“Escoje un amante que te mira como si quizás fueras magia” *

O mês de julho é o mês, por excelência, para relembrar Frida Kahlo. E é-o não só porque é este o mês do seu nascimento (a 6 de julho de 1907) como também o da sua morte (a 13 de julho de 1954). Como tal, decidi que seria ela uma das protagonistas do texto de hoje. Desengane-se quem pensa que irei falar apenas e só sobre Frida Kahlo (aquela que, sem dúvida, teria o primeiro lugar na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”).

Frida não será a única protagonista do texto de hoje pela simples razão que já lhe dediquei todo um texto e porque a rubrica de hoje pressupõe que existam, pelo menos, dois protagonistas. Hoje é dia da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais” e venho falar-vos um pouco do amor entre Frida Kahlo e Diego Rivera. É verdade que existe alguma tendência para acreditar que apenas Frida amava intensamente Diego, não sendo retribuída com a mesma intensidade. A isso não será alheio o facto de muita da informação recolhida sobre a relação deles ter provindo do diário que Frida mantinha. O facto é que poucas vezes ouvimos o pensamento de Diego Rivera sobre esse assunto. Contudo não concordo com esta perspetiva. Não penso que fosse um sentimento unilateral. Considero que, ainda que fosse de uma forma particular, não só Frida amava Diego como Diego tinha em Frida um dos amores da sua vida. Frida e Diego viveram um amor atípico: um romance cheio de discussões, a que se seguiam reconciliações, uma relação problemática mas cheia de paixão, um amor muito instável, marcado por infidelidades de parte a parte mas que, no final, os uniu para a eternidade. E é sobre esse amor tão diferente que hoje vos venho falar.

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón viu Diego Rivera, pela primeira vez, quando este se encontrava a pintar o mural: “La Creación”, no Anfiteatro Simón Bolívar, na Escola Preparatória Nacional do México, escola onde Frida estudava. Diego era já consagrado artisticamente, contava com 36 anos, era casado e já tinha fama de mulherengo. Frida tinha, na época, 15 anos. Contudo, a não ser as conversas que aconteceram entre os dois (Diego falava de Paris, dos seus amigos Modigliano, Picasso e Breton… enquanto Frida o observava a pintar), nada mais se passou entre eles nessa época. Diego contava, na época, já com dois casamentos que pouco tinham durado e já era pai.

Diego e Frida foram reapresentados em 1928 por Tina Modotti, fotógrafa italiana que era amiga comum dos dois. Tanto Tina quanto Frida se tornaram as musas de Rivera. Tina foi modelo em murais como “A Terra Adormecida” enquanto Frida foi retratada como uma militante comunista nas paredes do Ministério da Educação Pública. Para além disso, foi esse também o ano em que Frida ingressou no Partido Comunista Mexicano.

É nessa altura que o interesse que Frida tinha revelado com 15 anos acerca do artista se estende ao homem e pouco tempo depois de serem reapresentados, Frida e Diego casam-se (estávamos em 1929). A cerimónia, que foi bastante simples, realizou-se na Casa Azul, em Coyoacán (casa onde passariam a viver) contrariando a família de Frida que não considerava Diego R. a pessoa adequada para casar com Frida: ele era ateu, comunista, mulherengo e 21 anos mais velho que Frida Kahlo. Para eles o casamento era comparado ao de um elefante com uma pomba.

A vida deles, enquanto casal, foi particularmente intensa. Viajaram para os Estados Unidos, onde Rivera pintou alguns murais. Será lá que Frida irá sofrer o seu primeiro aborto (o primeiro de três).

Frida conseguiu, por uns tempos, que o marido abandonasse os seus hábitos de conquistador e mulherengo mas, após algum tempo de casamento, Diego voltou a somar infidelidades. Em 1934 Diego e Frida regressaram ao México e é nessa altura que ela descobre que o marido lhe tem sido infiel ao manter uma relação com a sua irmã mais nova, Cristina Kahlo. Apesar de ter conhecimento de outras infidelidades do marido, e de a própria Frida ter também a sua parte de amantes, essa traição foi das mais difíceis que Frida sofreu e que a fez afundar-se numa depressão. Foi a partir de então que Frida tomou a decisão que continuariam juntos mas numa relação aberta em que cada um poderia ter outras relações, com o conhecimento e consentimento do outro. Sendo bissexual, Frida passou a ter relacionamentos com outros homens mas também com outras mulheres. Apesar do que tinha sido combinado, tal situação despertava os ciúmes de Diego. Ele aceitava os relacionamentos da mulher com outras mulheres mas não suportava saber que ela se tinha envolvido com outros homens.

A verdade é que a relação conturbada, os casos extraconjugais de ambos, a luta de duas personalidades fortes acabou por resultar num divórcio dez anos após o casamento, apesar de todo o sofrimento que tal separação causou.

Será o assassínio de um dos amantes de Frida Kahlo que levará, curiosamente, a novo casamento de Frida e Diego. Um ano depois da separação, em 21 de agosto de 1940, León Trotsky é assassinado. Como a relação que ele mantinha com Frida Kahlo era conhecida, a polícia deteve-a para ser interrogada, fazendo-o com alguma dureza. Aproveitando a situação, Diego Rivera, que se encontrava, naquele momento, em S. Francisco, chamou-a para ir viver com ele. Frida não pensou duas vezes e voou para S. Francisco. Foi o reacender da velha chama que sempre tinha ardido entre eles, apesar de todas as vicissitudes, e ainda nesse ano, voltaram a casar.

Ao voltar para o marido, Frida decidiu construir uma casa igual à de Diego, ao lado da casa em que eles tinham vivido no primeiro casamento. As casas eram ligadas uma a outra por uma ponte. Viveram, desse modo, como marido e mulher sem morarem juntos. Encontravam-se na casa dele ou na dela, nas madrugadas, celebrando o amor que os unia.

A última vez que Frida Kahlo apareceu em público foi a 2 de julho de 1954, numa marcha a favor do povo Guatemalteco. Dez dias depois, prostrada na sua cama, a perna amputada porque estava a gangrenar, sofrendo de dores intensas, devolveu a Diego o anel que este lhe tinha comprado para celebrar o seu 25º aniversário de casamento. Deu-lho referindo que sabia que a sua morte estava eminente. Morreu no dia seguinte, a 13 de julho de 1954.

Após a sua morte, Diego criou coragem para pensar em  transformar a famosa Casa Azul num museu para celebrar o amor da sua vida. Reuniu roupas, cartas, livros, espartilhos e até alguns dos remédios de Frida, assim como alguns dos seus pertences e lacrou-os num dos quartos. Informou que esse depósito improvisado só poderia ser aberto 15 anos após a morte de Frida.

Contudo…um ano após a morte de Frida, Diego voltaria à sua vida de sedutor e voltaria a casar. Diz-se que também não foi fiel a essa quarta esposa. Viria a morrer a 24 de novembro de 1957. Os pertences de Frida caíram em esquecimento e ficaram fechados até 2004…

É claro que este “amor intemporal” está longe de ser um conto de fadas. Está longe de ser a história de amor a que muitos aspiram. Foi um relacionamento doentio, disfuncional e destrutivo. Contudo, foi um relacionamento fortíssimo que, se não lhes permitia estarem juntos, também não lhes permitia estarem separados. Ainda que se tivessem divorciado, nunca perderam o contacto um com o outro. Viveram um amor pouco convencional mas a ligação superior entre ele era inegável. Quando Frida morreu Diego reconheceu que Frida foi o grande amor da sua vida, ainda que não tivesse sabido amá-la como ela teria merecido.

*“Escolhe um amante que olhe para ti como se fosses mágica”

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Para lá do esquecimento

Já sabem que, uma vez por mês, deixo-vos o meu registo (que é como quem diz, a minha crónica) no Semanário Registo. Este mês, uma crónica que versa sobre a importância ou não de esquecer. Para ler (por cá ou em papel) e, se gostarem, partilhar! Enjoy!

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Há dias, num diálogo com uma amiga, falávamos da importância e do peso do passado nas nossas vidas presentes, do seu valor, do facto de ser ou não relembrado com saudade e nostalgia. Percebi, no decorrer da conversa, que as nossas opiniões divergiam quanto ao tema. Ela era de opinião que o passado deve estar onde ele está: atrás das costas. Considerava que importante era o momento presente e que o que tinha passado, as pessoas que tinham feito parte daquele tempo pretérito e que não faziam parte do presente, deviam ser banidas da nossa memória, relegadas ao esquecimento. Já eu, a eterna saudosista, achava que o passado deve ser relembrado naquilo que ele tem de bom, que se devia guardar o que nos fez bem, relembrar, com saudade aquelas pessoas que gostámos e que num momento da nossa vida foram importantes para nós, independentemente de hoje pertencerem a uma vida que ficou lá atrás.

Tal conversa fez-me recordar um dos filmes da minha vida: “The Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, ou, na sua tradução em português, “O Despertar da Mente”, o fabuloso filme protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet. Para quem não viu, aconselho, antes de mais a ver este já antigo mas maravilhoso filme. O filme é uma mistura de comédia romântica com ficção científica: um médico inventou uma máquina que nos permite apagar da memória uma pessoa e os momentos dolorosos que ela nos fez passar. Quando Joel (Jim Carrey) percebe que a sua antiga companheira, Clementine (Kate Winslet), aquela que ele tem como o “seu amor verdadeiro”, o apagou completamente da sua memória, e descobre como ela o fez, toma a decisão de, também ele, se submeter ao mesmo tratamento e apagar Clementine da sua memória. Perante uma relação que terminou mal, percebemos que, para seguir em frente, ambas as personagens preferem apagar todas as memórias ligadas àquela relação. Não vos falarei mais do filme (caso não tenham visto, espero ter aguçado a vossa curiosidade) mas lembro que na época este filme me fez pensar e refletir muito. Se tivéssemos oportunidade de esquecer, apagar alguém que fez parte da nossa vida, deveríamos fazê-lo? Como seria a minha vida se pudesse apagar, facilmente, todas as dores provocadas por amores e paixões mal resolvidas? Como seria eu, enquanto pessoa, se conseguisse desvincular da minha mente todos aqueles momentos que antes me tinham trazido conforto e bem-estar mas que se tinham convertido em dores e mágoas e, mais tarde, em cicatrizes?

E a verdade é que estas questões vieram mais uma vez à tona aquando da conversa com a minha amiga e andaram a assombrar-me os pensamentos durante uns dias. Na teoria, o conceito parece-me correto e adequado. Não devemos olhar para o passado. Quem vive no passado vive com uma âncora atada aos pés, que não o deixa seguir em frente. A verdade é que o olhar tem de estar projetado no presente e a nossa atenção focada naqueles que nos acompanham. A máxima tem de ser esquecer o passado e projetar-nos, sempre, no futuro. Contudo, a verdade é que não consigo pensar assim. Jamais conseguiria tomar uma atitude tão drástica como a Clementine do The Eternal Sunshine of the Spotless Mind. No meu modo de pensar e analisar o passado, apagar alguém das minhas memórias, por mais dolorosas que as memórias que essa pessoa me traz possam ser, iria deixar um vazio estranho no meu presente. E concluí que eu, pura e simplesmente, não quero esquecer, nem os momentos bons, nem os momentos maus. Esquecer seria apagar as minhas memórias e ao apagá-las eu estaria a apagar um pedaço de mim, a esquecer-me de quem fui e, consequentemente, de quem sou. Aquela que sou hoje é o resultado do que fui, da soma dos momentos bons com os momentos mais dolorosos e, sobretudo, das aprendizagens que realizei com esses momentos. E não quero esquecer nada disso. Quero guardar tudo num cantinho bem recôndito da minha alma e do meu coração, com algum carinho e sem ressentimentos. Quero pensar que aprendi com os maus momentos. Se não me lembrasse deles, se não fizessem parte do meu ser, o que me impediria de voltar a cometer os mesmos erros? Sem a aprendizagem que o passado nos pode trazer o que somos nós? Apenas conchas ocas a construir constantemente um presente recheado dos vazios que o passado esquecido deixou.

Tenho hoje uma certeza: nem que existisse uma máquina para me fazer esquecer, como no filme, nem que criassem uma pílula do esquecimento, como aquela de que falava com a minha amiga, nunca iria recorrer a elas. Considero que as minhas memórias são demasiado valiosas. Cabe-me a mim encontrar uma forma de lidar com as memórias dolorosas do pretérito, descobrir um modo de desatar as amarras daquilo que é demasiado pesado no passado, para o deixar seguir para um lugar aprazível e sem dor e guardar no coração apenas aquilo que é bom de guardar: as memórias felizes.

E vocês, tomariam a pílula do esquecimento ou escolheriam manter todas as memórias intactas?

A Felicidade e a Metade da Laranja

[Novo]Para hoje trago-vos uma crónica – uns pensamentos esparsos sobre aquilo que parece ser uma necessidade de encontrarmos a nossa metade da laranja. São pouco mais de 3 minutos de leitura. Enjoy

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Photo by Austin Schmid on Unsplash

Sou uma pessoa cheia de contradições. Tenho que assumir isto perante todos os que aqui me leem. E não digo isto assim de ânimo leve. Posso dar-vos logo assim em segundos uma série de contradições que vivem em mim! Por exemplo: adoro o calor e o verão mas sonho com tardes de frio e chuva, no sofá, com um belo lume a arder. Adoro gelados (das minhas sobremesas preferidas) mas sinto-me reconfortada com um belo chá quente! O gelado que eu adoro sabe-me melhor no inverno, junto à lareira, do que no verão. Adoro tudo aquilo que uma cidade me pode oferecer (cinema, lojas, acesso à cultura) mas eu gosto mesmo é de viver no campo. Isto para não falar de contradições ainda mais gritantes como seja o facto de comer carne ainda que seja incapaz de ver matar qualquer tipo de animal (quanto mais matá-lo para comer!)

Outra das contradições que noto em mim tem a ver com o meu modo de estar na sociedade. Sou uma faladora compulsiva. Adoro falar, opinar, conversar. Penso que terei criado a minha página Steff’s World – a soma dos dias exatamente por isso. Contudo, gosto de estar sozinha, gosto de controlar o meu espaço e o meu tempo. Sair à noite para dois dedos de conversa com uns amigos é ótimo mas ficar a ver uma boa série, em casa, enquanto degusto um excelente copo de vinho também é de qualidade. Talvez seja por esse gostar de estar sozinha no meu canto que sempre fui tão exigente quanto às companhias que poderia ter ao meu lado. Talvez seja por isso mesmo que continuo solteira.

Dizem muitas vezes que as pessoas estão sozinhas porque assim escolheram estar. No meu caso, não sei bem se é uma escolha. Tenho certeza é que é uma exigência e que tem a ver com as características que acima citei: gosto de estar sozinha, de ter a minha independência e de poder usufruir do meu tempo e espaço como bem me apetece. Não se pense com isso que sou uma solteira inveterada! Até digo que ponho a possibilidade de abdicar de algum do meu tempo e espaço para o partilhar com alguém. Contudo, apenas abdicarei de todas as partes que me agradam em ser solteira, em ser sozinha, se encontrar alguém que me faça sentir que a sua presença é melhor do que a minha solidão. E só assim me faz sentido.

A educação que nos vão dando enquanto somos crianças passa muito por nos fazer acreditar que apenas podemos ser felizes se encontrarmos alguém com quem possamos partilhar a nossa vida. Os filmes, os livros, os contos infantis refletem essa ideia em todos os sentidos: os amores eternos, os “felizes para sempre”, a princesa que precisa encontrar o seu príncipe para que a sua vida faça sentido. Desde cedo nos vendem a ideia que somos seres incompletos, divididos, que procuram incessantemente a sua metade que a poderá deixar completa. Desse pensamento surgiram as velhas e batidas frases “para cada panela há seu testo” ou o “somos todos uma metade da laranja que procura a sua outra metade”. E a verdade é que essa ideia acaba por se enraizar na nossa mente e muitos acreditam que só poderão ser felizes se encontrarem alguém que os preencha em todos os sentidos, alguém que os faça acreditar que encontraram, de facto, a sua metade da laranja.

Talvez seja por isso que se encontram tantos casais por aí que não eram para acontecer… . Parece-me que algumas pessoas acreditaram mesmo nesta questão da metade da laranja e que temeram tanto não encontrar aquela pessoa que as completasse que acabaram por se unir a uma metade que não era bem a metade da sua laranja apenas e só para não ficarem sozinhas. É claro que ninguém irá admitir, sem pejo, que está numa relação apenas e só porque não quer caminhar, por esta vida, sozinho. Mas…não conhecemos, todos nós, exemplos destes? Não conhecemos todos casais que, desde o início, se percebeu que aqueles dois seres não iriam resultar juntos? Conhecemos sim, ainda que muitos perdurem ao longo dos tempos.

Por outro lado, temos ainda, aquelas pessoas que acreditaram mesmo, durante algum tempo, que tinham encontrado a sua metade da laranja. Porém, com o passar dos dias, perceberam que se tinham enganado, que aquela não era a pessoa que as fazia sentir completas. Quantas delas não mantêm a relação apenas e só porque se recusam a admitir que ela naufragou? Quantos casais vemos unidos ao longo dos anos, ainda que se saiba e se perceba que aquela união soçobrou, que ambos vivem de coração vazio e sem esperança?

E tudo isso porquê? Porque sempre nos fizeram acreditar que não estamos bem sozinhos. E muitos, nessa situação, pensam que é melhor ter alguma coisa a que se agarrar do que não ter coisa alguma… Muitos acreditam que caminhar para lados opostos será sempre melhor que caminhar sozinho. Não consigo pensar assim!

A verdade, e a que temos de perceber, é que nós não somos metade de nada. Somos inteiros. Cabe-nos a nós lutar para sermos felizes. Ninguém merece ter às costas o peso de pensar que nos completa. O peso de pensar que sem ele seremos apenas parte de algo. Nós é que temos de lutar por nós próprios, lutar para crescermos, lutar para atingirmos os nossos objetivos, lutar para sermos felizes. E eu percebi isso. Por isso sei que escolherei ter alguém ao meu lado porque assim o quero e não porque penso que preciso de me sentir metade de alguém. Escolherei ter alguém ao meu lado por vontade e nunca por necessidade. Escolherei ter alguém ao meu lado quando esse alguém me fizer acreditar que a caminhada, junto dele, será mais agradável do que sozinha. Por enquanto, não encontrei esse alguém. Sigo o meu caminho sozinha…e feliz. Escolhi não ser uma metade da laranja mas ser um limão inteiro. E por enquanto, sigo bem nesse caminho.

Idade? 40, alínea C

24 de junho é dia de crónica, dia de analisar isto de estar a envelhecer, dia de pensar na vida… Enjoy!

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E não é que desde que vim aqui falar dos meus 40+2 já a terra deu 365 voltas sobre si e já tenho de vos falar dos meus 40+3? Raios, é só impressão minha ou a terra está a dar estas voltinhas depressa demais? O tempo corre a uma velocidade assustadora, é o que vos digo! Lembro que pelos meus onze, doze anos o tempo se arrastava de forma dolente: o ano letivo era interminável. Tanto acontecia naqueles dez meses! Criavam-se amizades que pareciam para sempre, odiávamos visceralmente tal ou tal disciplina (ou professor) e por isso cada aula parecia levar dias a passar! Ainda assim, e apesar disso, sentíamos que nos sobrava tempo depois das aulas para fazermos muito do que nos apetecia e que os fins-de-semana esticavam o suficiente para descansar e nos divertirmos. As férias – de três meses – mais pareciam anos. Chegados a setembro mal lembrávamos do que se tinha passado em junho. Basicamente o tempo tinha tempo para ser tempo e por isso ele (o tempo) sobrava-nos!

E agora? Estarei assim tão…”experiente”? Como é que o tempo começou a passar tão depressa? Como raio passou desse passo dolente para uma corrida desenfreada? A verdade é que sinto que o tempo me escapa pelos dedos. O tempo esgota-se em nada, as semanas passam a uma velocidade estonteante e, quando dou conta, eis que me encontro a pensar em celebrar mais um ano, mais um aniversário. E se ainda há pouco me estava a habituar à ideia dos 40+2 eis que já tenho de me habituar a um novo número. Como raio isto aconteceu? Ainda ontem estava a entrar numa nova década! Assumo que gostei de entrar na década dos 40. Já falei sobre isso. Tornei-me mais segura, mais autoconfiante e, ao mesmo tempo, mais serena, mais calma, menos exigente comigo, com os outros e com o mundo. Tudo bem interessante, de facto. Entramos numa fase celebrada e cantada: ele é “A ternura dos 40” de Paco Bandeira, ele é a “Mulher de 40” do Roberto Carlos…

O problema põe-se no “+1”, “+2” e por aí fora. Conhecem música que cantem sobre a mulher de 40 E DOIS, 40 E TRÊS? Duvido! É esse somar aos quarenta que me aborrece um pouco.

Posto isto, decidi tomar medidas!

Decidi que vou continuar a ser a celebrada “Mulher de 40” . E, como sou da área das letras, irei, apenas, anexar-lhe uma pequenina letra. Assim sendo, hoje, dia 24 de junho, faço sim 40 anos, mas com um pequeno anexo: a letra “C”. Hoje a Steff completa os seus 40 anos, alínea C!

Desengane-se porém, quem com isto considera que não gosto de fazer anos. Muito pelo contrário! A-do-ro!! Gosto de fazer anos, de celebrar, de ser “a miúda” do dia!

Sou uma pessoa bem-disposta por natureza. Gosto da vida e gosto de a viver com os altos e baixos que ela nos traz. Não conheço outros mundos mas este que conheço é-me muito simpático. Sou feliz por estar viva, sou feliz com a vida que tenho, sou feliz com as pessoas que me rodeiam. Por isso gosto de fazer anos uma vez que celebro, cada ano, tudo o que a vida me deu ao longo destes anos. Obviamente, não tenho tudo o que quero, obviamente que almejo a algo mais. Mas enquanto tenho e não tenho, escolho ser feliz com o que me é dado. E, por isso, espero andar aqui pelo Planeta Terra mais uns bons anos para poder somar mais letras aos meus 40. Estamos vivos e de saúde. Essa é uma dádiva que devemos reconhecer. Devemos agradecer a terra ter girado 365 vezes e ainda estarmos por cá, agradecer tudo de bom que nos aconteceu neste último ano e celebrar a possibilidade de continuarmos a sonhar, a rir, a viver, a festejar.

Acima de tudo, devemos relembrar que números são apenas números. 40, 43, 60 ou 90. Apenas números. O importante, de facto, é a atitude perante a vida, é a idade com que nos sentimos, a idade que acreditamos ter. E aí, caros amigos leitores, posso dizer-vos que nunca terei passado dos 30 (isso porque algumas “dorzitas” dizem-me que já não sou jovem, jovem!)

Hoje faço anos. O meu cartão de cidadão diz que nasci em 1976 e que, como tal, faço 43 anos. Eu direi, por cá e a quem pergunta que faço 40, alínea C. Contudo hoje, quando me deitar, sei que irei refletir sobre o meu dia e sobre mim mesma e pensar: “Que idade tenho? Tenho a idade que a minha mente acredita ter. E, na minha mente, posso dizer-vos que ainda sou aquela miúda de 25 anos que pensa que tem a vida pela frente, com uma imensidão de sonhos para viver.

E que venham os festejos!

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Um dia em contramão

A minha proposta para hoje é o “Conto do mês”. Um conto para pensarmos um pouco sobre a forma como levamos a nossa vida e sobre o que realmente importa nela!

Parem um bocadinho e degustem a leitura de mais um conto baseado nos versos de uma canção. Este mês os versos vêm de “Os quatro e meia” e da fantástica “A Terra Gira”. Como já deverão saber, os contos escritos partindo dos versos de uma música não procuram seguir a mensagem veiculada pelas letras das várias canções que têm sido escolhidas mas sim criar toda uma nova história.

Enjoy e, já sabem, podem sempre propor uma canção do vosso agrado.

[Tempo de Leitura – 9 minutos]

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Photo by Ben Rosett on Unsplash

“Eu não sei
Nem como, nem quando, aqui cheguei
Sem saber
Dou por mim a viver a correr

E o mundo segue
Sem olhar para nós
Queremos tudo
Mas vivemos tudo a sós

A terra gira em contramão
Ficamos tontos sem direção
Corremos até nos faltar o ar
E a vida vai ficando para depois
E continuamos os dois a sonhar…”

                                   A Terra Gira – Os Quatro e Meia

Naquele dia Artur sentia-se extremamente cansado. O dia no escritório tinha sido exaustivo. Que saturado estava desta vida que ele levava! Ser Diretor executivo da empresa não lhe tinha trazido a felicidade e a satisfação que ele sempre pensara, isso era um facto… Mal podia esperar para chegar a casa, tirar a gravata, descalçar os sapatos e poder degustar uma taça de vinho em frente a um qualquer programa desportivo! Essa era a parte boa de se ter divorciado e de ter a casa vazia: não tinha que conversar com ninguém se não lhe apetecesse, não tinha que sentar à mesa para jantar se não lhe apetecesse, poderia comer pizza no sofá sem ouvir a mulher a queixar-se das nódoas e das migalhas. Pensando bem, a sua nova vida podia ser solitária mas tinha estes momentos agradáveis…

E, tal como tinha pensado quando ainda estava a trabalhar, quando chegou àquela casa silenciosa, descalçou-se ainda a caminho do quarto, despiu a roupa que deixou largada em cima da cama (tal seria impossível de fazer enquanto era casado! “Não posso fazer tudo nesta casa. Importas-te de, pelo menos, arrumar a tua roupa nos devidos lugares?” – parece que ainda ouvia a ex-mulher a resmungar todos os fins de dia). Pelo menos agora, ele deixava a roupa onde muito bem lhe apetecia! Tomou um duche que, por instantes, lavou todas as preocupações e cansaços daquele dia e instalou-se, depois de comer uma fatia de pizza e uma fruta, em frente à televisão para, finalmente, poder descansar.

 E, foi nesse momento, quando se sentou no sofá, que se deu conta do silêncio que estava instalado naquela casa…por menos que o quisesse admitir, sempre que deixava um pequeno espaço para isso, o pensamento voava para analisar a sua situação atual: tinha atingido, profissionalmente, o patamar a que se tinha proposto, não tinha ninguém a discutir com ele o tempo inteiro, tinha a sua própria casa…supostamente seria um homem realizado. Contudo, sempre que Artur se permitia ser um pouco sincero consigo mesmo, percebia que, na verdade, se sentia um falhado. Ser diretor executivo não lhe tinha trazido a realização que pensava que iria obter. Continuava a sentir aquele trabalho apenas como uma forma de ganhar um bom dinheiro ao fim do mês. Não se sentia mais motivado hoje do que se sentia ontem. A nível pessoal também sentia que tinha falhado. Não tinha cultivado as amizades, pois encontrava-se sempre a trabalhar. As relações familiares tinham sofrido o mesmo destino dos amigos…o tempo escasseava. E, por fim, o próprio casamento se tinha deteriorado. Mais uma vez, sentia que grande parte da culpa disso ter acontecido era dele. Artur sentia-se só, sentia que tinha apostado todas as fichas da sua vida no trabalho e que este não lhe tinha retornado o prémio que ele pensava obter.

Enquanto estes pensamentos rodopiavam na sua cabeça, Artur acabou por adormecer, profundamente, no sofá. Acordou, já de madrugada, ainda com o comando na mão, a televisão sintonizada num qualquer canal de televendas. Arrastou-se até ao quarto onde dormiu, num sono profundo, as horas que ainda tinha até serem horas de iniciar um novo dia.

Às sete horas em ponto o despertador do telemóvel tocou e Artur levantou-se para iniciar a sua rotina diária, a caminho do trabalho. Lançou um olhar lacónico ao seu quarto, à desarrumação que imperava e, mais uma vez, pensou na ex-mulher. Jamais ela permitiria que o quarto estivesse assim!… A essa hora já ela estaria a dizer-lhe “Bom dia, alegria! Não achas que são horas de levantar? A que se seguiria, provavelmente, alguma queixa…” Mas a verdade é que naqueles primeiros minutos da manhã, ainda de olhos fechados, quase que sentia saudades daquele beijo da manhã, da sua disposição matutina, e daquele “bom dia, alegria!” Bem, havia que levantar e enfrentar mais um dia de trabalho! E duro que este ia ser! A agenda estava carregada de reuniões!

Verdade seja dita que, quando Artur saiu de casa ainda se encontrava meio que em modo de autogestão, mais adormecido que acordado, e não se deu conta que algo muito estranho se passava na rua. Enquanto ele avançava em direção ao carro, não se dava conta que as pessoas caminhavam em sentido contrário, em vez de seguirem para a frente, parecendo impelidas a andar para trás. Apenas reparou nisso quando se sentou no seu carro. Ele próprio sentia uma estranha pressão, como se uma força o puxasse para trás. No início essa era uma força muito ténue, mal se pressentia, mas assim que se sentou no carro sentiu a força aumentar de tal forma que se sentiu colado às costas do assento do seu Mercedes. Mas foi no momento em que ligou o carro que a situação piorou. A força a puxá-lo para trás aumentou drasticamente, e ele começou a ver tudo à sua volta a desfilar para trás a uma velocidade astronómica. Na verdade, não sabia bem se era o mundo à sua volta que estava a andar para trás, se era o seu próprio carro. “Raios! O que se passava?! Estaria ele, de facto, acordado? Alguém que o beliscasse!!” A verdade é que Artur continuava a ver o mundo desfilar à sua frente, num processo de retrocesso, assustador, como se estivesse a realizar uma marcha atrás a uma velocidade impressionante. Perante os seus olhos desfilavam momentos e lugares que tinham sido da sua vida. Tanto estava no seu carro, como estava em sua casa, no escritório, em lugares onde tinha passado férias, em casa dos seus pais. Pelos seus olhos passaram muitas das personagens que fazem ou fizeram parte da sua vida: colegas de trabalho, a mulher, ou melhor, a ex-mulher, amigos, os pais e tantos e tantos…alguns que não via há muito e outros que tinha visto ontem, alguns que ainda estavam vivos e outros que já tinham partido há tempo. Alguns momentos passavam num ápice, pouco mais do que uma fotografia, outros momentos atardavam-se por longos minutos, permitindo a Artur relembrar momentos, sentimentos e até saudades que nem tinha dado conta de que sentia.

O primeiro momento em que Artur esteve mais tempo parado foi uma recordação de Natal. Estava tão feliz! Tinha recebido um kit de pintura artística. O Artur dos 44 anos ficou parado a olhar para aquele pequeno Artur que se deliciava com a prenda que tinha acabado de receber! Que momentos felizes aquele kit lhe tinha trazido! Os seus primeiros quadros tinham sido pintados naquela época…época em que Artur tinha certeza que queria ser artista, tinha certeza que a arte seria o seu caminho e se tornaria um pintor reconhecido… O Artur mais velho olhou para o seu “eu” mais novo e pronunciou, em voz alta, dirigindo-se não sabia se a ele, novo, ou a ele próprio, adulto. “A vida pregou-te uma partida daquelas! Quem diria que te irias tornar num profissional da gravata!”. O Artur mais novo não pronunciou uma palavra que fosse. Contudo, ergueu o seu olhar para o adulto que se encontrava à sua frente. Era um olhar frio, inesperado numa criança, um olhar que se diria acusador…

Ainda estava Artur focado na sua imagem mais nova quando, mais uma vez, se sentiu puxado para trás. Parou, desta feita, no momento em que terminou a sua licenciatura em economia. Ainda se notava no Artur jovem, apesar do curso de Economia, um certo ar de artista, pensou o Artur velho. “Nessa altura estava convencido que seria capaz de levar todos os meus sonhos em frente. Trabalhar numa empresa, sim, mas continuar as tertúlias à quinta-feira com os amigos, também eles artistas…se os vi três vezes ao longo destes anos foi muito…”. Artur não sabia que viagens no tempo eram aquelas mas começava a sentir um certo pesar, uma certa pena ao rever-se tantos anos antes.

Na viagem que se sucedeu Artur reencontrou-se ao telefone a informar os pais que não poderia ir passar o fim-de-semana, não poderia passar a Páscoa com eles, não poderia ir visitar o pai que estava doente…o trabalho exigia-lhe tanto…ele não tinha tempo para coisa alguma que não fosse o seu trabalho…ele tinha tanto para fazer e tanto para atingir nessa altura – pensou. Tantos foram os telefonemas…Artur nunca tinha, até hoje, tomado consciência do número de vezes que se tinha mostrado indisponível para os pais. Só hoje notava o olhar triste da mãe, o semblante carregado do pai… Eles nunca disseram nada! Eles nunca se queixaram!

Ainda estava com o pensamento fixo nos pais e no facto de se sentir um péssimo filho quando, mais uma vez, foi sugado por aquela máquina do tempo. “Que miúda gira! Tinha esquecido o quanto ela era gira na Faculdade!” Artur tinha, à sua frente, Maria, a sua ex-mulher. Maria olhou para ele e sorriu-lhe a ele, um homem que ela, com certeza, acharia velho e barrigudo. Contudo, a Maria dos anos 90 olhou para ele e sorriu-lhe. Aproximou-se dele dizendo-lhe: Estava farta de esperar por ti!” – e pontuou esta frase com um beijo longo e sentido. E as viagens ao longo dos tempos sucederam-se a um ritmo vertiginoso. Vezes sem conta a Maria pronunciou a mesma frase “estava farta de esperar por ti, estava farta de esperar por ti” – em momentos diferentes da vida deles. Maria no café, Maria à porta do cinema, Maria na cozinha,  depois de ter jantado sozinha, Maria na cama, meio adormecida…Maria sozinha, Maria sozinha sempre, Maria à espera dele… Foi isso mesmo que ela tinha dito quando saíra de casa: Cansei-me de esperar…

Artur não fazia ideia do que estava a acontecer. Sentia que estava a ser obrigado a olhar para o seu passado e nada do que via o deixava feliz…

De um momento para o outro aquele enorme movimento de retrocesso pareceu parar. Artur olhou à sua volta. À sua frente, num banco de jardim, o seu avô parecia esperar por ele, desde a altura em que tinha deixado o neto, mais de 20 anos antes, tinha Artur 25 anos. Contudo, o avô não estranhou este Artur com mais 20 anos e quilos no corpo. Pareceu reconhecê-lo como se o tivesse visto ainda ontem. Olhou para ele, sorriu-lhe e disse-lhe:

Senta-te, filho. Estás com um ar cansado e preocupado. Senta-te aqui junto do teu avô. Vamos conversar um pouco. Não converso contigo há tanto tempo… 

Artur, sentou-se junto do avô, que temia tocar. Contudo, o avô pareceu ler-lhe os pensamentos e, voltando-se para ele, deu-lhe um abraço apertado, sentido. Artur sentiu que aquele abraço o deixava ainda mais desarticulado, sem saber o que se estava a passar, sem saber se se sentia triste ao rever todos aqueles momentos ou feliz por rever e por poder abraçar pessoas como o avô que não via há tantos anos. Começou, aos tropeções, meio a gaguejar, ainda abraçado ao avô:

– Avô, Eu não sei/ Nem como, nem quando aqui cheguei. Sem saber/ (dei) por mim a viver a correr este dia e, para dizer a verdade, toda a minha vida! Percebi que não tenho dado atenção ao que realmente interessa. Ficou claro para mim, neste dia de loucos, que anda aos tropeções para a frente e para trás, que ando a perder a minha vida e a perder aqueles que foram importantes nela. E a verdade é que o mundo e as pessoas da minha vida habituaram-se a viver sem mim. Percebi, avô, que “o mundo segue/ Sem olhar para (mim). A verdade, avô, é que hoje percebi que queremos tanto da vida, Queremos tudo/ Mas vivemos tudo a sós”, ninguém está ao nosso lado para viver o nosso suposto sucesso. Não sou a pessoa que sonhei quando era criança, não sou o filho que pensei ser, não sou o marido que quis ser. Trai-vos a todos nesta minha luta constante para me realizar profissionalmente…eu que queria ser artista! Falhei-vos a todos e por isso me sinto assim: sozinho e vazio na vida.

O avô escutava o neto com atenção. O seu olhar, sábio, deixava transparecer uma enorme ternura pelo neto, para além de uma luz de compreensão. Deixou-o falar e falar, esvaziar-se de tudo o que o neto sentia, da sua tristeza, da sua frustração, do remorso, da saudade. Quando, finalmente, Artur sentiu as palavras escassearem, o avô fixou o olhar no neto e tomou a palavra. Disse-lhe:

Sentes que o dia hoje é um dia atípico. Sentes que a terra acordou a girar ao contrário, certo? Sentes que estás a ser obrigado não só a andar mas, também, a olhar para trás. Sentes que “a terra gira em contramão/ (que) Ficamos tontos sem direção/ (que) corremos até nos faltar o ar…”, até nos sentirmos doentes e cansados de todo este movimento contrário, certo? Mas…e se a terra girou, precisamente, ao contrário, para te abanar, para te acordar, de facto, para a vida? Se a terra começou a girar ao contrário para te mostrar que a tua vida está a ficar para depois? Tens noção que pode não haver nenhum depois? E se a terra girou ao contrário para te mostrar que não estás a viver mas a sobreviver?… e se a terra girou ao contrário para te mostrar que estás a perder todos os teus sonhos de criança, adolescente, jovem adulto?… E se, afinal, este não for um dia terrível?…

Artur preparava-se para responder ao avô quando voltou a sentir aquela sensação de ser puxado para um outro momento…ainda teve tempo de se questionar sobre qual seria o momento da sua vida desta vez…aterrou no sofá onde tinha adormecido no início da noite. Viu-se, a si próprio, ainda de comando na mão. À sua frente, o prato com o resto de pizza que nem acabara de comer. A televisão continuava sintonizada num qualquer canal de televendas. Eram sete da manhã…tinha passado a noite toda a dormir no sofá, e, provavelmente por isso, tinha tido sonhos estranhíssimos. Olhou para a rua. O dia estava a nascer. As pessoas que já percorriam a rua andavam para a frente e não para trás. Artur suspirou: “Raios, que pesadelo o meu! Vamos mas é levantar que a vida não espera por nós!”

Quando se dirigia para a casa-de-banho estranhou um papel rasgado de um qualquer caderno que se encontrava pousado em cima da mesa de apoio, na sala. Nele, apenas duas frases:

E a vida vai ficando para depois/ E continuamos os dois a sonhar”… Por baixo, uma assinatura floreada que tão bem conhecia, do seu avô: Artur Antunes.

Artur ficou tão estarrecido que voltou a sentar-se no sofá. Ficou de olhar ausente, observando fixamente o papel que ali se encontrava. E nesse momento decidiu que hoje não iria trabalhar. Iria tirar o dia de férias e visitar os pais…afinal, a vida deve ser vivida sem ficar para depois!

Flying High – A Vida de Amelia Earhart

Hoje venho falar-vos de mais uma mulher excecional, uma mulher que quebrou barreiras e que olhava para o mundo com uma coragem inaudita. Foi pioneira na aviação dos Estados Unidos, a primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico com um avião e uma defensora dos direitos da mulher! Já sabem de que vos venho falar hoje? Isso mesmo, a “Elas, as que fizeram a diferença” deste mês é dedicada à espantosa Amelia Earhart, um nome que não poderia deixar de ser mencionado nesta rubrica.

 

 

Amelia Earhart nasceu no dia 24 de julho de 1897, no Kansas. Desde a sua mais tenra infância que Amelia (ou Meeley, como carinhosamente a família a chamava) demonstrou ter um espírito aventureiro. A educação que recebeu da mãe foi pouco convencional uma vez que Amy Earhart não acreditava que as crianças pudessem ser “moldadas”, tornando-se em “crianças adoráveis”. Assim, tanto Amelia como a irmã tinham liberdade para passar horas a escalar árvores, a descer encostas com o seu trenó e até mesmo a caçar ratos com uma arma. Amelia era o que comumente chamamos de “Maria Rapaz” e teve sorte de ter uma mãe que lhe permitia dar largas à sua imaginação e rebeldia. Com seis anos construiu, com a ajuda do seu tio, uma rampa que simulava um montanha russa que ela tinha visto em St. Louis, que descia do telhado de uma cabana. Este será o primeiro voo de Amelia de que se tem conhecimento. Saiu da caixa de madeira, que se partiu, com um lábio sangrando e o vestido rasgado. Contudo, terá dito à irmã: “Oh Pidge, é como se eu estivesse voando!”. Ainda que cultivasse um gosto pela aventura, verificava-se, também, que na sua infância apresentava grande interesse por leituras, passando imensas horas a ler os livros que existiam na biblioteca dos avós. Estes seriam traços que Amelia nunca iria perder: um gosto pela aventura e um conhecimento do mundo assinalável.

Amelia teve uma infância feliz mas uma adolescência difícil. Com a morte da sua avó materna, ela começou a ter uma vida conturbada, economicamente menos facilitada, provocada, em parte, pelos problemas de alcoolismo do pai e pela impossibilidade da mãe desfrutar da sua própria herança (uma vez que toda a herança se encontrava sob custódia, temendo a avó que o alcoolismo do seu genro destruísse toda a riqueza herdada). Amelia contava, nessa época, com 17 anos.

Formou-se no Hyde Park High School, em 1915 (com 18 anos). Entrou, no ano seguinte, para a faculdade mas não terminou o curso. Nesse mesmo ano, e ao assistir ao regresso de soldados feridos da Primeira Guerra Mundial, decidiu ser enfermeira. Após receber treino como enfermeira na Cruz Vermelha, começou a trabalhar no Destacamento de Ajuda Voluntária no Spadina Military Hospital, em Toronto.  Em 1919 Earhart preparava-se para entrar para o Smith College mas mudou de ideias e foi para a Universidade de Colômbia inscrevendo-se num curso de medicina. Desistiu um ano depois…

O interesse de Amelia em tornar-se aviadora começou quando, em 1920, aquando de uma visita a um campo de aviação, lhe foi proporcionada uma viagem de avião de dez minutos, como passageira. A vontade de aprender a voar surgiu logo após esse voo. Amelia tinha, finalmente, um objetivo na vida. Trabalhando como fotógrafa, motorista de caminhão e estenógrafa na companhia telefónica da cidade, conseguiu reunir, num ano, mil dólares para pagar as lições. No ano seguinte iniciou a suas aulas para se tornar piloto. A primeira aula foi dada por Anita Snook, outra pioneira da aviação feminina, a 3 de janeiro de 1921. Em seis meses tinha conseguido poupar o dinheiro suficiente para comprar o seu primeiro avião a que deu o nome de “O Canário” – um biplano kinner amarelo brilhante em segunda mão. A 15 de maio de 1923 Amelia tornou-se a 16ª mulher a conseguir uma licença de voo da Fédération Aéronautique. Nessa época já ela tinha batido um recorde: meses antes tinha alcançado uma altitude de 4300 metros, o mais alto que qualquer voadora tinha chegado naquela época.

Em 1928 Earhart recebeu um telefonema de um publicitário questionando-a se ela gostaria de voar sobre o Atlântico. Informaram-na, à época, que ela teria a companhia do piloto Wilmer Stultz e do co-piloto/ mecânico Louis Gordon no voo, tornando-a uma mera passageira, ainda que mantivesse o registo de voo. Apesar de ser apenas uma passageira, Amelia aceitou. Ficou famosa, na época, apenas por ter sobrevivido ao trajeto. Ao regressar do voo foram recebidos por uma parada pública em Nova-York e acolhidos, com honras, na Casa Branca. Logo após o seu regresso, deu uma série de palestras e a sua imagem passou a ser usada para fins publicitários: a pastilhas elásticas, cigarros Lucky Strike, roupas femininas e desportivas, tendo chegado a criar a sua própria marca de roupa, que ostentava o slogan: “para quem tem uma vida ativa”. Ganhava a vida em apresentações e concursos. Usava os lucros que fazia para financiar os seus voos e o das suas colegas mulheres.

Ainda que se tivesse tornado famosa com o seu voo transatlântico, Amelia queria ter um recorde apenas seu. E conseguiu-o. Earhart tornou-se, em 1928, a primeira mulher a efetuar um voo a solo de ida e volta através do continente americano.

A nível pessoal, Amelia casou-se com o publicitário, e seu empresário, que acompanhava a sua carreira há algum tempo, George Putnam, em 1931. Também nesse aspeto os ideais de Amelia eram bem liberais em relação ao pensamento do seu tempo. Recusou-se a mudar o seu nome para o nome do marido e fazia questão de dividir tarefas e dinheiro de igual para igual.

Sendo a primeira mulher a efetuar um voo solo sem escalas através do Atlântico, Amelia recebeu a “Distinguished Flying Cross” do Congresso dos Estados Unidos, a “Cruz de Cavaleiro” da Legião de Honra do governo francês e a Medalha de Ouro da National Geographic Society. Nessa época a fama de Amelia crescia e ela acabou por tornar-se amiga de várias pessoas que tinham cargos públicos importantes, como era, por exemplo, a primeira-dama Eleanor Roosevelt.

Entre 1930 e 1935 foram vários os recordes batidos por Amelia Earhart, de velocidade e distância, demonstrando a todos que o futuro se encontrava mesmo nos aviões e que as mulheres possuíam as mesmas capacidades que os homens para os pilotar. Amelia assumia desafios cada vez mais difíceis tornando-se, cada um deles, um grande acontecimento. De tal forma era a sua fama, nessa época, que ela tinha de ter muito cuidado nas suas aterragens uma vez que era sempre aguardada por uma multidão.

Em 1937 iniciou o seu projeto de dar a volta ao mundo num avião, para comemorar os seus 40 anos. Não sendo o primeiro voo a procurar dar a volta ao globo, seria o mais longo, uma vez que seguiria a rota equatorial – seriam à volta de 47 000 quilómetros de percurso.

Depois de uma primeira tentativa falhada, voltou a tentar a 1 de junho de 1937. Ela e o navegador Fred Noonan partiram de Miami. Pousaram na Nova Guiné, 28 dias depois, quando faltavam apenas 10 000 quilómetros. A 2 de julho de 1937, descolou para terminar o percurso mas o avião de Amelia Earhart desapareceu. A Guarda Costeira perdeu o contacto com o avião e o que se sabe é que ele nunca chegou a pousar na Ilha Howland. Apesar das muitas pesquisas, nenhum vestígio do avião foi encontrado. Várias foram as teorias criadas sobre esse trágico desaparecimento: o avião teria ficado sem combustível, teriam perdido a orientação e teriam aterrado numa ilha desabitada, Amelia e o seu acompanhante teriam aterrado de emergência e teriam sido capturados pelos japoneses…essas eram apenas algumas das explicações que foram encontradas. O certo é que tanto os corpos como os destroços do avião nunca foram encontrados. Amelia desapareceu tinha 39 anos…

Em 1940 foram encontradas ossadas em Nikumaroro, uma ilha do Pacífico, que se acreditou poderem pertencer à aviadora.

Em 2018 alguns mergulhadores encontraram restos, em águas perto da Ilha de Buka, no Oceano Pacífico, que poderiam pertencer à aeronave onde seguia Earhart.

A verdade é que as circunstâncias da morte de Amelia ainda hoje não são claras nem conhecidas.

Não se sabe como e onde morreu mas sabe-se que Earhart ainda hoje é lembrada pelo grande legado que nos deixou: provou que não existem barreiras para atingir os nossos sonhos, inspirou as mulheres a seguirem as carreiras por elas escolhidas e a lutarem pelos seus objetivos. Lutou pelos direitos das mulheres e pela sua independência. Casou-se mas recusou-se a aportar ao seu nome o nome do marido. A roupa da sua marca, a AE, apresentava roupas que tinham que ser fáceis de lavar pois para ela as mulheres não podiam passar o dia a lavar e a limpar. Foi uma celebridade internacionalmente conhecida. Era carismática, apesar da sua timidez. Tudo isto somado ao seu desaparecimento precoce, ainda jovem, ajudaram a que se criasse um mito à sua volta, tornando-se um ícone popular e um símbolo do empoderamento feminino. Como tal, não seria possível não falar desta pioneira da aviação que viveu de forma tão diferente e que exigiu da vida tudo o que ela lhe poderia dar nesta rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”.

 

Saber dizer «até já»

Início de mês é o momento para a publicação de crónica no Semanário Registo. Este mês trouxe ao público esta “Saber dizer «até já», uma crónica sobre despedidas. Enjoy!

Tempo de leitura – 3 minutos

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Aqueles que me rodeiam sabem que detesto a palavra “Adeus”. Para mim “Adeus” significa “para sempre” e essa noção de “para sempre” não existe na minha forma de viver e sentir. Quer seja nas despedidas por ir embora, nas despedidas por escolher outro caminho ou nas despedidas, bem mais duras, devidas à morte de alguém que nos é querido, a palavra “Adeus” não tem sentido nem utilidade para mim. Em todos os casos sinto que um “Até já” é bem mais sentido e verdadeiro. Sei, bem no meu íntimo que, de uma forma ou de outra, haverá um reencontro com as pessoas de quem me despeço naquele momento penoso. Até lá, e por nunca serem esquecidas, pertencem à minha vida, pertencem-me…

Quase poderia dizer que sou uma profissional das despedidas. Desde muito cedo aprendi a dizer “até já” às pessoas e situações de quem gostava. Não, não considero isso como algo de positivo mas é apenas uma constatação. Ainda criança fui obrigada a despedir-me de pessoas que serão sempre das mais importantes na minha vida (fisicamente ausentes mas sempre presentes numa forma menos terrena).

A vida que escolhi também me obriga a muitas despedidas. Despedidas de colegas que conheci num ano, de cidades ou vilas de que aprendi a gostar, de alunos que por uma razão ou outra me marcaram, de verdadeiras amizades que criei durante todo o tempo em que estive longe do meu lar e longe dos meus.

Nas relações amorosas também fui “obrigada” a despedir-me algumas vezes. Por vezes por opção minha, por perceber que determinada relação já tinha trilhado todo o caminho que poderia ser trilhado e que, por isso tinha chegado ao fim. Outras vezes, porque o outro terá pensado exatamente o mesmo…não havia mais caminho a percorrer, juntos…

 O certo é que as despedidas fazem parte da minha vida desde há muito. Têm sido bastantes ao longo dos anos. Mas não me tornei uma profissional das despedidas. O facto de as ter iniciado tão jovem e de já o ter feito tantas vezes não me tornou mais hábil nessa questão. Continuam a ser difíceis…sinto que perco uma parte de mim sempre que me despeço de algo ou de alguém que me é caro. É uma ferida que fica ali à procura de uma cura… Umas feridas são, obviamente, mais profundas que outras. Umas acabam por curar…porque somos naturalmente resilientes e aprendemos a superar faltas. Perdemos uma parte de nós mas criamos outros “bocadinhos” para superar essas perdas. Outras…apenas aparentemente ficam curadas. Criamos uma crosta que nos faz pensar que a cura chegou. Pensamos que superámos a dor e a perda. Mas facilmente percebemos que, por baixo dessa crosta, a ferida está lá. Basta pensarmos um pouco para perceber que as brechas se abrem com uma facilidade enorme e que a ferida volta a sangrar facilmente. Com o tempo sangramos cada vez menos é certo…mas quando a crosta desaparece e já quase não sangramos, aparece a cicatriz. E essa, ninguém a consegue apagar. Está lá, como se fosse parte de ti. Não nasceu contigo mas passou a fazer parte de ti…No fundo ocupa o espaço que a pessoa a quem tiveste que dizer “até já” ocupava.

Apesar de tudo o que referi, apesar das despedidas serem sempre muito difíceis (Nunca nos tornamos uns profissionais dos “até já” independentemente de passarmos por lá muitas vezes), a verdade é que, com ou sem cicatrizes, temos de aprender a seguir em frente. Acima de tudo, temos de aprender a dizer “vai em paz” a quem, sem ter escolha, deixou de fazer parte da nossa vida. E temos de continuar a acreditar que esses seres, embora de uma forma menos visível, estão connosco e connosco caminham. Por isso, como disse anteriormente, não lhes dizemos “Adeus”…

 Aos outros… aos que escolheram seguir outros caminhos, os que seguiram as suas vidas… apenas devemos deixá-los ir e desejar o melhor. Temos de aprender a dizer “farewell” a quem por opção nos deixou. Temos de deixar caminhar quem escolheu seguir a viagem sem nós. Devemos, no entanto, agradecer por terem feito parte das nossas vidas durante o tempo que fizeram parte, agradecer o bem que nos possam ter trazido e agradecer o terem ajudado a provar, com a sua partida, que somos seres humanos fortes, que podemos vergar mas que não quebramos porque somos resistentes e resilientes. E por isso sobrevivemos à despedida deles. Devemos, acima de tudo, deixá-los seguir a sua vida…tentando dizer “até já” sem criar novas cicatrizes.

De uma coisa tenho certeza: o amor, em todas as suas formas, nunca morre. Por isso, para mim, todas as despedidas dos seres que me foram importantes são um “até já”. Sei, no mais profundo de mim, que a vida se irá encarregar de me reunir àqueles que partilharam sentimentos verdadeiros comigo. Por isso, aos que amei verdadeiramente tenho uma certeza que me acompanha e me dá força: “we’ll meet again*”.

*  – Voltaremos a encontrar-nos

Ter um irmão é…

Dia 31 é Dia do Irmão. Como tal, trago-vos uma crónica que procura definir “o que é isso de ter um irmão”.

E vocês têm irmãos? Contem-me tudo!

(Tempo de leitura – 4 minutos)

Não posso dizer que seja oriunda de uma família muito grande. Não tenho uma caterva de irmãos, muito menos uma multidão de primos. Ainda assim, não me lembro, num primeiro pensamento fugidio, que existam, na minha família mais direta, filhos únicos. Tenho tios tanto pelo lado do meu pai como pelo da minha mãe e partilhei a minha infância com alguns primos. Os meus pais também não se deixaram levar pela ideia de “um filho único” – e ainda bem para mim, visto que sou a mais nova! Ainda que a minha irmã tenha sido uma criança difícil nos seus primeiros anos (pelo menos foi assim que me foi contado), os meus pais, quais corajosos guerreiros, optaram por enfrentar o desafio de dar vida e criar um pequeno ser humano por duas vezes. Quis o destino que fôssemos duas meninas, que se criaram mulheres e quis o destino que eu fosse a segunda da fratria. Como tal, cheguei ao mundo já acompanhada. Nunca o explorei sem a presença da “mana mais velha”. Não sei o que é não ter um irmão/ irmã. Mas sei o que é ter uma irmã e por isso posso dizer, quatro décadas e mais uns salpicos de vida depois de nascer, que ter uma irmã nem sempre é fácil mas é, sem dúvida, a possibilidade de ter uma relação única e especial ao longo de toda a nossa vida.

Ter um irmão (entenda-se como irmão ou irmã) é ter alguém que nos ensina, desde a mais tenra idade, que tens de saber partilhar. Partilhas os doces lá em casa, a atenção dos teus pais, os livros e os brinquedos, e, grande parte das vezes, o teu quarto. De um mogo geral, ter um irmão promove em nós o sentido da partilha, o que nos torna, à partida, melhores seres humanos.

Enquanto criança e adolescente, sempre partilhei o quarto com a minha irmã. Ainda que a casa permitisse que cada uma tivesse o seu quarto, preferimos ter aquelas mobílias com camas gémeas que permitiam toda uma conversação sobre os acontecimentos do dia antes de dormir, enquanto se ouvia, com uma certa melancolia, o “Oceano Pacífico” na RFM ou se gargalhava por alguma “tonteira” da hora. Acredito piamente que parte da relação que se cria entre irmãos advém dessas partilhas noturnas. Pelo menos penso que foi assim no nosso caso.

Ter um irmão é ter alguém que te ajuda a perceber, sobretudo se fores o mais novo, como é o caso, que tudo pode e deve ser reciclado (quantos de nós “herdaram” as coisas do irmão mais velho? Os patins que rapidamente se tornaram pequenos para ele, as bicicletas e, não raras vezes, até a roupa!) Mas ser o irmão mais novo é também ter a certeza, pelo menos era no meu caso, que temos no irmão mais velho um protetor e, muitas vezes, um cuidador desde a mais tenra idade (quantos dos irmãos mais velhos não mudaram fraldas ou aqueceram a sopa ao mais novo?)

Ter um irmão é ter junto de nós alguém, quando chega a adolescência, com quem dividir as paixões e os desgostos de amor, as alegrias, as preocupações, os bons e os maus momentos. O facto de o nosso irmão ter vivido ao nosso lado tantos anos gerou uma cumplicidade que é difícil ser criada com outras pessoas.

Ter um irmão é saber que existe alguém que te conhece melhor que ninguém. Afinal, quantos seres humanos te conheceram desde sempre, assistiram aos teus melhores mas também aos teus piores momentos? Com quantos seres humanos tiveste a capacidade de brincar, discutir em seguida, chorar e espernear, bulhar e, meia hora depois, voltar a rir e a brincar? O companheirismo que se cria ao longo destas aventuras e desventuras é um elo que não se quebra. Ainda hoje sempre que tenho uma alegria muito grande ou um desgosto enorme, é a minha irmã uma das primeiras pessoas com quem tenho vontade de partilhar o sucedido. E nada poderá superar este tipo de cumplicidade e companheirismo. Ainda que encontremos a nossa cara-metade, é certo que existem coisas que iremos sempre partilhar primeiro com o nosso irmão. É aquele ser com quem nos permitimos ser totalmente transparentes. E por isso ele é tão especial.

Ter um irmão é ter um fiel companheiro nas aventuras e, sobretudo, nas desventuras, nas alegrias, nas gargalhadas, nas zangas e guerras, nas confidências, na vida do dia-a-dia. Considero que esta será a mais-valia de se ter um irmão – a companhia. Quem tem um irmão percebe que nunca está sozinho, que tem sempre alguém a quem contar os seus mais profundos desejos e segredos e, sobretudo, alguém com quem pode contar. É claro que criei este texto tendo como exemplo a minha irmã e a relação especial que cultivámos ao longo dos anos. Por isso afirmo sem pejo, e pegando no nosso exemplo, que ter um irmão é ter alguém que conhece o nosso passado e com quem o podemos dividir, é ter alguém com quem sonhámos e perspetivámos o futuro, é ter alguém que, longe ou perto no nosso presente, sabemos que está lá “para o que der e vier”.

É por tudo isto que posso afirmar, sem qualquer dúvida, que a caminhada por esta vida é bem mais bonita e completa com a minha irmã. Feliz Dia do Irmão! (o Dia do Irmão celebra-se no dia 31 de maio em Portugal).

A História de Licoreta

Mês quase a terminar e ainda não tinha havido tempo e espaço para o Conto do Mês! Ele aí está! Um conto ligeiramente diferente com uns protagonistas sui generis. Dediquem 10 minutos da vossa vida para ler este conto. Vão ver que não se arrependem. À semelhança das outras pequena narrativas, esta também tem a sua génese nos versos de uma música. Este mês escolhi o inolvidável Elvis Presley, numa das suas canções que continuo a adorar: “Always on my mind”. Espero que gostem! Já sabem, podem sempre propor uma qualquer canção para servir de mote ao próximo conto do mês!

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Foto de Alina Jordan por Pixabay

Maybe I didn’t treat you
Quite as good as I should have
If I made you feel second best
Girl I’m sorry I was blind
(…)
I guess I never told you
I’m so happy that you’re mine

Little things I should have said and done
I just never took the time
You were always on my mind

                               Always on my mind – Elvis Presley

(Tempo de leitura – 10 minutos)

“-P.M?! Bom dia, P.M. Não quero acreditar que ainda estás a dormir! Não me estás a ouvir?! “

Do outro lado, silêncio. Nem uma resposta, nem um pequeno suspiro. Apenas silêncio. Licoreta, uma simpática garrafa de licor caseiro de cereja, tentava entabular conversa com aquela que ela considerava a garrafa mais interessante de toda a adega: uma sisuda garrafa de vinho tinto, um Pêra-Manca do ano de 2005. Contudo, P.M, como quase sempre, nem lhe respondia.

Desde que ela tinha chegado a adega que a relação deles era assim. Licoreta, uma conversadora sem atalho, procurava partilhar ideias e pensamentos com todos os habitantes daquela adega. E todos, de um modo geral, gostavam dela: das garrafas de champanhe arrumadas na parte de baixo da adega, aos vinhos tintos e brancos ditos correntes, da ala esquerda da adega, até aos velhos vinhos do Porto, com direito a prateleira própria, digníssimos no seu estar e posição. Todos, sem exceção, apreciavam o modo simpático e juvenil de Licoreta e até lhe admiravam as curvas (Licoreta era uma garrafa cor-de-rosa, toda ela cheia de contornos, apresentando-se num vidro fosco e trabalhado). Era, de facto, a “princesinha” da adega que todos, ou quase todos, apreciavam e admiravam. Gostavam da sua alegria diária, da sua jovialidade, da sua simpatia para com todos, da sua capacidade de falar de tudo e nada mas também da sua capacidade para ser uma boa ouvinte e, sobretudo, da sua capacidade de ser feliz e espalhar felicidade.

Quem eram as exceções? As exceções dividiam-se, na adega, em duas fações. Por um lado, as outras garrafas de licor caseiro. Licor de rosa e licor de romã encabeçavam esta fação dos “licores que não gostam de Licoreta”. Os licores sentiam-se uma “casta” à parte. Eles eram da casa. Não eram forasteiros como os outros que tinham nascido sabe Deus onde e tinham sido trazidos àquela casa. Por isso, os licores gostavam apenas de se relacionar entre si. Não abriam os braços da convivência aos outros que tinham vindo de outros lugares. Todos que vinham de fora eram alvos da maior desconfiança, sendo observados com um olhar que queriam ser de desdém mas que, sobretudo, era de temor. Por isso, a excessiva simpatia de Licoreta, que atraía os olhares e as conversas dos restantes habitantes para a prateleira dos licores, importunava-os imenso! “Pode ser que ela seja levada para ser bebida num daqueles jantares de família bem concorridos” – pensava Licor de café. “Pode ser que ela escorregue e se espatife contra o chão, em mil bocados” – pensava Licor de Rosa que sentia em Licoreta uma adversária que lhe fazia sombra perante aqueles que ela considerava seus pretendentes.

A outra fação que não se rendia aos encantos de Licoreta era uma prateleira de vinhos de mesa considerados dos melhores entre os melhores. Todos eles sabiam que para os adquirir o dono tinha despendido algumas centenas de euros. Entre eles contavam-se um Barca Velha tinto, um Château Latour, um Quinta do Crasto, um Quinta do Vale Meão e, o preferido de Licoreta, P.M, um Pêra Manca tinto (de um ano excecional, dizia ele, 1995). Ora, estes senhores sabiam que eram vinhos de uma enorme qualidade, classificados como “preciosos néctares”, que apenas seriam abertos em ocasiões muito especiais e, por isso, consideravam-se de uma casta superior. Como tal, apenas conviviam entre si. Todos os outros habitantes da adega eram, para eles, povo que habitava junto deles, nobreza. Nem as conversas poderiam ser as mesmas uma vez que, consideravam que as vivências de uns e outros eram completamente diferentes.

E, desta forma, num local tão pequeno como o era a adega do senhor João, tinham-se criado cisões entre os seus habitantes com as quais todos conviviam de um modo mais ou menos pacífico. Todos, menos, já se sabe, Licoreta.

Desde a sua chegada à adega que Licoreta procurava entabular conversa com todos. Obviamente, já tinha percebido que os licores não gostavam muito dela. Mas ela escolhia ignorar esses ressentimentos e seguir com a sua vida. Já com a “prateleira dos vinhos caros” – como ela os chamava – as coisas eram mais complicadas. Desde a sua chegada que ela tinha ficado encantada com P.M.! Sempre que o ouvia falar com os colegas arrepiava-se com aquela voz profunda e rouca. Sem dúvida que era a garrafa mais interessante que havia em toda aquela adega. Todos os dias ela tentava uma aproximação àquele Pêra-Manca lindo, pedaço de mau-caminho que a poderia fazer tão feliz, pensava ela. Contudo, P.M não se deixava, facilmente, levar pelos encantos de Licoreta. Aos simpáticos “bom dia” de Licoreta, respondia com um “b’dia” pequeno, num tom desagradável que procurava que não se desse seguimento a qualquer conversa. Mas Licoreta não se ficava e ia tentando, com a sua simpatia e doçura, aproximar-se daquele Pêra-Manca que tão interessante lhe parecia. E tantas vezes tentou iniciar conversa com ele, tantas vezes tentou chamar-lhe a atenção para a sua bela cor e as suas curvas tão bonitas e diferentes das restantes que, um dia, P.M. acabou por lhe responder. Ia a noite já alta, já todos dormitavam quando Licoreta se queixou que estava com insónia e não conseguia adormecer.

“P.M – disse ela – estás acordado? Tenho a sensação que também não dormes. Estarei a roubar-te o sono?” –  Licoreta pronunciava estas frases no tom provocador que ela gostava de usar com P.M. – “Raios! Era dos poucos que resistia ao seu charme!”

Nessa noite, contra tudo o que era esperado, P.M respondeu-lhe. E de uma forma que quis ser uma mistura de galanteio e picardia disse-lhe:

“Sim, Licoreta. A culpa é tua. Tu tiras-me o sono. Enlouqueces-me com a tua voz, com as tuas curvas, com a forma como olhas para mim! Hoje sinto-me cheio de coragem e decidi dizer tudo o que tem passado pelo meu íntimo”.

Licoreta não acreditava no que ouvia. Estava quase emocionada. Afinal, ela não era totalmente indiferente para P.M. Afinal, aquela sensação que ela tinha bem no fundinho da sua garrafa era verdadeira. Afinal, ele fingia não ter interesse por ela mas era mentira. A conversa que se seguiu, durante horas, provou que ambos apreciavam a companhia um do outro. Cada um falou de si e dos seus gostos. Cada um falou das suas origens. P.M falou-lhe das uvas que lhe deram vida, das vinhas a perder de vista do Alentejo, dos cheiros, do sol, das outras uvas que com ele tinham crescido, da sua vida antes de chegar àquela adega. Ele tinha visto tanto mundo antes de ali chegar. Ela, por sua vez, falou da cerejeira onde nasceu, da Serra da Gardunha, dos passarinhos que cantavam à volta dela, do quanto ela sentia saudades da sua cerejeira e daqueles campos. Tinha sido tão feliz, naquela árvore, com todas aquelas amigas cerejas. Falaram da vida que levavam ali na adega, das garrafas que compunham aquela pequena sociedade e até os donos da casa foram comentados. Nesse aspeto, ambos estavam de acordo: ela era uma simpática dona de casa que passava os seus dias a cuidar da casa, dos filhos, a fazer compotas e licores. Ele…ele parecia mais um bom vivant. P.M dizia que ele não lhe inspirava confiança. Não sabia apreciar um bom vinho (dizia P.M) e só isso era o suficiente para não confiar nele. A conversa continuou pela noite fora, falando de tudo e nada. Já era quase madrugada quando decidiram que teriam que dormir um pouco. Terminaram aquela noite de sonho para Licoreta com um beijo que fez Licoreta acreditar que se poderia despedaçar de felicidade.

Quando acordou com o barulho que já se ouvia na adega, Licoreta pensou que aquela era uma manhã maravilhosa! Estava tão feliz!! Mal podia esperar para contar a todos os seus amigos! Ai era tão bom amar e ser amada! É claro que ele ainda não lhe tinha dito que a amava, era tudo muito recente, claro, mas ela sentia que os unia um sentimento forte. Licoreta tinha fantasiado sobre o seu encontro pela manhã com P.M. Iria beijá-la primeiro e só depois dizer bom dia? Iria olhar para ela com um olhar cheio de promessas e dar-lhe um discreto beijo? Iria tomar a palavra e informar todos os presentes que a noite anterior os transformara em seres que se amam?

De todas as suposições colocadas, nenhuma punha em hipótese aquilo que se passou. Não só P.M não lhe deu os bons dias como nem sequer olhou para ela. Seguiu a sua rotina habitual das manhãs, conversando com os seus colegas de prateleira, ignorando completamente a sua existência. Licoreta sentiu um cubo de gelo trespassar-lhe o coração. Onde raio estava aquele simpático, doce e terno P.M que tinha visto ontem à noite? Licoreta sentiu-se triste todo o dia. Por mais que tentasse disfarçar, vários tinham percebido que não se ouvia o doce canto do licor de cereja, não se ouvia a sua tagarelice incessante não se ouviam as gargalhadas cristalinas. Quando lhe perguntaram o que se passava apenas referiu que se sentia indisposta. Assim se passou o dia na maior tristeza e infelicidade. Por isso, acabou por procurar adormecer cedo para não passar mais horas a moer e remoer a sua dor. Já estava na terra dos sonhos quando começou a ouvir, ainda lá longe um “Psst! Licoreta?! Acorda! Quero falar contigo!”

As brumas do sono foram-se dissipando e Licoreta acabou por dar-se conta que alguém a chamava. Rapidamente percebeu que era P.M. Tentando mostrar um tom mais indignado do que magoado perguntou-lhe o que ele queria. Iniciou-se, então, uma longa conversa entre ambos. Licoreta não sabia se a conversa a deixava mais feliz ou ainda mais magoada. P.M tinha-lhe explicado que ela não estava enganada. Que, de facto, ele nutria sentimentos por ela.  Tentara sempre evitar conversar com ela porque sentia que ela era especial e que algo como o que tinha sucedido a noite passada poderia acontecer. Mas a noite passada tinha acontecido! E ele confirmara o quanto Licoreta era especial. Os beijos que tinham trocado tinham confirmado o quanto ela era doce e meiga. O quanto ela mexia com ele. Sim, ele estava apaixonado por ela mas não, ele não iria expor esse amor ao mundo. Nem pensar! Nunca iria assumir qualquer tipo de relação com ela! Percebendo o olhar de incompreensão de Licoreta, P.M. adotou um tom mais duro na sua voz e explicou-lhe:

“Não entendes, Licoreta, que eu não me posso relacionar contigo? Não entendes que nós não estamos ao mesmo nível? Como é que um Pêra-Manca se pode relacionar com uma pobre garrafa que nem marca tem? Uma garrafa de licor caseiro! O que diriam os meus companheiros de prateleira? Nós somos vinhos de um nível diferente! Eu…eu gosto de ti, a sério! Mas eu não posso! Simplesmente, não posso!”

Licoreta ouviu tudo aquilo sentindo-se mortificada. Nunca tinha sido tão humilhada na sua vida! Quem raio pensava que era aquele Pêra-Manca! Ele é que a não merecia. Depois de lhe ter dito isso tudo considerou que nada mais tinham a conversar. Ele era um ser ignóbil e ela não queria nunca mais ouvir falar dele. “Oxalá sejas bebido por um bêbado que te aprecie tanto quanto uma zurrapa!” – foram essas as suas últimas palavras para o belo Pêra-Manca. Desde essa noite nunca mais dirigiram a palavra um ao outro. Pêra-Manca tornou-se ainda mais calado e mais sisudo. A verdade é que Licoreta também se tornou menos expansiva, mais macambúzia. Sentia que perdia o seu brilho, tornando-se mais opaca. Temia estar a azedar! Só faltava acontecer-lhe isso! Depois de tanta tristeza ainda teria o desgosto de azedar e não poder ser bebida! Ela bem se esforçava mas a verdade é que as palavras de P.M ainda ecoavam na sua cabeça, ainda a magoavam. E o pior de tudo era aquela sensação que não a abandonava de que o sentimento que os unia era verdadeiro.

Certa noite ouviram gritaria no andar de cima. Os donos da casa discutiam alto e de um modo que lhes parecia violento. A certa altura bateu uma porta… Pouco tempo depois, passos pesados desceram a escada e abriram a porta da adega. Era a dona de casa. Um simples olhar à sua cara deu para entender que vinha de lágrimas nos olhos, com um ar alheado de tudo. Olhou para tudo o que estava à sua volta…pegou na garrafa de Barca Velha e voltou a pousá-la. Seguiu-se o Château Latour… “Dizem que vocês, vinhos desta prateleira, foram comprados por aquele traidor para serem bebidos em ocasiões especiais…Ora…haverá ocasião mais especial que comemorar a saída daquele ordinário da minha vida? Não deverei eu brindar àquele que foi meu marido até hoje e à sua amante? Hoje é O dia. Vou começar por ti, Château qualquer coisa e depois vejo o que poderei beber mais”. E assim, o Château Latour foi aberto para ser bebido por alguém que nem vinho apreciava num momento que era tudo menos de festejo. Contudo, o desgraçado nem chegou a ser bebido. Diana (assim se chamava a dona de casa) despejou todo o precioso líquido pelo chão da adega…lentamente, quase gota a gota, despejou toda a garrafa no chão…Ah, aquele sacana iria adorar ver aquela cena de crime! Os vinhos, os champanhes, os licores apreciavam a cena em silêncio, horrorizados. Em seguida, esticou a mão para o Pêra-Manca…observou a garrafa, acariciou-a. Tu tens bom aspeto, disse ela. Abriu a garrafa, serviu-se de um copo e bebericou um pequeno gole. Engasgou-se, tossiu, e pousando o copo, dirigiu-se para a garrafa, pegando nela: “É isto que chamam de precioso néctar? É a isto que dão tanto valor que cada garrafa custa 500 euros? Pois digo-te, não vales nada!”

Pêra-Manca sentiu-se ofendido na sua dignidade mas nem teve tempo para pronunciar uma palavra que fosse. Antes que se desse conta, a garrafa foi projetada com toda a força contra a parede. A garrafa estilhaçou-se e Pêra-Manca deslizou pela parede e pelo chão, misturando-se ao que restava do Château Latour. Sentindo a vida escapar-se dele, o seu último pensamento foi para Licoreta. Ainda encontrou forças para declarar, à frente de todos o seu amor. Disse-lhe então:

“Licoreta, talvez não te tenha tratado/ tão bem como deveria./ Se te fiz sentir como se estivesses em segundo lugar/ desculpa-me, estava cego/ Nunca aproveitei o tempo/ (para) pequenas coisas que deveria ter dito e feito/Acho que nunca te disse/ que estou tão feliz por seres minha… (Acredita)  estiveste sempre na minha mente”…E com estas palavras desapareceu do mundo o Pêra-Manca que Licoreta tanto amou.

Ela não pronunciou uma única palavra enquanto ouvia a confissão de P.M nem depois disso. Todos olhavam para ela, consternados. Licoreta sentia uma dor insuportável. As lágrimas que lhe assomavam aos olhos não conseguiam cair…aos poucos sentiu que o seu brilho se apagava, enquanto uma amargura subia por ela… Passou o resto da vida dela esquecida naquela adega…carregada de pó, sem brilho…num silêncio ensurdecedor, apenas relembrando o seu amor que tão cedo a tinha abandonado.

Édith e Marcel – um hino ao amor

Aqueles que seguem este blog com mais atenção saberão que, para além de crónicas e contos, publico regularmente histórias de vida de mulheres que, na sua vida, se destacaram por alguma razão – na rubrica Elas, as que fizeram a diferença – e histórias de amor que, pela intensidade do sentimento partilhado pelo casal, ficaram para a história como amores inesquecíveis – a rubrica  Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – histórias de amores intemporais.

Um facto interessante é que não são raros os exemplos de mulheres que escolhi para serem abordadas na rubrica Elas, as que fizeram a diferença e que pretendo, simultaneamente, abordar na rubrica Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – histórias de amores intemporais. É o caso da história de amor escolhida para este mês. Já aqui falei da pequena grande mulher que foi Édith Piaf e da sua vida tão marcadamente trágica. Hoje, quero falar-vos de uma das histórias de amor que Édith teve na sua vida, provavelmente a mais marcante, a história de amor da sua vida. Hoje quero falar-vos de Édith Piaf, a cançonetista, e de Marcel Cerdan, o pugilista.

Édith Piaf (Édith Giovanna Gassion) nasceu em Paris a 19 de dezembro de 1915. Foi uma cantora francesa reconhecida internacionalmente pelo seu talento no estilo francês da chanson. Mulher frágil, com um início de vida difícil, somou amores e relações ao longo dos seus 47, conturbados, anos de vida. É, de acordo com uma pesquisa da BBC sobre Le Plus Grand Français, a décima maior figura francesa de todos os tempos.

Marcel Cerdan foi um pugilista francês, nascido em 1916, na Argélia (relembro que, à época, a Argélia era território francês). Com 6 anos a família foi viver para Casablanca em Marrocos. Nessa época Marrocos encontrava-se sob o protetorado francês. Desde cedo Marcel demonstrou fortes capacidades para o desporto boxe. Marcel casou relativamente novo e desse casamento terá 3 filhos.

O seu primeiro combate, a nível profissional, com dezoito anos, decorreu em Meknès. Deixou uma impressão tão grande no público que foi batizado com o epíteto de o “Bombardeiro marroquino”. De vitória em vitória, obteve o seu primeiro título, como campeão de França de peso médio, em 1938. No ano seguinte tornar-se-á Campeão Europeu na mesma categoria. A sua carreira é brutalmente interrompida quando rebenta a Segunda Guerra Mundial, em 1939, ao ser recrutado e tendo combatido na África do Norte.

Regressado da Guerra voltou ao desporto e para a sua família. Marcel foi Campeão da Europa cinco vezes. A luta pelo título de campeão do mundo chegará nos Estados Unidos da América depois de contar, na sua carreira, com mais de 100 combates e já com a idade de 32 anos.

Édith e Marcel conheceram-se em julho de 1946 no Club des Cinq, onde ela atuava. Ambos somavam uns trinta e poucos anos e ambos se encontravam a viver momentos de glória nas suas carreiras. Ainda que tenham sido aí trocadas as primeiras palavras e os primeiros olhares, o seu idílio apenas terá início dois anos mais tarde, em Nova-York, quando Édith provava o sabor do sucesso em terras americanas e Marcel lutava pelo título de Campeão do Mundo. Marcel irá assistir ao espetáculo de Piaf no clube Versailles e, no seguimento desse espetáculo, convidá-la-á a jantar. Ainda que casado e pai de família, Cerdan tornar-se-á o amante de Piaf nessa época.

O amor cresceu entre eles, independentemente das questões morais que se poderiam levantar devido ao facto de Cerdan ser casado. Diz-se que Piaf assistia aos seus treinos em Lock Sheldrake e que certa vez terá sido mesmo surpreendida, no parque de atrações de Coney Island, onde admiradores seus lhe terão pedido para que cantasse, em plena rua, o êxito La vie en rose. Assistiu ao combate de Cerdan para o Campeonato do Mundo e falando dele tê-lo-á apresentado como um homem doce, afetuoso e educado. Ele e Édith viveram, nos Estados Unidos, o verdadeiro conto de fadas, conhecendo, ambos, um retumbante sucesso, enquanto partilhavam os momentos de amor.

Ainda que nunca se tivesse divorciado, Marcel acabou por oficializar a sua relação com Édith Piaf e decidiu comprar um pequeno palacete em Boulogne-Billancourt. Édith Piaf passou a morar lá em 1949 para viver a sua bela, mas demasiado breve, história de amor (Partilhavam a vida um do outro apenas desde 1948). Diz-se que Édith mandou instalar, na maior sala de receções, um ringue para que o seu amante pudesse treinar ali mesmo. Nesses poucos meses diz-se que foram verdadeiramente felizes.

O conto de fadas terminou na noite de 27 para 28 de outubro de 1949 quando Marcel Cerdan seguia num avião em direção a Nova-York para se encontrar com a sua amada e para tentar recuperar o seu título de Campeão do Mundo (que entretanto tinha perdido). O avião embateu no Pico de Vera, na ilha de S. Miguel, nos Açores, levando à morte todos os seus 48 ocupantes. Marcel tinha 33 anos…

Ela, a cantora popular, ele, campeão mundial de boxe. Ambos nascidos em famílias pobres e humildes, que iniciaram a vida partindo do nada, que se tornaram estrelas nas suas áreas. Amaram-se apaixonadamente enquanto viviam a glória e o triunfo na música e no boxe. Vinte e quatro meses de felicidade destruídos por um acidente de avião. Diz-se que depois da morte de Marcel, Édith nunca mais foi a mesma. Durante longos meses caiu numa depressão de qual dificilmente conseguiu sair. Dizem ainda alguns que o famoso, e maravilhoso, Hymne à l’amour terá sido escrito naquele palacete, com o pensamento em Marcel, homenageando a relação deles.

Para a história fica este amor tão breve e tão profundo, assim como as cartas apaixonadas que trocavam entre si… Para a história ficou ainda, entre tantos outros temas inesquecíveis, o sentido e sofrido “Hymnes à L’amour”. É com ele que vos deixo esta semana.

“Hymne à L’amour”

Le ciel bleu sur nous peut s’effondrer
Et la terre peut bien s’écrouler
Peu m’importe si tu m’aimes
Je me fous du monde entier
Tant que l’amour inondera mes matins
Tant que mon corps frémira sous tes mains
Peu m’importent les problèmes
Mon amour puisque tu m’aimes
J’irais jusqu’au bout du monde
Je me ferais teindre en blonde
Si tu me le demandais
J’irais décrocher la lune
J’irais voler la fortune
Si tu me le demandaisJe renierais ma patrie
Je renierais mes amis
Si tu me le demandais
On peut bien rire de moi
Je ferais n’importe quoi
Si tu me le demandais
Si un jour la vie t’arrache à moi
Si tu meurs que tu sois loin de moi
Peu m’importe si tu m’aimes
Car moi je mourrais aussi
Nous aurons pour nous l’éternité
Dans le bleu de toute l’immensité
Dans le ciel plus de problèmes
Mon amour crois-tu qu’on s’aime
Dieu réunit ceux qui s’aiment
Édith Piaf/ Marguerite Monnot