Eva Saxl – a coragem de lutar pela vida

O mês de janeiro iniciou, por cá, com uma crónica publicada no P3 que versava sobre a utilidade dos desejos e objetivos que pedimos e criamos no início de cada ano. O mês continua com este texto integrado na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” e que vem falar de uma mulher extraordinária que deixou a sua marca positiva neste mundo não porque tivesse tomado uma decisão no início de um novo ano mas porque a vida e o mundo a obrigaram a tornar-se extraordinária para salvar a sua própria vida.

A “ela” de que vos venho falar hoje, Eva Saxl, nasceu em Praga, na Checoslováquia, em 1921. Eva viria a conhecer aquele que seria o homem de toda a sua vida (e, tal como ela, um homem extraordinário) ainda jovem e celebraria o casamento com ele, em Praga, com apenas 19 anos, no ano de 1940. Eva tornou-se uma professora de inglês e o marido, Victor, encontrou trabalho como um engenheiro.

Casados há pouquíssimo tempo, o casal viu-se obrigado a fugir da sua terra natal, Praga, quando esta foi ocupada pelos nazis, aquando da Segunda Guerra Mundial. Eva e o marido tiveram a sorte de zarpar no último barco de refugiados que pôde cruzar o Canal de Suez, no início da guerra. Foi esse barco que os levou até ao gueto judeu de Shangai, na China. A vida que aí encontraram não foi, de modo algum, fácil. O gueto judeu albergava 30 000 judeus, um gueto, claramente, superlotado onde as condições sanitárias eram paupérrimas. Foi ainda nesse ano que Eva foi diagnosticada com diabetes tipo 1 e passou a ter de se injetar diariamente com insulina. Victor tinha prometido que iria tratar dela sob qualquer circunstância pelo que passou a ter um papel principal na saúde da sua mulher, sendo ele quem administrava à mulher, diariamente, as doses de insulina necessárias.

Quando os japoneses atacaram Pearl Harbor, em 1941, a ocupação japonesa na China tornou-se mais apertada e opressiva. Os japoneses, que ocupavam Shangai naquele tempo, decidiram fechar todas as farmácias da cidade. Como tal, deixou de ser possível adquirir insulina de forma legal. A única forma de a obter era recorrendo ao mercado negro. Contudo, a insulina no mercado negro, para além de rara e muito cara, era também perigosa uma vez que, muitas vezes, estava contaminada provocando a morte de quem com ela se injetava. Victor suplicou ao exército japonês para permitirem a chegada de remessas de insulina. Contudo, o exército rejeitou o seu pedido uma vez que estavam em guerra e que, como tal, eram esperadas baixas humanas.

Ainda que procurasse controlar, ainda mais, a comida que ingeria para poder gerir o stock de insulina de que dispunha, a verdade é que este se estava a esgotar a enorme velocidade. Sem as doses de insulina necessárias, Eva morreria, como é sabido. Contudo, Eva recusou-se a aceirar o seu terrível destino e decidiu que, se queria sobreviver, teria que fazer algo de inesperado e extraordinário: fabricar a sua própria insulina.

Relembro que Eva era uma professora. Nem ela nem Victor eram cientistas. Então, como conseguiram eles criar a insulina? O casal teve acesso a uma cópia do livro “Medicina Interna” do Dr. Beckman em que o autor descrevia os métodos seguidos por Frederick Banting e Charles Best, em 1921, para extrair, pela primeira vez, insulina do pâncreas de cães, bezerros e vacas. Depois disso, convenceram um simpático farmacêutico chinês para que os deixasse usar o seu pequeno laboratório. Mas tudo isto ainda não era suficiente. Eva necessitava de dinheiro para comprar pâncreas de búfalos asiáticos (os únicos que conseguia adquirir em Shangai). Para tal, Eva começou a vender meias que ela própria tricotava. Tudo isto, numa corrida contra o tempo, uma vez que dispunham de pouco tempo para conseguirem os seus objetivos. Foi necessário quase um ano de duro trabalho para obter uma substância acastanhada que testavam em coelhos. Contudo, ela tinha que ser testada em humanos. Durante esse tempo, a insulina convencional que Eva tomava estava a esgotar-se.

Eva ofereceu-se para o teste, apesar de estar bem ciente dos riscos que corria (não tinham ideia da potência da insulina criada ou se estava contaminada com alguma bactéria). Victor injetou então a mulher com uma dose e saiu do quarto. Ele não teve coragem para esperar e ver se ela tinha uma má reação. Eva e um médico esperaram num quarto enquanto Victor rezava noutro. Uma hora se passou. Depois duas. De forma quase milagrosa, Eva sentiu que a insulina estava a funcionar e não estava a sentir qualquer efeito secundário. Depois de verificar o resultado na sua própria mulher, Victor pegou no que restava e correu até a um hospital próximo para que a insulina fosse administrada a dois pacientes que já se encontravam perto da morte num coma diabético. Depois de receberem a insulina ambos sobreviveram.

Eva (e o marido) não eram pessoas que se preocupassem em salvar apenas a sua vida. Depois de testada em Eva, o casal Saxl passou a produzir insulina para administrar em mais de 200 diabéticos de Xangai. Todos sobreviveram, entre os anos de 1941 e 1945, graças àquela insulina de búfalo que tanto tinha custado a produzir. Eva era conhecida por ser extremamente generosa pelo que nunca cobrou dinheiros aos doentes pela insulina que lhes fornecia. Quando lhe perguntavam como poderiam agradecer apenas pedia que, se pudessem, fizessem uma doação para o proprietário do laboratório chinês.

Quando a guerra acabou e os americanos libertaram o gueto judeu, Eva e Victor ficaram lá por mais algum tempo. O casal encontrou-se com um médico do exército americano que lhes trouxe um abastecimento de insulina refinada para distribuir por todos aqueles que dela necessitavam.

Os Saxl deixaram então a China em direção a Nova-York onde as suas conquistas os tinham tornado famosos: foram convidados pelo presidente Eisenhower a visitar a Casa Branca, foi realizado um documentário sobre eles e Eva tornou-se uma porta-voz da Associação Americana de Diabetes, dedicando-se a dar conferências gratuitas a crianças e organizações de diabéticos. Num tempo em que as pessoas estavam muito mal informadas sobre a diabetes, as aparições de Eva foram revolucionárias para desfazer o estigma associado à doença durante as décadas de 40 e 50.

Victor viria a falecer em 1968. Eva mudou-se então para o Chile, em Santiago, para viver como seu irmão. Aí continuou o seu trabalho beneficente, trabalhando para fornecer medicação a crianças carentes e a dar conferências gratuitas para a Fundação Juvenil dos Diabéticos do Chile até ao momento da sua morte que viria a acontecer em 2002, com 81 anos.

Hoje escolhi falar-vos de Eva Saxl. Contrariamente a muitas outras “elas” de quem vos tenho falado, Eva teve a sorte de ter Victor a seu lado. O amor, dedicação e perseverança do seu marido ajudou a salvá-la a ela e a centenas de outros diabéticos em Xangai. Mas temos que sublinhar a bravura e determinação de Eva. Foi ela quem, corajosamente, se voluntariou para testar a insulina, não sabendo se ela iria sobreviver a essa experiência. Foi ela quem, depois da guerra criou uma carreira como escritora, professora, conferencista, filantropa. Foi ela quem conviveu com a diabetes tipo 1 por mais de 60 anos sem apresentar complicações. Tanto ela como o marido foram heróis de guerra cuja vida, valentia e dedicação ao outro merecem ser relembrados. Mas hoje, em particular, escolhi falar-vos de Eva Saxl.

Da utilidade dos desejos e objetivos de fim-de-ano

E como primeiro texto de 2020, aqui na Steff’s World – a soma dos dias, surge uma crónica escrita para o P3 – Público. Uma crónica que me surgiu após uma conversa com um amigo sobre alguns rituais que temos (ou não) na passagem do ano.

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Se quiserem ler a crónica no P3, deixo-vos aqui o link: https://www.publico.pt/2020/01/04/p3/cronica/utilidade-desejos-objectivos-fim-ano-1899125

Na ressaca do fim-de-ano conversava com um amigo meu sobre as tradições que cumpríamos ou não no réveillon. Para mim é imprescindível comer as dozes passas na passagem de um ano para o outro: por cada badalada, uma passa, por cada passa, um desejo. A essa vou juntando outras que me vou lembrando cada ano (uma nota na mão, subir para uma cadeira, envergar uma peça de roupa nova…). Mas aquela que considero imprescindível é, sem dúvida alguma, o comer as passas de uva. Não me lembro de uma passagem de ano em que as não tivesse comido. Nem que a passagem de ano fosse festejada na rua, o certo é que a pequena embalagem de passas de uva seguia comigo e, na hora certa, lá eram engolidas e os desejos para os próximos doze meses efetuados.

Ora, nessa conversa com o meu amigo, o mesmo dizia-me que não tinha por hábito incondicional essa tradição. Havia anos em que comia as passas, sim, mas outros havia em que nem se lembrava. Acabou por me dizer que este ano as tinha engolido apenas e só por uma questão de hábito mas que não tinha efetuado qualquer pedido/ desejo para os próximos 12 meses que ali se iniciavam. O meu ar de espanto não passou despercebido e ele acabou por me colocar a pergunta que se impunha: “Tens mesmo fé nessa tradição? Acreditas mesmo que os pedidos feitos à meia-noite se vão realizar?”

É claro que tal pergunta não poderia ter uma resposta simples de “sim” ou “não”. É algo bem mais complexo do que isso. Dei por mim a pensar no que levaria tantos e tantos, nos quais estou claramente incluída, a comer as passas à meia-noite. Trata-se apenas de um hábito ou acreditamos, de facto, que os desejos se irão realizar?

Depois de pensar um pouco sobre o assunto concluí que o fazemos por tradição, é claro, não nos questionando muito sobre o porquê de realizarmos certas ações. Mas, não considero que esta seja uma explicação cabal. Concluí que o fazemos, também, e acima de tudo, por necessidade. Necessidade? – dirão vocês. De quê?

Passo então a explicar.

Precisamos de sentir, de tempos a tempos, que temos metas a atingir, precisamos de objetivos que norteiem a nossa vida. O início do ano funciona então como um marco. Haverá melhor data que o dia um de janeiro para servir de ponto de partida para essa “nova vida” que ambicionamos? É a partir desse dia que a vida nos irá trazer muitas das coisas a que almejamos: melhorias a nível financeiro, amoroso e de saúde. (No geral é isto que todos pedimos, com mais ou menos pormenor). Contudo, não deixamos tudo nas mãos do destino. Achamos que temos de o ajudar. E é por isso então que criamos uma série de objetivos que iremos colocar em prática logo nos primeiros dias do ano. Decidimos que iremos ser menos sedentários. Iremos inscrever-nos ou regressar ao ginásio. Prometemos a nós mesmo que iremos caminhar todos os dias. É claro que a nossa alimentação irá ser bem mais regrada. Os excessos das festas ficaram no ano anterior. Prometemos, também, ser mais organizados no trabalho e, claro, menos nervosos e menos stressados. Iremos dedicar mais tempo aos amigos, aos tempos livres, à leitura. Estes são apenas alguns dos exemplos das muitas e muitas promessas que se fazem nos primeiros dias do ano para atingir os objetivos a que nos propusemos. Deste modo, pensamos nós, no final do ano a vida presentear-nos-á com a concretização dos desejos que fizemos na noite de fim-de-ano, enquanto comíamos as passas. Fomos proactivos e a vida está a recompensar-nos.

Mas… a verdade é que daqui um ano estaremos, no dia 31 de dezembro, provavelmente, a comer passas (aqueles que acreditam) e outra vez a efetuar uma lista de desejos. Se tivermos sido umas pessoas organizadas, e tivermos escrito os desejos/ objetivos do ano anterior num papel, iremos verificar, ao ler a lista, que muitos deles (se não a maior parte) terão ficado esquecidos. Com o passar dos dias e dos meses teremos deixado para trás a nossa determinação de novo ano e esquecido os objetivos. Contudo, lá estaremos nós, mais uma vez, à meia-noite, a pedir desejos “à vida e à lua”.

 Por que raio não nos cansamos desta rotina anual? Quanto a mim esta resposta é simples. Não nos cansamos de comer passas, de pedir desejos, de traçar objetivos porque necessitamos deles para dar sentido à nossa vida. Necessitamos de acreditar que a vida pode sempre ser melhor, necessitamos de ter objetivos a atingir para que a vida não seja apenas um lento decorrer dos dias sem metas para chegar e ultrapassar. É por isso que todos os inícios de ano acreditamos que esse será o ano em que iremos fazer diferente e ser diferentes. Tal como todos os anos, teremos esquecido grande parte das nossas determinações, no máximo, em três meses. É claro que parte dos nossos desejos não se irão realizar. (convenhamos que pedir “Paz para o mundo” é algo difícil de atingir!) e não iremos concretizar todos os objetivos que nos propusemos atingir. Mas é essa fé que colocamos na vida (quando pedimos desejos) e em nós (quando traçamos objetivos) que nos leva, ano após ano, a repetir esses comportamentos e que nos leva a acreditar que esse será o ano de todos os acontecimentos! E é dessa força e fé que necessitamos para encarar mais uma viagem à volta do sol que, este ano, irá durar 366 dias.

Por vezes é preciso parar…

A última crónica do ano 2019 da Steff’s World – a soma dos dias é, simultaneamente, a última crónica publicada, este ano, no Semanário Registo.

Como estamos no final de mais um ano, fazer balanços é necessário. Ponham a vida em pausa alguns minutos para ler este “Por vezes é preciso parar…”. Espero que vos inspire para 2020!

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Há um momento na vida em que temos de parar. Um momento em que temos de largar todos os companheiros de estrada, libertarmo-nos de todos pesos e amarras, sentar calmamente e analisar a nossa vida e a nós próprios.

Desde muito cedo que seguimos caminhos já trilhados por outros, caminhos pré-definidos. Os caminhos da nossa vida encontram-se traçados, praticamente, desde o nascimento. Quatro meses após abrir os olhos para o mundo e a maior parte de nós já entrou na rotina. Começamos pelo berçário, infantário, pré-escola, primeiro, segundo e terceiro ciclos, ensino secundário e, se a tanto nos chegar a vontade, a universidade. Rotinas pré-definidas desde o início. Pelo meio surgirão alguns namorados e, quando a idade for aquela que é considerada adequada, surgirá um namorado que permanecerá na nossa vida mais tempo do que o habitual…e seguiremos o caminho natural que é o casamento. A seu tempo surgirão a casa, os filhos, o carro…quem sabe até o cão. A completar este quadro está um emprego que, grande parte das vezes, é rotineiro. Um emprego e uma vida que nos fazem contar os dias que medeiam entre a segunda e a sexta-feira, os dias para o próximo feriado, os dias para as próximas férias, ou os dias para ser realmente feliz.

E, um dia, acordamos e pensamos que a vida não tem sido mais que uma vagarosa sucessão de dias: dias que decorrem lentamente à espera de um “ser feliz” que não acontece. Percebemos que a vida se está a tornar rapidamente insípida e sem cor. Percebemos que não sabemos bem quem somos…nem quem fomos. Não sabemos para onde vamos. E é nesse momento em que acordamos para a realidade que percebemos que parar é essencial. Parar para pensar, parar para analisar, parar para fazer o balanço do que tem sido a nossa vida, parar para nos encontrarmos ou, quem sabe, reencontrarmo-nos.

 Algumas pessoas percebem essa necessidade à medida que vão atingido a maturidade. Outros há, porém, que nunca irão dar esse espaço para parar e, como tal, nunca irão dar espaço para encontrar o seu verdadeiro eu.

Aqueles que fazem a pausa-análise percebem que toda a sua vida, até àquele dia, foi passada caminhando pelos passos dos outros e pelas vontades dos outros. Percebem que aquela vida não foi (na sua maioria) escolhida por eles mas por uma sociedade que os rodeia. E é nessa tomada de consciência que muitas vezes as pessoas param e atiram uma vida de segurança pela janela, mudando radicalmente a sua existência. Mudam de emprego, divorciam-se, mudam de cidade ou até de país. Criam grandes alterações na sua vida, a nível pessoal, profissional ou a todos os níveis. Por isso a sociedade das regras, a sociedade dos caminhos trilhados e seguros considera, muitas vezes, que aquela pessoa enlouqueceu. Só a loucura poderia explicar esse ato de audácia e coragem! E poucos percebem que aquela pessoa não enlouqueceu. Poucos percebem que ela apenas decidiu parar (porque sentiu essa imperativa necessidade), para pensar e analisar a sua vida. E foi precisamente nesse momento que percebeu que não estava a viver a sua vida mas a vida que outros tinham pensado para ela. E revoltou-se contra esta situação. Decidiu oferecer-se tempo para pensar e tomar as atitudes necessárias a fim de se soltar dos pesos e amarras que lhe pesavam e começar a trabalhar, todos os dias, para ser feliz.

Tomada esta atitude, percebe-se que se adquiriu tempo e vontade para observar os caminhos que se quer seguir, as encruzilhadas que se poderá encontrar. Sabe-se que a vida foi tomada nas próprias mãos. A pessoa percebe que já não vive de acordo com as regras de uma sociedade bacoca mas de acordo com as suas próprias regras. Trilha caminhos desconhecidos. Só o poder de tomar esta decisão já lhe traz calma e felicidade. É serena. Não sabe se é feliz a 100% mas sabe que trabalha todos os dias para isso. Não se deixa cair na rotina e no marasmo.

A essa pessoa, e a todas aquelas que perceberam que é preciso parar, que tiveram a coragem de refletir nesse momento de pausa e de mudar aquilo que não lhes fazia bem, apresento a minha maior admiração. Merecem a felicidade que possuem em mãos.

Estamos nos últimos dias de 2019. É esta a época em que naturalmente se fazem balanços anuais e balanços de vida. É o momento, por excelência para parar e analisar não só o ano que finda mas também a vida que se tem vivido. Sigam então o meu conselho: parem, respirem fundo e analisem a vida que têm levado. Façam por ser venturosos, nem que para isso tenham que criar mudanças drásticas na vossa vida e rotina!

Um feliz 2020. Sejam felizes!

Revisitando 12 meses na Steff’s World – a soma dos dias

É inevitável não olharmos para trás quando se aproxima mais um final de ano. Abate-se sobre nós uma espécie de nostalgia e procuramos reviver os acontecimentos mais marcantes de cada mês que passou no último ano.

Aqui na Steff’s World – a soma dos dias acabo sempre para olhar para o que publiquei nos últimos 12 meses procurando fazer um “top +” dos textos que escrevi. Não é fácil. Todos eles, de um modo ou de outro, têm uma particularidade, algo que me faz considerá-los especiais e dignos de serem relidos. Ainda assim…escolhi um texto por cada mês. Seriam essas as vossas escolhas?

Comecemos então pelo mês de janeiro:

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A minha escolha para o mês de janeiro recaiu sobre este texto escrito a duas mãos: a minha e a do Balthasar Sete-sóis, “O fim do caminho”. Adoro desafios  e este (lançado pelo meu amigo Balthasar), foi aquele que deu início a uma longa série de textos escritos a duas mãos pelo Balthasar e por outros autores. Porque acho que ficou um resultado bem catita e porque acho que merece ser relido, foi esta a escolha para o mês de janeiro.

Para o mês de fevereiro escolhi um conto: “Os dias bons”.

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Escrever contos é algo que me dá imenso gosto. Este é daqueles que me orgulho de ter escrito por sentir que estava a contar a história de muitos avós deste país. Considero que merece o destaque do mês de fevereiro. (Ainda que até à última fiquei na dúvida entre este conto e a crónica “A saudade triste”.)

Para o mês de março…uma crónica. Não tanto pela crónica mas sobretudo pelo tema!

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“We are the world” – 35 anos e ainda nos soa tão bem!. Não será novidade para ninguém o quanto gosto desta música. Esta foi a minha homenagem aos 35 anos desta canção! Daquelas crónicas que gosto de reler!

Abril trouxe vários textos que gostei de escrever e que acho merecerem destaque. Optei por salientar uma rubrica que, à época, era relativamente nova. “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais”. Nesse mês falei do amor de Snu Abecassis e Mário de Sá Carneiro, um amor intemporal e mais forte do que a morte.

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Assumo que a escolha foi difícil. Poderia facilmente destacar, nesse mês, a crónica “Os gatos, essas sábias criaturas”, pelo tanto que o tema me diz!

No mês de maio, optei por destacar a crónica “Aceitando a morte, celebrando a vida” por ser uma crónica que foi escrita por necessidade…uma espécie de catarse que necessitava fazer após o falecimento de um ente querido.

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Contudo, pedindo insistentemente para ser a crónica do mês, estava uma outra crónica cheia de luz, “Ter um irmão é…”

O mês de junho poderia ser o mês da crónica em que celebro as minhas primaveras mas optei por escolher um conto.

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“Um dia em contramão” é o título deste conto e foi das coisas que escrevi mais estranhas deste ano. Um conto que navega entre a realidade e um certo ambiente Sci fi. Acho que ficou algo de bem giro! Aproveitem e leiam!!

Já na segunda metade de 2019, em julho, optei por destacar a crónica “Para além do esquecimento”. Mais uma crónica muito pessoal de alguém que não aceita esquecer os acontecimentos e as pessoas do passado. Ficou um texto giro, que foi bastante lido.

Agosto foi mês de férias e, logo, de poucas publicações. Ainda assim, destaco uma das poucas crónicas que escrevi este ano para o P3 do Público.

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“Niksen, a arte de fazer nada”. Numa época de férias pareceu-me boa ideia escrever sobre esta arte que alguns de nós desenvolvem que é a arte de não fazer nada. Numa atitude quase pedagógica, escrevi esta crónica, procurando que os leitores colocassem em prática, desde o mês de setembro, este “niksen”.

Decidi, para o mês de setembro, destacar o texto escrito para a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. Nesse mês falei da fantástica Wangari Maathai.

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Escolhi a Wangari para representar todas as fabulosas mulheres de que falei neste ano na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. Todas elas merecem o seu lugar na rubrica e todas merecem que releiam  a sua biografia.

Para o mês de outubro decidi destacar a minha colaboração, que já vai longa, com o Semanário Registo. Neste mês, publiquei, nesse jornal, a crónica “Sobre a esperança”.

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Uma das minhas palavras favoritas é mesmo”esperança”. A crónica teve o seu ponto de partida nessa premissa. Penso que ficou uma crónica que merece o seu destaque neste mês de outubro.

Para o mês de novembro optei por destacar mais um conto: “Visita ao passado”.

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Ainda que não tenha o hábito de escrever contos muito pessoais, este tem algumas notas autobiográficas. Talvez por isso goste do resultado e considere que mereça ser o texto destacado no mês de novembro.

Por fim…dezembro…ainda que vá sair uma crónica, fruto da parceria com o Semanário Registo, antes do final do ano, optei por destacar a crónica que escrevi para o P3 “É Natal…e falta-me a paciência”.

E foi assim o ano de 2019 na Steff’s World – a soma dos dias. Resta-me agradecer terem estado por cá todo este ano, que tenham lido e comentado os meus contos, crónicas, biografias e histórias de amor.

Desejo-vos um excelente 2020 e espero contar convosco em 2020!

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Aconteceu numa noite de Natal

Quase a acabar o mês, é chegada a hora de vos trazer “O conto do mês”. É claro que nele teria que abordar, de alguma forma, a época natalícia e as suas tradições. A escolha da canção (a partir da qual foi criado o conto) teria que recair, obviamente, numa canção de Natal. Voltei a escolher “Christmas lights” de Coldplay porque é uma música que adoro e porque me inspira.

Deixo-vos, então, o último conto do ano de 2019: um conto de Natal, de amor, de esperança. Deixem por instantes as lides natalícias e deixem-se levar por esta história, que aconteceu numa noite de Natal.

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Photo by Nathan Anderson on Unsplash

Those Christmas lights
Light up the street
Maybe they’ll bring her back to me
Then all my troubles will be gone
Oh Christmas lights keep shining on

Christmas lights – Coldplay

Maria parou o carro e abriu os quatro vidros do carro. Precisava de sentir aquele cheiro a campo, aquela mistura de eucaliptos e estevas, aquele cheiro, no fundo, a infância. Quantas e quantas vezes não tinha feito esta viagem até à aldeia, com os pais, para um encontro, uma qualquer celebração em casa dos avós? Maria tinha a sensação que na infância e na adolescência tinha passado mais tempo nesta aldeia do que na cidade, na casa dos pais. As férias (de Natal, Páscoa, de verão) eram integralmente passadas aqui. Poderia percorrer de olhos fechados cada uma das ruas, vielas, travessas dessa aldeia sem se perder. “Estranho como só nos damos conta de que algo nos fez tanta falta quando o reencontramos” – pensou Maria de si para si. Há muito que deixara de vir à aldeia. Primeiro porque lhe faltava o tempo para estudar, depois porque tinha ido estudar para Itália, pelo programa Erasmus e depois, simplesmente, porque tinha decidido emigrar na hora em que lhe tinha surgido uma proposta de trabalho em Inglaterra bem mais aliciante do que aquelas que por cá encontrava. Há anos que não passava o Natal com a família. De algum modo tinha-se habituado a pensar nesta festa como mais uma festa de amigos do que “a festa da família” como tinha ouvido desde pequena. Este era o primeiro Natal em mais de 10 anos que ia passar com a família e com os avós. Este ano tinha decidido que o trabalho não se iria colocar à frente do que é realmente importante e tinha escolhido ter uma semana de férias entre o Natal e o fim-de-ano. Queria estar com os dela, partilhar um pouco do calor familiar, sentir-se em casa. Acima de tudo queria dar um abraço nos avós que já estavam bem velhinhos e que já não conseguiam lidar com a saudade daquela neta que tinha partido para nunca mais voltar. Maria adorava estar em Inglaterra e adorava o seu trabalho mas ultimamente sentia uma falta imensa do seu país, da sua família e até dos amigos que por cá se mantinham…Para dizer a verdade já não era a primeira vez que cruzava pela sua mente que seria bom voltar para Portugal. Contudo, logo soava uma voz da razão relembrando-a que nunca teria um emprego tão bem pago cá, como tinha lá. Calou aquela pequena voz (que se tornava cada vez mais insistente no seu cérebro) com um “tu sabes que não pode ser”.

Arrumados os pensamentos, atenuadas as memórias, voltou a pôr o carro em andamento e seguiu em direção à casa dos avós.

O reencontro foi tudo o que esperava e ainda mais. Parecia que o tempo tinha congelado o tempo naquela casa para que ela, quando voltasse, encontrasse tudo no mesmo lugar. Ali estava a sua avozinha, à beira do lume, fritando as filhoses no enorme caldeirão de cobre. Ao lado, auxiliando-a, a sua mãe e a sua tia. O avô, como sempre, estava na sala, no mesmo lugar do sofá, com um olho na televisão e outro nos genros, que conversavam animadamente com ele sobre futebol. Até o gato, a dormir num canto da sala parecia o mesmo de há dez anos. Maria abraçou-os um a um com a força que a saudade lhe dava. Como podia ter passado tanto tempo sem ver os avós e os tios? Como podia ter estado tanto tempo sem aquele cheiro a filhoses, de lareira, sem aquelas vozes alegres? “E os primos? Não vem nenhum jantar aqui este ano?”. Maria foi informada que este ano era o ano dos primos jantarem com os sogros mas viriam almoçar no dia de Natal. E, informou o avô, sempre nos podemos encontrar todos junto ao madeiro, junto à Fogueira do Menino Jesus (como o avô Joaquim gostava de dizer!)

O jantar de Natal foi um desfiar de memórias de infância. O bacalhau com as couves, o peru assado acompanhado de castanhas, o vinho caseiro do avô, o arroz doce da avó, as conversas em voz alta, as gargalhadas. Maria sentia-se num casulo bem aconchegada, quentinha, rodeada dos afetos daqueles que tinha abandonado por tantos anos. E o que a fazia sentir-se melhor era perceber que ninguém lhe cobrava essa ausência. Todos a tinham recebido como se tivesse estado presente todos os Natais, como se não tivesse sido apenas uma memória durante dez anos. Ouviu as últimas novidades da aldeia, ficou a saber sobre os últimos casamentos, os divórcios, os escândalos (que também os havia), quem tinha nascido (muito poucos) e quem tinha falecido (já eram alguns). Ela própria contou um pouco da sua vida, das aventuras e desventuras, sobretudo a nível profissional. Quando o avô lhe perguntou: “e…namorados? Nada?”, Maria preferiu omitir detalhes respondendo “uns namoricos, avô, mas nenhum que quisesse casar!”. O avô riu e disse-lhe, com um olhar sábio: “Foste procurar o amor para terras lá longe mas o teu avô tem um pressentimento que o verdadeiro amor vais encontrá-lo aqui!…”. Aquele jantar, aquela noite estava a ser tão perfeita que Maria pensou de si para si como podia ter estado tanto tempo sem os ver. Que especiais eram aquelas pessoas, tão cheias de amor e de carinho. Percebeu, com clareza nesse dia, o significado de família. Nunca tinha desconfiado mas hoje, mais que nunca, sabia que podia contar com eles sempre, fosse qual fosse a necessidade, estivesse ela onde estivesse.

Depois do jantar, de posta a conversa em dia, de arrumada a cozinha (pelas mulheres…algumas coisas nunca mudariam mesmo…) e da troca de prendas à meia-noite sugeriu-se então seguir para o centro da aldeia para assistir, como era tradição, à queima do madeiro.

O madeiro trouxe toda uma nova onda de saudade e felicidade a Maria. Ela tinha ali passado anos a fio, a comer, a beber, conversar e a cantar canções natalícias, na madrugada do dia de Natal. Também aí reencontrou velhos amigos, alguns com quem tinha mantido o contacto nas redes sociais, outros que nunca mais tinha visto. Toda a noite se passou a conversar, a rir, a relembrar velhas aventuras e bons momentos passados em Natais anteriores. Gostou de rever todos: os amigos dela e os amigos dos pais e dos avós, com todos foi trocando palavras de circunstância ou palavras de verdadeira amizade. As horas foram passando e, aos poucos, foi fugindo do frio da noite, a maior parte dos convivas que se encontravam à volta do madeiro. Tal como em todos os anos anteriores, restava um punhado de resistentes, que continuava a partilhar bolos e bolinhos, filhoses, licores e jeropiga. Entre eles ainda se encontrava Maria. Conversava animadamente com Tiago. Há quantos anos não via ela o Tiago? Já nem se lembrava!

Tiago fora o melhor amigo da aldeia que Maria tinha tido na sua infância. Eram amigos inseparáveis nas brincadeiras e nas tropelias e todos diziam que eram “namoradinhos” e que iriam casar. A verdade é que Maria não se lembrava de um bom momento ali vivido, na sua infância, que não contemplasse Tiago. Passavam a maior parte do tempo juntos, não se separando nem para as refeições que faziam juntos, ora na casa dos avós de Maria, ora na casa dos pais de Tiago. Fora a ele que dera o seu primeiro beijo, envergonhado, numa noite de verão, tinha ela uns 12 anos. Maria tinha-lhe perdido o rasto no ano seguinte quando os pais de Tiago tinham seguido para a cidade grande, procurando o emprego que a aldeia não lhes dava. É claro que tinham mantido contacto telefónico durante algum tempo mas a vida tinha-se encarregado de os afastar, lentamente. Tiago nunca mais tinha voltado à aldeia e, aos poucos, o esquecimento tinha-se instalado.

Por isso, quando Maria o viu, sentiu que o conhecia mas não o reconheceu logo. A mesma sensação tinha Tiago, quando viu Maria. Olharam-se, sorriram um para o outro, com uma certa timidez patente no semblante e a mesma pergunta no olhar. “Conhecemo-nos, certo?” – disse Maria. Tiago respondeu que estava com a mesma sensação mas que não conseguia dar um nome ao rosto que estava à sua frente.

Maria, neta do Zé Amaro. Tiago sentiu que os olhos se lhe abriam desmesuradamente, enquanto se desenhava um ar de espanto na sua cara. De seguida, num daqueles momentos em que os gestos são mais rápidos do que o pensamento, levantou os braços e deu-lhe um abraço apertado, levantando-a no ar e fazendo-a rodopiar. Maria nem sabia bem que tornado era aquele mas deixou-se ir. Quando a pousou no chão, disse-lhe finalmente: eu sou o Tiago. O Tiago que morava ali na rua por cima do forno. Lembras-te?! Foi a vez da Maria ficar espantada! Que reencontro maravilhoso! Ficaram ali parados durante uns largos minutos, olhando-se, avaliando-se, procurando perceber se ainda conseguiam encontrar no adulto que tinham à sua frente a criança que fora sua amiga há longos anos.

O resto da noite passou num ápice e como que num sonho. Tiago e Maria não se largaram mais durante toda a noite. Conversaram, conversaram, tentando pôr em dia todos aqueles anos de ausência em que não tinham sabido um do outro. O diálogo surgia entre eles com a mesma naturalidade com que surgiam as brincadeiras quando eram crianças. Tiago ficou a saber que Maria não tinha qualquer relacionamento mais estável há já algum tempo, que vivia em Inglaterra e que se tinha dedicado à sua paixão pelos animais, tendo-se tornado veterinária. Maria ficou a saber que Tiago tinha saído de um casamento há dois anos e tinha sido precisamente nessa altura que tinha decidido mudar-se para a aldeia e casa dos seus avós. Era engenheiro agrónomo e estava a desenvolver um projeto de produção de mirtilos. Ao longo da noite tudo foi acontecendo com a maior naturalidade: desde a conversa, aos casuais toques de mão quando passavam um licor ao outro, ao abraço a meio da noite para a manter quente quando ela sentiu um arrepio de frio, ao selar de todos aqueles sentimentos com um beijo sentido e prolongado a que se seguiram muitos outros. Já despontavam as primeiras luzes da manhã quando o Tiago a levou a casa. À porta voltaram a beijar-se. Os olhares de um e outro estavam carregados de promessas. Tiago acabou por romper o silêncio. Disse-lhe: “Sei que o que te vou dizer pode parecer muito precipitado mas é assim que me sinto. Viver este dia, ou melhor, esta noite, foi o melhor que me aconteceu nos últimos tempos. Sei que estás de passagem por Portugal, umas férias rápidas. Talvez te veja de novo amanhã mas, a verdade é que sei que estás de partida. Não quero que te vás embora sem saberes que ver-te hoje, reencontrar-te, foi para mim o Paraíso. Tenho a certeza que poderia existir algo de muito especial entre nós.

Maria ficou sem palavras. Ao fim de alguns segundos de profundo silêncio não encontrou nada melhor para lhe dizer que não fosse: “estou de férias. Vou estar por cá durante uma semana…”. Dito isto, afastou-se e entrou em casa dos avós, não sem antes dar um último beijo a Tiago.

O dia de Natal e toda a semana de férias passaram como se estivessem num sonho. Nem um nem outro falava do eminente regresso de Maria a Inglaterra. Aproveitaram para namorar com a intensidade e o desejo que se encontra nos adolescentes. Passearam pela aldeia e revisitaram todos aqueles recantos onde tinham estado e brincado na infância. Visitaram praticamente todas as casas da aldeia, conversando com os seus habitantes, partilhando uma filhós aqui, um bolo ali, um copo de vinho acolá. Almoçavam e jantavam juntos. Partilhavam ideias, sonhos e vontades. Passaram tardes no sofá dele a ver filmes antigos enquanto bebiam vinho quente. E, uma vez e outra, faziam amor, descobrindo-se, provando um ao outro que aquele ser que tinham ao lado era especial, era o seu destino. Foram dias muito felizes na vida de ambos. Maria nem queria pensar no regresso à fria e sombria Inglaterra. Como poderia ela sobreviver a ela depois do amor e calor que tinha encontrado por cá?

Contudo, chegou o dia. Tiago prometera levá-la ao aeroporto. Por um lado ela teria preferido que a despedida tivesse sido feita na noite anterior, na casa de Tiago. Ela tê-lo-ia deixado na casa dele, teria fechado aquela porta e seguido em frente. Seria como fechar os olhos àquela realidade. Maria sabia que pensar numa relação à distância não era viável. Por mais que pensasse que tinha finalmente encontrado a pessoa certa para a sua vida, o momento não era o adequado. A vida dela estava em Inglaterra e a dele estava aqui, na aldeia, na sua produção de mirtilos. Jamais ele poderia abandonar a aldeia e era aqui que ele era, de facto, feliz. E ela? Ela era feliz em Inglaterra? Maria tinha que ser sincera com ela mesma. Sabia que não era. Sentia muita falta do seu país, da família, dos amigos. Mas…exercer a sua profissão aqui era tão difícil…ela bem tinha tentado…Não, ela não podia deixar-se levar por ideias românticas. Tinha sido uma semana inesquecível, ela tinha recebido a melhor prenda de Natal de sempre mas tinha que seguir em frente. Tiago passaria, doravante, a ser nada mais nada menos que uma boa recordação. Ela era uma mulher forte e segura e iria ultrapassar essa dor que se estava a instalar devagarinho.

Tiago insistira em trazê-la ao aeroporto e Maria não resistira ao apelo de mais algumas horas passadas com ele. A viagem tinha sido silenciosa, cada um mastigando os seus pensamentos, não os querendo partilhar com o outro. Alguns quilómetros antes de chegar ao aeroporto Tiago suspirou longamente e encostou o carro. Olhou para Maria e, olhando-a diretamente nos olhos, disse-lhe: “Fica. Dizes que estás doente, que não podes ir, fica!”. Maria olhou para ele longamente, tentando dar-lhe a resposta, que tal não era possível, apenas com o olhar. Tiago entendeu. Abraçou-a. Depois, lançando outro longo suspiro, voltou a pôr o carro na estrada e rapidamente chegaram ao aeroporto. Tiago ajudou-a com as malas, despediram-se com um longo beijo e um abraço apertado. Sem mais palavras, nem promessas, nem recriminações, deixaram-se ir…ela para o avião, ele de volta para o carro. No regresso a casa, enquanto passava por uma cidade ainda iluminada pelas luzes de Natal, cantarolou: “Aquelas luzes de Natal/ iluminam a rua/ talvez elas a tragam de volta para mim/ e então todos os meus problemas terão partido./ Oh luzes de Natal continuem a brilhar…”. E porque ele queria que assim fosse, porque ele queria acreditar na força do seu pensamento positivo, na força das luzes e do espírito de Natal que mais não é do que amor, soube, naquele momento, que ela iria voltar para ele.

É Natal…e falta-me a paciência

De quando em vez apetece regressar a casas onde já colaborámos muito. Foi o caso hoje. É o caso desta crónica. Para ler no blog ou no p3 do Público no endereço:

https://www.publico.pt/2019/12/18/p3/cronica/natal-faltame-paciencia-1897663

Estamos quase, quase no Natal. Seria de esperar, portanto, que o tema da crónica desta semana fosse o Natal e tudo o que gira à volta dele: família, amor, prendas, decorações…

Espero que passem os próximos 3 minutos a ler esta crónica…e concordando ou não com o que lá é dito, postem a vossa opinião.

Enjoy! Feliz Natal

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Foto de: Anton Scherbakov on Unsplash

Falta-me a paciência. Não será esta a melhor forma de iniciar uma crónica (e muito menos uma crónica em época de Natal!). Mas, o facto é que não consigo iniciar este texto de outro modo que não seja: “falta-me a paciência”.

Aqui chegados, perguntarão alguns: “e falta-te a paciência com o quê?” Outros, armados de alguma perspicácia, dirão “falta-te a paciência para as compras de Natal, certo?”. A esses terei que responder que não poderiam estar mais errados. Ainda mal passou a primeira quinzena do caótico mês de dezembro e já as compras de Natal estão, praticamente, encerradas. Assumo que estou orgulhosa de mim mesma: realizei uma lista das pessoas a quem iria oferecer presentes, fui anotando as ideias que me iam surgindo para cada uma dessas pessoas e a verdade é que essa parte do Natal está praticamente encerrada.

O que me satura mesmo é ouvir, todos os anos, a mesma conversa fiada de “O Natal já não tem o mesmo significado para mim”, “o Natal tornou-se, nada mais, nada menos do que uma época de puro consumismo”, “O Natal já não é amor” e, a mais proferida de todas “já nada é como era!”… Não querendo ferir suscetibilidades, a verdade é que todos os anos ouvimos estas frases à exaustão.

É claro que o Natal já não tem o mesmo significado para nós. O Natal que vivíamos na nossa infância não é, nem pode ser, o Natal que vivemos hoje. Por mais que nos custe, a criança de outrora deu lugar a um adulto que não tem a capacidade de se maravilhar com as decorações, as luzes, as lendas e, (por que não admiti-lo?), as prendas. Se nós próprios mudámos tanto, como não iria mudar a nossa forma de encarar o Natal? É claro que muitas vezes dizemos essas palavras porque as famílias perderam alguns dos seus membros, porque existe uma ausência difícil de suportar nalgum lugar da mesa. E não quero, de modo algum menosprezar esse sentimento. Muito pelo contrário, também o sinto. Mas procuro pensar que, quer queiramos quer não, isto é a vida a ser vida. Existem ausências, sim, mas não existem também muitos lugares à mesa ocupados por caras novas, crianças que nasceram entretanto, que fazem parte da família e que estão, também elas, a criar memórias de Natal? O que irão eles dizer dos seus Natais daqui alguns anos? Provavelmente dirão exatamente o mesmo que nós: “O Natal de antigamente é que era!”

O problema, quanto a mim, não está no Natal de hoje e, muito menos no de antigamente. O problema (se é que é de um problema que se trata) está no ser humano. Temos uma tendência (e eu estou claramente incluída neste grupo) para olhar para o passado como a época de ouro, a época em que éramos mesmo felizes e a época em que o Natal era festejado a sério. O presente é sempre visto como um parente pobre dos anos passados, aqueles que, consideramos, foram de ouro. Reparem: para aqueles que nasceram, como eu, na época de 70, a época de ouro, aquela que recordamos com um sorriso no rosto e uma saudade mal disfarçada, é a década de 80. Em tempos cheguei a pensar que essa tinha sido mesmo “A década especial” para o mundo e que por isso era tão celebrada e recordada. Contudo…ultimamente, tenho assistido, curiosamente, a um certo revivalismo, desta feita, em relação aos anos 90. Vejo algumas rubricas focarem-se nesta década (Como não falar do regresso de “A Caderneta de Cromos”, agora, dedicada aos anos 90?) E que dizer das famosas festas “Revenge of the 90’s” que prometem uma viagem sensorial aos anos 90 onde são recordados música, cheiros, sabores e texturas? Começo a notar que, no seguimento de uma década fabulosa, a dos anos 80, está a surgir, de acordo com alguns “mais novos”, uma outra década fabulosa: a dos anos 90. Perante isto, penso de mim para mim que o ser humano olha para o passado sempre com um véu de nostalgia que o faz acreditar que aqueles tempos foram os melhores. De um modo geral, olhamos para o que vivenciamos no presente como uma passagem…do que foi muito bom, no passado, para o que será muito bom, no futuro.

Isso também é resultado de uma qualidade que existe em muitos seres humanos: guardar o que é bom de guardar e, de algum modo, esquecer o que foi mau, acreditando que o amanhã será sempre bem melhor. Portanto isto de “O Natal já não ser o mesmo de antigamente…” mais não é do que um saudosismo do que já passou. Quero acreditar que, se chegarmos a velhinhos, diremos naquela altura que o Natal vivido a sério era o de 2019!

Por fim, analisando a questão de o Natal ser puro consumismo…cabe-nos a nós fazer com que assim não seja. Eu assumo, sem pejo nem vergonha, que ofereço prendas no Natal. E acrescento: gosto imenso de oferecer prendas e aprecio bastante recebê-las. Como referi antes, faço uma lista das pessoas que quero mimar em cada Natal e estipulo o valor que quero gastar com cada uma delas. Depois disso, tendo as balizas monetárias criadas, parto em busca da melhor prenda que possa encontrar para as pessoas que fazem a minha vida ter sentido. Chama-se a isso consumismo? Não acho. Para mim chama-se mimar aqueles que gosto, aqueles que têm um bocadinho do meu coração a viver neles. Dar e receber: prendas, mimos, pequenas lembranças feitas por nós…o que seja. Mostrar que gostamos das pessoas e que, por isso, as queremos acarinhar com algum tipo de dádiva. É claro que não entro em desvarios. É claro que não gasto mais do que aquilo que poderia gastar. Mas a isso chama-se “ter bom senso”. Não preciso de datas especiais para oferecer uma prenda. É verdade. Mas, isso não invalida que goste de assinalar as datas especiais com um qualquer mimo!

Termino informando que não sou uma incondicional do Natal, não adoro a festa em particular mas a verdade é que também não a consigo deixar passar em branco. Não me faria sentido passar essa data sem poder estar reunida com aqueles a quem chamo família e com quem convivo o ano inteiro. Gosto, assumo, das decorações: desde as que temos em casa àquelas que encontramos nas nossas cidades. Sinto que as luzes criadas pelo homem oferecem um aspeto encantado às cidades que me deixa uma sensação quentinha no corpo e na alma. Gosto, assumo, de poder trocar umas prendinhas com as pessoas que me são especiais. Faço-o na mesma lógica que os gatos usam quando nos trazem um infeliz pássaro morto até à porta, como quem nos oferece uma dádiva. Uma forma de dizer “gosto de ti”.

Posto isto, peço que se deixem de frases feitas, de “O Natal já não tem o mesmo significado para mim”, “o Natal é uma época de puro consumismo”, “O Natal já não é amor” e vivam, da melhor forma, a quadra que se avizinha. E…bom Natal!

Victor Hugo e Juliette – um amor explosivo e intemporal

No mês de Natal, mês em que se celebram bons sentimentos tais como o carinho, a amizade, a ternura, o amor, faz todo o sentido trazer-vos a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais” – amores intemporais”, rubrica essa onde são celebrados casais que vivenciaram um amor forte e intemporal.

Para hoje decidi trazer-vos um amor nascido e alimentado na cidade do amor por excelência – Paris. Convido-vos a fazer uma viagem ao passado até 1833 para ficarmos a conhecer um pouco mais sobre o amor que uniu o grande escritor francês Victor Hugo e a atriz Juliette Drouet.

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Juliette Drouet e Victor Hugo

Victor Hugo nasceu Victor Marie Hugo de seu nome a 26 de fevereiro de 1802 em Besançon e foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e artista. Para além disso foi um homem com grande atuação a nível político e um ativista pelos direitos humanos. Desde cedo foi considerado um menino precoce e ainda muito jovem tornou-se escritor, tendo sido premiado pela Academia francesa por um dos seus poemas com apenas 15 anos. A ele devemos obras maiores como Les Misérables e Notre-Dame de Paris, entre muitos outros romances.

A nível pessoal casou, com vinte anos, com a sua amiga de infância: Adèle Foucher. O casamento rapidamente deu frutos, tendo sido pai de 5 filhos. Ainda assim, em 1830, Adèle dirá que não quer mais filhos dando ao marido “liberdade” para passear por Paris desde que ele a não aborrecesse. Victor Hugo não se fará rogado tendo então partilhado prazeres e cama com mulheres várias de aristocratas a costureiras, passando por múltiplas atrizes.

Estávamos em 1833 quando estrearam duas peças de teatro de Victor Hugo – Lucrécia Bórgia e Marie Tudor. Uma jovem atriz, de seu nome Juliette Drouet, atuava em ambas. Este era um momento difícil para o escritor uma vez que tinha descoberto que a sua mulher o tinha traído com outro homem. O escritor sentia-se, naturalmente, frágil. É nessa época que Victor Hugo conhece Juliette. Rapidamente se aproximou dela e quinze dias após a estreia da peça Lucrécia Bórgia, em 16 de fevereiro de 1833, Juliette tornava-se amante de Victor Hugo, ambos consumidos por uma paixão que iria durar muitos anos.

Juliette não era uma atriz a quem fosse reconhecido um grande talento. Mas era, sem sombra de dúvida, dotada de uma enorme beleza. Já tinha participado em várias peças de teatro, tendo seduzido um grande número de homens com a sua formosura. Sabia-se que colecionava amantes na aristocracia europeia e que estes lhe providenciavam uma vida confortável a nível financeiro, assim como uma certa alegria de viver.

Como referi, o escritor e a atriz conheceram-se em 1833, aquando da representação da “Princesa Negroni” na peça Lucrécia Bórgia. Victor Hugo continuava casado, era pai de cinco filhos e tinha 31 anos. Contudo, apaixonou-se loucamente pelo charme e pela doçura de Juliette. O amor bateu à porta, à primeira vista, para ambos. Muito pouco tempo depois de se tornar amante de Victor Hugo, o escritor instalou a sua amada numa casa isolada no Les Metz, à época um lugarejo próximo da casa da sua própria família. Juliette renunciou, então, aos seus anteriores pretendentes ao mesmo tempo que renunciou à sua carreira como atriz – Victor Hugo era muito exigente e possessivo com ela e, como tal, rapidamente a convenceu a dar por terminada a sua carreira para assim ter todo o tempo do mundo para investir na relação e no amor deles. Juliette acabou por fechar-se em casa, desligar dos amigos e das festas que frequentava, saindo apenas quando dava o braço ao seu amante.

Ainda que Victor Hugo se tenha mantido casado, a relação entre ele e Juliette era plenamente vivida e assumida. Quando a filha de Juliette morre, inesperadamente, será V. Hugo que acompanhará o cortejo fúnebre, junto do pai da criança, uma vez que Juliette se encontra demasiado destruída com o acontecimento para conseguir assistir ao enterro da própria filha. Apesar do amor que os unia, as discussões entre o casal eram mais que muitas, sobretudo por problemas financeiros de Juliette, que apresentava muitas dívidas para com credores, e porque Victor Hugo continuava a colecionar amantes para além de Juliette. Ainda assim, a verdade é que eles se mantinham ao lado um do outro, eram o apoio com que o outro podia contar nos piores acontecimentos das suas vidas. Como vimos, V. Hugo marcou presença e apoiou Juliette aquando da morte da sua filha e Juliette retribuiu essa atenção quando uma das filhas de Victor Hugo, Léopoldine, também veio a falecer. Juliette acompanhá-lo-á no exílio na Bélgica, primeiro em Jersey e, mais tarde, em Guernesey, exílio esse a que Victor Hugo foi obrigado após o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851 contra Napoleão Bonaparte. A situação, contudo, não será diferente da de Paris: V. Hugo será acompanhado pela amante (Juliette) e pela mulher (Adèle). Este será o período mais calmo da relação deles, com Juliette a tornar-se a pessoa que o ouve, o acalma, o aconselha, enquanto passeiam pelos campos, a pessoa que o acompanha na sua escrita. Ela é a sua colaboradora mas também a sua inspiração.

Juliette ser-lhe-á fiel durante cinquenta anos, vivendo a vida por ele e para ele, copiando todos os seus manuscritos enquanto desculpava uma vez e outra os erros dele. Adèle, a esposa legítima, virá a falecer no ano de 1868. A partir dessa data, Juliette passará a maior parte do seu tempo com o seu amante de toda uma vida.

Durante esses mais de cinquenta anos o amor deles foi alimentado por uma intensa troca de cartas e de pequenas mensagens escritas (estima-se que tenham trocado entre si mais de 20 000 cartas). Em dada época marcavam ponto de encontro num bosque junto a uma árvore velha e oca onde deixavam as cartas, mensagens e poemas escritos para o outro. É nessas cartas e poemas que se vê, claramente refletido, o sentimento que um nutria pelo outro.

Juliette viria a falecer em maio de 1883. Ele morreria dois anos mais tarde, em maio de 1885. Este foi um grande amor, uma enorme paixão que durou mais de cinquenta anos. Os dois amantes mostraram-se inseparáveis, apesar da relação se ter mantido, até ao fim, explosiva. No túmulo de Juliette estão gravados uns versos de V. Hugo, numa homenagem a estes cinquenta anos.

Quand je ne serai plus qu’une cendre glacée,
Quand mes yeux fatigués seront fermés au jour,
Dis-toi, si dans ton coeur ma mémoire est fixée :
Le monde a sa pensée, moi, j’avais son amour ! »
*

— Épitaphe de Juliette Drouet (Victor Hugo).

  • “Quando eu não for mais que uma brasa gelada

Quando os meus olhos cansados estarão fechados para o dia,

Diz a ti própria, se no teu coração a minha memória está gravada:

O mundo tem os seus pensamentos, eu, tinha o amor dela”

– Epitáfio de Juliette Drouet (Victor Hugo)

Prazeres de inverno: a lareira

Esta crónica é para ser lida junto a uma lareira com um fogo bem forte, uma vez que o frio, finalmente, chegou!

Mais um texto publicado no Semanário Registo. Para ler aqui, ou no jornal em questão. Enjoy!

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Existem prazeres que considero estarem intimamente relacionados à província. O prazer de estar sentado a uma lareira é um deles.

Nasci em França. Vivi os primeiros anos da minha infância numa zona do país bastante fria, que não raras vezes nos brindava com neve. O frio, na rua, era cortante. É uma das recordações que tenho. Mas, em casa, o ambiente era para lá de quente. Aquecimento central em todas as divisões, temperaturas a fazer lembrar mais facilmente o verão que o inverno que se passeava lá fora. Contudo, não possuía lareira. Apenas uns radiadores de parede, alimentados, na época, a gasóleo, que traziam uma sensação de enorme calor mas que não ofereciam aquela sensação de aconchego que uma lareira nos pode trazer.

“Conheci” as lareiras e as suas qualidades, mais tarde, quando passei a viver em Portugal. Não só a nossa casa tinha lareiras como as casas dos meus avós também as tinham. É claro que já as tinha visto antes. Mas apenas as via no verão, sem lume, um local arrumado a um canto ocupado por umas quantas panelas de ferro fora de uso naquela época. Lembro a estranheza que se apoderou de mim a primeira vez que senti frio em Portugal. Eu conhecia o Portugal das férias, o do mês de agosto, aquele em que está sempre sol, não chove e não faz frio. A ideia de frio, da necessidade de acender uma lareira, não se coadunava com essa imagem que tinha criado ao longo dos meus primeiros anos de vida. Assumo que os primeiros anos em Portugal foram de invernos difíceis. Claramente a temperatura dentro das casas não era aquela a que estava habituada em França. Nem a nossa casa, nem as casas dos meus avós estavam apetrechadas com aquecimento central. Penso que não era ainda muito usual, no país de início dos anos 80, o aquecimento central. Possuíamos uns radiadores nos quartos e o centro da casa, o local onde todos nos reuníamos, era a lareira – estivesse ela na cozinha, ou na sala de estar, o certo é que era lá que nos reuníamos para aquecer o corpo e, descobri mais tarde, aquecer a alma.

Descobri o prazer de estar sentada a uma lareira, a observar serenamente o tempo passar, com as minhas avós. No inverno, muito do dia era passado à lareira. O lume (como se diz por cá) era aceso logo de manhã. As minhas avós ainda cultivavam o cozinhar em panelas de ferro, lentamente, usando o lume. Por isso ele era presença constante, da manhã à noite. Mas era as tardes que me agradavam. Chegar da escola e tomar o lanche à lareira era um prazer que descobri nessa época. O chá (imprescindível na hora do lanche) sabia melhor quando sentada, nas pequenas cadeiras de palha, feitas de propósito naquele pequeno tamanho para nos podermos aproximar do lume e nos aquecermos convenientemente. A acompanhar o chá vinham as torradas de lume (que ainda hoje considero daquelas coisas simples mas que são maravilhosas!) Lanche terminado, ali ficávamos a ver o dia findar, a luz dar lugar à noite e à lua, enquanto contávamos o nosso dia, as peripécias que poderiam ter acontecido ou se desfiavam memórias (as minhas avós) de tempos da juventude. E, por vezes, apenas ficávamos em silêncio, a observar as chamas, a ouvir o crepitar da lenha a arder. E foi nesses silêncios que percebi que a lareira e o lume fazem companhia. Não te sentes só quando tens o lume a arder. Ele é uma companhia quer estejas acompanhada ou sozinha. Quem nunca leu um livro junto à lareira? Quem nunca se deixou embalar pelo calor que dela emana e dormitou, apreciando o seu calor? Quem nunca bebericou um vinho ou uma jeropiga (tão nossa!) observando o dançar das chamas? Quem nunca viu um filme de “sábado à tarde” (Aqueles filmes que pouco te interessam mas que vês, em estado semivegetativo) apenas porque se sentia quentinho à lareira, apesar do frio imenso lá fora? E ainda, quem nunca ao observar um bom lume numa lareira, deu por si, de algum modo, a meditar, a limpar a mente, a pensar sobre a vida e, sobretudo, a procurar alguma serenidade?

Por outro lado, a lareira e o lume são os grandes companheiros para quando estás em companhia. Haverá algo melhor que os petiscos com amigos à volta de uma lareira? As conversas fiadas, as horas perdidas, enquanto se assa e saboreia uma morcela ou uma chouriça, são um programa ótimo para as tardes e noites de inverno. E se a companhia for a nossa cara-metade? Também aí a lareira será um poderoso aliado, desta feita, na criação de um ambiente propício ao romantismo (todos nós teremos a cabeça povoada de imagens de chalés na montanha e uma lareira, penso eu!)

Sou capaz de ficar horas sentada à lareira: a pensar na vida, observando a dança das chamas a aumentar ou a diminuir, a mudar as suas tonalidades, a apreciar o seu calor e a sua companhia, a petiscar (quem nunca comeu laranjas ou gelados à lareira perdeu um pouco de céu!), a deixar-me envolver pelo seu calor bom, aconchegante. E isto porque gosto de um bom lume, de um lume que me aqueça o corpo e a alma. O lume faz-me sentir, nem sei bem porquê, em companhia e em segurança. Faz-me sentir bem. Penso que não serei a única…

Visita ao passado

Mês de novembro quase terminado e ainda não tínhamos tido o conto do mês aqui na Steff’s World – a Soma dos Dias! Contudo, hoje é dia!!!

O conto deste mês foi inspirado nos versos de uma música bem antiga: “Naquela mesa” de Nelson Gonçalves. Proponho que coloquem o mundo uns minutos em suspenso e que leiam este “Visita ao passado” que vos proponho!

Enjoy! E, já sabem, podem sempre propor a letra de uma canção!

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Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
(…)

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
(…)
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim

Naquela mesa ‘tá faltando ele
E a saudade dele ‘tá doendo em mim

Nelson GonçalvesNaquela Mesa

Rui cruzou os limites daquela aldeia perdida na Beira que há anos não visitava. Não conseguiu deixar de sentir alguma comoção. Até àquele momento não tinha percebido a saudades que sentia daquele lugar. Baixou o vidro do carro e deixou-se envolver por aquele cheiro a estevas que sempre associara àquele cantinho. Aquele cheiro era sinónimo de infância, era sinónimo de tempos que tinham ficado lá atrás, num passado que se tinha abandonado há muito, num passado recheado de boas memórias mas, também, de tristezas. Rui parou o carro e por alguns instantes deixou-se estar no veículo, de olhos fechados, deixando-se imergir naquela onda de cheiros, memórias e saudades que lhe tinham chegado sem pré-aviso. “Há quanto tempo não vinha eu aqui?” – questionou-se ele. Somou mentalmente os anos, num rápido. 30 anos. Era isso. Há trinta anos que não vinha a esta aldeia e, contudo, o cheiro continuava igual e a paisagem, do que tinha visto até ao momento, também pouco tinha mudado.

A verdade é que nada o ligava à aldeia há muito tempo. Aquela era a aldeia dos seus avós maternos. Com o desaparecimento de ambos tinham terminado as razões para visitar a aldeia onde tantos verões passara…e desde então, desde a morte dos dois, tinham passado 30 anos… Parecia tão longe em tantos aspetos e, no entanto, em tantos outros aspetos parecia que tinha sido ontem, tão vívidas eram as recordações!

Decidiu estacionar o carro por ali mesmo e fazer o resto do caminho a pé para poder visitar com toda a calma o local, as ruas e as vielas, assim como as suas memórias. Conforme ia avançando ia sentindo uma mistura de sentimentos: nostalgia por lembrar de tempos que já tinham passado há muito, saudades esquecidas há tempos. Pela sua mente passavam imagens com momentos de gargalhadas e alegrias, tristezas e até de lágrimas. Tinha vivido muita coisa ali, era um facto!…

Começou a descer a rua em direção à casa dos avós. Desde o seu falecimento que a porta estava fechada. Na época tinham-se retirado alguns objetos, alguns móveis que alguém teria considerado úteis para a sua própria casa e tudo o resto ficara. No fundo era como se se tivesse fechado a porta trinta anos antes e não se tivesse voltado a pensar na casa até há algumas semanas atrás em que o tinham contactado sobre a sua vontade de vender a casa. Rui sabia que, neste momento a casa dos avós lhe pertencia mas nunca lhe tinha passado pela cabeça vendê-la. Para ser sincero, não pensava, sequer, que alguém quisesse ocupar aquele velho casebre, abandonado há tantos anos, naquela aldeia que esperava, calmamente, que a morte dos seus últimos habitantes chegasse para assim poder desaparecer.

Mas a verdade é que, contra qualquer expetativa, a aldeia estava a receber novos habitantes, forasteiros, gente que vinha de outros países como a Holanda, a Alemanha e a Inglaterra. Aquilo que tinha afastado os habitantes da aldeia (difíceis acessos, o estar, praticamente, isolada do resto do mundo, um local onde a evolução não tinha chegado) era aquilo que encantava estes estrangeiros, que apesar da capacidade económica que obviamente tinham (provada pela vontade que tinham de comprar casas naquele lugarejo e nas autocaravanas que conduziam), apresentavam um aspeto andrajoso com as suas roupas puídas, quais hippies que tivessem adormecido nos idos anos 60 e apenas tivessem voltado agora à vida. A aldeia contava já com algumas destas famílias que pretendiam viver a sua velhice e reforma num ambiente totalmente diferente daquele que tinham conhecido todas as suas vidas e eram elas que emprestavam à aldeia todo um novo colorido e um novo burburinho e, diga-se, uma nova vida.

E agora tinha chegado a vez da casa dos avós de Rui. Um telefonema, num fim de dia cansativo, uma breve conversa e uma quase promessa de compra e venda. Rui nem tinha pensado duas vezes quando lhe propuseram comprar a casa: “seria menos uma preocupação e menos um IMI para pagar!” – pensou friamente.

Era esse negócio que o trazia hoje à aldeia. As suas razões para voltar eram puramente económicas. Não esperava ser assaltado por essa onda de saudade. Chegava-lhe, por cada local ou coisa onde pousava o olhar, uma memória de um momento, o eco de uma risada, de uma conversa com o seu avô ou com algum dos aldeões, amigos do avô. Que riqueza de vida que ele tinha na época! Uma pena que não tivesse entendido isso então.

Para ganhar tempo e, sobretudo, ganhar coragem, parou primeiro no Café Central. Quantas e quantas vezes não tinha ido àquele café com o avô? Enquanto transpunha as portas do café pareceu-lhe ouvir a voz do avô: “Pede o que quiseres, Rui. Tudo o que quiseres! Só não peças uma garrafa de água! Por água não pago. Vais ali ao chafariz que me ficas mais barato!”. Rui esboçou um sorriso ao lembrar destas palavras. Lá dentro a penumbra de sempre. O tempo também tinha parado por ali. Atrás do balcão não se encontrava ninguém. Olhou para as prateleiras atrás e pensou que ainda seriam as mesmas, 30 anos depois. O café tinha exatamente o mesmo aspeto que tinha 30 anos antes. Talvez as cores das mesas fossem menos vivas, talvez se notasse uma ligeira camada de pó nas garrafas expostas…ali ao canto a televisão era nova…tinha um ecrã plano. Mas essa era a única marca que nos informava que o tempo não tinha parado em 1989 naquele café.

“Ó da casa! Há alguém?!” – perguntou Rui, elevando a voz. Veio um homem de uma sala contígua, com um farto bigode, limpando as mãos a um pano de cozinha.

Desculpe. Estava ali a preparar uns pipis para mais logo à tarde. Vêm sempre algumas pessoas para lanchar e os meus pipis são dos petiscos mais pedidos! Então diga-me: um café? E acrescentou: “O que o traz para estas bandas? Não estamos habituados a forasteiros portugueses!” Pontuou esta frase com uma pequena gargalhada, achando graça à sua própria piada.

Rui assentiu. “Sim, quero um café”. Quando o senhor Zé lhe trouxe o café (era este o nome do dono do café que reconheceu daqueles tempos) olhou para ele e disse: “É normal que não me esteja a reconhecer. Afinal, não venho cá há uns bons 30 anos. Mas posso garantir-lhe que me conheceu em criança! Sou o Rui Antunes, o neto do Manel Antunes, sabe, o Antunes que vivia junto ao Forno Municipal?”

Os olhos do Zé do café abriram-se num olhar de admiração. “O senhor está a dizer-me que é…o menino Rui, o neto do meu grande amigo Manel?! Só pode estar a brincar comigo!

“É isso mesmo que estou a dizer, senhor Zé! Sou eu mesmo!”. Os olhos de José ficaram, automaticamente, marejados de lágrimas. “Que surpresa! Se eu esperava uma surpresa destas! Nunca mais te tinha visto, Rui! Caramba, a última vez que te vi devias ter uns…10/ 12 anos! Estás feito um homem! Desde aquela desgraça…”

Ao ouvir aquelas palavras os olhos de Rui enevoaram-se automaticamente. Essa era uma das razões pela qual nunca mais tinha voltado àquela aldeia. Não queria ser recordado a todo o momento que um acidente de automóvel tinha ceifado a vida aos seus avós, não queria ser relembrado que nuns minutos de tragédia os seus verões de felicidade campestre tinham tido um ponto final.

Nesse entretanto surgiu, à porta, uma mulher de quem Rui não se lembrava. “Ó pai, vais embora com os tachos no fogão? Estava tudo já a queimar!”. Rui focou o olhar naquela cara mas não conseguiu perceber se a conhecia ou não. Como que lendo os pensamentos de Rui, José disse-lhe: “É a Catarina, a minha filha mais nova. Não te deves lembrar dela. Tinha uns quatro anos quando deixaste de aparecer aqui na aldeia. Catarina, este é o Rui. O neto de um grande amigo meu! Imagina que fomos à tropa juntos! Não aparecia aqui há um bom par de anos! Hoje veio cá! Agora que penso, ó Rui, o que te traz cá?!”

Rui explicou ao que vinha. Sentiu que o rosto de José se fechava um pouco. Acabou por entrar em explicações que sentia que não devia mas que queria dar. “Sabe, senhor Zé, nada me prende a esta aldeia a não ser algumas recordações que chegam a ser dolorosas. Por isso não venho cá há uns 30 anos. Prefiro pensar que a casa está cuidada e tratada – mesmo que seja por estrangeiros – do que deixá-la cair sem qualquer tipo de manutenção. Mas a verdade é que até tenho medo de a visitar. A minha mãe não quer saber da casa, nem da aldeia. Desde que voltou a casar e se mudou para o Canadá praticamente esqueceu que é portuguesa. Nada a faz vir cá. Resta-me a mim tomar as decisões…

Catarina tentou aligeirar a conversa que, de um momento para o outro, tinha tomado um rumo pesado e dorido.

“Sabes, Rui, não me lembraria de ti se te visse em qualquer lado. Mas é estranho que o teu olhar me faz lembrar de algo. Alguma reminiscência da infância? Por acaso sabes se brincávamos juntos?”

Rui explicou que brincavam, sim. Sempre que ele ia ao café acabava por brincar com aquela pequenita, no largo junto ao café. “Passava o dia contigo às cavalitas! Levava-te para todo o lado em passo de trote” – brincou ele. Sorriram um para o outro e, por momentos, sentiram que eram as mesmas duas crianças que brincavam 30 anos antes.

– “Posso acompanhar-te, Rui, se quiseres. Como dizes que tens receio do que podes encontrar…talvez seja mais fácil ires acompanhado.”

Rui aceitou na hora a proposta. Gostava, instintivamente de Catarina e seria bem melhor enfrentar tudo aquilo com uma companhia, ainda que ela fosse apenas uma estranha para ele.

Caminharam então até a casa dos avós de Rui. Ele sentiu um pequeno estremecimento quando colocou a chave na porta da casa. “O que iria ele encontrar?”; “Estaria a casa com alguma parede caída? Teriam as silvas tomado conta do quintal e, simultaneamente, da casa? Bastava um vidro partido para elas se imiscuírem desavergonhadamente pela casa adentro!” Era fácil não pensar na infância, não pensar nos avós e não pensar na aldeia quando se estava longe disso tudo mas este regresso trazia-lhe à memória esses tempos com uma nitidez de duros contornos. Catarina sentiu o seu nervosismo e, num gesto instintivo, deu-lhe a mão, apertando-a, tentando transmitir-lhe força e confiança.

Rui abriu finalmente a porta… O pensamento que o fulminou na hora foi: “Raios, será que o tempo não passou por aqui?”

À sua frente estava o pequeno corredor que desembocava na cozinha. Ainda ali estava o pequeno fogão onde a avó cozinhava. A lareira continuava negra como sempre a tinha conhecido e quase que podia ver a sua avó sentada, num banquinho de madeira, a fritar as filhoses ao lume. Teve de fugir da cozinha tal a dor que ainda o trespassava. Seguiu então para a sala. Faltavam algumas mobílias mas restava a mesa de jantar, algumas cadeiras e um armário. Contudo, aquilo que mais o emocionou foi ver, a um canto, a pequena mesa onde o avô se sentava para ler o jornal, para tocar o bandolim ou para sentar o neto ao colo enquanto lhe contava uma história. Catarina sentiu a emoção de Rui ao olhar para a mesa. Como que adivinhando, Catarina disse-lhe: “Esta mesa parece especial. Não queres ficar com ela antes de a venderes?”

Rui explicou, falando, num tom monocórdico onde procurava esconder a emoção, falando mais para ele próprio do que para Catarina:

Naquela mesa ele sentava sempre/ E me dizia sempre o que é viver melhor./Naquela mesa ele contava histórias/ Que hoje na memória eu guardo (…). Sabes, Catarina, não quero esta mesa. Pela simples razão que “Naquela mesa tá faltando ele/ E a saudade dele tá doendo em mim”.

“Nunca pensei que doesse tanto voltar a ver esta casa, estes objetos. Eu não sabia que doía tanto/… Uma mesa num canto, uma casa e um jardim (…). Tudo acabou. Não resta nada deles há muito tempo. Agora resta uma mesa na sala/ E hoje ninguém mais fala do seu bandolim (…). Eles desapareceram e com eles acabou a minha infância e a felicidade que sentia nesta pequena aldeia. Não quero a mesa, não quero a casa. As memórias são demasiado dolorosas. Vim cá para perceber o estado da casa, perceber quanto deveria pedir por ela para a vender…e ainda que tenha tido dúvidas quando aqui cheguei, a verdade é que esta visão e estas memórias me deram a certeza que não posso viver no passado e devo vender a casa.

Catarina manteve-se em silêncio. Compreendia as palavras de Rui, tão sofridas. Por outro lado, ela, que era tão apegada à aldeia e às memórias que cada pedra escondia, tinha alguma dificuldade em concordar com ele. Por isso considerou ser melhor não se pronunciar enquanto Rui continuava a visitar o resto da casa.

Saíram sem uma palavra. Rui fechou a porta e sentiu que fechava, de uma vez por todas, aquele capítulo. “É tempo de olhar para o futuro. Deixar de olhar para trás e olhar em frente. Espero que quem venha a comprar a casa seja tão feliz aqui como fui…”

Catarina nada disse. Seguiram lado a lado. De um modo quase tímido, Catarina deu-lhe a mão. Seguiram os dois, caminho fora. Quem sabe o futuro não estava a ser traçado naquela hora?

Ensinas-me?

Hoje proponho uma crónica que foi publicada no “Viva Covilhã” uma revista digital de cultura, turismo e lazer.

A inspiração para a crónica veio da frase que podem ler na foto que se segue. Espero que gostem! Partilhem ou leiam a crónica no Viva a Covilhã no endereço: https://vivacovilha.pt/ensinas-me/

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Existe um muro na minha cidade que vê escrito em letras garrafais a seguinte frase: “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te?” Não sei a quem a escreveu. A assinatura parece-me de um/ uma certo(a) JP sendo “o” (vou optar por achar que é um homem) JP o autor de mais algumas frases espalhadas pela Covilhã e arredores tais como “Liberdade? Quero a prisão dos teus braços” e “Faz as malas! Fugimos hoje!”. Claramente este JP será uma pessoa apaixonada levando-o, essa paixão, a expressar-se pelas ruas das cidades.

Gosto de todas essas frases (gosto de ler a “poesia” e os sentimentos espalhados pelas paredes por aí) mas assumo que a “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te” é a minha preferida. Gosto dela e identifico-me com ela. Considero que há sempre alguém na nossa vida que nos faz sentir assim, com vontade de beijar sempre que a vemos. Há pessoas que pertenceram, em determinado momento, ao nosso presente e que, apesar de não pertencerem mais, deixaram uma marca indelével na nossa alma e coração. São elas pessoas especiais que, ao terem passado pela nossa vida, criaram uma ligação que se tornou inquebrável, que resiste, incólume, à passagem do tempo. E isso acontece porque esse encontro entre duas pessoas criou uma energia (positiva, sem dúvida) que não desaparece nunca por mais que o tempo passe e por mais que não se alimente esses encontros e reencontros. Uma troca de olhares e o tempo fica em suspenso, deixando um raio de luz e energia passar.

Quanto a mim isso tem uma explicação: são almas que se reconhecem e se tocam! Penso que são almas que pertenceram à vida um do outro em muitas outras vidas e, por isso, se reconhecem em qualquer tempo e lugar. São essas pessoas/ almas especiais que fazem que nos sintamos sempre acolhidos, aconchegados e em casa quando estamos com eles. São aquelas pessoas que nos fazem sentir que os ombros são largos o suficiente para acolher a nossa alma cansada e desgastada e assim possamos descansar nesse ombro largo. São aquelas pessoas que nos fazem pensar que nada no mundo é impossível. E, por fim, são aquelas pessoas que, quando vemos, queremos sempre abraçar e beijar, percebendo que, finalmente podemos abrandar o ritmo porque a nossa alma reencontrou o lugar que procurava. Em isso tudo, uma única certeza: essa pessoa transmite-nos bem-estar, paz e uma enorme vontade de abraçar.

Contudo, como o tempo e o lugar nem sempre são propícios às vontades e necessidades da nossa alma, por vezes, as almas andam desavindas por aí. A ligação, que seria natural, deixa de poder existir. Mas o elo de ligação está lá. E, quando se encontram, quando existe a troca de olhares, surge essa energia e essa vontade do beijo, do abraço, essa força que indica que as almas se reencontraram. E surge então a questão no fundo do olhar: “Ensinas-me a olhar para ti sem querer beijar-te?”. No fundo, e esperando um gesto nobre do outro perguntamos:  “ensinas a minha alma a viver sem a tua?”

É assim que interpreto essa frase escrita num muro da Covilhã. É isto que penso sempre que a leio. E assumo que sempre que passo os olhos por ela, um ligeiro sorriso nasce nos meus lábios gerado por um monte de recordações (desta e doutras vidas, quem sabe?) que afloram à minha memória. E, por momentos, a alma volta a sentir aquele sentimento quentinho e aconchegante que a faz sentir-se em casa.