lo-á no exílio na Bélgica, primeiro em Jersey e, mais tarde, em Guernesey, exílio esse a que Victor Hugo foi obrigado após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851 contra Napoleão Bonaparte. A situação, contudo, não será diferente da de Paris: V. Hugo será acompanhado pela amante (Juliette) e pela mulher (Adèle). Este será o período mais calmo da relação deles, com Juliette a tornar-se a pessoa que o ouve, o acalma, o aconselha, enquanto passeiam pelos campos, a pessoa que o acompanha na sua escrita. Ela é a sua colaboradora mas também a sua inspiração.

Juliette ser-lhe-á fiel durante cinquenta anos, vivendo a vida por ele e para ele, copiando todos os seus manuscritos enquanto desculpava uma vez e outra os erros dele. Adèle, a esposa legítima, virá a falecer no ano de 1868. A partir dessa data, Juliette passará a maior parte do seu tempo com o seu amante de toda uma vida.

Durante esses mais de cinquenta anos o amor deles foi alimentado por uma intensa troca de cartas e de pequenas mensagens escritas (estima-se que tenham trocado entre si mais de 20 000 cartas). Em dada época marcavam ponto de encontro num bosque junto a uma árvore velha e oca onde deixavam as cartas, mensagens e poemas escritos para o outro. É nessas cartas e poemas que se vê, claramente refletido, o sentimento que um nutria pelo outro.

Juliette viria a falecer em maio de 1883. Ele morreria dois anos mais tarde, em maio de 1885. Este foi um grande amor, uma enorme paixão que durou mais de cinquenta anos. Os dois amantes mostraram-se inseparáveis, apesar da relação se ter mantido, até ao fim, explosiva. No túmulo de Juliette estão gravados uns versos de V. Hugo, numa homenagem a estes cinquenta anos.

Quand je ne serai plus qu’une cendre glacée,
Quand mes yeux fatigués seront fermés au jour,
Dis-toi, si dans ton coeur ma mémoire est fixée :
Le monde a sa pensée, moi, j’avais son amour ! »
*

— Épitaphe de Juliette Drouet (Victor Hugo).

  • “Quando eu não for mais que uma brasa gelada

Quando os meus olhos cansados estarão fechados para o dia,

Diz a ti própria, se no teu coração a minha memória está gravada:

O mundo tem os seus pensamentos, eu, tinha o amor dela”

– Epitáfio de Juliette Drouet (Victor Hugo)

Prazeres de inverno: a lareira

Esta crónica é para ser lida junto a uma lareira com um fogo bem forte, uma vez que o frio, finalmente, chegou!

Mais um texto publicado no Semanário Registo. Para ler aqui, ou no jornal em questão. Enjoy!

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Existem prazeres que considero estarem intimamente relacionados à província. O prazer de estar sentado a uma lareira é um deles.

Nasci em França. Vivi os primeiros anos da minha infância numa zona do país bastante fria, que não raras vezes nos brindava com neve. O frio, na rua, era cortante. É uma das recordações que tenho. Mas, em casa, o ambiente era para lá de quente. Aquecimento central em todas as divisões, temperaturas a fazer lembrar mais facilmente o verão que o inverno que se passeava lá fora. Contudo, não possuía lareira. Apenas uns radiadores de parede, alimentados, na época, a gasóleo, que traziam uma sensação de enorme calor mas que não ofereciam aquela sensação de aconchego que uma lareira nos pode trazer.

“Conheci” as lareiras e as suas qualidades, mais tarde, quando passei a viver em Portugal. Não só a nossa casa tinha lareiras como as casas dos meus avós também as tinham. É claro que já as tinha visto antes. Mas apenas as via no verão, sem lume, um local arrumado a um canto ocupado por umas quantas panelas de ferro fora de uso naquela época. Lembro a estranheza que se apoderou de mim a primeira vez que senti frio em Portugal. Eu conhecia o Portugal das férias, o do mês de agosto, aquele em que está sempre sol, não chove e não faz frio. A ideia de frio, da necessidade de acender uma lareira, não se coadunava com essa imagem que tinha criado ao longo dos meus primeiros anos de vida. Assumo que os primeiros anos em Portugal foram de invernos difíceis. Claramente a temperatura dentro das casas não era aquela a que estava habituada em França. Nem a nossa casa, nem as casas dos meus avós estavam apetrechadas com aquecimento central. Penso que não era ainda muito usual, no país de início dos anos 80, o aquecimento central. Possuíamos uns radiadores nos quartos e o centro da casa, o local onde todos nos reuníamos, era a lareira – estivesse ela na cozinha, ou na sala de estar, o certo é que era lá que nos reuníamos para aquecer o corpo e, descobri mais tarde, aquecer a alma.

Descobri o prazer de estar sentada a uma lareira, a observar serenamente o tempo passar, com as minhas avós. No inverno, muito do dia era passado à lareira. O lume (como se diz por cá) era aceso logo de manhã. As minhas avós ainda cultivavam o cozinhar em panelas de ferro, lentamente, usando o lume. Por isso ele era presença constante, da manhã à noite. Mas era as tardes que me agradavam. Chegar da escola e tomar o lanche à lareira era um prazer que descobri nessa época. O chá (imprescindível na hora do lanche) sabia melhor quando sentada, nas pequenas cadeiras de palha, feitas de propósito naquele pequeno tamanho para nos podermos aproximar do lume e nos aquecermos convenientemente. A acompanhar o chá vinham as torradas de lume (que ainda hoje considero daquelas coisas simples mas que são maravilhosas!) Lanche terminado, ali ficávamos a ver o dia findar, a luz dar lugar à noite e à lua, enquanto contávamos o nosso dia, as peripécias que poderiam ter acontecido ou se desfiavam memórias (as minhas avós) de tempos da juventude. E, por vezes, apenas ficávamos em silêncio, a observar as chamas, a ouvir o crepitar da lenha a arder. E foi nesses silêncios que percebi que a lareira e o lume fazem companhia. Não te sentes só quando tens o lume a arder. Ele é uma companhia quer estejas acompanhada ou sozinha. Quem nunca leu um livro junto à lareira? Quem nunca se deixou embalar pelo calor que dela emana e dormitou, apreciando o seu calor? Quem nunca bebericou um vinho ou uma jeropiga (tão nossa!) observando o dançar das chamas? Quem nunca viu um filme de “sábado à tarde” (Aqueles filmes que pouco te interessam mas que vês, em estado semivegetativo) apenas porque se sentia quentinho à lareira, apesar do frio imenso lá fora? E ainda, quem nunca ao observar um bom lume numa lareira, deu por si, de algum modo, a meditar, a limpar a mente, a pensar sobre a vida e, sobretudo, a procurar alguma serenidade?

Por outro lado, a lareira e o lume são os grandes companheiros para quando estás em companhia. Haverá algo melhor que os petiscos com amigos à volta de uma lareira? As conversas fiadas, as horas perdidas, enquanto se assa e saboreia uma morcela ou uma chouriça, são um programa ótimo para as tardes e noites de inverno. E se a companhia for a nossa cara-metade? Também aí a lareira será um poderoso aliado, desta feita, na criação de um ambiente propício ao romantismo (todos nós teremos a cabeça povoada de imagens de chalés na montanha e uma lareira, penso eu!)

Sou capaz de ficar horas sentada à lareira: a pensar na vida, observando a dança das chamas a aumentar ou a diminuir, a mudar as suas tonalidades, a apreciar o seu calor e a sua companhia, a petiscar (quem nunca comeu laranjas ou gelados à lareira perdeu um pouco de céu!), a deixar-me envolver pelo seu calor bom, aconchegante. E isto porque gosto de um bom lume, de um lume que me aqueça o corpo e a alma. O lume faz-me sentir, nem sei bem porquê, em companhia e em segurança. Faz-me sentir bem. Penso que não serei a única…

Visita ao passado

Mês de novembro quase terminado e ainda não tínhamos tido o conto do mês aqui na Steff’s World – a Soma dos Dias! Contudo, hoje é dia!!!

O conto deste mês foi inspirado nos versos de uma música bem antiga: “Naquela mesa” de Nelson Gonçalves. Proponho que coloquem o mundo uns minutos em suspenso e que leiam este “Visita ao passado” que vos proponho!

Enjoy! E, já sabem, podem sempre propor a letra de uma canção!

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Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
(…)

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
(…)
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa ‘tá faltando ele
E a saudade dele ‘tá doendo em mim

Nelson GonçalvesNaquela Mesa

Rui cruzou os limites daquela aldeia perdida na Beira que há anos não visitava. Não conseguiu deixar de sentir alguma comoção. Até àquele momento não tinha percebido a saudades que sentia daquele lugar. Baixou o vidro do carro e deixou-se envolver por aquele cheiro a estevas que sempre associara àquele cantinho. Aquele cheiro era sinónimo de infância, era sinónimo de tempos que tinham ficado lá atrás, num passado que se tinha abandonado há muito, num passado recheado de boas memórias mas, também, de tristezas. Rui parou o carro e por alguns instantes deixou-se estar no veículo, de olhos fechados, deixando-se imergir naquela onda de cheiros, memórias e saudades que lhe tinham chegado sem pré-aviso. “Há quanto tempo não vinha eu aqui?” – questionou-se ele. Somou mentalmente os anos, num rápido. 30 anos. Era isso. Há trinta anos que não vinha a esta aldeia e, contudo, o cheiro continuava igual e a paisagem, do que tinha visto até ao momento, também pouco tinha mudado.

A verdade é que nada o ligava à aldeia há muito tempo. Aquela era a aldeia dos seus avós maternos. Com o desaparecimento de ambos tinham terminado as razões para visitar a aldeia onde tantos verões passara…e desde então, desde a morte dos dois, tinham passado 30 anos… Parecia tão longe em tantos aspetos e, no entanto, em tantos outros aspetos parecia que tinha sido ontem, tão vívidas eram as recordações!

Decidiu estacionar o carro por ali mesmo e fazer o resto do caminho a pé para poder visitar com toda a calma o local, as ruas e as vielas, assim como as suas memórias. Conforme ia avançando ia sentindo uma mistura de sentimentos: nostalgia por lembrar de tempos que já tinham passado há muito, saudades esquecidas há tempos. Pela sua mente passavam imagens com momentos de gargalhadas e alegrias, tristezas e até de lágrimas. Tinha vivido muita coisa ali, era um facto!…

Começou a descer a rua em direção à casa dos avós. Desde o seu falecimento que a porta estava fechada. Na época tinham-se retirado alguns objetos, alguns móveis que alguém teria considerado úteis para a sua própria casa e tudo o resto ficara. No fundo era como se se tivesse fechado a porta trinta anos antes e não se tivesse voltado a pensar na casa até há algumas semanas atrás em que o tinham contactado sobre a sua vontade de vender a casa. Rui sabia que, neste momento a casa dos avós lhe pertencia mas nunca lhe tinha passado pela cabeça vendê-la. Para ser sincero, não pensava, sequer, que alguém quisesse ocupar aquele velho casebre, abandonado há tantos anos, naquela aldeia que esperava, calmamente, que a morte dos seus últimos habitantes chegasse para assim poder desaparecer.

Mas a verdade é que, contra qualquer expetativa, a aldeia estava a receber novos habitantes, forasteiros, gente que vinha de outros países como a Holanda, a Alemanha e a Inglaterra. Aquilo que tinha afastado os habitantes da aldeia (difíceis acessos, o estar, praticamente, isolada do resto do mundo, um local onde a evolução não tinha chegado) era aquilo que encantava estes estrangeiros, que apesar da capacidade económica que obviamente tinham (provada pela vontade que tinham de comprar casas naquele lugarejo e nas autocaravanas que conduziam), apresentavam um aspeto andrajoso com as suas roupas puídas, quais hippies que tivessem adormecido nos idos anos 60 e apenas tivessem voltado agora à vida. A aldeia contava já com algumas destas famílias que pretendiam viver a sua velhice e reforma num ambiente totalmente diferente daquele que tinham conhecido todas as suas vidas e eram elas que emprestavam à aldeia todo um novo colorido e um novo burburinho e, diga-se, uma nova vida.

E agora tinha chegado a vez da casa dos avós de Rui. Um telefonema, num fim de dia cansativo, uma breve conversa e uma quase promessa de compra e venda. Rui nem tinha pensado duas vezes quando lhe propuseram comprar a casa: “seria menos uma preocupação e menos um IMI para pagar!” – pensou friamente.

Era esse negócio que o trazia hoje à aldeia. As suas razões para voltar eram puramente económicas. Não esperava ser assaltado por essa onda de saudade. Chegava-lhe, por cada local ou coisa onde pousava o olhar, uma memória de um momento, o eco de uma risada, de uma conversa com o seu avô ou com algum dos aldeões, amigos do avô. Que riqueza de vida que ele tinha na época! Uma pena que não tivesse entendido isso então.

Para ganhar tempo e, sobretudo, ganhar coragem, parou primeiro no Café Central. Quantas e quantas vezes não tinha ido àquele café com o avô? Enquanto transpunha as portas do café pareceu-lhe ouvir a voz do avô: “Pede o que quiseres, Rui. Tudo o que quiseres! Só não peças uma garrafa de água! Por água não pago. Vais ali ao chafariz que me ficas mais barato!”. Rui esboçou um sorriso ao lembrar destas palavras. Lá dentro a penumbra de sempre. O tempo também tinha parado por ali. Atrás do balcão não se encontrava ninguém. Olhou para as prateleiras atrás e pensou que ainda seriam as mesmas, 30 anos depois. O café tinha exatamente o mesmo aspeto que tinha 30 anos antes. Talvez as cores das mesas fossem menos vivas, talvez se notasse uma ligeira camada de pó nas garrafas expostas…ali ao canto a televisão era nova…tinha um ecrã plano. Mas essa era a única marca que nos informava que o tempo não tinha parado em 1989 naquele café.

“Ó da casa! Há alguém?!” – perguntou Rui, elevando a voz. Veio um homem de uma sala contígua, com um farto bigode, limpando as mãos a um pano de cozinha.

Desculpe. Estava ali a preparar uns pipis para mais logo à tarde. Vêm sempre algumas pessoas para lanchar e os meus pipis são dos petiscos mais pedidos! Então diga-me: um café? E acrescentou: “O que o traz para estas bandas? Não estamos habituados a forasteiros portugueses!” Pontuou esta frase com uma pequena gargalhada, achando graça à sua própria piada.

Rui assentiu. “Sim, quero um café”. Quando o senhor Zé lhe trouxe o café (era este o nome do dono do café que reconheceu daqueles tempos) olhou para ele e disse: “É normal que não me esteja a reconhecer. Afinal, não venho cá há uns bons 30 anos. Mas posso garantir-lhe que me conheceu em criança! Sou o Rui Antunes, o neto do Manel Antunes, sabe, o Antunes que vivia junto ao Forno Municipal?”

Os olhos do Zé do café abriram-se num olhar de admiração. “O senhor está a dizer-me que é…o menino Rui, o neto do meu grande amigo Manel?! Só pode estar a brincar comigo!

“É isso mesmo que estou a dizer, senhor Zé! Sou eu mesmo!”. Os olhos de José ficaram, automaticamente, marejados de lágrimas. “Que surpresa! Se eu esperava uma surpresa destas! Nunca mais te tinha visto, Rui! Caramba, a última vez que te vi devias ter uns…10/ 12 anos! Estás feito um homem! Desde aquela desgraça…”

Ao ouvir aquelas palavras os olhos de Rui enevoaram-se automaticamente. Essa era uma das razões pela qual nunca mais tinha voltado àquela aldeia. Não queria ser recordado a todo o momento que um acidente de automóvel tinha ceifado a vida aos seus avós, não queria ser relembrado que nuns minutos de tragédia os seus verões de felicidade campestre tinham tido um ponto final.

Nesse entretanto surgiu, à porta, uma mulher de quem Rui não se lembrava. “Ó pai, vais embora com os tachos no fogão? Estava tudo já a queimar!”. Rui focou o olhar naquela cara mas não conseguiu perceber se a conhecia ou não. Como que lendo os pensamentos de Rui, José disse-lhe: “É a Catarina, a minha filha mais nova. Não te deves lembrar dela. Tinha uns quatro anos quando deixaste de aparecer aqui na aldeia. Catarina, este é o Rui. O neto de um grande amigo meu! Imagina que fomos à tropa juntos! Não aparecia aqui há um bom par de anos! Hoje veio cá! Agora que penso, ó Rui, o que te traz cá?!”

Rui explicou ao que vinha. Sentiu que o rosto de José se fechava um pouco. Acabou por entrar em explicações que sentia que não devia mas que queria dar. “Sabe, senhor Zé, nada me prende a esta aldeia a não ser algumas recordações que chegam a ser dolorosas. Por isso não venho cá há uns 30 anos. Prefiro pensar que a casa está cuidada e tratada – mesmo que seja por estrangeiros – do que deixá-la cair sem qualquer tipo de manutenção. Mas a verdade é que até tenho medo de a visitar. A minha mãe não quer saber da casa, nem da aldeia. Desde que voltou a casar e se mudou para o Canadá praticamente esqueceu que é portuguesa. Nada a faz vir cá. Resta-me a mim tomar as decisões…

Catarina tentou aligeirar a conversa que, de um momento para o outro, tinha tomado um rumo pesado e dorido.

“Sabes, Rui, não me lembraria de ti se te visse em qualquer lado. Mas é estranho que o teu olhar me faz lembrar de algo. Alguma reminiscência da infância? Por acaso sabes se brincávamos juntos?”

Rui explicou que brincavam, sim. Sempre que ele ia ao café acabava por brincar com aquela pequenita, no largo junto ao café. “Passava o dia contigo às cavalitas! Levava-te para todo o lado em passo de trote” – brincou ele. Sorriram um para o outro e, por momentos, sentiram que eram as mesmas duas crianças que brincavam 30 anos antes.

– “Posso acompanhar-te, Rui, se quiseres. Como dizes que tens receio do que podes encontrar…talvez seja mais fácil ires acompanhado.”

Rui aceitou na hora a proposta. Gostava, instintivamente de Catarina e seria bem melhor enfrentar tudo aquilo com uma companhia, ainda que ela fosse apenas uma estranha para ele.

Caminharam então até a casa dos avós de Rui. Ele sentiu um pequeno estremecimento quando colocou a chave na porta da casa. “O que iria ele encontrar?”; “Estaria a casa com alguma parede caída? Teriam as silvas tomado conta do quintal e, simultaneamente, da casa? Bastava um vidro partido para elas se imiscuírem desavergonhadamente pela casa adentro!” Era fácil não pensar na infância, não pensar nos avós e não pensar na aldeia quando se estava longe disso tudo mas este regresso trazia-lhe à memória esses tempos com uma nitidez de duros contornos. Catarina sentiu o seu nervosismo e, num gesto instintivo, deu-lhe a mão, apertando-a, tentando transmitir-lhe força e confiança.

Rui abriu finalmente a porta… O pensamento que o fulminou na hora foi: “Raios, será que o tempo não passou por aqui?”

À sua frente estava o pequeno corredor que desembocava na cozinha. Ainda ali estava o pequeno fogão onde a avó cozinhava. A lareira continuava negra como sempre a tinha conhecido e quase que podia ver a sua avó sentada, num banquinho de madeira, a fritar as filhoses ao lume. Teve de fugir da cozinha tal a dor que ainda o trespassava. Seguiu então para a sala. Faltavam algumas mobílias mas restava a mesa de jantar, algumas cadeiras e um armário. Contudo, aquilo que mais o emocionou foi ver, a um canto, a pequena mesa onde o avô se sentava para ler o jornal, para tocar o bandolim ou para sentar o neto ao colo enquanto lhe contava uma história. Catarina sentiu a emoção de Rui ao olhar para a mesa. Como que adivinhando, Catarina disse-lhe: “Esta mesa parece especial. Não queres ficar com ela antes de a venderes?”

Rui explicou, falando, num tom monocórdico onde procurava esconder a emoção, falando mais para ele próprio do que para Catarina:

Naquela mesa ele sentava sempre/ E me dizia sempre o que é viver melhor./Naquela mesa ele contava histórias/ Que hoje na memória eu guardo (…). Sabes, Catarina, não quero esta mesa. Pela simples razão que “Naquela mesa tá faltando ele/ E a saudade dele tá doendo em mim”.

“Nunca pensei que doesse tanto voltar a ver esta casa, estes objetos. Eu não sabia que doía tanto/… Uma mesa num canto, uma casa e um jardim (…). Tudo acabou. Não resta nada deles há muito tempo. Agora resta uma mesa na sala/ E hoje ninguém mais fala do seu bandolim (…). Eles desapareceram e com eles acabou a minha infância e a felicidade que sentia nesta pequena aldeia. Não quero a mesa, não quero a casa. As memórias são demasiado dolorosas. Vim cá para perceber o estado da casa, perceber quanto deveria pedir por ela para a vender…e ainda que tenha tido dúvidas quando aqui cheguei, a verdade é que esta visão e estas memórias me deram a certeza que não posso viver no passado e devo vender a casa.

Catarina manteve-se em silêncio. Compreendia as palavras de Rui, tão sofridas. Por outro lado, ela, que era tão apegada à aldeia e às memórias que cada pedra escondia, tinha alguma dificuldade em concordar com ele. Por isso considerou ser melhor não se pronunciar enquanto Rui continuava a visitar o resto da casa.

Saíram sem uma palavra. Rui fechou a porta e sentiu que fechava, de uma vez por todas, aquele capítulo. “É tempo de olhar para o futuro. Deixar de olhar para trás e olhar em frente. Espero que quem venha a comprar a casa seja tão feliz aqui como fui…”

Catarina nada disse. Seguiram lado a lado. De um modo quase tímido, Catarina deu-lhe a mão. Seguiram os dois, caminho fora. Quem sabe o futuro não estava a ser traçado naquela hora?

Ensinas-me?

Hoje proponho uma crónica que foi publicada no “Viva Covilhã” uma revista digital de cultura, turismo e lazer.

A inspiração para a crónica veio da frase que podem ler na foto que se segue. Espero que gostem! Partilhem ou leiam a crónica no Viva a Covilhã no endereço: https://vivacovilha.pt/ensinas-me/

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Existe um muro na minha cidade que vê escrito em letras garrafais a seguinte frase: “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te?” Não sei a quem a escreveu. A assinatura parece-me de um/ uma certo(a) JP sendo “o” (vou optar por achar que é um homem) JP o autor de mais algumas frases espalhadas pela Covilhã e arredores tais como “Liberdade? Quero a prisão dos teus braços” e “Faz as malas! Fugimos hoje!”. Claramente este JP será uma pessoa apaixonada levando-o, essa paixão, a expressar-se pelas ruas das cidades.

Gosto de todas essas frases (gosto de ler a “poesia” e os sentimentos espalhados pelas paredes por aí) mas assumo que a “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te” é a minha preferida. Gosto dela e identifico-me com ela. Considero que há sempre alguém na nossa vida que nos faz sentir assim, com vontade de beijar sempre que a vemos. Há pessoas que pertenceram, em determinado momento, ao nosso presente e que, apesar de não pertencerem mais, deixaram uma marca indelével na nossa alma e coração. São elas pessoas especiais que, ao terem passado pela nossa vida, criaram uma ligação que se tornou inquebrável, que resiste, incólume, à passagem do tempo. E isso acontece porque esse encontro entre duas pessoas criou uma energia (positiva, sem dúvida) que não desaparece nunca por mais que o tempo passe e por mais que não se alimente esses encontros e reencontros. Uma troca de olhares e o tempo fica em suspenso, deixando um raio de luz e energia passar.

Quanto a mim isso tem uma explicação: são almas que se reconhecem e se tocam! Penso que são almas que pertenceram à vida um do outro em muitas outras vidas e, por isso, se reconhecem em qualquer tempo e lugar. São essas pessoas/ almas especiais que fazem que nos sintamos sempre acolhidos, aconchegados e em casa quando estamos com eles. São aquelas pessoas que nos fazem sentir que os ombros são largos o suficiente para acolher a nossa alma cansada e desgastada e assim possamos descansar nesse ombro largo. São aquelas pessoas que nos fazem pensar que nada no mundo é impossível. E, por fim, são aquelas pessoas que, quando vemos, queremos sempre abraçar e beijar, percebendo que, finalmente podemos abrandar o ritmo porque a nossa alma reencontrou o lugar que procurava. Em isso tudo, uma única certeza: essa pessoa transmite-nos bem-estar, paz e uma enorme vontade de abraçar.

Contudo, como o tempo e o lugar nem sempre são propícios às vontades e necessidades da nossa alma, por vezes, as almas andam desavindas por aí. A ligação, que seria natural, deixa de poder existir. Mas o elo de ligação está lá. E, quando se encontram, quando existe a troca de olhares, surge essa energia e essa vontade do beijo, do abraço, essa força que indica que as almas se reencontraram. E surge então a questão no fundo do olhar: “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te?”. No fundo, e esperando um gesto nobre do outro perguntamos:  “ensinas a minha alma a viver sem a tua?”

É assim que interpreto essa frase escrita num muro da Covilhã. É isto que penso sempre que a leio. E assumo que sempre que passo os olhos por ela, um ligeiro sorriso nasce nos meus lábios gerado por um monte de recordações (desta e doutras vidas, quem sabe?) que afloram à minha memória. E, por momentos, a alma volta a sentir aquele sentimento quentinho e aconchegante que a faz sentir-se em casa.

Zura Karuhimbi – a bruxa de Musamo

Para os que vão estando por cá e me vão lendo, já sabem que em cada dois meses, mais coisa, menos coisa, venho aqui falar-vos de uma mulher que, pelo seu comportamento, pela vida que levou, por algum trabalho que tenha realizado, se destacou da maioria das outras pessoas. Nesta rubrica a que dei o nome de “Elas, as que fizeram a diferença” já vos falei de pessoas tão famosas quanto Mata Hari, Édith Piaf, Frida Kahlo, Amelia Earhart, Wangari Maathai entre tantas outras. Não tenho dúvidas que a maior parte dos leitores as conheceriam e teriam pelo menos uma ideia vaga do que tinha sido as suas vidas.

A verdade é que não terei tantas certezas sobre a “Ela” que escolhi para vos vir falar hoje. Talvez o nome não vos diga nada, contudo, quando vos contar a história dela, eventualmente alguns lembrar-se-ão desta pequena mulher valente, inteligente, corajosa e, acima de tudo, generosa. Hoje venho falar-vos de Zura Karuhimbi.

Não se sabe bem qual será a data de nascimento de Zura Karuhimbi. Algumas fontes dizem que terá nascido por volta de 1909 mas a maior parte refere que seria um pouco mais jovem tendo nascido por volta de 1925 (Pelo menos, é essa a data que consta do seu bilhete de identidade). Karuhimbi cresceu e tornou-se uma curandeira na sua aldeia, à semelhança de vários membros da sua família que também eram curandeiros na aldeia de Musamo. Em pouco tempo já gozava da fama de ter poderes mágicos.

Foi testemunha de revoluções e, como não poderia deixar de ser, de grandes momentos de violência. Aquando da revolução hútu no Ruanda ela observou de perto a violência entre a minoria tutsi e a maioria hútu. O grupo minoritário dos tutsi era considerado uma etnia superior e, por isso, no período colonial, tinha acesso a maiores oportunidades de estudo e melhores empregos. Essa divisão gerou tensão entre os dois grupos. Em 1959 ela era uma jovem quando o rei Tutsi Kigera quinto, assim como dezenas de milhares de pessoas foram obrigadas a exilar-se no Uganda. Estávamos a assistir àquela que seria conhecida como a Revolução hútu em Ruanda.  A própria declarou, mais tarde, que em 1959 terá salvado a vida de um menino de etnia tutsi de dois anos, ao dizer à mãe para amarrar as contas de um colar nos cabelos do menino. Deste modo, a criança passou por ser uma menina e a sua execução foi evitada (nessa época eles apenas matavam os meninos). Mais tarde seria esse mesmo menino que se iria tornar o presidente do Ruanda, Paul Kagame. Mas este foi apenas um dos primeiros gestos de coragem e astúcia que se conhecem a Karuhimbi.

Mais de trinta anos depois, estávamos nós em 1994, depois de ser abatido o avião que transportava o presidente, hútu, Juvénal Habyarimana, os episódios de violência recomeçaram tendo sido colocado em prática o extermínio da minoria tutsi. A barbárie chegou a um ponto que milhares de homens hútu largaram as suas esposas que eram tutsis para se salvarem, enquanto elas eram assassinadas. Os hútu passariam, também, a matar membros mais moderados da sua própria etnia.

Durante esse genocídio, a pequena casa de dois quartos de Zura, na aldeia de Musano, converteu-se num refúgio para tutsis, burundianos e até para três europeus. Dezenas de pessoas foram escondidas por baixo da cama de Zura, num esconderijo que existia no teto da casa e, diz-se, até num poço cavado no quintal, nas imediações da casa. Sabe-se que, entre os sobreviventes, se contavam bebés que tinham sido resgatados, após a morte das suas mães. Não se sabe ao certo quantas pessoas passaram por lá mas estima-se que o número chegaria à centena.

 Qual terá sido a arma que ela usou para assustar os assassinos e não os deixar entrar em sua casa? Mais uma vez a inteligência e astúcia. Ela informava os que queriam entrar que libertaria os espíritos e que esses iriam persegui-los, assim como às suas famílias. Informava-os que se entrassem no “santuário” iriam despertar a ira de Nyabingi. A juntar a essa ameaça, usava também uma erva local que causava medo nos assassinos uma vez que lhes irritava a pele. Zura acompanhava tudo isto de um chocalhar das suas pulseiras, provocando-lhes um medo profundo. Enfrentava-os informando que se matassem alguém que estava dentro da sua casa, estariam cavando as suas próprias sepulturas. As advertências de Zura funcionaram. Todas as pessoas escondidas em sua casa estavam a salvo quando o genocídio chegou ao fim e os rebeldes liderados pelos tutsis entraram em Kigalo.

A lenda da “bruxa de Musano” continuou viva ainda que Zura tenha afirmado várias vezes que não era nem nunca tinha sido bruxa, não possuía qualquer poder mágico e que tudo tinha sido uma invenção para salvar vidas.

Em 2006 foi reconhecido o seu esforço para salvar vidas e ganhou a Medalha pela Campanha contra o Genocídio. Esta medalha permaneceu até ao fim dos seus dias como um dos seus bens mais valiosos. Usava-a o tempo todo e mantinha-a debaixo da almofada enquanto dormia. Zura nunca soube o que aconteceu às pessoas que salvou do genocídio. Passou os seus últimos anos sob os cuidados de uma sobrinha. Morreu na sua própria casa, na casa onde salvou mais de 100 pessoas de uma morte certa, no dia 17 de dezembro de 2018.

A história de Zura Karuhimbi é, infelizmente, pouco conhecida. Contudo, é uma história fascinante de coragem, inteligência e, acima de tudo, humanidade. Esta mulher, pequena e frágil, arriscou a sua vida para salvar a de outras pessoas. Enfrentou homens armados utilizando para isso apenas o seu corpo e a sua inteligência. E venceu-os. Não faria sentido ter esta rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” e não vir aqui falar-vos dela.

Há algo de Frida Kahlo em muitos de nós…

Esta semana trago uma crónica algo nostálgica, escrita em noite de chuva e vento, enquanto estava sentada junto à lareira. Um texto de observação e análise do que é e, sobretudo, do que foi.

Convido-vos a relaxar um pouco e a lerem então esta partilha de pensamentos

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Photo by Nasim Keshmiri on Unsplash

A noite está fria, ventosa e desagradável. A vontade é mesmo a de ficar por casa, de aproveitar o calor do lume que me chega através da lareira e de degustar um gelado. Sou daquelas pessoas que adora comer um gelado, junto à lareira, enquanto deixa que o seu pensamento vagueie livremente entre o cá e o lá, entre o que é e o que foi, entre a vida que se vive e a que se queria ter vivido… A verdade é que esse momento de bem-estar e aconchego acaba sempre, mais cedo ou mais tarde, por me levar o pensamento a sítios deixados para trás, a locais de saudade, a momentos bem vividos. Mesmo que esteja a ler, ou com o espírito ocupado a ver um filme ou uma série, é certo que o cérebro irá, lentamente, desligar do que lê/ vê e deixar correr livre o pensamento. E, inevitavelmente, irá instalar-se em mim uma nostalgia, ora doce, ora amarga. Não sou uma pessoa dada a tristezas infindas, a choros e lamentos. Sou a verdadeira “tristezas não pagam dívidas”. Contudo, sou muito dada a memórias, a espreitar o passado, a procurar relembrar momentos felizes e/ ou divertidos, a revisitar velhas fotografias. Nessas noites acontece, não raras vezes, relembrar pessoas que cruzaram a minha vida, algumas, claramente, mais vezes do que outras. Muitos dos textos escritos – quer sejam crónicas, quer sejam contos – tiveram as suas sementes nestas noites frias de sofá e lareira, baseadas em pessoas e acontecimentos que fizeram ou fazem parte da minha vida.

Talvez pelos textos terem tanto de mim, hoje apeteceu-me reler alguns, ver o que pensava e escrevia há dois anos, há um ano… Li crónicas, li contos. Pensei, nalguns casos, que já não escreveria daquela forma ou não escreveria sobre tal assunto. Reli biografias sobre mulheres excecionais, que fizeram a diferença. Mulheres corajosas, determinadas, que deixaram o seu nome e a sua marca na história. Inevitavelmente, voltei a ler a biografia que escrevi sobre Frida Kahlo. Não é segredo para ninguém que a personagem exerce algum fascínio sobre mim. Em seguida, acabei por ler o texto que escrevi sobre ela e Diego Rivera na rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais”. E mais uma vez pensei no estranho que era ver numa mulher e artista tão decidida, corajosa e resiliente uma tão grande fraqueza que lhe provinha daquele que ela considerava ser o amor da sua vida. Apesar de todas as discussões, todas as traições, de toda a dor que ele lhe provocou ao longo da sua vida, a verdade é que Frida Kahlo nunca deixou de o amar. Diego Rivera era, sem dúvida, o ser que enfraquecia a artista.

Foi no decorrer deste pensamento e destas leituras que dei por mim a pensar que todos nós, ao longo da vida, conhecemos alguém que é/ foi a nossa fraqueza, aquela pessoa que tem a força para nos dar o mundo, se assim quiser, e a força de no-lo tirar, se sentir essa necessidade ou vontade. É a essa pessoa a que damos, pomposamente, o nome de “alma gémea”, aquela pessoa que estava destinada a cruzar o nosso caminho, aquela pessoa que por fim deu sentido à nossa vida.

Voltando ao casal Kahlo-Rivera, todos sabemos que aquele amor foi desastroso para ambos. Contudo, todos sabemos que apesar das traições (de um lado e de outro), discussões, separações, Diego Rivera acabou os seus dias afirmando que Frida tinha sido o amor da sua vida e Frida não fez segredo da paixão que a consumiu pelo pintor até ao último dos seus dias. No fundo, ainda que a relação não fosse de todo funcional e não os fizesse felizes, ainda que fossem incapazes de viver aquele amor juntos, ambos sentiam que aquela era a “pessoa escolhida” no mais profundo do seu ser, ambos sentiam que aquele amor lhes pedia para voltar uma e outra vez para o outro. Penso que será isto a que chamamos “amor verdadeiro”, aquele sentimento puro a que todos aspiramos.

E, quando penso nisso tudo, penso que somos vários por esse mundo a ter algo de Frida no nosso interior. Talvez seja essa uma das razões (para além do seu trabalho) pelas quais ela continua a ser lembrada e celebrada por esse mundo fora. Quantos de nós não tivemos um amor no passado que, de tão forte e vivido nos fez acreditar que seria para sempre? Quantos de nós, ainda que tenhamos refeito a vida, sozinhos ou com outra pessoa, não possuímos um “e se” eterno que nos atormenta em dias de maior nostalgia? Quantos de nós conhecemos alguém que, em determinado momento nos fez sofrer mas que acreditámos que seria “o tal”, “a pessoa” a tal “alma gémea”? Por fim, quantos de nós conhecemos alguém que sempre que por alguma razão surge na nossa vida nos faz morrer um pouco? Penso que não seremos assim tão poucos…

A verdade é que há pessoas que, apesar de já não pertencerem à nossa vida, nos ficam impressas na alma. Não é preciso ter vivido uma vida com elas para isso acontecer. Por vezes, pequenos momentos formam laços profundos que dificilmente poderão ser desfeitos. São pequenos momentos que tiveram uma intensidade impossível de apagar ou esquecer. E o facto de já não pertencerem à nossa vida não fez o mundo parar de girar, a vida continuou. Mais morna, com menos cor, talvez, mas continuou. Ainda assim, o amor, esse, nunca morreu totalmente, nunca foi completamente extinto. Considero que terá sido assim com Frida e Diego…

É por isso que, em momentos em que deixo as recordações correrem livres à minha frente, quando deixo a nostalgia instalar-se surge, aterradora mas acompanhada por um pequeno sorriso, a terrível pergunta: “e se…?”

“E já chegou o horário de inverno”

O texto desta semana, publicado no semanário Registo, é uma crónica sobre este horário que acaba de chegar para nos atormentar uns largos meses, o horário de inverno. Já terá ficado claro, por essas poucas palavras, que não sou fã de tal horário. E a vossa perspetiva, qual é? Gostam ou não do horário de inverno?

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E esta noite (noite de sábado para domingo) dormi mais uma hora que o habitual. Quer isto dizer que quando olhei para o relógio, ainda com o cérebro entorpecido pelo sono e os olhos remelosos (Sim, porque ninguém acorda com o ar fresco de quem acabou de sair do banho) vi que ele, o relógio, assinalava 9 horas. E pensei…que maravilha! É domingo! Posso dormir mais uma horinha!! Contudo, o segundo pensamento foi: Afinal são 8 horas! Posso dormir mais duas horas!! Hoje é o primeiro dia do horário de inverno. Dito isto poderia pensar-se que gosto deste horário de inverno. Nada mais errado! Esse malnascido horário de inverno apenas tem um aspeto positivo (que bem vistas as coisas nem é assim nada de mais!): oferecer-me uma hora de sono extra, uma única noite no ano, num dia em que a mim nem me traz grandes benefícios (Não tenho o hábito (ou a necessidade) de levantar muito cedo ao domingo…)

Mas a verdade é que todos os anos eu tenho de passar por esta alteração horária. Todos os anos acalento, secretamente, a esperança que seja este o ano em que se decidirá pelo não à mudança para o horário de inverno mas, invariavelmente, todos os anos, vejo a minha esperança defraudada e a hora mudar: “Quando forem duas…atrase para a uma”. E eis que está dado o passo para que comecem os dias cinzentos, os dias frios, os dias pequeníssimos.

Procurando encontrar uma forma de gostar desta mudança horária, fui tentar perceber quais eram as razões inerentes a essa mudança de hora. Talvez a mudança tivesse uma explicação simpática. E ao que parece, tudo começou com uma ideia peregrina de Benjamin Franklin em 1784… Na altura a ideia surgiu com o intuito de poupar velas. Ainda assim, e pelo que fui lendo por aí, esta ideia apenas voltaria a surgir e seria aplicada em 1916, com o intuito, desta feita, de poupar carvão. A ideia era que não se desperdiçassem horas de luz durante as manhãs. As pessoas acabariam por levantar mais cedo, aproveitando, assim, melhor o dia. Com o início da Iª Guerra Mundial países como a Alemanha e a Grã-Bretanha adotaram este “Daylight saving time” (como ficou conhecido) a fim de se poder poupar e economizar tendo em conta o transtorno da guerra. Terminada a guerra, houve quem abandonasse a alteração de horário. O Daylight saving time foi retomado por várias nações, em 1939, demonstrando que um mal (2ª Guerra Mundial) nunca vem só… Mais uma vez, ao terminar a guerra, houve países que foram abandonando as mudanças de hora no horário de inverno e no horário de verão. E, pelo que fui lendo, andou-se assim um pouco ao sabor das ondas, até aos anos 70, data em que o Daylight Saving Time foi uniformizado tendo em conta as preocupações, mais uma vez económicas, que surgiram decorrentes dos obstáculos que os países árabes começaram a colocar na aquisição do precioso “ouro negro”. Pelo que entendi, a ideia foi sempre a de poupar… e não de fazer as pessoas mais felizes… No que aos países da União Europeia diz respeito, esta “tradição” mantém-se, até aos dias de hoje, devido a uma diretiva datada de 1981, que determina que os seus estados-membros devem entrar na hora de inverno no último domingo de outubro e na hora de verão no último domingo de março. E assim, de seis em seis meses, acontece-nos uma noite com mais uma hora (horário de inverno) e uma noite com menos uma hora (horário de verão). E, apesar de já ter passado por isto desde que me conheço por pessoa, ainda não me consegui habituar e muito menos consegui gostar desta mudança horária, sobretudo quando a mudança se faz para o horário de inverno.

Dou por mim a pensar: será que isto ainda faz sentido? Não poderíamos ficar eternamente na hora de verão? Será que este horário ajuda a poupar o que quer que seja? Tenho as minhas dúvidas, nos tempos que correm. O que sei é que a hora de verão é bem mais simpática!

Ok, se a mantivéssemos levantávamos às 8 horas da manhã e poderia estar ainda um pouco escuro. Mas… “assim como assim”, é suposto os dias de inverno serem escuros e cinzentos. Não me incomodaria muito, penso eu, levantar e ainda ver estrelas no céu…rapidamente o sol iria levantar e o dia acordar! Agora o que consegue tirar-me do sério é ver que daqui mais uns dias serão 17 horas e já estará praticamente de noite! Os dias são minúsculos. As noites são intermináveis. Quem pode ter vontade de praticar desporto depois de estar escuro como breu? Quem pode ter vontade de passear, de fazer turismo? Basta um almoço um pouco mais prolongado para se perder a tarde toda e impossibilitar qualquer tipo de visita que tenha de se realizar na rua, sob a luz do sol. Parece-me que este horário demoníaco apenas se mantém para obrigar as pessoas a estar em casa. As horas de sol, efetivas, são muito poucas para mim. No horário de verão, terminamos o trabalho e temos tempo para apreciar o resto do dia, passear, ler um livro numa varanda, beber algo numa esplanada, ou até mesmo realizar as tarefas caseiras, aproveitando os bons pares de horas que ainda temos pela frente com luz solar. Tal é impossível no horário de inverno. O inverno é cinzento, escuro e frio. Este horário só ajuda a torná-lo ainda mais feio, ainda menos suportável. Não tenho base científica para o que vou dizer, mas acredito que as depressões sejam em maior número neste horário. Abomino esta mudança! Para mim é a verdadeira machadada no verão que já nos abandonou.

Se bem me lembro houve uns anos em que a mudança de horário não se verificou. Se a memória não me atraiçoa, lembro que no pico do verão eram quase 22 horas quando se dava o anoitecer. Isso agradava-me… e vivo na esperança que o mesmo volte a suceder.

Estamos em outubro, 2019. Ainda não foi este ano que cortámos relações com o horário de inverno. Hoje dormi mais uma hora…e hoje irei verificar que às 18 já não existirá sol…e durante os próximos 6 meses estaremos sob o domínio deste horário que nos obriga a conviver com a noite escura muitas mais horas do que aquelas que eu quereria e gostaria… Como disse, não gosto deste horário. Apresento o meu veemente NÃO! a esta alteração. E vivo na esperança que um dia se acabe com esta imposição do horário de inverno/ horário de verão. Terei, com toda a certeza, um nível ligeiramente mais elevado de felicidade!

Os “meus amarelos”, gatos de rua

Hoje trago-vos uma crónica sobre um tema que muito aprecio: os felinos. Neste caso, venho falar-vos da “Minha família Amarela” e do facto de serem gatos de rua. Espero que vos tenha aguçado a curiosidade para ler e, se gostarem, partilharem!

Venham daí conhecer a história da “Família Simpson”

Ainda que não esteja muito longe da cidade, a minha casa está localizada numa quintinha onde podemos encontrar vinha, algumas oliveiras e algumas terras de cultivo.

Para os que vivem na cidade não sei se isso será assim tão claro mas a verdade é que, para quem vive em quintinhas, encontrar animais à sua porta é prática corrente. Ainda que se trabalhe muito nesse sentido, a verdade é que ainda existe muito abandono de animais. E muitas dessas pessoas, eventualmente numa perspetiva de aligeirar a consciência, largam-nos junto a quintas onde, pensam eles, há sempre comida para mais um. Muitas vezes tem acontecido isso por cá. Por outro lado, o facto de haver animais alimentados na quinta (um cão e gatos) leva a que haja sempre comida disponível nos pratos por aí espalhados. Tal facto leva a que muitos que eram errantes passem a visitar a quinta com alguma assiduidade ou, noutros casos, a passem a considerar como a sua própria casa.

E porque é que vos estou a contar isto? Pela indignação e preocupação que me surgiu quando percebi que o projeto de lei do PAN que visava tornar legal a alimentação de animais de rua (que é proibida pela maior parte dos regulamentos municipais) foi rejeitado pela Assembleia da República.

Não posso deixar de ficar indignada uma vez que se tem trabalhado imenso para tornar a população mais sensível à questão dos animais, em especial os de rua, mais compassiva para com os nossos “amigos de quatro patas”. Não será este chumbo um retrocesso nesse trabalho? Estaremos a caminhar para trás em vez de o fazer para a frente?

Por outro lado, assumo que me preocupa um pouquinho esta situação. Será que, a partir deste chumbo, as autoridades irão apertar mais o cerco a quem, deliberadamente, quebra as regras e alimenta esses animais? É que eu sou uma dessas pessoas.

Tenho em minha companhia, há 14 anos, uma felina de mau-feitio que se convenceu que é a princesa da casa. O território dela é a nossa casa. É um facto que adora alguns (poucos) humanos, tolera outros tantos mas não simpatiza, de todo, com outros companheiros felinos. Por isso, e respeitando esse mau-feitio, apenas temos esse gato em casa. Mas, na rua, a história é outra. A rua é o território daqueles que escolhi chamar de “Família Simpson”. Passo a apresentar-vos a família:

Penso que terão percebido, neste momento, que na rua só tenho gatos amarelos. (daí o epíteto “família Simpson”). O chefe da família, um gatão grande amarelo de olhos verdes amistosos, um macho alfa, chegou às nossas mãos já a caminhar para a velhice. Era o gato do vizinho. Sempre foi um gato que se passeou pela vila e pelos campos, percorrendo quilómetros à procura de uma gata que lhe enchesse as medidas ou de um prato de comida que lhe soubesse bem. Contudo, o seu lar, ao qual regressava todos os dias à noite, salvo raras exceções, era a casa do vizinho, o seu legítimo dono. Ora acontece que o vizinho mudou de casa e deixou para trás aquilo que, dizia ele, não podia levar para a cidade. Assim, o gatão amarelo que nunca tinha tido outro nome que “bichano” ficou abandonado à sua sorte, aqui na minha quinta. “Bichano” sempre foi um animal habituado à rua, a comer pássaros que caçava, a pedinchar aqui e ali…Mas tinha um dono. Contudo, naquele momento, passou a ser um gato de rua…

Alguns tempos depois, e num dia de manhã, surgiu-nos ao portão, uma gatinha amarela. Tinha ar de gatinha pequenina e nova, muito meiga. Essa, sem dúvida, vinha das mãos de alguém que a tinha habituado ao mimo humano. Parece-me que não devia ter acesso a grandes quantidades de comida, uma vez que estava magrinha. Contudo, a minha certeza que terá sido abandonada provém do facto que a “Amarelinha” (assim a batizámos) nunca ter saído da quinta desde esse dia. Parecia ler-se na sua mente a ideia de que “se o meu humano me deixou aqui, virá, com certeza, buscar-me aqui”. Tal não aconteceu e a Amarelinha foi ficando aqui pela quinta.

Olhando para estes dois felinos, tenho hoje noção que infringi a lei quando alimentei aquele que, mais tarde, foi batizado de Pai Simpson, e a gata que ficou, até hoje, apenas a Amarelinha! Pior! A natureza decorreu como era suposto e rapidamente o D. Juan da quinta fez a corte à Amarelinha e ela engravidou. E sim, é mesmo isso que estão a supor! Nasceram mais amarelinhos! Dois gatos que foram batizados de Bart e Cherovia (é tão magro, ainda que esteja bem alimentado) que lembra o feitio de uma cherovia!

Ora…legalmente nenhum daqueles 3 animais é meu. Todos eles são animais de rua que eu alimento e cuido. (Falo em 3 porque, infelizmente, o Bart desapareceu há uns meses e apesar de todos os esforços não foi encontrado). Assim sendo tenho na minha quinta um Pai Simpson e uma Amarelinha, ambos frutos do abandono, e um Cherovia já nascido numa situação de abandono. Alimento-os a todos. Todos os dias. Estarei a infringir leis? O facto é que não sendo meus, alimento-os. Não sendo meus, levei-os ao veterinário e mandei-os castrar. Não sendo meus, comprei-lhes uma coleira. Não sendo meus, arranjei camas para cada um poder estar bem instalado quando as temperaturas são mais agrestes ou os dias são de chuva.

Perguntar-se-ão alguns porque não os tirei da rua? Responderei que não o fiz porque respeito o gosto de liberdade de cada um deles. Foram animais que nasceram e foram criados na rua. São animais que gostam de percorrer quilómetros à procura da melhor sombra ou do melhor pássaro para caçar. Sim, são lindos mas são pequenas máquinas assassinas. E eu não lhes quero tirar esse gosto. Têm comida, têm mimo e têm abrigo. Mas, acima de tudo, têm a liberdade de serem “de rua”. Deverei deixar de os alimentar? (desculpem-me a ironia).

Todo este texto tem como objetivo mostrar, por um lado, que a manutenção da proibição de alimentar animais de rua é um enorme erro e, por outro lado, que todos podemos fazer alguma coisa para alterar estas situações. Não alimentar animais de rua não pode ser a solução. A castração, sim, é solução. Controlada a população é bem mais fácil alimentá-la. Foi isso que fizemos por cá, é este é o exemplo que dá a “Quinta Barroso”.

Uma noite perfeita

[Novo] – Neste mês já trouxemos a habitual crónica publicada no Semanário Registo que veio falar sobre a esperança, a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – histórias de amor intemporais” que contou a história de amor entre Mata Hari e Vadim Maslov e ainda a publicação da crónicas “As Pessoas Sensíveis” na Revista Rua.

Esta semana é a vez, então, do Conto do Mês. Sim, aquele conto que tem sempre, como ponto de partida, os versos de uma canção escolhida ou sugerida. Mais do que uma pessoa me tinha sugerido este “Perfect” de Ed Sheeran. Este mês aceitei esse desafio!

Venham daí ver o resultado! Leiam! Partilhem!

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Photo by Roman Kraft on Unsplash

Baby, I’m dancing in the dark with you between my arms
Barefoot on the grass, listening to our favorite song
When you said you looked a mess, I whispered underneath my breath
But you heard it, darling, you look perfect tonight

Ed Sheeran – Perfect

Querida, estou dançando no escuro contigo nos meus braços

Com os pés descalços na relva, ouvindo a nossa música favorita

Quando disseste que estavas uma desgraça, eu sussurrei debaixo da minha respiração

Mas tu ouviste, querida, tu estás perfeita esta noite.

Ed Sheeran – Perfect

 

Paulo tamborilava com os dedos no volante, tentando controlar a irritação que sentia subir por ele acima. Raios, como podia haver tanto trânsito hoje? Era sempre assim. Quanto mais atrasado estava, mais o trânsito estava infernal e o demorava. O dia no trabalho tinha sido terrível. As horas tinham custado a passar, apenas pensava na hora em que poderia voltar para casa. Todo o tempo que passava longe de Rute lhe deixava um gosto amargo. Por ele, passaria todas as horas do dia perto dela, aconchegado a ela, com a sua mão na mão dela, a acarinhá-la, a mimá-la, a dar-lhe tudo o que ela sempre mereceu. Sabia que as horas junto delas eram algo de precioso, um tesouro que, infelizmente, não podia guardar para a eternidade.

Finalmente chegou a casa. Enquanto estacionava em casa sentiu aquela apreensão, aquela sensação de frio no fundo do estômago, aquele medo de não ter chegado a tempo de olhar para a sua Rute ainda em vida, não ter chegado a tempo de se despedir dela… Sabia que ela não estava sozinha em casa, sabia que se algo de pior estivesse a acontecer ele seria imediatamente contactado mas o medo que vivia nele, diariamente, aumentava exponencialmente sempre que se aproximava de casa. Entrou e, ainda à porta de casa, disse num tom de voz alto: “Rute, cheguei! Maria, pode dar o seu dia por terminado!” E, com essa frase lançada para o ar, no tom de voz mais alto que conseguia, procurava afastar o medo de não ter chegado a tempo, esperava ansiosamente que a enfermeira aparecesse no cimo das escadas com o seu olhar calmo que o iria descansar na hora e esperava que este fosse um dia bom, um dia daqueles em que Rute teria forças suficientes para lhe responder, no tom de voz mais casual que conseguia: “Estou aqui em cima, amor, no quarto”.

Quando viu Maria no cimo das escadas percebeu que este não era o momento tão temido por ele. Este era um dia bom. E foi nesse preciso momento que Paulo se sentiu, finalmente, a relaxar. O olhar de Maria indicava que tudo estava bem, na medida do possível. E até conseguiu ouvir, numa voz débil mas que se queria forte, um “aqui em cima, amor!”

Paulo subiu as escadas com a maior velocidade que conseguiu. O seu olhar pousou em Maria que se limitou a dizer “A dona Rute passou o dia bem, não se preocupe! Visto que chegou, vou então embora. O resto de um bom dia, senhor Paulo.”

– “Obrigada, Maria, por tudo. E peço desculpa por esse atraso. O trânsito hoje estava caótico. Tudo fiz para chegar a tempo”. Maria limitou-se a sorrir enquanto vestia o casaco e informava: “O jantar hoje está no forno. Fiz uma carne assada com batatas. Fiz também uma sopa de legumes. Está em cima do fogão! Espero que tenham uma noite descansada. Até amanhã!”

Paulo dirigiu-se então ao quarto onde estava a “sua” Rute. Encontrou-a sentada na sua cama mas percebeu que teria pedido à Maria para lhe dar um ar composto. Via que o seu cabelo, outrora tão brilhante, tinha acabado de ser penteado e até percebia uma ligeira maquilhagem para tentar dar mais cor àquele rosto que sempre apresentara umas faces coradas até que a doença lhas roubara. Sentou-se na beira da cama e deu-lhe um beijo longo e sentido. Todo o seu mundo estava ali, naquele quarto, sentado naquela cama, apertado nos seus braços.

Tive saudades tuas – disse Paulo, olhando-a no mais profundo dos seus olhos. Rute emitiu um pequeno riso enquanto lhe respondia: “Toda a vida foste exagerado! Como se não me tivesses visto logo pela manhã!”

– Sabes bem, Rute, que a minha vida só tem sentido quanto estou ao teu lado. As horas longe de ti arrastam-se, são sensaboronas. Sabes bem que és tu que dás luz e interesse à minha vida.

Rute não respondeu, limitando-se a um ligeiro revirar de olhos como quem dizia que tudo aquilo era um pouco exagerado. Mas a verdade é que Paulo sempre se comportara deste modo, desde a mais tenra idade de ambos. Paulo dizia que toda a vida fora apaixonado por Rute e talvez fosse mesmo assim. Por isso tinha esperado pacientemente que Rute crescesse e percebesse que ele era, de facto, o amor da vida dela. E a verdade é que isso tinha mesmo acontecido. Quando Rute começou a olhar, na adolescência, com mais interesse para os seres do género masculino, o seu interesse recaiu naquele amigo que conhecia desde sempre. Não se tinham apaixonado ao primeiro olhar, como tantos romances gostavam de vender como sendo o verdadeiro amor, mas tinham elegido morada no coração um do outro ao primeiro beijo. E nunca mais se tinham deixado. Namoraram dois anos, casaram. Viveram, durante alguns anos, a vida que era considerada normal depois de casarem. Ambos trabalhavam, auferiam de uns salários simpáticos, tinham um grupo de amigos com quem se encontravam de quando em vez para uma conversa e um café, viajavam, eram felizes e não exigiam mais nada da vida. Contudo, cinco anos depois do casamento começaram a sentir que existia espaço naquela relação para outro ser humano e começaram a aspirar a ter uma criança que os viesse tornar ainda mais felizes. Olhando hoje para trás poderiam dizer que tinha sido nessa altura que iniciara o pesadelo. Apesar de muito tentarem, a verdade é que Rute não engravidava. Mês após mês se repetia o momento de esperança a que se seguia o momento de desilusão sempre que a menstruação aparecia. Ainda que quisesse disfarçar, Paulo sentia que Rute ia ficando menos expansiva, menos alegre, com um semblante mais carregado. Ao fim de algum tempo ambos tiveram de admitir que teriam de procurar ajuda médica e tentar perceber o que poderia estar errado para não acontecer a tão desejada gravidez. Os exames a um e outro sucederam-se e Paulo ia notando que todo este processo estava a deixar a sua Rute extenuada. Pensava ele que esse aspeto frágil que a mulher envergava nos últimos tempos se devia aos exames e ao stress por eles provocados. Apresentava um ar cansado, perdera peso e, sobretudo, perdera a vitalidade que a caracterizava. Paulo chegou a pensar que talvez fosse melhor esquecer a ideia de uma gravidez. Se isso estava a custar a saúde da sua Rute, mais valia esquecer a vontade. Contudo os exames continuaram, Paulo começou a desconfiar que estes já iam muito para além da necessidade de perceber por que razão não engravidava Rute. E, algum tempo depois de se terem iniciado os exames, o veredicto chegou que nem uma bomba, numa tarde de chuva, no consultório do médico. Rute tinha cancro. Um cancro agressivo, em estado avançado. Todo o resto da conversa do médico passou a ser pouco mais que um zumbido aos ouvidos de Paulo. Ele não conseguia processar a informação que acabara de receber.

Os meses que se seguiram foram o pesadelo que se pode pensar: tratamentos e mais tratamentos na tentativa de se chegar a um ponto em que aquele maldito fosse operável. O sofrimento de Rute, o seu declínio físico mas na presença de uma força anímica que fazia acreditar que tudo era possível. Mais tarde, a hospitalização, as dores constantes, a informação que nada havia a fazer, o maldito tinha-se espalhado. Não poderei dizer que ambos receberam essa informação de forma estoica. Ambos tinham chorado muito, ambos tinham tido momentos de revolta. Contudo, com o passar do tempo tinha vindo a aceitação que nada mais havia a fazer a não ser viver da melhor forma aqueles dias (só Deus sabia quantos seriam) que lhes restavam. Tinha sido vontade de Rute voltar para casa. Não queria partir deste mundo, realizar o caminho para a eternidade, partindo de um quarto frio e impessoal num hospital. Paulo tinha acedido àquela que, provavelmente, seria a sua última vontade, tinha montado no quarto um verdadeiro quarto de hospital e tinha procurado uma pessoa que pudesse realizar algum trabalho de enfermagem enquanto ajudava a tomar conta da casa. Por vontade dele, estaria sempre com Rute mas ambos sabiam que o salário dele era um imperativo para pagar todos estes “luxos” que Rute necessitava.

E assim eram passados os dias de Paulo. Numa inquietação enquanto estava no trabalho, pedindo a todos os anjos que ela não adormecesse para sempre sem estar na sua presença. Sabia que Rute não estaria com ele muito mais tempo. Sentia que ela também pensava o mesmo. A presença dela tornara-se quase etérea. Paulo tentava gravar na sua memória todos aqueles últimos momentos, procurava torná-la eterna, mais que não fosse, no seu pensamento.

Amor – disse ele – vou tomar um banho e depois jantamos. Pode ser querida? Ou queres jantar já?

– Não, querido. Vai tomar banho e depois jantamos. Aguardo aqui, serenamente, por ti! Paulo foi então tomar banho. À medida que se deslocava para a casa de banho sentiu aquela espécie de mão fria que lhe apertava o coração. “E se Deus decide levá-la exatamente no momento em que estou no banho? E se ela parte deste mundo sozinha, sem a minha mão para apertar?” Contudo, Paulo sabia que não podia ceder ao medo e à quase paranoia e seguiu para o banho. É claro que este foi rápido não dando lugar a qualquer tipo de relaxamento. Chegou ao quarto e viu que ela o aguardava, serenamente, enquanto ouvia as notícias daquele dia. Paulo foi buscar o tabuleiro e ambos jantaram, ou fizeram que jantaram, levando alguma comida à boca, engolida com grande dificuldade. Rute parecia ausente, quase transparente naquela sua camisa de dormir branca. Conversaram sobre o dia de trabalho de Paulo, Rute contou algumas novidades sobre o país e o mundo que ouvira na televisão e falou de um livro que tinha começado a ler. Assim estavam, sentados na cama, lado a lado de mãos dadas. E aos poucos, instalou-se o silêncio. O silêncio nunca tinha sido constrangedor para aqueles dois. Muito pelo contrário. Sentiam que a sua comunhão era tão grande que não precisavam de palavras.

Algum tempo depois o silêncio foi quebrado por Rute. Parecia ter acordado de um estado de sonolência que se tinha instalado nela. Pareceu a Paulo, pela conversa que se seguiu, que ela teria sonhado com algum momento do passado. Pareceu-lhe ainda, naquele momento, que tinha chegado a Rute uma força nova, uma energia que lhe dava brilho ao olhar.

Lembras-te, Paulo, quando íamos àquelas festas de garagem, nos anos 80, organizadas ao sábado à tarde? Éramos tão felizes nessas tardes! Como eu gostava de dançar um slow, agarradinha a ti, naquela garagem deixada na penumbra! Tenho tanta vontade de dançar contigo! Vamos dançar?!

Paulo sentiu-se meio atordoado, não sabendo o que lhe responder. Ela estava tão fraca. Mal conseguia se levantar da cama…quanto mais dançar! Contudo, não se sentia com forças para a contrariar. Acenou silenciosamente e disse: “vamos dançar, sim! Que música queres que coloque? A de sempre?”

Rute concordou com um pequeno sorriso. Paulo – disse ela – quero ir dançar para o jardim. Não quero dançar neste quarto, que mais parece um hospital. Por favor, leva-me até ao jardim. Quero ver a lua e as estrelas.

Isso já é demais – pensou Paulo. Isso seria matá-la! Contudo, olhou para Rute e sentiu que lhe devia isso. Era, eventualmente, um dos seus últimos desejos. Se ela queria dançar sob as estrelas, pois que dançariam sob as estrelas. E assim, docemente, Paulo pegou em Rute ao colo, uma Rute que pouco mais pesava que um gatito, e levou-a para o jardim. Em pouco tempo já soavam os acordes do Take my breath away dos Berlin. Paulo enlaçou a sua Rute e começaram a dançar, olhos nos olhos, gravando cada pormenor daquele momento. Paulo queria que os seus sentidos captassem tudo até ao mais ínfimo pormenor, porque saberia que em breve tudo o que lhe restaria seriam as recordações. Querida tudo o que queria neste momento era estar aqui contigo, a dançar no escuro, contigo nos meus braços, os pés descalços na relva, a ouvir a nossa música favorita. O mundo podia acabar agora que eu estaria feliz!

– Deixa-te disso, Paulo. Sabes que estou uma miséria, o meu corpo já não é o meu. Sou uma sombra daquilo que fui.

Continuavam a dançar, lentamente, saboreando aquele doce momento. Paulo apenas lhe respondeu, num ligeiro sussurro: Querida, estás perfeita esta noite. És e serás sempre perfeita para mim.

A música terminou mas ficaram ali enlaçados por algum tempo. Foi apenas quando Paulo sentiu o corpo da sua mulher estremecer ligeiramente com frio que ele acordou daquela espécie de transe e a levou para dentro. Deitou-a na cama com toda a ternura que podia ter para com ela. Beijou-a e deitou-se ao seu lado. Entrelaçaram as mãos. Em silêncio Paulo agradeceu a Deus ter-lhe dado oportunidade de se despedir daquela que tinha segurado o seu coração e a sua vida durante aqueles anos bons.

A noite passou, o dia acordou, soalheiro. Paulo ainda tinha a mão entrelaçada na de Rute. Contudo, já a sentiu fria. Inclinou-se para ver o rosto da sua mulher. Viu-a em paz. Sentia-se-lhe um ligeiro sorriso nos lábios. Tinha partido. Sabia que quando se levantasse daquela cama iria sentir que tinha terminado. Mas por enquanto ainda estava ao lado dela, com a mão entrelaçada na dela. E pensava, de si para si, que Rute tinha partido como ele sempre tinha pedido: acompanhada pelo amor da sua vida. Decidiu ficar mais um pouco naquela cama…o dia podia esperar.

Mata Hari e Vadim Maslov – Amor em tempos de guerra

Já não é a primeira vez que escrevo sobre a fascinante Mata Hari. Foi uma das protagonistas da rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” porque seria impossível não falar nela como uma mulher que ousou ser, viver e agir de forma diferente. Contudo, mais uma vez venho falar de Mata Hari. Desta feitavenho falar dela como a protagonista da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais”, pois quero contar-vos a história dela com o jovem Vadim Maslov.

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Mata Hari e Vadim Maslov

Mata Hari nasceu com o nome de Margaretha Geertruida Zelle, a 7 de agosto de 1876, numa pequena cidade da Holanda. Casou aos 18 anos com Rudolph MacLeod, um militar holandês, colocado no exército colonial no Oriente (atual Indonésia), que colocara um anúncio no jornal, procurando mulher. Depois de casarem, a jovem Margaretha seguiu o seu marido para as Índias Orientais. Diz-se que não foi uma união muito feliz uma vez que Rudolph bebia muito, era bastante violento, para além de ter uma amante que não fazia questão de esconder. Contudo, Margaretha terá aproveitado esse tempo para aprender mais sobre a cultura oriental e sobre as danças tradicionais javanesas. (Conhecimentos esses que lhe serão preciosos no futuro). Apesar de ter dois filhos desse marido (um acabará por morrer), acabará por se divorciar de MacLeod em 1902, tendo perdido a guarda da filha por não ter grandes meios financeiros com que sustentar-se a ela e à filha.

Em 1903 Margaretha partiu em direção a Paris, contabilizando 27 anos, em busca de uma nova vida. Não demorou muito tempo até ela se começar a apresentar como bailarina e a ganhar fama. Reinventou o seu passado, afirmando ser uma princesa hindu que vinha da Indonésia. É nessa altura que abandona o nome MacLeod e adota o nome de Mata Hari, que significava “Olho do dia” ou “Pupila da Aurora” em malaio.

O seu grande sucesso, que a tornou uma mulher conhecida em toda a Europa e cobiçada por todos os homens de Paris, adveio da sua apresentação no Museu de Arte Oriental, em 1905, numa sessão realizada dedicada à cultura asiática. É a partir dessas sessão que Mata Hari passará a ser contratada para atuações em salões privados de Paris onde cobrava mil francos por noite, chegando a ter atuações no “Folies Bergère” e no “Olympia”. Essa foi a época na vida de Mata Hari de sucesso, glamour e de colecionar muitos amantes.

Mas eis que, em 1914, se iniciou a 1ª Guerra Mundial. Mata Hari encontrava-se, à época, em Berlim. Sendo holandesa (e relembrando que a Holanda se manteve neutra nesse conflito), podia viajar sem grandes dificuldades entre os países europeus. Talvez por isso lhe tenha sido oferecido um cargo de espionagem a fim de colaborar com os serviços secretos alemães.

E é em 1916 que Mata Hari conhece o homem que irá mudar a sua perspetiva sobre o amor. Conhece, nesse ano, o capitão Vadim Maslov, um oficial do exército russo que se encontrava ao serviço da França. Maslov era bem mais novo do que ela, contando apenas 21 primaveras, quando ela já contava com 40. Apesar dos muitos homens que passaram na sua vida, e da diferença de idades, será por ele que ela se irá apaixonar perdidamente (e assim se manterá) até ao fim dos seus dias.

 Quando Mata Hari descobriu que o avião do seu apaixonado tinha sido abatido e que ele, ferido, se encontrava em recuperação em Vittel, tudo fez para poder reunir-se com o amor da sua vida, para poder tomar conta dele, tanto quanto fosse possível. Ora à época Vittel era uma cidade termal à qual apenas os civis que tivessem passe poderiam ter acesso. Para obter autorização codificada para entrar em Vittel, Mata Hari fez um pacto com o diretor da contraespionagem francesa, o capitão Georges Ladoux: ela iria espionar os alemães, recolhendo informações cruciais. Este era o preço para se reencontrar com o seu amante. Assim, por amor e dinheiro, Mata Hari acabou por se tornar, desta feita, espia em prol dos franceses, tornando-se, uma agente dupla (espionava para os franceses e para os alemães).

Segue, então para Espanha, procurando seduzir um general alemão e levá-lo a revelar segredos militares. Ela pensa ter atingido os seus fins. Contudo, este envia uns telegramas para Berlim onde menciona o agente H21 com detalhes suficientes para ser possível reconhecer Mata Hari, utilizando um código conhecido pelos franceses. Presume-se que os alemães teriam agido dessa forma para que agente dupla fosse reconhecida.

Quando regressou a França, em dezembro de 1916, a sua sorte já estava traçada. Foi presa em fevereiro de 1917 e submetida a alguns interrogatórios, onde muito pouco de relevante foi confessado.

Foram encontradas algumas fotos de Maslov no quarto de hotel onde Mata Hari foi presa. Numa delas podia ler-se: “Em memória dos dias mais bonitos passados com Vadim, a quem eu amo mais do que tudo”… Contudo parece que esse sentimento era bem mais forte pelo lado de Mata Hari. Diz-se que Maslov terá dito que não se sentia mais especial que todos os outros. Apesar de ter sido chamado a depor em tribunal o mesmo não apareceu. A partir daí ela perdeu qualquer vontade de lutar pela sua salvação.

Mata Hari foi então condenada à morte. Enfrentou o pelotão no dia 15 de outubro. Diz a lenda que terá retirado a venda que lhe cobria os olhos e enviado beijos àqueles que a iriam matar. Foi morta por uma bala no coração e, como o seu corpo não foi reclamado por ninguém, foi doado à ciência.

Assim morria aquela que se tornou espia dos franceses por amor, aquela mulher que conheceu tantos homens mas que apenas amou, verdadeiramente, um, aquela que depois de uma vida tão preenchida acabou por morrer por amor. É por isso que fiz questão de abordar esta história na rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais”. Apesar de ser, ao que parece, um amor não correspondido, a verdade é que Mata Hari, a mulher fria que colecionou amantes, deixou-se conquistar pela força maior do amor e amou um homem com uma força e dedicação que merecem ser relembradas mais de cem anos após a sua morte.