Uma viagem entre França e Odemira

Esta semana proponho, aqui na Steff’s World – a Soma dos Dias uma crónica previamente publicada no P3 do Público e que aborda a difícil situação que os emigrantes vivem em Odemira.

Uma crónica com muito de mim e das vivências dos meus, como costumam ser as minhas crónicas. Leiam, opinem, comentem.

Quando olho para o meu pai – um calmo e pacato cidadão que conta já com mais de 80 primaveras – tenho alguma dificuldade em percecioná-lo como o jovem que, com pouco mais de 20 anos, cansado de um país cinzento que não lhe dava oportunidades, decidiu emigrar para França.

Desengane-se quem pensa que o jovem Beirão pegou na sacola, comprou um bilhete de comboio e apresentou-se à “bela França” já com um emprego à sua espera. O meu pai, tal como a maior parte dos emigrantes que conheço, foi “a salto” (era essa a expressão utilizada na época para quem atravessava a fronteira de forma ilegal) com dinheiro contado e sem nenhum emprego em vista. É óbvio que ir “a salto” não era fácil e, muito menos, barato. Havia que juntar um bom dinheiro antes para pagar ao “passador” – o homem que guiaria um grupo de homens por montes e vales até à fronteira – e para sobreviver no novo país até se receber o primeiro salário. Contar-vos-ei outro dia a extraordinária viagem de meu pai até França, pois hoje não é tanto essa história que me traz aqui mas sim falar-vos do El Dorado que o meu pai encontrou quando chegou a França, aquela que era a Terra Prometida para eles. Depressa o jovem Beirão descobriu que a França era mais madrasta do que se poderia pensar e que tinha muito pouco de El Dorado…

Para começar, trabalhava-se e em péssimas condições. Trabalhava-se nas obras, nas estradas, nos caminhos-de-ferro. Trabalhava-se muito, trabalhos árduos e difíceis, trabalhava-se horas infindas e, no final do dia, era-se mal pago.

As condições de vida eram, na sua maioria, péssimas. Quando o meu pai chegou a França, foi acompanhado e apoiado por colegas da aldeia que, também eles, tinham “dado o salto” e já tinham trabalho e lugar onde pernoitar. Efetivamente, se havia coisa que não faltava à França dos anos 60 era trabalho. Muito e para quem quisesse. O que faltava, e bastante, era casas condignas, locais onde viver. Conta o meu pai que os primeiros tempos que lá viveu foram vividos num anexo onde muitos se juntavam e a dormida era realizada numa carrinha, onde dormiam uns quantos. Eram tantos lá que a meio da noite as gotas de condensação lhes caíam em cima, deixando-os num mal-estar constante. A água era-lhes providenciada pela bondade de um padre que deixava que a fossem buscar à sua igreja… Penso que poderão imaginar as condições de vida em que o meu pai viveu nos primeiros tempos de França. Não podemos negar que foi explorado pelos primeiros patrões que lhe ofereceram emprego e as primeiras habitações onde se acolheu eram tudo menos dignas de serem chamadas de casa. Estas situações que relato aconteceram ao meu pai e a grande parte dos que seguiram para França à procura de melhor vida. Estávamos nos anos 60 em França. São situações que sempre tive dificuldades em imaginar! Situações que cataloguei como inadmissíveis num país que tinha como civilizado.

Aqui chegados perguntar-se-ão o porquê desta viagem no tempo, certo? E responder-vos-ei que a viagem no tempo se deve às semelhanças que não consigo deixar de encontrar no nosso país, com o caso dos imigrantes de Odemira. Também eles vieram aos milhares, também eles vieram por rotas de imigração, pagando mundos e fundos para aqui chegar (fala-se em valores a rondar os 10000 euros) e, muitas vezes, endividando-se para chegar ao país onde, supostamente, poderiam encontrar um emprego bem pago que lhes permitisse poupar algum dinheiro que enviariam às suas famílias. Também eles vivem em condições habitacionais semelhantes às que o meu pai encontrou nos anos 60 em França. Vivem em locais sobrelotados, que pagam a preços exorbitantes, muitas vezes sem água e eletricidade. Trabalham horas infindas recebendo por esse trabalho, grande parte das vezes, menos que o salário mínimo. São explorados por patrões inescrupulosos. Isto, quando falamos daqueles que recebem. Não estou sequer a falar daqueles que são escravizados, vítimas de tráfico, de exploração sexual! E tudo isto se passa num Portugal de 2021!

Tenho dificuldade, muita, em perspetivar o tipo de vida que o meu pai teve quando chegou a França. Não serve de desculpa mas sempre pensei que um longo percurso tinha sido realizado desde esse tempo nesta Europa que se quer civilizada e cumpridora dos Direitos Humanos.

Agora, se me é difícil perspetivar a vida que o meu pai levou, nos anos 60, muito mais difícil me é ouvir falar sobre as situações desumanas que encontramos em Odemira. É verdade que há muito que ouvíamos em surdina o que se passava pelo Alentejo. É verdade que  já tínhamos ouvido algumas denúncias. Mas nunca, como agora, se tinha falado tanto no assunto. Nunca, como agora, se tinham aberto as portas para a comunicação social para nos mostrarem a miséria em que deixamos viver aqueles que procuraram o nosso país para melhorar de vida. E isso dói. Incomoda. É duro constatar que a exploração do homem pelo homem perdura ao longo dos anos numa Europa que se diz civilizada. Sem qualquer pejo nem vergonha. Tudo em nome de um lucro que se pretende e que se quer fácil. E o que dizem os nossos governantes sobre esta situação? De acordo com as palavras de Eduardo Cabrita, o nosso Ministro da Administração Interna, o modelo económico da região (uma forma eufemística de abordar a questão) não é um caso prioritário para o governo, uma vez que tem outras lutas para travar… Tristes e inadmissíveis palavras, direi eu…

O mundo não para de girar. Sessenta anos depois da onda de emigração para França, onde tantos e tantos foram explorados, somos nós o país que recebe, somos nós o país que explora. E somos nós quem mostra que no meio de tanta evolução nós, enquanto seres humanos, não evoluímos nada…

https://www.publico.pt/2021/05/08/p3/cronica/viagem-franca-odemira-1961579

Dos meus dias no ginásio

O fim do inverno e o início dos dias maiores (a chamada “hora de verão”) a que se junta, habitualmente, a chegada de dias um pouco mais soalheiros e quentinhos trazem invariavelmente, na maior parte dos casos, uma enorme preocupação que se pode restringir a duas pequenas questões: “como raio vou usar aqueles vestidinhos de verão se estou tão gorda? Como raio vou colocar neste corpo um bikini, se estou mais gorda do que nunca?”

A verdade é que os longos meses de inverno, em que pensamos que escondemos o corpo debaixo de grossas camadas de roupa, levam sempre a um certo desleixo. O facto é que passamos mais tempo em casa, os dias são pequenos e as noites são muito longas. Petiscamos muito mais entre refeições e apetece-nos muito mais aquelas comidas a que convencionámos chamar “de tacho”, que pertencem à  fabulosa gastronomia portuguesa e que têm tudo de bom menos o serem diatéticas!

Convenhamos: o inverno é propício a tornarmo-nos mais sedentários e o sedentarismo traz-nos vontade de comer! Quando juntamos a isso tudo a menor exposição do corpo, temos os ingredientes necessários para nos deixarmos engordar devagarinho, um quilinho aqui, meio quilinho acolá, sem nos darmos conta do drama que se está a instalar silenciosamente no nosso corpo.

A toda esta situação anual juntou-se a estocada final: uma pandemia que trouxe com ela confinamentos, obrigatoriedade de estar em casa, movimentos mais do que limitados, vontade de cozinhar “pecados doces” levados ao extremos. Neste segundo confinamento (e aí só posso falar por mim) nem a vontade para ir praticando algum pouco desporto nasceu em mim. Não segui aulas online, a não ser duas aulas de Tai-chi por semana e fiz umas pouquinhas caminhadas que me enchiam, no dia em que as fazia, de orgulho. O trampolim – adquirido aquando do primeiro confinamento, porque “precisava mesmo, mesmo de me mexer”, ficou tristemente abandonado junto à parede onde foi encostado, servindo para pouco mais que nada… E assim, sem grandes dificuldade, estavam adicionados todos os ingredientes  para que acordasse um dia e pensasse “Ó meu Deus, tenho MESMO, MESMO, de iniciar uma dieta e começar a realizar exercício a sério ou este ano não visto um vestido que seja!”

E foi assim que, como, acredito, uma boa parte dos portugueses, decidi que me iria deixar de chocolate quente e que iria regressar ao ginásio (ginásios esses que estavam, lentamente, a reabrir). Tenho de vos informar que até ao início da pandemia era uma frequentadora mais ou menos assídua dos ginásios. Mas, é um facto, frequentava o ginásio para fazer aulas de grupo. Sempre as achei mais interessantes do que aquelas salas com máquinas algo assustadoras cujas funcionalidades são, para mim, um mistério. Assim sendo praticava (e gostava de praticar) aulas de Body Pump, aulas de Body Jump, de quando em vez umas aulas de Pilates e, ultimamente, de TRX.

Ora, este meu regresso ao ginásio (há uns 15 dias) não pôde ser marcado por um regresso às aulas de grupo (que, como se sabe, continuavam proibidas até há poucos dias). Portanto, se queria iniciar a “operação biquíni” o quanto antes, tinha de me “abeirar” sem medo daquelas máquinas assustadoras e fazer-me à vida! Se bem o pensei, melhor o fiz: voltei para um ginásio  que já tinha frequentado (procurando aquela sensação de “amigos de longa data”) e expliquei que, desta feita, vinha para travar conhecimento com aquelas máquinas, tornar-me amiguinha delas e esperar que elas me respondessem com os melhores resultados neste corpinho adormecido pelo inverno.

E é isto que tem acontecido nas duas últimas semanas. Assumo que se eu me observasse a mim mesma, de longe, iria gargalhar com a minha figura. Passo metade do tempo a olhar para o papelinho que criaram para mim, com o treino que deverei fazer naquele dia. Ele há exercícios que não necessitam de máquinas do inferno mas que me fazem passar vergonhas por não fazer ideia do que estamos a falar: ele são pranchas (vá, isso conhecia), ele são remadas usando o TRX, ele são jumping-jacks, ele são mountain climbers e coisas tão simples como exercícios de abdominais com nomes que só servem para nos deixar a pensar: “o que raio me estão a pedir para fazer?”

Agora, o que me consegue mesmo divertir, e fazer passar vergonhas a sério, são aquelas máquinas dos infernos. Existe uma máquina enormemente assustadora para trabalhar cada “musculozinho” da perna, do braço e até uma máquina que, segundo ouvi, te coloca o rabo colado ao pescoço! (quem não deseja isso?) Sempre que me aproximo delas, num passo vagaroso, estudo-as. Enquanto passo o desinfetante (as máquinas são desinfetadas antes e após cada uso) sussurro-lhes em voz doce: “vais tratar-me bem hoje, não vais?! Vamos colocar peso sem medos e não me vai custar nada, certo?” Passado este momento de ligeira alucinação, faço o meu melhor sorriso para o professor(a) que está na sala e digo “esta ainda não sei/não lembro como funciona!” E lá vem o meu “personal trainer” explicar o que tenho para fazer e colocar o peso. Curiosamente, acho sempre, nas três primeiras repetições que aquilo vai ser canja, que colocámos pouco peso. Algumas repetições depois já penso que os músculos me ardem horrores e que não vou aguentar repetir tantas vezes como as que estão propostas no “papelinho” (vulgo: Treino pessoal). Discretamente estico o tempo de descanso entre “as primeiras quinze e as segundas quinze”. Dez segundos a mais sabem a um doce pecado, nessas situações. Também já aprendi a desinfetar com muito cuidado cada máquina usada, o que me permite alargar o tempo de descanso. Beber água demoradamente, consultar (com urgência) o telemóvel, ver, com muita atenção, alguma notícia que esteja a dar na televisão (que não tem som) são também manhas que aprendi para alargar os intervalos de descanso. Preciso disso! Afinal sou uma donzela em apuros! Feito isto, lá me arrasto, vagarosamente, para mais um exercício, para mais uma máquina. Durante uma hora e tal repito estas viagens entre máquinas, entre exercícios, entre respirações ofegantes e pensamentos de fraqueza que insistem em sussurrar que não vou conseguir chegar ao fim. Penso que aquelas máquinas são amostras do inferno, observo as pessoas que fazem todos aqueles exercícios com ar de quem está a beber um café numa esplanada e penso “o que raio bebe essa gente? Como raio aguentam tanto?”

No fim de hora e tal a “estafar-me” naqueles exercícios e naquelas máquinas infernais, tento, com a maior dignidade, dirigir-me para os balneários. Sinto que o meu andar deve ser em tudo idêntico ao do Pato Donald! Um pensamento mesquinho atravessa-me a mente “e pagas tu para isto!”

Mas, no fim disto tudo, sabem o que vos digo? Aquela amostra de inferno é divertida. É verdade que me faz sentir dores em músculos que desconhecia mas, após um banho quente, sinto que o meu corpo se sente com maior mobilidade, bem menos tenso. A cabeça, essa, está leve. E é nesse momento, quando saio daquele ginásio para a rua que o mesmo pensamento me atravessa sempre a mente “Isto até é giro! Até que foi divertido! Amanhã regresso!

O amor revolucionário de Simón Bolivar e Manuela Sáenz

Hoje decidi trazer-vos mais uma história de amor que, na minha ótica, merece ser relembrada. Por isso hoje trago-vos a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – Histórias de Amor Intemporais”. Como sempre vou dizendo, não existem amores perfeitos, daqueles sem máculas. Mas existem, quanto a mim, histórias de gente de carne e osso que viveu relações, efémeras ou duradouras, que merecem ser contadas, relembradas por nos fazerem acreditar que há seres que foram feitos para viver relacionamentos e sentimentos especiais. Hoje trago-vos mais um casal que viveu um amor intenso, profundo e real. Ambos eram amantes da liberdade e totalmente comprometidos com a luta pela independência. Ainda assim não conseguiram evitar ser conquistados pela paixão de um amor clandestino. Acredito que o nome dele seja bem conhecido pelos caros leitores. Já o dela, não será tanto. É um nome menos falado e injustamente esquecido, direi eu. Sem mais delongas, apresento-vos o casal especial de hoje: Simón Bolívar e Manuela Sáenz.

Simón José António de la Santíssima Trinidad Bolívar Palacios Ponte y Blanco nasceu em Caracas no dia 24 de julho de 1783, no seio de uma família da aristocracia, sendo os seus pais donos de muitas propriedades e escravos. Aos 16 anos foi enviado para Espanha para que pudesse continuar os seus estudos. Será lá, em Espanha, que irá conhecer Maria Teresa del Toro Alaiza por quem se irá apaixonar e, com quem irá casar em 1802. Contudo, a jovem mulher irá contrair febre amarela, vindo a falecer em 1803. Com o falecimento da esposa, Bolívar decidiu realizar uma viagem pela Europa e pelos Estados Unidos. Essa será uma viagem fundamental para que nascesse em Bolívar a veia revolucionária.

Bolívar egressa em 1807 à Venezuela encontrando a cidade de Caracas em grande agitação política. Caracas deu início à luta pela independência da Venezuela que declara, em julho de 1811, a Primeira República Venezuelana. Contudo, a Venezuela enfrentaria um longo processo para se assegurar como nação independente.

Bolívar participou na sua primeira batalha militar contra os espanhóis em 1811. Participou em várias campanhas vitoriosas mas, ainda assim, os venezuelanos foram derrotados em 1812. Tal derrota levou a que Simón fugisse para Cartagena onde formou novo exército, liderando uma pequena tropa que marchou pelo território venezuelano em 1813. Os avanços e recuos foram mais que muitos, várias as batalhas, como é normal nestas situações, e só em 1823 os espanhóis foram definitivamente derrotados e a Venezuela garantiu a sua independência de facto. Bolívar continuou a sua luta e ainda se envolveu nos processos revolucionários de outros países procurando garantir a independência do Perú e da Bolívia. Ainda que apresentado numas pinceladas muito breves, não poderão  ficar dúvidas que Bolívar é  um dos grandes revolucionários da história da América do Sul.

Quanto a Manuela Sáenz, a outra figura de quem vimos falar hoje, posso dizer-vos que nasceu em Quito, no Equador, no dia 27 de dezembro de 1797. Desde muito cedo mostrou ser dona de um espírito rebelde, assumindo, já na sua juventude, os seus ideais independentistas. O assumir destes ideais levou a que fosse internada no Convento de Santa Catalina onde aprendeu a ler e a rezar. Com apenas 20 anos, irá casar-se, obrigada pelo pai, com um homem mais velho que ela, Jaime Thorne, um comerciante inglês. Depois de casar, o casal irá viver para Lima. Cedo Manuela  passou a ter uma vida dupla nesse casamento. Por um lado era a dona de casa, mulher de Jaime e, por outro, auxiliava como podia os revoltosos peruanos. Tornou-se uma das principais ativistas pela independência do Peru, atuando como espiã, passando informações de interesse para os revolucionários.  Os ideais do marido não eram de todos os dela e o casamento, esse, não seria uma união feliz.  No dia 16 de junho de 1822, dia em que irá ocorrer o seu primeiro encontro com Simón Bolivar, já ela se encontrava separada do seu marido.

Foi nesse  preciso dia que  Bolívar faz a sua entrada triunfal na cidade de Quito, algumas semanas depois de uma vitória na Batalha de Pichincha. Bolívar foi recebido por centenas de Quitenhos que o cumprimentavam, lhe ofereciam flores e guirlandas. E, no meio daquela multidão alegre, numa varanda privilegiada, estava Manuela Sáenz Aizpuru que, quando o viu passar no seu nobre cavalo, lançou da varanda uma coroa de louros e rosas. Diz-se que a coroa lhe bateu no peito e que Bolívar levantou os olhos para ver quem a tinha lançado. Foi nesse momento que os olhares se cruzaram e, pelo que se sabe, a paixão entre eles terá nascido nesse preciso momento.

Seria mais tarde, num baile organizado em homenagem ao Libertador e às tropas por ele comandadas, que iriam trocar as primeiras palavras. Apesar de Bolívar ser mais velho que ela uns quinze anos, houve uma atração mútua instantânea entre os dois. Não há dúvidas que entre eles tinha nascido aquele sentimento tão raro que se inicia por paixão mas depressa se transforma em amor. Manuela apaixonou-se perdidamente pelo “Libertador das Américas”, como era conhecido Bolívar e o mesmo sucedeu com ele. Passados dois dias, passaram a viver como amantes.

Apesar do amor deles, não se viam tanto quanto gostariam. É sabido que Manuela não se limitou a ser a amante de Bolívar. A chama da independência também queimava as suas veias. Passou a participar, de forma ainda mais ativa nos conflitos que exigiam a libertação dos territórios. Contudo, Bolívar permitia que ela participasse de muitas, mas não de todas as suas campanhas. Dever-se-á a isso a intensa toca de cartas, em que falavam do seu amor mas, sobretudo, dos seus ideais de libertação. “Mi adorada Manuelita” era o início mais frequente das cartas de Bolivar. “Suya, Manuela” era o final com que Sáenz encerrava as cartas endereçadas ao seu verdadeiro amor.

Bolívar fora conquistado por Manuela a todos os níveis. Não só a amava como ela tinha adquirido a sua confiança cega pelas atividades que ela desenvolvia como militante da causa de emancipação dos países sul-americanos. Foi, por isso, nomeada por Simón Bolivar como membro do Estado-Maior de Libertação e chegará o grau de coronel, liderando um exército de libertação. Em 1828 será ela que o irá salvar de um ataque perpetrado contra Bolivar. Enfrentou, sem medos, aqueles que conspiraram contra Bolívar enquanto ele fugia pela janela. Passará a ser denominada pelo seu amante, a partir desse momento como  “A Libertadora do Libertador”.

Os dois continuarão a viver a sua paixão e as suas campanhas pela libertação até 1830, ano em que Bolívar irá morrer, vítima de tuberculose.

Simón Bolívar e Manuela Sáenz viveram um amor intenso, profundo e real. Um amor que conseguia crescer para além dos ideais de revolução, de liberdade, de justiça social e que conseguia sobreviver ao ambiente de guerra. Manuela, “La amable loca” (outro dos epítetos que Bolívar criou para ela) renunciou a um casamento que pouco lhe transmitia, mas que lhe dava o estatuto de mulher casada, para estar e lutar ao lado da pessoa que amava. Enfrentou todo o tipo de preconceito social, religioso e até de género (junto dos soldados) para lutar pela glória da revolução e pela glória do seu amado.

Manuela viveu os seus últimos dias de vida numa pequena cidade da costa peruana. Tendo tido os seus bens confiscados, passou por um fim de vida complicado.  Ganhava a vida escrevendo e traduzindo cartas para os marinheiros, vendendo tabaco e doces. Morreu a 23 de novembro de  1856, de difteria. Todos os seus pertences foram queimados, incluindo as cartas que ela guardara de Simón Bolivar.

A história real de amor do General Simón Bolívar e Manuela Sáenz merece ser relembrada e  continuar viva na nossa memória como uma das mais fantásticas histórias de vida, de amor, liberdade e revolução.

Da “pontualidade britânica” ao “quarto de hora académico”

Uma crónica que discorre sobre questões de suma importância como o é a questão da pontualidade (ou a falta dela) nas nossas vidas. Para ler e opinar! Enjoy!

Foto de Jon Tyson em Unsplash

Diz o dicionário de português que “Pontualidade” é a qualidade de quem é pontual, de quem é exato no cumprimento dos horários. É claro que todos sabemos o que significa ser pontual mas a verdade é que nem todos conseguimos ser pontuais, por mais que possamos tentar e o facto que todos lidamos com esta ideia de “pontualidade” de uma forma diferente.

Tenho um emprego que não me permite qualquer tipo de atrasos. Sou professora. Tenho de cumprir as entradas e saídas de um modo rigoroso. Não há mais cinco minutos quando entramos porque podemos correr o risco de já não encontrar alunos à porta da sala quando chegamos. Não há mais cinco minutos de aula porque esses cinco minutos são de intervalo para os alunos e a nós, professores, servem para nos deslocarmos de uma sala a outra sala. E a verdade é que a vida dos professores é pontuada, pelo menos na minha escola, por esses 50 minutos de trabalho a que se seguem 5 ou 10 minutos de intervalo, consoante a hora da manhã ou da tarde. Portanto, se há característica que um professor tem de ter é a de ser pontual ou corre o risco de acumular faltas que dificilmente terão justificação! E penso, de facto, que ser pontual é uma característica essencial em qualquer trabalhador. Estar, sistematicamente, fora da hora não será muito abonatório para qualquer trabalhador e não deixará, com certeza, o patrão muito satisfeito.

Mas…e socialmente? Como somos nós no que à pontualidade diz respeito nas nossas reuniões com amigos? É óbvio que todos, neste caso, entendemos a pontualidade de um modo diferente.

No que a esse assunto diz respeito, e tendo-me debruçado a estudar este assunto com afinco, posso dizer que cheguei a uma breve conclusão: os seres humanos, quanto à pontualidade em eventos da sua vida social, podem ser divididos em quatro grandes grupos. 1. Os cumpridores; 2. Os que não conseguem de modo algum serem pontuais; 3. Os “chalupas” da pontualidade; 4. Aqueles que cumprem, religiosamente, o quarto de hora académico.

Passemos então a analisar estes grupos. Sobre o primeiro não há  muito a dizer. Encaram os eventos sociais com a mesma seriedade com que encaram os dias de trabalho e, como tal, nunca se atrasam. São o grupo da pontualidade britânica! A margem de erro para estes seres estranhos é de dois, três minutos. Combinar um café com eles é tão sério como uma reunião de trabalho. Atrasos não existem para eles e têm dificuldade em lidar com o grupo número dois, aquele dos que não conseguem cumprir um horário!

No segundo grupo surgem aqueles que não conseguem ser de modo algum pontuais. É muito difícil lidar com esse tipo de pessoas. Por mais que saibamos que, à hora marcada por eles, deveremos acrescentar, pelo menos, meia hora, o mais certo é que teremos de esperar por eles à mesma. Estranhamente, conseguem sempre chegar depois de nós onde quer que seja. Ir com esse tipo de pessoas a locais com hora marcada (cinema, teatro) é um stress porque nos obrigam, sempre, a chegar atrasados. Penso que esse tipo de pessoas gosta de viver sentindo a adrenalina de estar sempre, como se diz “na red line” e tomou esse tipo de vida como um hábito. Eles simplesmente não conseguem chegar a horas. A agenda deles está sempre bem preenchida e eles consideram que poderão ter tempo para tudo. Resultado: não têm tempo para nada. Tive um namorado, em tempos, assim. Chegava a agendar duas coisas diferentes para a mesma hora! Posso até contar-vos, em jeito de “petite histoire” que conseguiu chegar atrasado, mais de uma hora, à sua própria festa de aniversário (festa que ele próprio tinha organizado!) Se não é fácil lidar com o grupo dos muito pontuais, imagine-se com as pessoas deste grupo! Podendo escolher, escolho o primeiro grupo.

O grupo 3 é o dos “chalupas” da pontualidade. Com esses também é difícil conviver porque, para eles, estamos sempre atrasados. Estes são aqueles que querem ser tão pontuais que chegam sempre, no mínimo, uns quinze minutos mais cedo. Também conheço algumas pessoas dessas. O meu pai é uma delas. Agendar uma saída de casa com ele dá sempre lugar a atritos. Se combinamos sair às 14, é certo e sabido que às 13.40 já estará pronto para sair e a gritar com voz de comando “quem está, está, quem não está, estivesse!” Este é um dos comportamentos que me enlouquece. São o tipo de pessoas prevenidas que acreditam que pode sempre haver motivos de atraso: o trânsito, a procura de um estacionamento…o que quer que seja. Por essa tendência a serem demasiados pontuais chegam sempre demasiado cedo aos sítios. Têm sempre de esperar pelas pessoas e consideram que todos as outras pessoas que não agem como eles pertencem ao grupo dos “irremediavelmente atrasados”!

E, por fim, temos o quarto grupo, aquele onde me incluo, o grupo dos que cumprem o quarto de hora académico. Passo a uma breve explicação do que se entende por “quarto de hora académico” para quem não está familiarizado com a expressão. Na Universidade de Coimbra à hora do início das aulas, imagine-se, 9 horas, acrescenta-se os chamados “15 minutos da praxe” que são uma tolerância da qual beneficiam professores e alunos. Oficialmente, devia começar às 9 horas mas, na prática, inicia às 9.15. É claro que alguns criticam, de um modo duro, esta institucionalização do atraso mas eu sou pelas tradições e abracei-a com muito gosto! Penso que até quinze minutos depois da hora combinada é um atraso aceitável que nos permite encarar as horas marcadas com um pouco mais de leveza e sem o stress da pontualidade britânica. E gostei tanto destes quinze minutos da praxe que ainda hoje, na minha vida social, considero que um atraso até 15 minutos não é grave, é aceitável e permite encarar os encontros e reuniões de amigos com maior leveza.

Aqui chegados, fica-me uma curiosidade: em que grupo da pontualidade te incluis tu, leitor? Confessa-te aqui sem problemas! Não serão apontados dedos e serão todos aceites por cá: os da pontualidade britânica, os chalupas da pontualidade, os irremediavelmente atrasados e os entusiastas do quarto de hora académico!

Selma, a estranha

Esta semana decidi trazer-vos a rubrica “Vidas – entre a realidade e a ficção”. Nesta rubrica falo sempre de personagens que navegam entre a realidade e a ficção. Espero que gostem de conhecer Selma, um ser diferente.


 Foto de Mitch Kesler no Pexels 

Se me perguntarem quando conheci a Selma terei de vos responder que não faço ideia. Não conseguiria apontar um dia, uma estação do ano…não poderia sequer apontar um ano ou a minha idade quando a conheci. Apenas tenho noção que não foi das primeiras pessoas com quem travei conhecimento quando cheguei a este país à beira-mar plantado, não fazendo parte das minhas primeiras lembranças aqui do cantinho na Beira interior.

Sempre que penso nisso, sobre a presença da Selma entre nós, penso nela como alguém que aqui se materializou um dia, à nossa frente, já criada, como se tivesse surgido no mundo por geração espontânea contando já com 8 anos. Pelo menos eu só me lembro da Selma a partir dessa idade, época em que ela me começou a intrigar.

Selma, pelo que me dizem, nasceu e foi criada aqui na vila. Cai assim por terra a minha teoria da “geração espontânea de uma criança de 8 anos”. A única explicação que vejo para não me lembrar dela antes será a minha lendária capacidade de olhar de modo seletivo, olhando apenas para aquilo que me interessa. Provavelmente o meu olhar, até àquela época, estivesse virado para as novas amizades que fazia não tendo espaço para olhar com atenção e para conhecer a Selma.

Selma foi uma criança, e tornou-se uma adulta, muito diferente de todas as crianças e dos adultos que a rodeavam. A sua própria aparência física apontava para alguém que não tinha as suas raízes no nosso país. Selma possuía um cabelo cheio de ondas revoltas como um mar agitado em dias de tempestade. Era loiro mas tinha laivos de castanho, laivos de ruivo e até laivos mais escuros, de um quase preto. O seu cabelo possuía uma miscelânea de cores que faziam lembrar as folhas do outono com os seus diversos tons. Os olhos, contudo, eram negros, tão negros que, quando não estávamos muito próximos dela, nos davam a sensação de serem dois buracos vazios naquele rosto pálido e inexpressivo. Tinha uns pequenos lábios que passavam o dia cerrados. Selma pouco ou nada falava e Selma raramente sorria.  Era pequena e magra. Tão magra que quase parecia transparente. Todas estas características causavam estranheza à vista. Não se parecia de modo algum com as outras crianças da vila. Era, de facto, muito diferente, tanto fisicamente como no seu modo de ser.

Selma era uma criança silenciosa. Como referi, pouco falava. Não me lembro de lhe ouvir, alguma vez, uma gargalhada. O mais perto disso que vi foi um leve sorriso enigmático que surgia quando menos se esperava. Esse sorriso, quase lúgubre, surgia-lhe do nada, como se ela estivesse a ver algo que os nossos olhos humanos não conseguiam alcançar.

Falo nos “nossos olhos humanos” porque, depois de contactar com Selma durante um pouco de tempo era impossível acreditar que ela pertencia ao nosso mundo. Selma parecia viver no seu próprio mundo, rindo com coisas que só ela via e piadas que só ela ouvia. Falava quando era diretamente questionada não sem antes deixar discorrer um doloroso silêncio que nos deixava sempre na dúvida se, de facto, ela se iria dignar a responder-nos ou simplesmente iria ignorar-nos fazendo-nos sentir meras “pessoazinhas” insignificantes. Apesar de presente na escola, não interagia connosco. Chegava um pouco antes de iniciarem as aulas e por ali se ficava no pátio a observar as flores e a natureza. Lembro-me de um dia a ter visto atenta uns bons cinco minutos a uma formiga e ao percurso que a mesma fazia. Nos intervalos, sucedia o mesmo. Ocupava o seu tempo a observar o mundo, a Natureza ou qualquer coisa que lhe captasse a atenção. Tudo era digno de interesse menos os seus colegas ou, atrever-me-ia mesmo a dizê-lo, os seres humanos de um modo geral.

O tempo foi passando. Continuei a estudar, distanciei-me um pouco das pessoas da vila. Nunca mais vi a Selma e assumo que me esqueci que ela existia. (Não me julguem! É fácil esquecer pessoas que nunca fizeram parte, de forma efetiva, da nossa vida quando deixamos de as ver!) Lembrei-me da sua existência há uns meses quando passei por ela, numa das minhas caminhadas. Selma, como seria de esperar, tinha crescido, tornara-se mulher e até já se notavam nela algumas marcas da idade. Mas era a Selma. Disso não podia haver dúvidas. Os cabelos continuavam revoltos e mantinham aquelas cores que sempre lhe tinha conhecido a que se tinham juntado já algumas madeixas de cabelo branco. A pele era ainda mais pálida do que aquilo que me lembrava. Estava como que translúcida, tão branca que se lhe notavam as veias concedendo-lhe um inquietante tom azulado. Os olhos esses, continuavam iguais. Mantinha-se aquela sensação de estar a olhar para dois buracos negros e inexpressivos. Igual a si mesma Selma parecia perdida nos seus próprios pensamentos e no seu próprio mundo. Caminhava lentamente na direção oposta à minha, observando, como sempre a tinha visto, a Natureza, num passo lento e quase etéreo. Agora até possuía uma ajuda técnica para se evadir para o seu próprio mundo (notei que trazia uns auriculares nos ouvidos). Quando nos cruzámos, sorri-lhe e disse-lhe “Selma? Tudo bem? Há quanto tempo não te via!”

Tenho de dizê-lo: voltei a sentir o que sempre senti em miúda. Impôs-se um silêncio incómodo, o olhar escuro  dela pousou em mim, instalou-se o silêncio de sempre. Fiquei a pensar se me teria reconhecido. Quando ia abrir mais uma vez a boca para dizer que era a Estefânia, colega de escola, ela finalmente falou. Tinha-me reconhecido, percebi-o então. Disse-me “Sim, Estefânia, está tudo bem”. E com isso seguiu em frente na sua vida e nos seus pensamentos com certeza mais importantes do que tudo aquilo que eu poderia ter para lhe dizer. Na época perguntei por ela a quem se tinha mantido mais presente pela vila. Soube que nunca tinha casado, não tinha filhos e, agora que os pais tinham falecido, vivia sozinha com os seus animais.

Nunca mais vi Selma. Soube, há uns tempos que faleceu, inesperadamente. Como um lume que se apaga, como um fogo que se extingue, assim desapareceu Selma deste planeta terra. Gosto de pensar que voltou para um mundo ao qual ela pertencia, de facto, e com o qual se identificava.

Quando penso nela, como é hoje o caso, sinto alguma pena por não ter nunca desenvolvido uma relação mais rica com este ser diferente. Fico sempre com a sensação que ela era dona de alguma verdade sobre o mundo que nunca partilhou comigo. Era diferente de todos nós e por isso nunca quis procurar perceber o que se escondia por trás daquele semblante frio e distante. Tenho pena por isso. A verdade é que ainda hoje, a estranha Selma me intriga. Em criança sentia que tinha aparecido de geração espontânea e encaro a sua morte como um fogo-fátuo que se extinguiu sem deixar grandes recordações nem memórias em ninguém. Decidi hoje dedicar-lhe este “Vidas – entre a realidade e a ficção”. A Selma esteve presente enquanto escrevi este texto. E a verdade é que, depois deste meu exercício de memória, Selma está sempre presente quando paro para observar as árvores em flor, as gotas de orvalho numa rosa, as cores diferentes de uma árvore. Penso que hoje a percebo um pouco melhor do que percebia antes. Agora que penso nisso, talvez tenha deixado mais memórias em quem com ela privou do que aquilo que poderíamos pensar à partida.

Espero que a estranha Selma se tenha feito presente nas vossas vidas enquanto estiverem a ler sobre ela.

“No meu tempo é que era” – O fosso entre gerações

Dia de crónica aqui pela Steff’s World – a soma dos dias para discorrer sobre o fosso que se sente entre as diferentes gerações. Enjoy! Partilhem a vossa opinião comigo!


Imagem de Hajnalka Mahler por Pixabay

Sempre ouvi aos mais velhos uma frase que tem o dom de me irritar ligeiramente. É ela a famosa: “No meu tempo é que era!” E a verdade é que, à medida que vou envelhecendo, a continuo a ouvir e, muitas vezes, já a ouço ser proferida por pessoas da minha idade. Como disse, essa frase é daquelas que têm o dom de me deixar com os pelos levemente erriçados.

É um facto que os tempos mudam imenso de geração para geração. Cresci a ouvir aos meus avós que “no meu tempo é que era…” e que “no tempo da vida pobre” (assim se referiam à sua infância) não havia tempo para brincar nem para ser criança. Frequentar a escola era, para muitos, um luxo. Dizia a minha avó que muitos nem sequer aprenderam nunca nem a ler, nem a escrever. Desde muito cedo os rapazes começavam a trabalhar no campo e as raparigas, para além de desenvolverem algum trabalho no campo, trabalhavam em casa, passando a ser “mães” dos irmãos mais novos, encarregando-se deles, tendo a obrigação de os manter alimentados e limpos. Não havia tempo para mais nada. Nem para estudos, nem tempo para brincadeiras.

Cresci a ouvir estas histórias e a pensar que a vida nestes tempos era, de facto, madrasta para estas crianças.

Depois da geração dos meus avós, seguiu-se a dos meus pais. Também eles me passaram a ideia de que o tempo de ser criança e de poder brincar era, naquele tempo (anos 50), muito escasso. Os meus pais e tios não tiveram “tempo” para se dedicarem aos estudos, tendo passado com distinção o exame da quarta classe e começado a trabalhar logo em seguida. Naquele tempo os catorze, quinze anos eram idade suficiente para se poder, e dever, começar a trabalhar (quando não era mais cedo). Como seria de esperar, cresci a ouvir dos meus pais, também, a famosa frase “no meu tempo é que era…”. O tempo deles já era diferente do tempo dos meus avós. Estes, pelos menos, já tiveram direito a uma escolaridade básica mas há que dizê-lo, em abono da verdade, também eles viveram tempos bem difíceis e trabalhosos.

Juntava-se, muitas vezes, a esta frase, uma outra que também tinha o dom de me mexer com o espírito: “Sabes lá o que é a vida!”. Muitas vezes ouvi, em criança, que era uma sortuda: tinha todas as condições para poder estudar e, ainda assim, tinha tempo para o lazer. Cresci a ouvir que passava demasiado tempo a ver televisão e que no tempo deles, com a minha idade, já trabalhavam e já tinham imensas responsabilidades.

Cedo percebi que, de geração para geração, a vida se apresentava com diferenças imensas e, ainda bem, que essa mesma vida parecia caminhar num sentido, quanto a mim, positivo, tornando-se menos exigente para as crianças e oferecendo, ao longo dos tempos, cada vez mais tempo para a criança/ jovem realizar os seus estudos e, ao mesmo tempo, usufruir de tempo livre. No fundo, a vida foi progressivamente oferecendo às crianças o tempo de serem crianças.

É esta evolução, esta forma diferente da vida acontecer que cria um fosso entre gerações e, muitas vezes, uma enorme dificuldade em compreender e em aceitar o outro. A forma de ver a vida e, sobretudo, de a viver muda de geração para geração. E nada se pode fazer contra esse facto.

Hoje, do alto das minhas quatro décadas já passadas, verifico que já existem pessoas da minha idade a defender o mesmo discurso, a proferir o mesmo tipo de frases: “No meu tempo é que era!”; “No meu tempo ficava sozinho em casa com 12 anos!”;  “No meu tempo, com 12 anos, já ajudava em casa nas tarefas domésticas!” “No meu tempo, ainda andávamos no ciclo e já sabíamos  fazer uma panela de sopa!”; “No meu tempo, mal íamos para o quinto ano, já íamos de autocarro sozinhos para a cidade e já a atravessávamos de uma ponta à outra! Tínhamos dez anos!”; “No meu tempo, a escola tinha outra exigência! Agora a escola é mesmo para meninos!”. A crítica dos meus pais porque passava demasiado tempo em frente à televisão passou hoje a ser o “passas demasiado tempo em frente a um ecrã, passas demasiado tempo nas redes sociais!”

Ainda que com diferenças no tipo de responsabilidades que cada um tinha, a verdade é que assisto exatamente ao mesmo tipo de discurso que ouvi aos meus avós e aos meus pais. Não pensei que a minha geração chegasse a ter esse tipo de discurso. Não posso negar que a maturidade que possuíamos com 13/ 14 anos não é, nem de longe nem de perto, a maturidade dos jovens que hoje têm 13/ 14 anos. Tal como, efetivamente, os nossos pais e avós possuíam, com essa idade, toda uma outra visão da vida e do mundo, toda uma outra maturidade.

Mas, pergunto eu, de quem será a culpa? Será da juventude que, de geração para geração, se torna mais imatura ou a culpa será da geração que a educou?

Façamos um pequeno exercício de análise aos nossos comportamentos: deixamos os meninos cozinhar a partir de que idade? Com que idade é que os deixamos ir a pé para a escola sozinhos? Não fomos nós que os desresponsabilizamos de tudo? Não fomos nós que sempre achámos que ainda eram demasiado novos para fazer isto ou aquilo? Não fomos nós que achámos que não deviam ajudar em muitas tarefas domésticas para, assim, poderem estudar? Não fomos nós que sempre achámos que não eram capazes, que facilitámos com sopas passadas e frutas descascadas? Sejamos conscientes! Que direito temos nós de dizer “No meu tempo?”

Importante será, diria eu, (mais do que apontar e sublinhar as diferenças que existem entre cada geração) compreender o outro, procurar perceber o porquê de o outro ser diferente de nós, compreender que o mundo está em constante transformação e que, do mesmo modo, as pessoas também estão em constante mudança. Como tal, é normal que os hábitos, gostos, práticas se alterem de geração para geração. Para além disso tudo será importante perceber que nós, a geração anterior, temos a nossa quota parte de culpa nas diferenças de comportamento que sentimos nos mais novos. Fomos nós que os educámos, fomos nós que criámos aqueles pequenos seres.

Compreender e aceitar a mudança. Compreender e aceitar o outro. Duas máximas que deveríamos ter presentes para tornar as relações humanas mais humanas e para conseguir que o fosso entre as gerações não se tornasse tão fundo.

Lee Miller – a fotógrafa que tomou banho na banheira de Hitler

Hoje escolhi trazer-vos a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” para vir falar de mais uma mulher que viveu de forma surpreendente, que fez diferente e cujo nome deveria ser mais relembrado do que aquilo que efetivamente é. Hoje venho falar-vos de uma feminista antes do seu tempo, artista surrealista, modelo e a primeira fotógrafa feminina de guerra. Foi ainda musa de Picasso e de Cocteau, uma socialite e precursora da food porn. Viajou pelo mundo, fotografou a IIª Guerra Mundial, sendo uma das primeiras civis a testemunhar o horror dos campos de extermínio.  Deixou, quando morreu, centenas de segredos num sótão.

Lee Miller é uma mulher que merece, sem qualquer dúvida, ser relembrada como “ela, a que fez a diferença”. Venham daí conhecer a fascinante Lee Miller.

Lee Miller, na sua fase de modelo, fotografada para a Vogue , em 1931

Elizabeth Lee Miller nasceu num estado de Nova York, em Poughkeepsie, em 1907. O seu pai também era fotógrafo (amador) pelo que, desde a mais tenra idade Lee se habituou a pousar para as câmaras, tendo servido como modelo para imensas fotos do pai. Ele usava-a de um modo quase obsessivo para as suas fotos, até mesmo em nus fotográficos que hoje poderiam ser tidos como perturbadores. Sabe-se hoje que Lee Miller tinha apenas sete anos quando foi violada por um conhecido da família, tendo contraído, fruto da violação, uma doença sexualmente transmissível. Para curar o seu corpo a mãe dava-lhe banhos infindáveis e desinfetava tudo em que tocava. Já o pai – e a conselho de um psiquiatra – tentava fazê-la recuperar o controlo do próprio corpo , exibindo-o permanentemente nas fotografias. Para além de servir como modelo o pai também se preocupou em ensinar-lhe aspetos técnicos e artísticos da fotografia. Estariam lançadas as sementes das suas profissões futuras.

A sua carreira de modelo iniciou com uma daquelas histórias que parecem retiradas de uma qualquer comédia romântica. Com 19 anos, enquanto caminhava por Manhattan foi quase atropelada. Valeu-lhe um homem que, vendo a cena, a conseguiu salvar. Esse “salvador” não era outro que Condé Montrose Nast, o editor da revista Vogue que logo a convidou para trabalhar na Vogue. Lee aceitou e em 1927, com apenas 19 anos, era capa da revista. Em pouco tempo tornou-se numa das modelos mais bem sucedidas da época, dando a cara por criadores como Lanvin ou Chanel.

Contudo a personalidade de Lee não se contentava com uma vida tao mundana como essa de ser modelo. A essa insatisfação juntou-se um caso que hoje não teria qualquer importância mas que a ela lhe custou a carreira de modelo. Uma foto sua terminou numa publicidade a pensos higiénicos (sem a sua autorização). Isso provocou um escândalo. Era a primeira vez que um produto de higiene íntimo era promovido por uma mulher de verdade. As outras marcas consideraram indigno que a sua cara fosse associada a esses anúncios e deixaram de a contratar. Lee não se incomodou e não pensou muito no assunto…

 Em 1929 fez as malas e viajou para Paris, um país e uma cidade que seriam, com certeza, bem menos puritanos.. O seu intuito era aprender fotografia e arte surrealista com Man Ray (pintor, fotógrafo, cineasta norte-americano, importante figura do surrealismo em Paris). Ainda que, num primeiro momento Man negasse aceitá-la como estudante, depressa ela se tornou a sua assistente e modelo, assim como a sua musa e amante. Entre o seu círculo de amigos contavam-se Pablo Picasso, Paul Éluard e Jean Cocteau. Lee acabou por abrir o seu próprio estúdio fotográfico, fazendo, muitas vezes, trabalhos de Man para que ele, deste modo, ficasse livre para pintar. Várias fotos desta época atribuídas a Man são, efetivamente, da autoria de Lee. A estadia de Lee em Paris terminou quando, numa discussão com Man Ray sobre a autoria de uma série de fotos, ele a agrediu com uma lâmina e lhe cortou o pescoço.

Em 1932 voltou para Nova York onde abriu um estúdio fotográfico juntamente com o seu irmão. Esta foi uma aposta conseguida uma vez que o estúdio se tornou bastante lucrativo tendo clientes com Elizabeth Arden, Helena Rubinstein, entre outros. A verdade é que toda a alta sociedade queria ser imortalizada pela sua câmara. Contudo, a determinada altura, fechou o estúdio para umas férias de dois meses…as férias prolongaram-se e nunca mais lá voltou.

O seu caminho acabou por se cruzar com um rico empresário egípcio de seu nome Aziz Eloui Bey, com quem casou. E foi assim Lee Miller chegou ao Cairo. Foi no Egipto que ganhou o gosto pela fotografia de cidades abandonadas e desertos a perder de vista. A mulher que tinha vivido entre Nova York e Paris levou 3 anos a cansar-se desta vida mais calma no Egito. Ainda assim, cansou-se e pediu o divórcio. Aziz não se opôs e deu-se a separação.

Numa visita a Paris, em 1937, irá conhecer Roland Penrose, com quem iniciará um relacionamento e com quem regressaria a Londres antes do início da IIª Guerra Mundial. Aí trabalhou como fotógrafa freelancer para a edição inglesa da Vogue. A guerra iniciou-se e encontra Lee ainda por Inglaterra. E embora ela se intensificasse e todos lhe pedissem para abandonar a Europa, como fizeram a maioria dos norte-americanos, Lee preferiu permanecer em Londres, decidindo, simultaneamente, dar uma nova orientação à sua arte.

Em 1942 convenceu a Vogue a conseguir-lhe uma credencial e tornou-se correspondente do Exército dos EUA, trabalhando ao lado do jornalista David E. Scherman, da Life. A Vogue encontrava-se um pouco cética em enviar Lee M. mas a verdade é que, com ela, tiveram acesso a material excecional. No Dia D (6 de junho de 1944) acompanhou de perto as tropas norte-americanas no desembarque. Após o desembarque na Normandia, ela e David percorreram durante meses uma Europa devastada pela guerra. Foi a primeira mulher fotojornalista na linha da frente do combate na Europa. Fotografou, por exemplo, a libertação de Paris. Ainda com David, fotografou as ruínas de Munique. Testemunhou a morte de dezenas de crianças num hospital de Viena. Visitou e fotografou  as casas dos ex-comandantes do Exército alemão onde jaziam os corpos daqueles que preferiram suicidar-se com as suas famílias do que ser julgados e não hesitou em fotografar os sobreviventes dos campos de concentração. Fotografou a libertação de Buchenwald e Dachau. Com a sua câmara registou a dor, o sofrimento e a morte. Captou as várias faces do mal. Essas seriam imagens que a iriam perseguir pelo resto da sua vida. Quanto enviou as foto para a Vogue acrescentou uma nota: “Imploro-vos que acreditem que isto é verdade”. A revista não hesitou e publicou a reportagem com a seguinte mensagem: “Acreditem”.

Depois de três meses a fazer reportagens sobre o conflito ela e Scherman tiveram oportunidade de fazer uma das fotos  mais icónicas do pós-guerra, cheia de simbolismo. Subiram ao apartamento onde Hitler morava desde os 20 anos. Diz-se que Lee guardava o seu endereço há anos. Ambos se encontravam exaustos, física e mentalmente. Nenhum tomava banho há semanas. A situação apresentou-se e ambos a aproveitaram.  Lee posou para  David:  nua, enquanto tomava banho na banheira do apartamento de Adolf Hitler. O olhar perdido num quarto branco despido. Apenas o barro de Dachau que ainda se podia ver nas botas nos podia garantir que aquela cena era muito mais que um momento da vida quotidiana. Era Lee, mais uma vez, a pousar para a câmara mas, neste momento, representando um mundo livre. Muitos a criticaram por essa foto, acusando-a de frívola. Mas a verdade é que Lee apenas tentava exorcizar, como tinha feito em criança, o horror, a tristeza que tinha testemunhado, através da fotografia.

Lee Miller no apartamento de Hitler

Com o fim da guerra, Lee continuou a trabalhar para a Vogue por mais dois anos, fotografando eventos de moda e celebridades. Nessa época Lee sofreu vários episódios depressivos, vindo mais tarde a perceber-se que sofria de stress pós-traumático. Começou a beber muito o que prejudicou a sua vida e a sua carreira. Em 1947 descobriu que estava grávida do seu companheiro, Roland Penrose e ambos decidem casar. Nesse mesmo ano nascerá Antony Penrose. Compraram uma fazenda, em Sussex, onde passaram a viver. Ela abraçou a vida doméstica com o mesmo vigor que tinha abraçado as suas experiências anteriores. A casa tornou-se um local de encontro de artistas e de festas intermináveis. Apesar desse ambiente de festa o estado depressivo de Lee não mais a abandonou.

Ainda assim, ainda teve tempo de se reinventar. Passou a interessar-se pela culinária, graduou-se na famosa Le Cordon Bleu em Paris. Criou receitas que combinavam cozinha tradicional com o surrealismo: couves-flor rosa, esparguetes azuis, peitos de frango verdes…a sua cozinha era um reflexo de si mesma. Apesar de tomar nota todas as receitas nunca as chegou a compilar num livro (essa tarefa será levada a cabo, em 2017, pela sua neta Ami Bouhasanne num livro intitulado Lee Miller: a life with food, friends and recipes.

Apesar de toda esta vida cheia de acontecimentos, Lee passou os últimos anos da sua vida fechada num quarto que era também um bar. Distanciou-se de todos, incluindo do seu filho. Manteve uma relação complexa com ele. Antony refere ter poucas recordações da mãe e conta que ignorava todo o passado dela. Deixou de ser conhecida por Lee Miller para passar a ser Lady Penrose. Era difícil reconhecer nela a modelo que fora outrora: a depressão e o álcool cobravam o seu preço. Escondeu durante anos as suas memórias de guerra num sótão. As suas realizações tinham desaparecido uma vez que ela nunca tivera interesse em promovê-las. Morreu em 1977, com 70 ano, vítima de um cancro, na sua casa de Farleys, na Inglaterra.

Foi a esposa de Antony, Suzzana, que encontrou no sótão da família as memórias de guerra de Lee: negativos, documentos, jornais, câmaras, cartas de amor e lembranças, que a mostravam como uma personagem importante da história europeia mais recente. Desde então o seu filho, Antony Penrose tem-se dedicado à tarefa de relembrar a incrível e inspiradora vida de Lee Miller, Lady Penrose, a sua mãe.

Lee Miller foi uma mulher que viajou pelo mundo. Foi modelo fotográfica. Foi fotógrafa, tornando-se uma precursora da fotografia surrealista. Foi uma das primeiras fotojornalistas de guerra.  Cansou-se dessa vida e graduou-se na famosa escola Le Cordon Bleu. Em todas as áreas onde quis trabalhar mostrou-se sublime, arrojada diferente, apesar da sua fragilidade. Uma mulher que, quando morreu, deixou esquecidos centenas de segredos em um sótão.

Por tudo o que foi dito não poderia deixar de vos falar nesta rubrica da fascinante Lee Miller. Espero ter-vos aguçado a curiosidade e que procurem saber mais desta fabulosa personagem!

E se criássemos o Ministério da Solidão?

Uma crónica que versa sobre uma inquietação que tenho sentido: nota-se uma grande preocupação com a saúde física mas descura-se a saúde psíquica, neste nosso país. Concordam comigo?!

Deixem a vossa opinião!

Foto de Lúcia Macedo em Unsplash

Verifiquei esta semana que passou pouco mais de um ano desde o início do primeiro confinamento em Portugal. E assim, num tempo que pareceu tão eterno por um lado e tão rápido, por outro, passou-se um ano.

Por causa disso, dei por mim a olhar para o passado, para as fotografias e para o que tinha escrito, procurando perceber a forma como encarava esta pandemia, este vírus, há um ano, e verificando se a minha perspetiva se tinha, de algum modo, alterado.

Constatei que tanto nas fotografias que fui postando no Facebook como nos crónicas escritas no meu blogue que versaram sobre temas relacionados com Covid 19, pandemia, confinamento, se notava uma enorme vontade de cumprir com o que nos era pedido, uma forte crença que, se todos cumpríssemos, depressa nos veríamos livres deste vírus, e uma tentativa constante de olhar para as coisas pelo seu lado positivo.

Dessa análise percebi que, na época, via tudo isto de um modo menos negro, mais colorido pelas cores da primavera e da esperança. Acreditava que toda esta situação não se iria prolongar indefinidamente e que, tal como nos filmes cor-de-rosa, no final tudo iria correr bem. Assumi que todos tínhamos de fazer um esforço para o bem de todos e, se esse esforço implicava não socializar como sempre o tinha feito, pois que fosse. Todos agíamos pelo bem comum. Como tal, também procurei perceber que se limitassem ou se proibissem as visitas nos lares de pessoas idosas, nos hospitais e em todos os locais onde o público fosse constituído por pessoas mais frágeis por natureza, e menos capazes, à partida, de resistir a esse vírus de que tão pouco conhecíamos.

O facto é que tinha presente que havia que salvar a vida, havia que nos protegermos, e todo o resto era, de alguma forma, sensibilidades que não eram chamadas para o caso. Sentia que estávamos numa espécie de guerra e não havia tempo para muito  mais que não fosse fazer o melhor para não sermos atingidos por uma qualquer bala o que, para o caso seria, tornarmo-nos hóspedes deste novo vírus desconhecido.

Um ano depois constato que a minha perspetiva se alterou um pouco.  Não venho aqui questionar os medos sentidos ou as medidas tomadas (por nós e pelo governo) para nos protegermos. Penso (ou quero acreditar) que tudo terá sido pensado com a melhor das intenções. Contudo, já todos percebemos que esta não foi uma guerra “de 100 dias”. Está a tornar-se uma guerra bem mais longa do que aquilo que eu poderia pensar no início. E, por isso, assumo que hoje em dia penso muito mais nas sequelas que esta guerra está a deixar (físicas e psíquicas) do que pensei no início.

Essa foi uma preocupação que foi crescendo à medida que via que estes tempos de isolamento social se estavam a alongar bem mais do que esperava. Entre os “feridos” não podemos contar apenas aqueles que foram contagiados pelo vírus, aqueles que por causa dele faleceram ou aqueles que ainda sentem mazelas devido a terem contraído o malfadado vírus. Há que contar, também, com as mazelas psicológicas que tal vírus e confinamento nos estão a provocar.

Temos que admitir que a saúde, de um modo geral, em Portugal, anda pela rua da amargura. Mas se tivermos em conta a saúde psíquica então aí, a situação é bem pior, roçando o catastrófico. Não existe, de um modo geral, uma preocupação com a saúde psíquica e com o bem-estar dos portugueses. Não se tem o hábito de recorrer a qualquer tipo de ajuda a nível psíquica, enquanto tratamento profilático. Só se recorre a ela quando o caso se torna gravíssimo.

Perante isto é normal que as medidas tomadas para fazer frente à pandemia sejam acima de tudo, para proteger a saúde física. Pergunto: alguma vez existiu alguma preocupação em perceber o impacto do isolamento social nas pessoas? Que medidas foram tomadas para ajudar as pessoas a enfrentar a solidão a que foram obrigadas a submeter-se? Que medidas foram propostas nas escolas para verificar as mazelas que este isolamento terá deixado? Foram criados programas para ajudar a superar o isolamento a que foram e são votados os idosos nos lares? Procurou-se ajudá-los a superar a provável sensação de abandono? E os doentes nos hospitais que nunca receberam uma visita? E aqueles cujos entes queridos lhes faleceram e nem puderam despedir? O que se fez para ajudar todas essas dores, esses sofrimentos? Foram tomadas medidas?

Não somos um país que valoriza e se preocupa com a saúde mental. E, nesse aspeto, temos muito a aprender com outros países, como o Japão por exemplo. O governo japonês percebeu que o bem-estar do ser humano envolve bem-estar físico e psíquico. Percebeu que este isolamento social a que somos obrigados deixa graves mazelas e constatou que lá o número de suicídios aumentou pela primeira vez em onze anos. Como tal, e para fazer frente a esta crescente dor psíquica que se tem instalado, criou uma pasta e nomeou um Ministro da Solidão para ajudar a cuidar da saúde mental da população. Tal ministério tem como missão ajudar as pessoas que ainda estão isoladas em casa por causa da pandemia.

Muitos dirão que o que o país menos precisa, neste momento, é de mais um ministro e de mais uma pasta. Contudo, sou de opinião que, neste momento urge preocupar-nos com a dor psíquica que este isolamento tem provocado, urge preocupar-nos com a solidão de que se sofre, de um modo mais ou menos envergonhado, urge conceder cuidados de saúde plenos a todos os que deles necessitam, percebendo que a saúde psíquica não pode ser descurada. Salvar a população  não pode ser entendido como apenas e só diminuir o número de contágios. Todas as medidas que forem tomadas no sentido de ajudar a lutar contra as mazelas deixadas pelo isolamento social são úteis e, a meu ver, muitíssimo necessárias.

O Senhor Virgílio

Na Steff’s World – a Soma dos dias hoje trazemos um conto que teve como base alguns versos de uma música lindíssima de Charles Aznavour, “Hier Encore”. Procurem no Youtube e deixem-se embalar pela música enquanto vão lendo o conto. Enjoy!

“Hier encore, j’avais vingt ansAinda ontem tinha vinte anos
Je caressais le temps et jouais de la vieacariciava o tempo e jogava com a vida
Comme on jou de l’amourcomo se joga com o amor
Et je vivais la nuitVivia as noites
Sans compter sur mês jours que fuyaient dans le tempssem contar os dias que fugiam no tempo.
J’ai fait tant de projets qui son restés en l’airFiz tantos projetos que ficaram no ar
J’ai fondé tant d’espoirs qui se sont envoléscriei tantas esperanças que voaram
(…)(…)
Hier encore, j’avais vingt ansAinda ontem tinha vinte anos
Mais j’ai perdu mon temps à faires des foliesperdi o meu tempo com folias
Qui ne me laissent au fond rien de vraiment précis…”que no fundo não me deixaram nada de preciso…

Hier encore” – Charles Aznavour

Virgílio abriu os olhos, devagarinho. Abriu-os, voltou a fechá-los. – Que cansaço sinto – pensou ele. Parece que andei a correr a maratona! Sentiu uma quase vontade de rir. Como se ele fosse capaz de correr uma meia maratona quanto mais uma maratona! Que comparação tão idiota.

Abriu outra vez os olhos. Em silêncio observou o teto branco que não reconheceu. Lentamente passeou os olhos pelo cómodo onde se encontrava. Teto branco, paredes brancas…que coisa tão monocromática… À frente dele mais uma cama, vazia. Ao lado dele, outra cama. Ao todo, com a dele, contavam-se quatro camas, naquele quarto. Apenas uma estava ocupada – conseguia ver um vulto – mas não conseguia perceber quem a ocupava.  Virgílio, Virgílio…ou estás bem enganado ou estás num hospital. Como raio vieste aqui parar? Virgílio falava para si, enquanto ia escavando na sua memória. Qual era a última coisa de que se lembrava? Como raio viera aqui parar? O que lhe teria acontecido? Todas estas questões bailavam na sua cabeça, mas não encontrava qualquer resposta.

Se não fosse esse cansaço tão grande que sinto, já me levantava para fazer todas estas perguntas! Alguém haveria de aparecer. Mas, raios, parece que não posso com uma gata pelo rabo!

Continuava nessas divagações quando sentiu uma porta abrir. À sua frente apresentou-se uma mulher de meia idade, sorridente, que, olhando-o bem nos olhos disse:

-Então, senhor Virgílio! Que bom vê-lo acordado! Que olhos bonitos! Andava a escondê-los, estou a ver!

E esta linda e simpática flor é? – Toda a vida Virgílio fora conhecido por ser pródigo em galanteios. Ainda que a idade estivesse avançada não tinha perdido esse hábito de ser simpático e atencioso, sobretudo para com o sexo feminino.

Esta flor – respondeu a enfermeira com um pequeno riso – é a enfermeira Rute. Senhor Virgílio, pregou-nos um susto grande. O doutor Reis virá, assim que possível, explicar a sua situação. E aqui o senhor Arnaldo, ainda dorme?

A enfermeira Rute foi espreitá-lo e vendo que ainda dormia, disse – Vamos deixá-lo dormir mais um pouco. Ainda não é tarde para a medicação. Senhor Virgílio, sente-se com fome? Vou enviar alguém que lhe traga o pequeno-almoço. Entretanto também deverá vir o doutor Reis visitá-lo.

Virgílio deixou-se estar deitado até porque, para além de se sentir extremamente cansado, sentia como se lhe tivesse passado um autocarro em cima.

Passou-se naquele quarto algum tempo no maior silêncio possível – Virgílio não saberia dizer se tinham transcorrido 10 minutos ou duas horas – até que chegou um jovem de bata branca, sorridente que, dirigindo-se a Virgílio lhe disse:

-Bom dia, senhor Virgílio, sou o doutor Reis. Pregou-nos aqui um pequeno susto, não foi?

Virgílio olhou para o médico que tinha à sua frente e disse-lhe, com a maior sinceridade possível. Pois que não sei. Não faço ideia do que aqui me trouxe. Não me consigo lembrar do que terá acontecido…

O Dr. Reis franziu um pouco o sobrolho. Começou a questioná-lo. Como se chamava? Que idade tinha? Qual era a sua morada? Qual era o seu número de telemóvel. A tudo Virgílio respondeu com clareza e sem dificuldade no pensar. Depois de tantas questões, Virgílio disse. “Doutor, eu sei quem sou! Só não sei o que faço aqui!” E ao dizer isso começou a rir, num riso profundo e quase silencioso. Sempre fora dado a piadas espirituosas, não conseguiu evitá-lo.

O médico sorriu. Passou a explicar. Virgílio tinha sido vítima de um atropelamento e fuga. Tinha sido encontrado numa rua, estendido no chão e tinha sido uma transeunte que tinha chamado a ambulância. Ao ouvir isso Virgílio tentou mover braços e pernas. Perguntou ao doutor se tinha alguma coisa partida, uma vez que parecia que mexia bem todos os membros. O Dr. Reis explicou então que estava apenas amassado, não tendo nada partido. Aquilo que mais os preocupava era a cabeça, que tinha sofrido uma pancada forte. Por isso teria de ficar uns dias no hospital para observação e realizar alguns testes. Acrescentou: “Senhor Virgílio, quem devemos contactar? Deve haver gente preocupada consigo. Não trazia telemóvel nem carteira ou então perdeu-os quando foi atropelado…”

Virgílio olhou para o Dr. que tão simpático estava a ser e disse: “Não há ninguém para contactar. Sou um homem só. Não tenho mulher nem filhos…e nenhum amigo que se preocupe o suficiente para vir cá visitar-me ao hospital. Neste momento, nem um animal em casa que me possa esperar eu tenho. Sou mesmo um passarinho livre!”

O Dr. Reis assentiu e informou-o que não se poderia levantar sem a presença de um enfermeiro e que em breve viriam dar-lhe um pequeno-almoço para ver como reagia o corpo.

Todo o dia se passou num clima de calma relativa. O seu companheiro de quarto era pouco falador. Quando acordava, lia um livro e as tentativas de Virgílio encetar conversa tinham naufragado num silêncio ensurdecedor. Nem a visita de uma mulher que, provavelmente, seria a sua esposa o fez ter um diálogo animado. Respondia à mulher por monossílabos com um ar de enfado para com as pessoas e para com a vida. Virgílio tinha-se levantado com todos os cuidados mas, apesar das dores que sentia no corpo todo, e da dor de cabeça lancinante que ressentia, tinha conseguido ir à casa-de-banho sozinho (a degradação maior de um homem seria precisar de uma mulher para ir à casa-de-banho – pensava ele) e a comida que lhe tinha sido dada, apesar de péssima, tinha passado sem lhe trazer enjoos. Pensando bem na situação, para quem tinha sido atropelado, até estava muito bem. Tão bem que à noite perguntou quanto tempo o iriam reter por ali. A enfermeira da noite, bem menos simpática que a Rute da manhã, apenas respondeu que seria o tempo necessário.

No dia seguinte, Virgílio sentia que a cabeça lhe doía um pouco menos. À hora da visita lá veio a mulher do vizinho visitá-lo mas o silêncio mantinha-se. Era tão incomodativo que decidiu tentar ler um jornal para não dar atenção àquela situação aborrecida. Pensava de si para si: “Anda, Virgílio, tu é que tiveste sempre juízo. Nos dias em que repensas a tua vida e pensas que devias ter casado, lembra-te destes dois! Deus me livre!…”

Estava Virgílio perdido nas suas leituras e na vã tentativa de se abstrair da relação do seu companheiro de quarto com a sua mulher, quando entrou uma jovem loira, sorridente, que logo se dirigiu à cama de Virgílio:

Ai fico tão feliz por ver que está bem melhor! Temi tanto por si quando o vi desmaiado naquela estrada!

Virgílio olhava para ela sem conseguir bem entender o que se estava a passar. Ter-se-ia a jovem enganado? Era o mais certo!

Aline leu a perplexidade que se espalhava no rosto do idoso e, levando a mão à boca ao mesmo tempo que pedia desculpa, disse:

– Ai desculpe, nem me apresentei. Sou sempre assim despachada…não me leve a mal. Sou a Aline. Fui quem o encontrou estendido na estrada e chamei a ambulância. Fiquei tão preocupada consigo! Fui telefonando para o hospital para saber de si. Olhe, bem simpáticos por aqui, não acha?! Foram sempre informando do que se passava. Não imagina como fiquei feliz quando hoje me disseram que tinha acordado e que estava melhor!

Virgílio sentia de perto aquela energia toda. Quase se sentia meio perdido com a força e movimento que emanava daquela miúda. Mas que tinha um ar simpático, ah isso tinha. E, pelos vistos, a ela devia o ter sido levado para o hospital depois de ter sido atropelado. Gostou instintivamente dela.

Aline foi ficando por ali algum tempo, conversando com Virgílio sobre tudo e nada até que, de um momento para o outro se levantou, num salto, enquanto dizia: “Ai, senhor Virgílio, então, quase me esquecia do mais importante! Tenho aqui o seu telemóvel! Apanhei-o no meio da estrada e instintivamente guardei-o no bolso. Quando dei conta que ainda o tinha, já a ambulância tinha seguido. Olhe, decidi guardá-lo e trazê-lo cá no primeiro dia que o visitasse. Aqui está! Peço desculpa é pelo ramo de flores. Deixei-o lá…também estava meio maltratado, provavelmente de ter caído ao chão.

Virgílio pegou no seu telemóvel sem grandes ânsias. Quem lhe poderia ter ligado ? – pensou de si para si. Ramo de flores? Provavelmente não seria meu, pensou. Para quem levaria eu um ramo de flores? Contudo, enquanto pensava nisso, imagens dele mesmo a trocar mensagens, a preparar-se, a olhar-se ao espelho, ajeitando a roupa, passaram pela sua cabeça, num relâmpago. Coisa estranha –  pensou ele.

Continuou a conversar um pouco com Aline. Sem dúvida que era uma miúda simpática. Quando chegou a auxiliar com o lanche, Aline despediu-se de Virgílio que não conseguiu controlar-se e perguntou: “Virás visitar-me mais vezes? Gostei de te conhecer!”

Aline sorriu e prometeu visitá-lo mais vezes. Tinha gostado daquele senhor. Parece que se tinha criado um laço instantâneo entre eles, quase como a o sentimento que une uma neta e um avô.

Quando Aline foi embora, e depois de lanchar, Virgílio sentia-se cansado, pensou em recostar-se. Contudo, lembrou-se do telemóvel e olhou para ele. Verificou que o ecrã estava meio partido mas funcionava. Que estranho – pensou – tantas chamadas não atendidas… Ao clicar nas chamadas não atendidas verificou que eram todas do dia do acidente de uma tal Mariana. Quem era Mariana? Virgílio começou a ficar preocupado. Teria perdido a memória? Decidiu investigar mais no seu próprio telemóvel. Verificou que tinha muitas mensagens dessa tal Mariana. Leu uma por uma. Aos poucos pareceu que a memória se avivava mas sentia-se tão cansado que nem deu por adormecer. Foi um sono irrequieto, povoado de sonhos. A meio da noite acordou num sobressalto. Como poderia ter esquecido da querida Mariana? Todas as memórias lhe regressaram naquela noite e um só nome martelava na sua cabeça: Mariana. Como lhe podia ter falhado desta maneira? Onde iria arranjar coragem para lhe telefonar, depois de lhe ter falhado assim?

Tal como prometido, Aline regressou no dia seguinte. Virgílio sentiu um assomo de felicidade quando a viu. Falaram de tudo um pouco, das suas vidas, dos seus gostos. Virgílio sentia que conhecia Aline desde sempre. Contou-lhe a sua vida que poderia caracterizar de solitária. Nunca tinha casado. Tinha vivido a sua vida numa permanente roda-viva, semeando amores em muitos lados mas nunca assumindo nenhum. Sabes, minha querida, nem dei conta de que o tempo passava. À minha volta os amigos casaram, tiveram filhos, alguns divorciaram, outros não. Grande parte deles já são avós. Passou tudo tão depressa. Parecia que ainda ontem tinha vinte anos/ acariciava o tempo e jogava com a vida/ como se joga com o amor. Vivia as noites sem contar os dias que fugiam no tempo. Fiz tantos projetos que ficaram no ar, criei tantas esperanças que voaram e desapareceram…Ainda ontem tinha vinte anos,…perdi o meu tempo com folias, que no fundo não me deixaram nada de preciso: não tenho um casamento, não tenho uma família, os meus amigos partiram e eu estou aqui, sozinho…

Aline ouvia aquele idoso com as lágrimas nos olhos. Como é que um velhinho tão simpático tinha falhado assim tanto na sua vida? Senhor Virgílio, nunca teve um amor maior? Alguém com quem quisesse criar uma vida em conjunto?

O olhar de Virgílio perdeu-se no ar. Decidiu continuar a contar-lhe a sua vida. Sabes, Aline, apaixonei-me com 10 anos. Era a miúda mais bonita da aldeia. Dona de uns olhos negros que apaixonavam qualquer um. Sabes que a cheguei a pedir em casamento tinha eu doze anos? Até lhe ofereci um anel! Foi minha namorada oficial até aos meus 16 anos. Gostávamos mesmo um do outro. Depois, de um dia para o outro, saiu da aldeia. Ainda trocámos umas cartas mas, aos poucos, as cartas foram-se espaçando e acabámos por perder o contacto. Sinto que foi a mulher que mais amei até hoje. Foi um desgosto quando deixámos de nos ver. Ainda hoje me questiono se foi esse desgosto que me terá tornado num bon vivant  ou se eu estava mesmo fadado para ser um homem de 1000 amores sem me demorar em nenhum deles. E sabes o que é mais engraçado? Achei que ao fim de mais de 50 anos a ia reencontrar. Procurei-a no Facebook e encontrei-a. Temos trocado mensagens e falado! Ia ter com ela no dia em que fui atropelado…

Aline sentia as lágrimas a quererem cair-lhe. Como é que um homem tão sensível tinha falhado assim tanto nos afetos ao longo de toda uma vida? – questionava-se ela. E entretanto, já falou com ela? Já a viu? Ela já o veio visitar aqui ao hospital?

Virgílio negou com a cabeça. Não tinha tido coragem de lhe ligar. Estava velho, é um facto. Mas desde que tinha chegado ao hospital sentia-se ainda mais velho. Sentia que a idade se tinha abatido sobre ele. Preferia não a ver. Por isso não tinha ligado, nem tinha explicado o que se tinha passado. Seria melhor assim. O acidente não tinha acontecido por acaso. Não estava traçado no destino voltarem a encontrar-se. Ele era uma sombra do jovem que ela tinha conhecido. As fotos que lhe mostrara dele eram demasiado lisonjeadoras. Toda a vida fora fotogénico!

Aline achou toda aquela conversa disparatada. Disse-lhe que considerava que ele se estava a autossabotar. Que tinha de ser mais corajoso!

Virgílio não quis continuar a conversa e, para deixar bem claro que a conversa tinha terminado anunciou que estava cansado e que queria dormir.

Aline anuiu e disse que ia embora. Contudo, quando ia a caminho da porta, voltou para trás. Pé ante pé voltou para junto de Virgílio, procurou o telemóvel que estava largado junto dele e, com toda a discrição, anotou um número que pretendia.

No dia seguinte, à hora da visita, Virgílio observava o seu companheiro de quarto e a sua mulher. Ele lia o jornal, ela observava a rua. Ah, como é bom estar casado! – pensava Virgílio de forma irónica. Ouviu uns passos e começou a sorrir. Devia ser a “pequena”. Assim tinha denominado Aline. Contudo, não foi a pequena que apareceu. Foi uma mulher linda, dona dos olhos negros mais brilhantes que alguma vez tinha visto que entrou, sorriu para ele e que lhe disse:

“Raios, Virgílio, pensei que tinhas decidido deixar-me plantada! Que me tinhas visto ao longe e que me tinhas achado demasiado velha! Não tivesses tão amassado, tratava-te da saúde!”

Virgílio sentiu um estranho calor no peito. Não teve outra reação se não sorrir e dizer-lhe: Desculpa! Como poderia achar-te velha? Continuas magnífica!

Sorriram um para o outro e, estranhamente, ambos tiveram a certeza que iriam retomar a sua história no mesmo ponto em que a tinham deixado, quando tinham 16 anos.

Faz sentido comemorar o Dia Internacional da Mulher?

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, procurei responder à seguinte questão: “Faz sentido comemorar o Dia Internacional da Mulher”?

Convido-vos a ler as minhas conclusões e a partilhar as vossas próprias ideias e conclusões comigo.

Imagem de ALBERTO H. FABREGAS in Pixabay

Tenho de vos informar, antes de mais, que gosto que se festejem certos dias, que se assinalem datas, que se recorde pessoas ou assuntos importantes em determinados dias do calendário.

Considero absolutamente irritante aquelas pessoas que, pese embora tenham esse direito, passam a vida a queixar-se que “todos os dias são dia de alguma coisa e que não há paciência para tanta efeméride”. É um facto que há efemeridades que não lembram ao demónio como o dia 28 de maio que é o Dia da Masturbação ou o meu próprio dia de aniversário, 24 de junho, que é o Dia Mundial do Disco Voador (prefiro lembrar que é dia de S. João). Mas temos também, para além das datas do calendário cristão que, por cá, gosto de assinalar e festejar, Páscoa e Natal, por exemplo, datas que considero importantes que sejam assinaladas e relembradas. Cito, a título de exemplo, o Dia Internacional em Memórias das Vítimas do Holocausto, no dia 27 de janeiro, o Dia de Luto pelas Vítimas de Violência Doméstica, no dia 7 de março, ou o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, no dia 3 de dezembro. E, tal como esses dias citados, considero que  o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, deve ser assinalado, sublinhado e comemorado.

O Dia Internacional da Mulher foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas no ano de 1977. Considerou-se que a data serviria para destacar e reconhecer a importância e a contribuição do sexo feminino para a sociedade. As origens deste dia remontarão a meados do século XIX ou até início do século XX. Foi nessa época que as trabalhadoras começaram a sair à rua e a exigir o direito de voto, a melhoria das condições de trabalho  e a lutar pela igualdade de género.

Olhando para trás verificamos que a luta já vai longa (mais de um século). A comemoração do dia também já vai tendo a sua idade – mais de quarenta anos. Ainda assim não entendo por que raio cada vez mais ouço comentários menos abonatórios e até piadas sobre a celebração deste dia. Ouço, por estranho que pareça, muitas mulheres dizer que se recusam a comemorar esse dia. Será que sentem que celebrar este dia é desnecessário?

É um facto que aqueles jantares preenchidos por mais de 50 mulheres que, muitas vezes, abusam do álcool e daquilo a que convencionei chamar de “gritos de liberdade momentânea” não abonam muito a favor do dia e da causa. Mas, quanto a mim, nada disso representa uma celebração do Dia da Mulher e, de facto, não são, quanto a mim, a melhor forma de comemorar o dia.

Sou daquelas que considera que o dia deve ser sublinhado e comemorado. Abdico da flores (em qualquer altura mas ainda mais nesse dia); abdico dos chocolates; abdico dos cartões virtuais que me dão os parabéns por ser o Dia da Mulher. Mas não abdico de aproveitar este dia para relembrar que ainda há um longo caminho a ser trilhado neste mundo para se atingir a pretendida igualdade de géneros.

É a minha firme convicção que o Dia Internacional da Mulher deverá continuar a ser celebrado enquanto as mulheres continuarem a ser vítimas de tráfico de seres humanos, sendo que a maioria é traficada para fins de exploração sexual e exploração laboral (cerca de 80% das vítimas deste tipo de tráfico são mulheres);

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto se continuar a praticar a excisão total ou parcial de órgãos genitais femininos que atinge um número incontável de meninas e mulheres. Estima-se que, só na Europa, existam mais de 500 mil mulheres mutiladas.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto continuar a ser permitido, em certos países, os casamentos infantis.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto em qualquer ponto do mundo for negado o direito à educação e ao ensino apenas por se ser mulher!

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto se mantiver a certeza que a larga maioria das vítimas de violência doméstica são mulheres.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto tivermos juízes que tomam decisões em casos de violência doméstica com base em conceitos retirados da Bíblia, ou fazendo fé no arrependimento e bom senso do agressor.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto as vítimas de violação continuarem, de um modo mais ou menos velado, a ter que provar que não provocaram a situação, não provocaram um clima de sedução mútua. Teremos nós que relembrar, a toda a hora, que o  direito de dizer “não” em qualquer momento, é um direito que assiste a qualquer ser humano?

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto não for reconhecido o direito à mulher de se vestir como bem pretende sem ter que ser assediada ou ouvir comentários como “Está à procura de problemas”.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto se mantiverem as assimetrias salariais (as diferenças entre o salário auferido por um homem e por uma mulher chegam a ser gritantes) que todos conhecemos.

O dia deverá continuar a ser celebrado enquanto as mulheres forem preteridas em relação aos homens em certos empregos porque estes não engravidarem! Deverá ser celebrado enquanto, em entrevistas de emprego for questionado se a mulher pretende engravidar nos tempos mais próximos!

(…)

A lista seria muito longa…poderia continuar por várias páginas. A verdade é que ser  mulher é uma condição que depende muito do país em que nos encontramos. Assumo que ser mulher no ano de 2021 em Portugal é bem melhor do que ser mulher noutros tempos ou noutros países. Não nego esse facto. E posso até dizer que tem sido feito algum caminho no sentido de melhorar a situação da mulher. Mas não se pense, por isso, que estamos num país com total igualdade de géneros, em que tudo é fácil e por isso, não faz sentido comemorar o Dia Internacional da Mulher. Portugal continuar a ser regido por uma sociedade onde o machismo apresenta raízes profundas e onde as mulheres continuam numa luta pelo direito a reger a sua vida da forma que bem possa apetecer-lhe. Como tal, mesmo por cá, a luta continua e continua a fazer sentido!