Mamadou, o migrante do Senegal

Há muito, muito tempo mesmo, que não trago aqui ao blogue a rubrica “Vidas – entre a realidade e a ficção”. Tanto tempo que considero que talvez deva relembrar que nesta rubrica falo de pessoas comuns, com vidas perfeitamente ordinárias. Ainda assim, e por alguma razão, apetece-me falar-vos delas e dar-vos a conhecer essas pessoas que, por alguma razão, me parecem dignas de gerar interesse. Relembro ainda que as personagens que aqui vos trago podem apenas existir na minha imaginação, serem, pelo contrário, personagens absolutamente verdadeiras ou terem um tanto de real e outro tanto de ficcionado. A decisão será vossa!

Posto isto, hoje quero falar-vos de alguém que conheci este verão. Não sei se também vos acontece mas se há personagens com as quais gosto de conversar um pouco e procurar saber um pouco das suas vidas são os vendedores de toalhas de praia, pulseiras, óculos e mais umas quantas bugigangas que percorrem as nossas praias durante todo o verão. Penso sempre que carregam com eles, para além daqueles expositores cheios de bijutaria e daquelas toalhas ao ombro, uma história de vida interessante e diferente daquilo a que estamos habituados. Como tal, sempre que me é possível, procuro conversar com eles e saber um pouco das suas histórias.

Foi assim que conheci Mamadou. Mamadou apresentou-se como vendedor de pulseiras e colares. Não vos poderia falar dos olhos de Mamadou, do seu nariz. Não seria capaz, neste momento, de pintar o seu rosto, nem que fosse em pinceladas largas. Dele apenas lembro o sorriso rasgado que lhe iluminava o rosto. Gosto de pessoas que sorriem. Pessoas que sorriem com a boca toda, claro, mas também com os olhos e com o rosto todo. É-me impossível não simpatizar logo à partida com esse tipo de pessoas. E Mamadou era assim. Um simples “Olá menina, queres comprar uma pulseira?” e eu já estava rendida ao Mamadou e à sua simpatia. E, acima de tudo, já sentia em mim a velha curiosidade a instalar-se!

Disse-lhe que queria ver de mais perto das bijutarias que trazia. Foi o suficiente para o Mamadou se instalar. Percebi desde muito cedo que Mamadou pertencia ao mesmo tipo de pessoas que eu própria: um conversador por natureza, interessado pelas pessoas e pelo mundo. Em poucos minutos já parecíamos amigos de longa data. Encostou-se e não se fez rogado às minhas questões, desfiando os acontecimentos da sua vida sem qualquer pudor. Disse-me que era senegalês. Tinha abandonado o Senegal procurando melhor vida. O seu primeiro destino tinha sido Espanha mas quis a fortuna que viesse até Portugal trabalhar. E disse-me, sempre com aquele sorriso, que adorava o nosso país e que não considerava abandoná-lo tão depressa. Já tinha passado por outros países mas era neste que sentia que poderia construir uma casa. Não sei até hoje se aquele era um discurso treinado para agradar aos veraneantes portugueses mas a verdade é que gostei de o ouvir. Conhecia e tinha passado por vários países. Dessas viagens tinha guardado as paisagens, que dizia serem quase tão bonitas como as de Portugal, e algum conhecimento das línguas de cada um. Disse-me que falava não só francês, como inglês, espanhol, alguma coisa de italiano e, claro, o português. E a verdade é que me disse algumas frases nessas línguas e parecia saber do que falava.

Ainda assim, depois de tantas viagens, Portugal era o país de eleição. Disse-me que tinha deixado no Senegal mulher e filhos. Senti alguma saudade na sua voz quando me falou deles. Ela, a mulher, foi apelidada de Leoa. A Leoa era, de acordo com as palavras dele, uma mulher e mãe de mão cheia. Era ela quem fabricava parte das pulseiras que ele vendia e que depois enviava para ele (acho que me contou isso como uma história que tantas vezes repetiu que já acreditava ser verdadeira!…) Contou-me que esperava já ter amealhado dinheiro suficiente, no próximo ano, para poder mandar vir para cá a família. Para ser completamente feliz, dizia ele, necessitava de ter a sua Leoa por perto e os seus leõezinhos.

Já desconfiava da sua resposta mas perguntei por que razão não tinham todos emigrado ao mesmo tempo, não se separando dos seus mais próximos. Foi este o único momento em que senti o olhar dele ficar sombrio, o semblante carregar-se como que me pareceu ser uma dor profunda. Apagou-se, por momentos, o sorriso e ensombrou-se-lhe o rosto. Respondeu, com o olhar perdido no horizonte, que não desejava que nenhum dos seus passasse e visse o que ele tinha visto para sair do seu país. Tinha vindo, como tantos migrantes, num barco pelo qual tinham pago uma fortuna e que não apresentava quaisquer condições. Disse, com o olhar vago, falando mais para ele do que para mim apenas esta frase lapidar: “sabes, não chegámos todos. Vi morrer colegas meus, sabes?” Fiquei em silêncio. O que poderia eu responder a uma frase destas? Penso que Mamadou também não pretendia qualquer resposta. Instalou-se um silêncio que tanto poderá ter durado segundos como vários minutos. Por momentos parecia que se tinha apagado o sol. E então, Mamadou abanou discretamente a cabeça, como quem quer apagar as imagens que povoaram a sua mente e voltou a acender aquele sorriso enorme que apagava qualquer réstia de tristeza. Olhou-me nos olhos e disse-me: E então? Não posso passar aqui a tarde! Compras-me ou não compras as pulseiras?

Soltei um pequeno riso! Que personagem tão fantástico era este Mamadou! Comprei, então, as famosas pulseiras para o pé feitas de conchas. Tenho quase certeza que as paguei mais caras do que deveria. Mas, que interessava neste caso mais um ou dois euros? Foi uma forma de lhe agradecer este texto que logo me surgiu na mente quando o conheci.

Mamadou despediu-se e nunca mais o vi. Quis antes de ir embora oferecer-me uma tartaruga que, de acordo com ele, abre caminhos. Quis acreditar que assim seria. Aceitei-a e ainda hoje a guardo comigo. Acredito que foi dada num gesto de simpatia de alguém com quem criei empatia ao primeiro olhar e, por isso, só poderá trazer sorte e, como ele disse, abrir caminhos.

Nunca mais vi Mamadou, é certo, mas não posso negar que, bastas vezes, me recordo dele. Onde estará o Mamadou agora? Terá conseguido trazer a sua família? Terá regressado ao Senegal, para receber o abraço e o amor dos seus? Não sei e, com certeza, nunca saberei. No fundo penso que andará por uma qualquer praia de um qualquer país a espalhar o seu sorriso, a sua simpatia e a contar a sua história a quem a quiser ouvir.

Hoje quis falar-vos do Mamadou que conheci numa tarde de verão. Mamadou o migrante que passou horrores procurando chegar à Europa. Mamadou que abandonou a família no Senegal para providenciar a todos uma vida melhor. Mamadou para quem a vida tem sido madrasta mas que não perdeu o sorriso. Mamadou que soube continuar a ser luz! Há personagens assim, que cruzam a nossa vida num instante mas que deixam uma impressão profunda e duradoura…

Shakira e as Cantigas de Escárnio e Maldizer

A crónica desta semana pressupõe que já tenham ouvido a última música lançada pela Shakira ||BZRP, “Music Sessions ,53” e que tenham prestado atenção à letra. Deixo-vos, em seguida, a minha opinião sobre esta…música.

Nos meus tempos de professora de português no ensino secundário, abordávamos e estudávamos a Poesia Trovadoresca. Explicava, então, que a poesia trovadoresca tinha composições às quais se dá o nome de cantigas e que essas cantigas podiam ser divididas em lírica e satírica. Na cantigas líricas falávamos das cantigas de Amigo e das cantigas de Amor (ainda alguém se lembra delas?) Já na poesia satírica, distinguia as cantigas de escárnio das cantigas de maldizer. Explicava que as cantigas de escárnio eram criações poéticas que usavam a sátira de forma indireta ,subtil, irónica e sarcástica. Evitavam citar o nome da pessoa que era alvo da crítica. Já as cantigas de maldizer apresentavam uma sátira direta, desbocada, vulgar e até grosseira. Chegava ao ponto de citar o nome da pessoa alvo da sátira.

Uma das críticas que sempre ouvi por parte dos alunos, aquando do estudo dessas cantigas, é que estavam “fora de contexto”, eram desatualizadas e, verdade seja dita, a maioria não se deixava cativar por elas. O facto é que, ainda assim, as cantigas de escárnio e maldizer granjeavam alguma simpatia junto do meu jovem público uma vez que as histórias com um ligeiro toque de faca e alguidar os divertiam.

É por esse divertimento que esse tipo de cantiga trazia que não me espanta em nada o sucesso que desde a primeira hora o novo tema da Shakira (ainda não atinei com o título mas referem-se a ele como “Music Sessions, Vol. 53”) atingiu. (Superou em 3 dias as cem milhões de visualizações e foi a melhor estreia em espanhol de um tema no Spotify).

Nada destes resultados fabulosos se devem, quanto a mim, a uma música de qualidade ou a um vídeo fabuloso. Pelo contrário. A meu ver a música é fraca e repetitiva e o videoclipe pouco mais é do que a Shakira a cantar com o olhar direto para a câmara. Parece que tudo foi feito à pressa (tão à pressa que o refrão me parece claramente plagiado do refrão de uma outra cantora venezuelana: Briella com o tema “Solo Tú”). Tudo isso para poder, em tempo útil, musicar uma letra realizada para destilar ressabiamento, melindre e ressentimento. Basicamente, a Shakira acabou de escrever, à boa maneira da poesia trovadoresca, uma cantiga de maldizer (e que maldizer!) E é a toda essa maledicência que se deve, quanto a mim, o grande sucesso que esta música está a enfrentar. As pessoas adoram espreitar às janelas abertas dos outros (muito mais se esses outros forem famosos!) E aquilo que a Shakira fez foi escancarar as janelas de par em par para que todo o mundo ficasse a saber que o seu casamento acabou por causa de uma traição do marido que, pelos vistos, a trocou por uma versão da própria Shakira em mais nova. Precisávamos de saber disso?  Precisávamos de saber que a nova paixão do seu marido se chama Clara e que vale tão pouco como ele? (Citando a cantora). Penso que não. Passávamos muito bem sem esta canção que mais não é do que uma tentativa de retaliação da própria Shakira, uma canção que mais não é que uma forma de destilar ódio e raiva aos quatro ventos.

Dirão alguns que, desta forma, ela se vingou do ex-marido, da sua traição e da mulher com quem ele a traiu. E que, ainda por cima, “está a faturar” (expressão da cantora) com isso! Será mesmo assim? Nunca é fácil lidar com o assunto “traição” mas é um assunto que deve ser tratado, quanto a mim, entre os interessados e não com meio mundo que nada sabe da situação e apenas se diverte ao perceber que, afinal, as estrelas da música e do futebol agem da mesma forma que o comum dos mortais. Está, de facto, nas bocas do mundo mas não pelas melhores razões! Portanto, não ganha nada: nem reconhecimento como artista  e muito menos ganha reconhecimento enquanto mulher. Faturar não é tudo…e, neste caso, até me parece pouco…

No meu ponto de vista, Shakira, ao querer mostrar-se empoderada apenas se humilhou e a mim fez-me sentir vergonha alheia.  É típico da mulher traída, ainda que se sinta um farrapo, anunciar aos quatro ventos que é bem melhor que a nova companheira do ex-marido. Shakira é, nas palavras dela, um Ferrari, um Rolex o que, ainda assim, não a impediu de ser traída por um mero Renault Twingo ou um pobre Cásio. Ainda que passe a canção a dizer que para ele já não regressa, nem que o jogador chore ou suplique, a verdade é que sentimos que a cantora não tem esta situação em nada resolvida na sua cabeça e de facto, como diz, o amor está  muito próximo do ódio.

Não sinto que esta seja a melhor forma de lidar com uma traição e um divórcio. Muito menos considero que Shakira fique numa posição confortável depois deste chorrilho de acusações. Mais do que uma imagem de uma mulher forte ,ela deixa-nos com a ideia de uma mulher frágil que reage da pior forma ao rompimento da sua relação.

Por difícil que seja, quando uma relação duradoura termina há que tirar tempo para analisar as razões pelas quais tudo aconteceu. E acreditem que a culpa nunca está só de um lado. Ainda que possa haver uma culpa maior num dos membros do casal, a verdade é que ela, a culpa, é sempre partilhada pelos dois. Perceber isso o quanto antes poderá ajudar a mitigar um pouco da raiva que muitos sentem.

De resto…ignorar Piquê seria a melhor atitude que a cantora poderia ter. Trabalhar na sua autoestima, ocupar o seu tempo a fazer novas criações com outros temas,  procurar novos passatempos, aproveitar os filhos e os amigos, tentar desviar o pensamento de Piquê, da sua nova namorada e de tudo aquilo que os rodeia seria uma atitude sensata e bem mais exemplar para o público feminino.

Não entendo esta “Music Sessions, Vol. 53” de outra forma que não seja uma miserável forma de atacar o ex-companheiro de Shakira e a sua atual namorada. Não defendo um ou outro, que fique claro. Apenas defendo o direito de sofrer para si, sem estatelar o seu sofrimento misturado com rancor e ódio ao mundo inteiro. Como costumo dizer, se é para sofrer que seja de saltos altos e maquilhada! De certeza que Shakira ficaria melhor na fotografia e deixaria um exemplo bem mais positivo. Assim, para a história, apenas ficará a memória de mais um casamento fracassado e de uma música de qualidade duvidosa que, mais do que uma cantiga de escárnio, é uma verdadeira cantiga de maldizer!

Alterar o Hino Nacional? Bom senso exige-se!

A crónica desta semana surgiu-me após ler as palavras de Dino d’Santiago acerca do nosso hino e da sua vontade de o alterar. Foi publicada no P3 (com um título ligeiramente diferente) no endereço e, simultaneamente, aqui no blogue. Qual a vossa opinião sobre o assunto?

Inicio esta crónica com umas breves notas históricas. O nossos hino nacional, A Portuguesa (note-se que no hino não são cantadas todas as estrofes de A Portuguesa), terá sido composto na noite de 12 de janeiro de 1890 por Alfredo Keil e a letra terá sido redigida pelo poeta Henriques Lopes Mendonça, a pedido do próprio Alfredo Keil. Pretendia-se que a letra apresentasse uma reação ao Ultimato britânico que provocara uma onda de indignação nacional. Desejava-se que A Portuguesa fosse um canto que traduzisse a alma da pátria ferida, as aspirações de liberdade e a vontade de uma nova vida, robusta e destemida, para o país. Nas palavras de Henriques Lopes Mendonça pretendia-se que fosse um hino que pudesse ser rapidamente aprendido pelo povo  e que fosse adotado “como um caso de reivindicação nacional”. No fundo, o objetivo de A Portuguesa era o de exaltar o patriotismo e o orgulho nacionais, opondo-se à perspetiva do rei Carlos I que era acusado de ceder à intimação britânica. A Portuguesa substituiu o Hino da Carta aquando da Implantação da República portuguesa a 5 de outubro de 1910. Foi consagrada como hino nacional na Assembleia Constituinte de 19 de junho de 1911.

Aqui chegados questionar-se-ão alguns sobre a razão pela qual iniciei esta crónica com estas pequenas notas históricas. E a razão é simples: queria lembrar que o nosso hino não foi criado há uns meros vinte anos, que é um dos nossos símbolos nacionais (e que por isso deve ser tratado com o respeito que merece) e, sobretudo, lembrar o contexto histórico existente quando o mesmo foi concebido.

Tudo isto porque, para meu espanto, soube que o cantor Dino d’Santiago afirmou, no âmbito de uma conferência intitulada “Deixar o Mundo Melhor” que gostava de mudar o nosso hino nacional. De acordo com as informações que li, o senhor d’Santiago considera que é tempo de termos um hino menos bélico, que incentive menos às guerras.  A ideia é que se não grite mais às armas, às armas, e que não se lute mais contra canhões. Tudo isto para que, ainda de acordo com o cantor, a nova emancipação seja mental, espiritual, com amor e não territorial.

Será só a mim que este discurso soa como absurdo? Que mania é esta que se criou, nos últimos tempos, de avaliar tudo o que é do passado à luz dos nossos conceitos atuais? Mais uma vez me parece que revisitamos o passado com olhos acusadores, julgando de um modo negativo tudo aquilo que deve ser visto à luz dos pensamentos e ideais da época! É claro que hoje em dia não puxamos pelas armas e não nos passa pela ideia marchar contra os canhões. Não encaramos o nosso hino como um apelo à violência, nem à guerra.  Há que encará-lo com uma canção que representa a nação, que exalta factos que aconteceram e que pretende simbolizar as lutas passadas pela nossa nação. O Hino Nacional carrega a identidade de um povo! Exalta o patriotismo e o orgulho nacionais! Como pode passar pela cabeça de alguém alterá-lo??

Lamento informar, senhor Dino d’ Santiago, que a identidade de um povo não pode estar condicionada às alterações que naturalmente surgem com o passar dos tempos. A identidade de um povo não pode estar sujeita a transformações resultantes da soma dos dias. Errado é, a meu ver, fazer um julgamento do passado baseado na nossa forma atual de ver o mundo, opinar alicerçando a nossa opinião sobre o passado na nossa visão atual. E é precisamente isso que está a fazer quando analisa deste modo A Portuguesa. Revisitar o nosso hino , julgando-o, afirmando que a letra incentiva às guerras é  algo profundamente errado e, até, injusto.

Ensinemos, em vez de tecer afirmações erróneas e pouco ponderadas , o Hino às nossas crianças, expliquemos o contexto em que o mesmo foi criado e, acima de tudo, esclareçamos o significado que tem um Hino Nacional para uma nação. O hino é um símbolo de Portugal. Alterá-lo não faz qualquer sentido. O que segue, senhor Dino d’Santiago? Uma proposta de revisão de Os Lusíadas? Um corte radical nas partes mais bélicas?…

As opiniões valem o que valem e cada um é livre de opinar como melhor lhe aprouver. Ainda assim, apetece-me dizer:  “bom senso exige-se, senhor!!”

“Vê se pões o choker porque amanhã é domingo”… Irritações lexicais sentidas por aí

O primeiro texto do ano vem falar de algo que me faz alguma comichão: o uso excessivo de palavras inglesas na nossa linguagem do dia a dia. Qual é a vossa opinião?

Já não é a primeira vez que venho falar-vos de algumas pequenas irritações que me acontecem com a nossa língua ou com o uso que é feito da mesma. Assim de uma forma breve, lembro de falar sobre algumas palavras da língua portuguesa que considero feias porque a sua fonética me agride o ouvido e da irritação que me causa o uso excessivo de “-inhos” (uso excessivo de diminutivos). Uma questão tão simpática como “Quer um cafezinho acompanhado de um pastelinho de nata?” deixa-me em ânsias. Não existe qualquer necessidade de usar diminutivos para ser cortês e educado!

Mas, não é sobre palavras cuja fonética me agride ou sobre o uso excessivo de “-inhos” numa frase que quero falar hoje. Quero falar-vos nesse hábito tão português que é o de usar palavras estrangeiras no seu discurso quando já existem palavras portuguesas que significam exatamente o mesmo.

Quero desde já sublinhar a ideia que não sou uma purista no que ao uso da língua diz respeito. Assumo que os estrangeirismos são necessários para uma língua. É claro que se não existe uma palavra portuguesa para uma nova realidade é natural que surja um neologismo ou se peça emprestada uma palavra a outra língua. Aconteceu com a língua francesa: “abajur”, proveio de “abat-jour” (e já ninguém se lembra de usar “quebra-luz”) e “restaurante” tem a sua clara base no “restaurant” (substituindo o tão português “Casa de Pasto”). O mesmo sucedeu com todo o mundo informático que pediu emprestado vários termos ingleses ainda que se tenha tentado que os termos em português fossem usados. Quase todos falamos numa “app” em vez de uma aplicação informática, num “email” em vez de correio eletrónico ou falamos em realizar um “backup” em vez de uma cópia de segurança. E nesse ponto até aceito uma vez que houve necessidade de criar estas palavras quando o mundo informático aconteceu e conhecê-las. Como todos sabemos, muita da informação chega até nós em inglês pelo que se tornou até mais fácil aproveitar essas palavras em inglês ou adotá-las aportuguesando-as. Tudo certo. O que me deixa mesmo, mesmo irritada é esta necessidade que o português tem de usar termos (sobretudo em inglês) quando existe uma palavra para essa realidade em português! Parece que querem dar a entender que são cultos, que conhecem a língua inglesa e a aplicam na nossa a seu belo prazer! A meu ver, só demonstra uma tentativa de ostentação e uma fraca vontade de conhecer a língua e aplicá-la com correção. Deixo-vos, em seguida, alguns exemplos daquilo a que me refiro.

A enorme profusão de mental coaches (termo bem mais interessante que um simples “treinador da mente”) levou a que termos como o insight (introspeção), mindset (configuração mental, forma como a pessoa encara a vida), skills (aptidões, competências), achievment (um feito, uma conquista) entrassem nas conversas do dia a dia e fossem usadas como uma certa sobranceria irritante.

Mas não nos ficamos por aqui! A moda também é uma área que nos enche de termos ingleses desnecessários. As famosas calças à boca de sino (com abertura mais ou menos acentuada) passaram a ser umas “calças flare”. Mas também temos direito a “Crop tops” (camisolas curtas) e a saias calções que agora se chamam de “skorts”, só para citar algumas palavras que nos deixam com um ar bem mais atualizado sobre o que é “fashion”!

Os exemplos são mais que muitos e poderia continuar aqui por páginas e páginas (contudo, não pretendo ser maçadora). Vou terminar com o último termo inglês que descobri estar em voga. Esqueçam o termo “gargantilha” que está fora de moda (ficará melhor dizer “démodé”?). Pois que neste momento substituiu-se a nossa palavra por mais uma palavra em inglês. Agora não usamos uma gargantilha, um adorno que se usa  rente ao pescoço mas sim um choker (esta é mesmo “Chique a valer”, citando o “grande” Dâmaso Salcede de “Os Maias”).

Limitei-me a mencionar nesta crónica algumas palavras inglesas que cada vez mais são usadas nas nossas conversas do dia-a-dia e que são, quanto a mim, uma apropriação completamente desnecessária. É óbvio que tudo pode sempre ser pior. O uso de frases ou expressões inglesas no meio de uma conversa consegue tornar tudo ainda mais assustador (poderei dizer “spooky”?). Está a tornar-se um hábito ouvir que algo foi “awsome” (porque não usar “fantástico”, “fabuloso”?) que “vamos fazer um coffee break” (uma pausa para café)  ou que acordamos “in a bad mood” (acordamos de mau humor) ou estamos a ter um “bad hair day?” (aqueles dias em que acordas com o cabelo saído de um tsunami noturno). E não poderia deixar de citar uma expressão que vou encontrando em revistas e que me parece estar na moda: as famosas “red flags” (bandeiras vermelhas), expressão usada para se referirem a traços tóxicos que podemos perceber em pessoas e relacionamentos. Haverá mesmo necessidade de usar estas expressões?

Sabem o que vos digo? O Rui Veloso deveria fazer uma versão 2023 do “Fado do Ladrão Enamorado”, que contaria com a participação de alguma estrela internacional (porque não a brasileira Anitta?) apenas para poder escrever “Rui Veloso feat. Anitta (featuring que significa “com a participação de…”) e que teria como primeiro verso “Vê se pões o choker porque amanhã é Sunday”!…

Estamos em Portugal e temos uma língua riquíssima. Não existe qualquer necessidade de pedir emprestadas palavras ao inglês quando elas já existem na nossa língua!

Revisitando 2022 pela Steff’s World – a soma dos dias

Mais um ano a acabar e mais um ano em que por aqui passaram crónicas, contos, histórias de amor intemporais e histórias de vida de mulheres que fizeram a diferença. Tal como em anos anteriores, decidi escolher um texto publicado por cada mês deste 2022 para revisitar e partilhar, outra vez. São as minhas escolhas. As vossas (dos leitores que por aqui andam) poderiam ser outras, claro. Cá vai a minha lista!

Em janeiro decidi destacar…

a crónica “Pela fé é que vamos”

“Mas a verdade é que a repetição destes gestos, no início do ano, mais não são do que uma atestação de fé. Precisamos de ter fé, precisamos de acreditar que o novo ano, que está a começar, deixará tudo o que foi mau para trás e que este novo início será positivo.”

No mês de fevereiro, destaco uma crónica que decorreu de um caso que me chocou em 2022, a morte de René Robert e o descaso de todos os que passaram por ele. A crónica teve o nome de “A indiferença é que nos mata”

“A indiferença é um sentimento que magoa. Ela passa uma mensagem, difícil de aceitar, que é “Eu não me importo contigo. Não me importo com os outros”. E essa mensagem ficou bem clara para René Robert. Ninguém se importou com ele, durante nove horas. A morte encontrou-o, sozinho, naquela noite gelada, sem que ninguém sentisse o imperativo de chamar uma ambulância.”

Do mês de março decidi relembrar um conto que resultou de um desafio lançado pelo Clube de Escritores que foi intitulado de “O Sonho”

“E embalando-me nesta doce ideia do sonho fechei os olhos, ajeitei melhor o corpo na cama, pensei nele e murmurei: Até já. Encontramo-nos num sonho teu ou, quem sabe, num sonho meu. E ainda não tinha acabado de pronunciar estas palavras e já as trevas do sono voltavam a cair sobre mim. Foi, desta vez, um sono contínuo, aconchegante e reparador.”

No mês de abril escolhi uma crónica intitulada “Felicidade, alegria, dor, sofrimento…pensamentos soltos

“A esta forma de ver a vida se deve o entender a máxima Carpe diem, carpe horam no seu sentido literal: aproveitar hoje o dia, gozar o momento e, o amanhã logo se verá. Até porque penso que a dor e o sofrimento que possam advir de me ter atirado de cabeça e peito aberto nas situações não poderão ser maiores do que as dores proporcionadas pela incerteza de um “e se tivesse tentado? E se tivesse feito?” Costumo dizer que não há pior na vida do que um “e se?…” a ecoar nas nossas cabeças. E se eu tivesse tentado? E se eu tivesse tido coragem?… Essas sim são as questões que provam que a nossa fuga à dor e ao sofrimento não resultaram.”

No mês de maio optei por destacar mais um texto que resultou de um desafio do Clube de Escritores, uma “Carta a Olena: mãe, amiga, militar em combate na Ucrânia”

“Falo dessa primavera com sabor de verão, falo das cores e da alegria para te ajudar a lembrar que, bem perto de vocês, existe um mundo bonito e carregado de boas energias. Falo deste lado da Europa, falo do sorriso do teu filho quando brinca com o teu cão, falo da primavera, para que possas ter a certeza de que o mundo está a girar da forma certa por cá. Quero povoar a tua mente de imagens belas e felizes, coloridas, carregadas de gargalhadas e de cantos felizes. Quero que saibas que procuramos carregar os nossos dias de boas energias que enviamos em seguida, para vocês.”

A meio do ano, em junho, uma crónica que também surgiu para responder a mais um desafio do Clube de Escritores. “A maior lição que a vida me deu”

“E é por tudo o que acima fica referido é que considero que a maior lição oferecida pela vida é que ela acontece, transcorre, em momentos bons e menos bons. E considero  que há que relativizar esta questão dos “menos bons” porque existe uma grande possibilidade de toda esta situação se tornar, mais cedo ou mais tarde, risível, quando decorrer algum tempo sobre a mesma. Assim sendo, a maior lição que a vida me deu foi ensinar-me que ela acontece, simplesmente, naturalmente. E só ganhamos em aceitar esse facto com serenidade.”

O mês de julho trouxe vários textos. Escolhi destacar um texto que veio falar de uma velha questão: cães ou gatos?

“Gatos e cães amam, ainda que de forma diferente, com cada grama do seu corpo, a família que os escolheu. E é esse amor que nos transmitem que nos faz amá-los por nosso turno. Gato ou cão, ambos…o importante é partilhar a vida com eles!”

O mês de agosto é, desde o início deste blogue, o mês de férias. Como tal, não existem textos para destacar neste mês.

No mês de setembro destaquei um texto da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – Histórias de Amor Intemporais” em que falei de “O amor de Fred e Gladys, ou seja, do Rei Carlos III e da Rainha consorte”.

“Sou uma romântica e acredito no amor. Acredito que há pessoas que nasceram para estar juntas. E acredito piamente que Carlos e Camilla foram feitos um para o outro. Tal facto não impediu que ambos cometessem erros nas suas vidas pessoais e que, com esses erros, levassem inocentes a sofrer com os estilhaços desses erros. Mas…quem nunca errou que atire a primeira pedra. Os caminhos seguidos nas nossas vidas são, muitas vezes ,tortuosos e incompreensíveis, até para quem os trilhou…”

O mês de outubro tem como destaque um conto que resulta de mais um desafio, desta feita lançado pela Sandra Ramos da Escrevinhar. O conto ficou com o título de “O beijo secreto do sol e da lua“.

“Separaram-se, meio envergonhados. Ambos foram de opinião que aquele beijo deveria ser mantido em segredo entre os dois. E assim tentaram…  Mas a verdade é que nunca mais conseguiram disfarçar o sentimento que os unia e que, finalmente, tinham deixado transparecer. De tal forma que em certas manhãs e em certos anoiteceres, ambos se mantêm por um tempo no céu, juntos, conversando animadamente e trocando olhares de desejo.”

Quase no fim do ano, no mês de novembro, destaco o conto “Para sempre. Aqui estou” (mais um desafio do Clube de Escritores).

“Para sempre. Aqui estou”. Estas tinham sido as palavras da sua mãe naquele dia fatídico. Aquele dia que ficou gravado na sua memória ainda de menino. Como o poderia esquecer? Tanto tinha sido vivenciado naquele dia! A expetativa da viagem, de visitar uma cidade grande, de visitar o Museu da Marioneta. Perspetivava-se uma grande aventura!”

No último mês do ano destaquei uma “Carta ao Pai Natal“, num desafio lançado, mais uma vez, pela Sandra Ramos e pelo seu blogue da Escrevinhar.

“Já deitada, virou-se para a janela de onde se podia ver as luzes a piscar no pinheiro que havia na rua. Murmurou, baixinho: Se morresse agora, morreria feliz. Contudo, gostaria de viver mais um ano, pelo menos, para viver outro Natal como este. Obrigada Pai Natal!

Natal 2022: cancelado!

E mais uma vez o tema do texto desta semana é o Natal. Este conto resultou de um desafio lançado pelo meu Amigo Secreto do @Clube de Escritores. O tema era o que surge no título “O Natal de 2022 foi cancelado”. Criei este conto que pode, à primeira vista, parecer pouco natalício mas que, a meu ver, está repleto da magia do Natal.

Partilhei o conto com ele e partilho-o, agora, com vocês. Enjoy!!

(Nota: este conto passa-se em 2022, num país imaginário e distópico)

Há muito que as gentes daquele país se tinham habituado a viver de uma forma que lhes pareceria impossível quando eram mais novos. E a verdade é que não podiam culpar ninguém para além de eles próprios, pois tinham sido eles quem tinha votado para que o partido que hoje governava com mão de ferro subisse ao poder. Hoje, à distância do tempo, percebia-se que aquela que parecia uma mensagem adequada, que parecia o caminho certo para este país, escondia o que se sentia hoje na pele: um governo opressor, limitador de liberdades, onde as opiniões alheias não eram bem vindas. A verdade é que muitos anos após o nascimento da democracia, esta dera lugar, pela mão dos próprios votantes que tinham acreditado nas palavras aparentemente inocentes daquele ditador, daquele aniquilador de liberdades individuais, a uma ditadura ainda mais opressiva do que aquela que fora vivida muitos anos antes. Definitivamente, ninguém tinha aprendido coisa alguma com as lições que a história fora deixando para trás!

O ambiente que hoje se vivia era de opressão e medo. As pessoas deslocavam-se para o trabalho e do trabalho para casa. Já não existiam convívios como antigamente. Os cafés e restaurantes estavam quase todos fechados uma vez que poucas eram as pessoas que ainda procuravam socializar. O medo de dizer algo de inconveniente e pagar com a vida por isso era enorme. Como tal, as pessoas escolhiam ficar por casa, só com os seus, assistindo ao único canal de televisão a que conseguiam aceder (o canal televisivo do governo). Todos os canais privados tinham sido obrigados a fechar, como seria de esperar.

Parecia que todo o país vivia sob um manto de cinzentismo que impedia que houvesse luz e brilho como antigamente. O povo já não falava alto, apenas sussurrava, como quem tinha medo de quebrar aquele silêncio opressivo. Já não se ouvia música e até as crianças se tinham tornado estranhamente silenciosas. O som das gargalhadas já era algo praticamente esquecido por todos.

Foi por toda essa situação acima relatada que, quando o Governador Máximo informou, em horário nobre na televisão, que em 2022 não haveria Natal, ninguém se espantou muito. Era só mais um passo em frente no trabalho de destruição que tinha sido iniciado anos antes. Primeiro tinham proibido as decorações e as luzes natalícias (por serem despesas insensatas que o país não podia enfrentar). Depois tinham sido as campanhas para que se racionasse a comida que aparecia à mesa de Natal e para que não houvesse troca de prendas entre familiares. Com tantas pessoas a morrerem à fome no mundo, era insensato gastar tanto dinheiro em prendas desnecessárias e estragar tanta comida! Por fim, tinha sido a proibição de ajuntamentos na rua. É claro que há muito tinha terminado o direito à greve, à manifestação, mas também a possibilidade de assistir a concertos ou a reunir pacificamente na rua. Tudo o que fosse mais de três pessoas reunidas poderia ser entendido como uma reunião subversiva, passível de perturbar a ordem tão duramente imposta. Deste modo também se terminou com as reuniões à volta do Madeiro que aconteciam por esse país fora na noite de Natal.

Perante isto tudo, a informação do Governador Máximo de que, neste ano, não haveria Natal, caiu com algum desinteresse junto da população. Muito poucos eram os que ainda o festejavam e, aqueles que o faziam, faziam-no de forma muito discreta. Contudo, a maioria deixara, simplesmente, de festejar o Natal ou qualquer outra data outrora digna de celebração.

A noite de 24 de dezembro de 2022 estava a ser, como tal, uma noite como todas as outras. Os cidadãos tinham trabalhado todo o dia e tinham regressado às suas casas. A noite estava fria e até anunciava neve. O velho Manuel, já reformado, só tinha saído de casa para fazer umas compras e voltado para casa. A solidão, hoje, pesava-lhe mais do que nunca. A lembrança de Natais felizes, rodeado pela sua família, oprimiam-no. Eram “os tempos da vida feliz” como ele gostava de lhes chamar. Como raio tinha tudo mudado tanto em tão pouco tempo?! A sua amada esposa falecera e os filhos tinham emigrado, fugindo a esse país feio e triste. E ele? Ele tinha ficado para trás. Não podia abandonar o seu país, a sua casinha, a sua Celestina que visitava semanalmente no cemitério e os seus animais. Ficara para, dia após dia, se sentir o homem mais só do mundo. E hoje a solidão pesava-lhe mais do que nunca. Cozera um minúscula posta de bacalhau (os tempos estavam mais do que difíceis) e, enquanto jantava, colocara umas músicas de Natal a tocar baixinho, enquanto observava fotografias de outros Natais. Como eram bonitas as ruas iluminadas e as enormes árvores de Natal cheias de brilho colocadas no Pelourinho! Foi quando ouviu, no jardim em frente ao seu prédio, barulho. Quer dizer, ouviu, para ser mais precisa, uma música de Natal. E tocava bem alto! Espreitou à janela e viu o vulto daquilo que parecia ser uma pessoa idosa, sentada no banco do jardim.

Quem é este louco? – pensou. Deve estar à procura de ser levado pela polícia, só pode! Olhou com mais atenção. A pessoa bebericava algo. “Espero que não seja álcool!” (o consumo de bebidas alcoólicas na rua tinha sido proibido há muito) e cantava a plenos pulmões uma música que, não sendo de Natal, sempre associara a esta época: We are the world.

Ainda hoje Manuel não sabe explicar o que lhe deu. A verdade é que a letra da canção ressoava-lhe na mente. O verso “It’s true we’ll make a better day, just you and me”, parecia-lhe quase uma ordem para procurar criar um mundo melhor. E sem que desse conta, pegou no chá que tinha feito para a noite, pegou num termo e em duas canecas, num pacote de bolachas e desceu até ao jardim. Não pronunciou qualquer palavra quando chegou junto ao velho. Apenas se sentou, compartilhou chá e bolachas e juntou-se à cantoria. E o que aconteceu a seguir deverá ter resultado da magia do Natal (não encontro qualquer outra explicação). Pouco depois do Manuel chegar, chegou a vizinha do primeiro esquerdo, que trazia nas mãos figos secos para partilhar.  Aos poucos e poucos foram reunindo naquela praceta várias pessoas todas trazendo uma dádiva para partilhar com os restantes. E houve música, houve comida, houve partilha, abraços e risos como há muito não se ouvia. Parecia que a coragem algo insensata daquele primeiro  velho tinha criado uma brecha naquela paisagem de medo. Não sabiam o que o dia de amanhã lhes poderia trazer mas sabiam que, contrariamente ao que o Governador Máximo tinha exigido, nessa noite havia celebração, nessa noite havia Natal. E até a natureza ajudou à decoração, quando começou a nevar. Todos sorriram para o céu e dançaram como se não houvesse amanhã!

Contar-se-á, mais tarde, que este foi o primeiro passo em direção a uma liberdade que foi conquistada anos mais tarde.

Carta ao Pai Natal

Esta “Carta ao Pai Natal” foi escrita para responder ao desafio lançado pela Sandra da página “Escrevinhar”. Escrevi esta “Carta ao Pai Natal” que espero seja do vosso apreço.

Querido Pai Natal. Quem te escreve é a Maria (Será que tenho de me identificar? Tenho ideia que dizem que nos conheces a todos, assim como as nossas boas ações durante o ano…) De qualquer forma, quem te escreve é a Maria. Sim, a Maria. Simplesmente Maria, que é assim que todos me conhecem aqui no lar. Estou a escrever-te porque queria pedir-te…

Olha, sabes uma coisa? Estou a escrever-te porque a senhora doutora assim me pediu. É a atividade da tarde hoje no lar. Imagina um bando de velhos como eu a escrever ao Pai Natal. Nem consigo lembrar há quantos anos deixei de acreditar em ti! Aliás, para te dizer a verdade, nunca acreditei. Eu sou do tempo do Menino Jesus. Era a ele que pedíamos um qualquer mimo de Natal. E agora, olha, aqui estou eu, ,de garruço do Pai Natal na cabeça a escrever-te uma carta. Alguns de nós até estão a fazer desenhos, vê tu!…

Já que estou para aqui a escrever-te vou aproveitar para fazer um desabafo. As meninas aqui que nos recebem são um doce. Tratam-nos muito bem. São atenciosas, querem de facto saber como estamos e como nos sentimos e, penso, que procuram mesmo que o tempo aqui nos seja menos pesado. Todos os dias procuram que tenhamos alguma ocupação, durante a tarde. Se assim não fosse, o mais certo seria estarmos todos sentados com os olhos pregados nos programas da tarde, na televisão que oscilam entre “musiquetas” estridentes e dramas contados… Agradeço-lhes esta atenção, a sério que sim! Mas, nesta ânsia de nos manterem ocupados, acho que se esqueceram um pouco de quem somos. Infantilizam-nos, tratam-nos como crianças. Não queria dizer-lhes isso de uma forma crua mas a verdade é que manter entretidos “velhinhos” não é a mesma coisa que manter entretidas as crianças. Estas coisas saturam-me um pouco, sabes?!

Portanto…aqui estou a escrever-te para te pedir os meus desejos para o Natal. Estive para despachar isto num instante e escrever, como diz aquele jovem da televisão “Saúde e paz. O resto, o universo traz!” Mas…depois de pensar um pouco sobre isso pensei que seria pouco simpático da minha parte. Afinal, as meninas aqui são um encanto. Acredito que façam o melhor. Ou pelo menos que pensem estar a fazer o melhor. E isso deveria ser suficiente. Portanto, optei por escrever e pedir o que, de facto, gostaria para o Natal. E eu gostava mesmo, mesmo, era de um Natal a sério, como era no passado. Gostava de poder ter uma mesa de Natal à antiga. Não queria ter uma mesa farta, como temos hoje em dia. Para te dizer a verdade, até fico meio agoniada quando vejo tanta comida. Queria comer o bacalhau e as couves, claro, mas, sobretudo queria um arroz doce feito a preceito, umas rabanadas e umas filhoses para beber com o chá no fim da noite. Chegava e sobrava. Prendas? Para quê? Já não usarei nem metade de tudo o que me tem sido oferecido nos últimos anos. Gostava mesmo era do bonequinho feito com a massa das filhoses ou, quem sabe, um chocolatinho pequeno como, por vezes, recebíamos. E gostava, depois deste repasto, de, envergando o meu melhor sobretudo e um lenço quentinho pela cabeça, ir à Missa do Galo. Poder ver aqueles magníficos presépios que ornamentavam as igrejas de antigamente. E, sobretudo, poder beijar o Menino Jesus. Sabes, Pai Natal, que agora já não se beija o Menino Jesus? Diz que é perigoso por causa dos vírus…Esta pandemia arrancou mesmo o que nos restava!…

“E não queres mais nada?” – hás de tu estar a perguntar. E respondo eu, sem qualquer vergonha, que quero sim. Quero, depois da Missa do Galo, passar pelo Madeiro da aldeia, que, se o Menino Jesus quiser há de estar grande e forte para o aquecer. E aí, junto ao Madeiro, quero abraçar os meus amigos, sem medos, dizer-lhes que espero que o Menino Jesus lhes traga tudo o que de bom merecem e, por fim, brindar com um copinho de jeropiga ou, quem sabe, um golinho de aguardente (para aquecer os fígados). E aí, junto ao lume que nos aqueceria a alma, poderíamos entoar alguns cânticos de Natal, para alegrar a noite e o coração! Eram assim os meus Natais de juventude e seria assim que gostaria que voltassem a ser.

A carta vai longa mas posso dizer-te que, depois de um Natal assim, poderia partir deste mundo com um sorriso estampado na cara e a felicidade no coração.

Maria dobrou então a carta em quatro e colocou-a no envelope que dizia:

Para: Pai Natal.

Pólo Norte. Lapónia

O que Maria não sabia era que o Pai Natal estava mais próximo do que pensava. O lar tinha recebido uma importante ajuda monetária de um patrono que não quisera ser identificado e que pretendia que se oferecesse, às gentes dessa “casa”, o melhor Natal que pudessem desejar. Curiosamente, a carta da Maria não foi a única a desejar um “Natal como antigamente”. Foi decidido então, pelas técnicas do lar, que este ano iriam proporcionar o  melhor Natal que pudessem, seguindo as instruções que de forma tão clara tinham sido dadas.

E assim foi! No dia 24 de dezembro, ajudaram os utentes a vestir os seus trajes mais bonitos para o jantar e ofereceram uma mesa simples, com couves, batatas e algum bacalhau. Como única sobremesa serviram o arroz doce. As filhoses e rabanadas (que também tinham providenciado) ficariam para o regresso depois da Missa do Galo. Não conseguiram que se beijasse o Menino Jesus nessa noite mas conseguiram levá-los ao Madeiro da vila onde foram recebidos com abraços, jeropiga e aguardente pelos mais novos que já ali se encontravam. Sacou-se da concertina e entoaram-se cânticos de Natal. E serviram-se, por fim, muitos sorrisos e até lágrimas de alegria.

Maria voltou de coração cheio para o lar. Degustou ,quando chegou, uma filhós e um chá que lhe souberam melhor que nunca. Foi então para a sua cama com uma sensação de bem estar e alegria que há muito não sentia. Já deitada, virou-se para a janela de onde se podia ver as luzes a piscar no pinheiro que havia na rua. Murmurou, baixinho: Se morresse agora, morreria feliz. Contudo, gostaria de viver mais um ano, pelo menos, para viver outro Natal como este. Obrigada Pai Natal!

E-reader? Adoro!

A crónica que hoje vos trago poderá servir, a meu parecer, como serviço público. Deixo-vos aqui uma ideia para prenda de Natal ao falar-vos da minha experiência com o e-reader.

Publicada aqui e no Semanário Registo é uma opinião sobre a utilidade, para os leitores, do e-reader. Para quem tem dúvidas, curiosidade sobre este objeto, não deixem de ler!

Começo esta crónica informando-vos que adoro o cheiro a livros novos. E assumo que esse gosto não tem qualquer originalidade. Parece-me que este é um gosto comum a todos aqueles que gostam de ler. A excitação de entrar numa livraria, folhear com reverência os livros que gostaríamos de adquirir, cheirar aquele aroma a livro novo é um gosto que encontro à maior parte dos leitores e eu não sou exceção.

Por isso, sempre que se falava no tema “adquirir e-reader”[1], estes eram os meus argumentos para arrumar a um canto a ideia de passar a ler livros num suporte informático que, para mim, mais não era do que um “gadget” com tempo de vida limitado. “Nada pode substituir o livro em papel!” – era esta a minha máxima.

Contudo, apesar de todas estas ideias pré-concebidas sobre o e-reader, a ideia de, efetivamente, adquirir um, foi germinando aos poucos na minha mente. A razão principal para esse facto, e acredito que é a que atormenta todos aqueles que gostam de ler, era a falta de espaço. Não considero ter uma casa pequena mas, de facto, não tenho uma sala que sirva, apenas e só, de biblioteca. Como tal, os livros adquiridos ao longo dos anos foram sendo arrumados no meu quarto, na sala de estar e até na de jantar. E a verdade é que algumas (muitas) estantes depois, o espaço começava a escassear. (Isto para não falar dos muitos livros que aguardam pacientemente serem escolhidos para serem lidos, arquivados em caixas no meu sótão!).

Por outro lado, há que assumi-lo, o cheiro a livro novo desaparece. O que nos resta, depois disso, é uma montanha de papel que nos exige horas de limpeza para não acumularem o desagradável pó que se vai instalando ao longo dos tempos.

Numa tentativa de resolver este meu problema de espaço procurei colocar em prática algo que, hoje em dia, está muito em voga: o desapego. Vai daí e, cheia de coragem, criei uma página no Facebook a que dei o nome de “Mercado do Livro” onde procurei dar nova vida a livros que tinha por casa, que já tinham sido lidos e que, provavelmente, não voltaria a ler. Contudo, esse projeto não tem tido grande sucesso e o número de livros comprados continuou a ser maior que o  número de livros vendidos, não resolvendo, deste modo, o meu problema de espaço.

E foi assim que, num dia de pensamento prático, pensei em adquirir um e-reader. E, posso dizer-vos, foi das decisões mais acertadas que tomei este ano. Estou absolutamente fã deste pequeno aparelho que consegue encerrar em si mais de 6000 livros (pelo menos era isso que dizia a publicidade do mesmo!)

Quando o vi pela primeira vez na minha mão, assumo, que o achei bem pequenino. Pensei que o seu tamanho reduzido tornasse a leitura difícil e pouco agradável. Nada mais errado! O tamanho não dificulta em nada a leitura e é ótimo para se segurar nele sem que o mesmo nos pese nas mãos e nos pulsos. Quem nunca sentiu que tinha de colocar o livro nalguma superfície para o ler, tendo em conta o peso que ele tinha?

Por outro lado, toda a experiência de leitura é agradável. O “pequeno aparelho” tem luz ajustável às condições de luminosidade em que nos encontramos. O ecrã não apresenta quaisquer reflexos e proporciona uma experiência de leitura natural, semelhante à do papel. E, por mais que me custe admiti-lo, esta adaptação da luz às condições de luminosidade que temos é ótima para quem, como eu, começa a ter dificuldades em focar as letras (sobretudo à noite). A verdade é que quando leio no papel, à noite, sinto que as letras passam de preto a verde e tenho maior dificuldade em focar, tornando a leitura cansativa. Tal não me acontece no  e-reader.

Concluindo: o pequeno aparelho torna a minha leitura mais aprazível por ser menos cansativa para a minha vista.

Ainda no campo: “vantagens de ter adquirido um e reader” poderia falar-vos da facilidade em adquirir livros. O e-book é, claramente, mais barato do que o livro em papel, para além de existir, por essa internet fora, uma considerável oferta de livros grátis. Como tal, se já com os livros em papel tinha noção que cometia o pecado de adquirir mais livros do que aqueles que algum dia poderia ler, com o e-reader, a tendência para esse pecado aumentou. Não direi, aqui, a lista de livros que tenho à espera de serem lidos no meu gadget novo mas são, de facto, alguns.

Por isso tudo digo que o e-reader proporciona uma excelente experiência de leitura. Não fico a almejar ler em suporte de papel. O meu medo, ao adquiri-lo, era não me habituar a ele e deixá-lo esquecido, sem bateria a um canto. Pois que tal não acontece. Acompanha-me sempre na minha mala, por ser de fácil transporte, e, sempre que posso, em qualquer intervalo, pego nele e leio umas palavras. Tal não acontecia com o papel: volumoso e pesado, ficava, a maior parte das vezes, em casa. Por outro lado, e como já disse, a leitura à noite não estava a ser muito prazerosa, uma vez que sentia alguma dificuldade com a visão. Tal facto limitava em muito a minha leitura (é à noite que temos mais tempo para ler algumas páginas, certo?). Com o e-reader esse problema não se coloca, vejo sempre com a mesma nitidez!

 Concluindo: noto que estou a ler muito mais do que o que lia em papel e de um modo mais aprazível. E, acima de tudo, não tenho problemas de espaço e de acumulação de pó! Vendo bem, fiquei a ganhar, e muito, com essa compra! Foi, sem sombra de dúvida, uma excelente aquisição.

(Espero que esta crónica vos tenha deixado com umas ideias para o Natal).


[1] E-reader ou “Leitor de livros digitais” é um pequeno aparelho eletrónico que tem como principal função mostrar numa tela, o conteúdo de livros digitais.