O olfato: o sentido que dá sentido

Há muitos anos, era eu adolescente, li um livro magistral que nunca mais esqueci e que não raras vezes cito como um daqueles que deve ser lido, pelo menos uma vez na vida. Falo de “O Perfume” de Patrick Süskind. Todo o livro me ficou na memória mas não posso negar que o seu início, relatando o nascimento de Jean-Baptiste Grenouille, de uma forma extremamente detalhada, num mercado de rua, no meio dos cheiros nauseabundos de legumes podres e de peixe, me ficou gravado para sempre, na memória. A descrição era tão pormenorizada que me senti agoniada, acreditando que estava rodeada, também eu, por aqueles cheiros. Nunca até àquela leitura me lembro de dar tanta atenção aos cheiros e aromas que me rodeavam. O livro tem uma história interessantíssima, que nos agarra do princípio ao fim mas, tenho de o assumir, a grande mudança que provocou em mim foi o passar a procurar aspirar, com muita intensidade, os cheiros – bons e maus – que me rodeavam, procurando distinguir todo o mundo de aromas que existem à nossa volta.

Curiosamente, essa necessidade de distinguir todos os cheiros com os quais vou contactando no dia a dia voltou há pouco tempo, quando nos foi dito que um dos sintomas da infeção por Covid 19 era a perda do olfato. Tal como na época dei por mim a inspirar com força no banho para ver se distinguia as várias notas de aroma do gel duche, a inspirar fundo sempre que colocava o perfume ou até a procurar perceber o que era o prato do dia nos restaurantes, tendo em conta os cheiros que me chegavam da cozinha.

Já naquela altura tinha constatado, e agora comprovei, que, efetivamente, não sou uma pessoa de olfato muito apurado. Nunca senti que as flores tivessem um cheiro tão forte que conseguisse distinguir o cheiro de uma rosa do de um cravo. Não sou daquelas pessoas que entra numa casa e fica sem qualquer dúvida do que está a ser cozinhado. Ainda assim, ficava (e fico) sempre muito satisfeita quando constatava que, apesar de pouco apurado, o meu sentido do olfato se mantinha e continuava a conseguir sentir o aroma do meu perfume, do meu creme, da minha comida favorita.

No fundo, e apesar de pouco apurado, constato que dou mais importância ao olfato e aos cheiros do que poderia pensar num primeiro momento. Noto, quando penso nisso, que muitas memórias estão impressas em mim através do cheiro que me deixaram. O meu passado tem muitas memórias olfativas que reconheço no primeiro segundo em que o aroma aflora as minhas narinas. Poderia citar, a título de exemplo, o cheiro do creme que a minha mãe usava ou o seu perfume, o “Ô” de Lancôme. Quantos de nós não associamos um determinado perfume a uma determinada pessoa? Basta alguém passar por nós usando esse mesmo perfume para nos lembrarmos automaticamente da pessoa. Poderia falar-vos do cheiro das estevas, planta tão típica da aldeia da minha avó, que reconheço em qualquer local e que me lembra, instantaneamente, a minha meninice e aquela aldeia. E o cheiro tão típico de Campo Maior? É impossível dissociar a vila do cheiro de café: sempre que me cheira a café torrado, lembro-me de Campo Maior e das suas gentes.

Uma coisa é certa: apesar de não darmos muita importância ao olfato, muito do nosso conhecimento das coisas, da nossa perceção do mundo, chega-nos através do olfato e as nossas memórias ficam efetivamente ligadas aos cheiros. Por isso, tantas e tantas vezes nos emocionamos quando determinado aroma chega até nós.

Tal como em tantas outras coisas importantes, habituámo-nos a ignorá-lo mas a verdade é que o olfato é o mais antigos de todos os nossos sentidos. Um bebé consegue reconhecer a mãe pelo cheiro que ela exala desde a primeira semana de vida! É através do olfato que fazemos as nossas escolhas. Quantas e quantas vezes não dizemos que não gostamos de determinada comida porque o odor dela não nos agrada? E a verdade é que não estamos enganados e não apreciamos, efetivamente, aquele ingrediente ou aquele prato de comida!

 E ainda há mais! Não só o olfato é capaz de nos dirigir nas nossas preferências, nas nossas escolhas mas é também responsável pela atração sexual que sentimos por alguém (ainda que esse facto não seja consciente em nós). Todas as pessoas têm um cheiro próprio, uma combinação de todas as substâncias odoríferas libertadas através da pele. Sentimo-nos atraídos, sem saber porquê, por determinada pessoa e a verdade é que o seu cheiro é em muito responsável por essa atração. Um pouco na mesma linha de pensamento, li há uns tempos que um dos primeiros sinais do fim de um romance acontece quando um dos parceiros passa a não suportar o cheiro do outro!…

Como comecei por vos dizer, foi o livro “O Perfume” o primeiro que me fez despertar para o mundo dos aromas e dos odores, bons e maus e para a sua importância na construção da minha imagem do mundo, para a escolha daquilo que gosto, que não gosto, que me atrai ou me repele. Não tenho qualquer dúvida que o olfato não é um sentido menor e perdê-lo levar-nos-á a perder, simultaneamente, muito da beleza do mundo. Perderemos não só o seu cheiro mas também o seu sabor, uma vez que o cheiro está presente em tudo: no amor, no apetite, nas nossas recordações…

Aqui chegados, sinto-me à vontade para vos pedir que fechem os olhos por uns segundos e absorvam, bem devagar, os cheiros que vos rodeiam. O mundo adquire toda uma outra cor quando passamos a dar mais atenção  não só ao que vemos e ouvimos mas também àquilo que cheiramos!

“Escoje un amante que te mira como si quizás fueras magia” *

Faz hoje 67 anos que Frida seguiu a sua viagem para outra dimensão. Afirmou que gostaria que a partida fosse feliz e esperava nunca mais voltar!… Não sei se poderemos dizer que Frida partiu e nunca mais voltou uma vez que a sua imagem e a sua obra estão mais presentes que nunca….

Por se celebrar hoje o dia de aniversário da sua morte, decidi voltar a publicar este texto pertencente à rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerai – Histórias de amor intemporais”, que vem falar-nos da história de amor, sui generis é um facto, de Frida Kahlo e Diego Rivera e que vale a pena relembrar ou conhecer. Enjoy the reading.

Frida e Diego

O mês de julho é o mês, por excelência, para relembrar Frida Kahlo. E é-o não só porque é este o mês do seu nascimento (a 6 de julho de 1907) como também o da sua morte (a 13 de julho de 1954). Como tal, decidi que seria ela uma das protagonistas do texto de hoje. Desengane-se quem pensa que irei falar apenas e só sobre Frida Kahlo (aquela que, sem dúvida, teria o primeiro lugar na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”).

Frida não será a única protagonista do texto de hoje pela simples razão que já lhe dediquei todo um texto e porque a rubrica de hoje pressupõe que existam, pelo menos, dois protagonistas. Hoje é dia da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais” e venho falar-vos um pouco do amor entre Frida Kahlo e Diego Rivera. É verdade que existe alguma tendência para acreditar que apenas Frida amava intensamente Diego, não sendo retribuída com a mesma intensidade. A isso não será alheio o facto de muita da informação recolhida sobre a relação deles ter provindo do diário que Frida mantinha. O facto é que poucas vezes ouvimos o pensamento de Diego Rivera sobre esse assunto. Contudo não concordo com esta perspetiva. Não penso que fosse um sentimento unilateral. Considero que, ainda que fosse de uma forma particular, não só Frida amava Diego como Diego tinha em Frida um dos amores da sua vida. Frida e Diego viveram um amor atípico: um romance cheio de discussões, a que se seguiam reconciliações, uma relação problemática mas cheia de paixão, um amor muito instável, marcado por infidelidades de parte a parte mas que, no final, os uniu para a eternidade. E é sobre esse amor tão diferente que hoje vos venho falar.

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón viu Diego Rivera, pela primeira vez, quando este se encontrava a pintar o mural: “La Creación”, no Anfiteatro Simón Bolívar, na Escola Preparatória Nacional do México, escola onde Frida estudava. Diego era já consagrado artisticamente, contava com 36 anos, era casado e já tinha fama de mulherengo. Frida tinha, na época, 15 anos. Contudo, a não ser as conversas que aconteceram entre os dois (Diego falava de Paris, dos seus amigos Modigliano, Picasso e Breton… enquanto Frida o observava a pintar), nada mais se passou entre eles nessa época. Diego contava, na época, já com dois casamentos que pouco tinham durado e já era pai.

Diego e Frida foram reapresentados em 1928 por Tina Modotti, fotógrafa italiana que era amiga comum dos dois. Tanto Tina quanto Frida se tornaram as musas de Rivera. Tina foi modelo em murais como “A Terra Adormecida” enquanto Frida foi retratada como uma militante comunista nas paredes do Ministério da Educação Pública. Para além disso, foi esse também o ano em que Frida ingressou no Partido Comunista Mexicano.

É nessa altura que o interesse que Frida tinha revelado com 15 anos acerca do artista se estende ao homem e pouco tempo depois de serem reapresentados, Frida e Diego casam-se (estávamos em 1929). A cerimónia, que foi bastante simples, realizou-se na Casa Azul, em Coyoacán (casa onde passariam a viver) contrariando a família de Frida que não considerava Diego R. a pessoa adequada para casar com Frida: ele era ateu, comunista, mulherengo e 21 anos mais velho que Frida Kahlo. Para eles o casamento era comparado ao de um elefante com uma pomba.

A vida deles, enquanto casal, foi particularmente intensa. Viajaram para os Estados Unidos, onde Rivera pintou alguns murais. Será lá que Frida irá sofrer o seu primeiro aborto (o primeiro de três).

Frida conseguiu, por uns tempos, que o marido abandonasse os seus hábitos de conquistador e mulherengo mas, após algum tempo de casamento, Diego voltou a somar infidelidades. Em 1934 Diego e Frida regressaram ao México e é nessa altura que ela descobre que o marido lhe tem sido infiel ao manter uma relação com a sua irmã mais nova, Cristina Kahlo. Apesar de ter conhecimento de outras infidelidades do marido, e de a própria Frida ter também a sua parte de amantes, essa traição foi das mais difíceis que Frida sofreu e que a fez afundar-se numa depressão. Foi a partir de então que Frida tomou a decisão que continuariam juntos mas numa relação aberta em que cada um poderia ter outras relações, com o conhecimento e consentimento do outro. Sendo bissexual, Frida passou a ter relacionamentos com outros homens mas também com outras mulheres. Apesar do que tinha sido combinado, tal situação despertava os ciúmes de Diego. Ele aceitava os relacionamentos da mulher com outras mulheres mas não suportava saber que ela se tinha envolvido com outros homens.

A verdade é que a relação conturbada, os casos extraconjugais de ambos, a luta de duas personalidades fortes acabou por resultar num divórcio dez anos após o casamento, apesar de todo o sofrimento que tal separação causou.

Será o assassínio de um dos amantes de Frida Kahlo que levará, curiosamente, a novo casamento de Frida e Diego. Um ano depois da separação, em 21 de agosto de 1940, León Trotsky é assassinado. Como a relação que ele mantinha com Frida Kahlo era conhecida, a polícia deteve-a para ser interrogada, fazendo-o com alguma dureza. Aproveitando a situação, Diego Rivera, que se encontrava, naquele momento, em S. Francisco, chamou-a para ir viver com ele. Frida não pensou duas vezes e voou para S. Francisco. Foi o reacender da velha chama que sempre tinha ardido entre eles, apesar de todas as vicissitudes, e ainda nesse ano, voltaram a casar. 

Ao voltar para o marido, Frida decidiu construir uma casa igual à de Diego, ao lado da casa em que eles tinham vivido no primeiro casamento. As casas eram ligadas uma a outra por uma ponte. Viveram, desse modo, como marido e mulher sem morarem juntos. Encontravam-se na casa dele ou na dela, nas madrugadas, celebrando o amor que os unia.

A última vez que Frida Kahlo apareceu em público foi a 2 de julho de 1954, numa marcha a favor do povo Guatemalteco. Dez dias depois, prostrada na sua cama, a perna amputada porque estava a gangrenar, sofrendo de dores intensas, devolveu a Diego o anel que este lhe tinha comprado para celebrar o seu 25º aniversário de casamento. Deu-lho referindo que sabia que a sua morte estava eminente. Morreu no dia seguinte, a 13 de julho de 1954.

Diego Rivera e Frida

Após a sua morte, Diego criou coragem para pensar em  transformar a famosa Casa Azul num museu para celebrar o amor da sua vida. Reuniu roupas, cartas, livros, espartilhos e até alguns dos remédios de Frida, assim como alguns dos seus pertences e lacrou-os num dos quartos. Informou que esse depósito improvisado só poderia ser aberto 15 anos após a morte de Frida.

Contudo…um ano após a morte de Frida, Diego voltaria à sua vida de sedutor e voltaria a casar. Diz-se que também não foi fiel a essa quarta esposa. Viria a morrer a 24 de novembro de 1957. Os pertences de Frida caíram em esquecimento e ficaram fechados até 2004…

É claro que este “amor intemporal” está longe de ser um conto de fadas. Está longe de ser a história de amor a que muitos aspiram. Foi um relacionamento doentio, disfuncional e destrutivo. Contudo, foi um relacionamento fortíssimo que, se não lhes permitia estarem juntos, também não lhes permitia estarem separados. Ainda que se tivessem divorciado, nunca perderam o contacto um com o outro. Viveram um amor pouco convencional mas a ligação superior entre ele era inegável. Quando Frida morreu Diego reconheceu que Frida foi o grande amor da sua vida, ainda que não tivesse sabido amá-la como ela teria merecido.

*“Escolhe um amante que olhe para ti como se fosses mágica” –

Frida e Diego Rivera (1931)

“Dei-me conta que o mais maravilhoso que passei na minha vida foi o meu amor por Frida”  – Diego Rivera

O sonho

Para iniciar o mês escolhi trazer-vos um pequeno conto, feito de matéria de sonhos. Sentem-se comodamente no sofá e escolham passar dois ou três minutos a lê-lo!

Tânia abriu os olhos. Deixou-se ficar muito quieta, não movendo um músculo, perscrutando apenas a escuridão à sua volta, procurando ouvir para além do silêncio que estava instalado. Os olhos habituaram-se à obscuridade (que no quarto dela nunca era total, uma vez que ela odiava dormir num quarto totalmente às escuras). Viu que o gato, a seus pés, dormia profundamente. Virou os olhos para a janela. Ainda não se vislumbravam as primeiras luzes da madrugada. Aguçou o ouvido mas pouco mais ouviu que o latir, ao longe, de um cão, provavelmente aborrecido com a vida que levava. Os pássaros, esses, ainda se mantinham no seu silêncio da noite. Nada do seu canto anunciando alegremente um novo dia. Por todas estas constatações pensou que não poderia passar muito das 4 da manhã.

Contudo, ela estava acordada. Estava de olho bem aberto, observando, com cuidado, tudo o que a rodeava. No fundo, ela procurava uma razão para ter sido acordada, tao repentinamente, como se alguém lhe tivesse tocado no ombro, tivesse sussurrado o seu nome, acima de tudo, como se alguém tivesse querido acordá-la. No entanto, nada do que a rodeava sugeria que pudesse ter sido o culpado de ter sido acordada do seu sono que se pretendia ser profundo e reparador. O gato não andava a correr pelo corredor, num assomo de energia, percorrendo corredor acima, corredor abaixo como se a sua vida dependesse disso. Também não miava com aquele miar que avisa “apetecia-me mesmo um pouco de patê, humana, para AGORA!” Pelo contrário, dormia, placidamente, não demonstrando que, o que quer que tivesse acordado Tânia o teria acordado a ele também. O silêncio em casa era ensurdecedor. Nenhuma janela aberta batia por causa do vento, nenhuma porta chiava. Ninguém se tinha levantado para uma visita à casa de banho ou para beber um copo de água. Observou-se a si própria: nenhuma pequena dor incomodativa, nenhum membro com formigueiro, nada. Também não seria o seu corpo a pedir-lhe para acordar, de um momento para o outro…Decididamente, Tânia tinha acordado, de um modo repentino (coisa que odiava) e não encontrava razão para tal. E isso era extremamente aborrecido para ela, que adorava ter aquele sono contínuo que a fazia acordar, pela manhã, sentindo que estava renovada, como quem tinha, de novo vinte anos, e não sentia nenhuma dorzinha incomodativa, neste ou naquele músculo, neste ou naquele membro.

Olhou então para o relógio. Queria verificar que horas eram e quanto tempo lhe restaria para dormir, depois deste acordar inesperado e inexplicável. Reparou então nas horas: 4h44. O relógio parecia ter-se cristalizado nesta hora (4) e nos minutos (44). Tânia sorriu de si para si. Acordas a meio da noite, não vês razão para isto e, quando olhas para o relógio, ela está “parada” numa capicua. Aí estava razão pela qual tinha acordado. Algures neste mundo alguém pensava nela. Desde a mais tenra idade que associava, de um modo totalmente infantil, as capicuas dos números à certeza de que alguém que gostava dela estaria a pensar nela. E quando, num assomo de racionalidade, pensou que ter alguém a pensar nela, às 4.44 da madrugada era pouco provável, encontrou a sua própria explicação: se calhar não está a pensar em ti. Está, com certeza a sonhar contigo! Toda a gente sabe que, quando estamos presentes e acordados no sonho de alguém, nós, do nosso lado, na nossa cama, somos acordados repentinamente e  não conseguimos dormir! Aí estava a explicação para ter acordado de um modo tão súbito! Quem sabe não estaria a dançar no sonho dele, cheia de energia e vivacidade?

Tânia sorriu de si para si. Gostava da explicação que tinha encontrado para esta estranha insónia que a tinha acometido. Sim com certeza ele (o ele que ela queria acreditar que estava a sonhar com ela naquele momento) estaria a sonhar com ela  e com algum momento mágico que teriam vivido ou que ele estaria a sonhar. Seria, com certeza, um momento bom. E embalando-se nesta doce ideia do sonho fechou os olhos, ajeitou melhor o corpo na cama, pensou nele e murmurou de si para si: Até já. Encontramo-nos num sonho teu ou, quem sabe, num sonho meu. E ainda não tinha acabado de pronunciar estas palavras e já as trevas do sono voltavam a cair sobre ela. Foi, desta vez, um sono contínuo, aconchegante e reparador. E para aqueles que agora questionam se Tânia  sonhou posso informar-vos que sim, que sonhou e que se encontraram no sonho. Os pormenores do sonho não os conheço. Ela guardou-os para si mesma.  

Entre ricos e pobres…

Há muito que não escrevia uma crónica para a versão impressa do jornal Registo! Não imaginam o sabor que tem este regresso! Tem um sabor a normalidade, a “tudo se vai acertando a seu tempo”, a “estamos a ultrapassar esta pandemia”.

A proposta deste mês para o Jornal Registo e da semana para o blogue Steff’s World – a soma dos dias é uma crónica que versa sobre ricos e pobres. Leiam e deixem a vossa opinião!

Adoro passear pelas cidades observando e fotografando pormenores que me vão chamando a atenção por me parecerem interessantes. Algo que me faz sempre parar com um olhar curioso são as paredes, tantas vezes vandalizadas, com pequenas frases escritas. Grande parte das vezes não passam de poluição visual, com um enorme “Amo-te, Maria”, ou algo do género mas, por vezes, aparecem pequenas pérolas de conhecimento do mundo e das pessoas que me fazem parar, fotografar e pensar sobre  o que acabei de ler. Foi o que aconteceu, aqui há dias, quando me deparei com a singela frase “Podes tirar a pessoa da pobreza mas nunca poderás tirar a pobreza da pessoa”.

E a verdade é que a frase me deixou a pensar. No decurso da nossa vida, cruzamo-nos com muita gente. Gentes diferentes, é claro (o interesse do contacto com as pessoas advém dessa possibilidade de conhecer pessoas completamente diferentes, certo?) Nessa diversidade, encontramos pessoas que são luz e energia positiva, pessoas impregnadas de sentimentos bons e que são, por isso, seres que apreciamos ter ao nosso lado, de ter por companhia. Pessoas ricas de conteúdos bons, positivas, acima de tudo, com elas, com os outros e com o mundo que as rodeia. E por serem tão ricas de conteúdo carregam com elas um porte, uma nobreza de ser e estar que dinheiro nenhum poderia comprar.

Por outro lado, encontramos o oposto destes seres de luz e de energia positiva. Pessoas sombrias, negativas e feias que parecem incomodadas pela vida e com a vida e que, por isso, procuram incomodar todos aqueles que os rodeiam para assim se sentirem acompanhados na sensação de miserabilidade que sentem. São pessoas pobres em sentimentos belos, pobres e perfeitos, pobres em energia positiva, pobres, para não dizer paupérrimos, daquelas coisas que fazem bem ao coração e à alma. E, ainda que estas pessoas possam ser ricas, a um nível monetário, a verdade é que a pobreza nunca sai delas e da sua forma de ser.

E é por isso que alguém escreveu naquela parede, e muito bem, que não se pode tirar a pobreza da pessoa. Existem pessoas por este mundo que, ainda que tenham o seu saldo bancário bem mais elevado que a maioria dos “comum dos mortais” que com elas se cruzam, não conseguem ser ricas. A pobreza simplesmente não lhes sai do sangue. Mentes pobres que acreditam que o dinheiro pode tudo, que o dinheiro lhes permite tudo. Ricas em inseguranças e medos, usam o dinheiro para os disfarçar. Pessoas que procuram adquirir tudo o que tenha um preço, provavelmente para preencher vazios existentes naquelas vidas. Vidas vazias também de sentimentos bons e, por isso, vidas vividas sozinhas, num abandono comprovado pelo facto de não conseguirem cultivar amizades ou qualquer tipo de relações positivas. São pobres nas relações sociais: colegas, amigos, família…porque tudo está rodeado de um halo escuro e negativo que leva a relações fracassadas, erradas e pouco compensatórias. De um modo geral, são pessoas muito sozinhas. Mentes atormentadas pelo negativismo, pela toxicidade que emanam, levam a que os outros se afastem delas. Pessoas pobres de tudo o que seja positivo.

A riqueza de que falo nada tem a ver com o saldo da conta bancária, como penso que está claro. É uma riqueza de ser e não uma riqueza de estar. Esta “fortuna” faz com que, por pior que sejam as situações, elas sejam sempre enfrentadas com um sorriso no rosto, com um sentimento de esperança que o dia de amanhã será melhor, com uma força e uma resiliência que dificilmente poderão ser quebradas. A riqueza interior da pessoa fá-la-á considerar qualquer situação como um desafio que pode e deve ser superado. A pessoa rica procura relações sociais compensatórias para ambos os lados, procurando que os benefícios daquela sejam elevados para ambos os membros. Pessoas que deixam um rasto luminoso ao longo da sua trajetória de vida porque procuram ser luz para a vida que levam e para as pessoas que as rodeiam.

Uma pessoa pode sair da pobreza sim mas a pobreza nunca abandonará certo tipo de pessoas. O mesmo sucede com as pessoas que denomino de ricas. O seu ser, o seu estar, estará sempre do lado da riqueza quer a sua conta bancária esteja recheada ou, pelo contrário, completamente vazia. A nossa essência é aquilo que nos caracteriza. Podemos tentar alterá-la, limá-la, lapidá-la…mas a nossa base será sempre a mesma. Por isso existirão sempre os ricos e os pobres, de alma e espírito, por isso existirá sempre luz e escuridão, por isso existirá sempre o bem e o mal. E por isso, quem nasceu pobre de luz será sempre pobre…a sua alma nunca terá brilho quer se encontre no lugar mais pobre do planeta ou quer se encontre na maior mansão imaginada…

Assalto aos 45

E é isto! Hoje é dia de vos dizer que tenho, oficialmente, 45 verões contados. Há precisamente 45 anos, quando batiam as duas badaladas da madrugada deste dia 24, nascia um bebé rosado que se esperava que fosse rapaz (afinal já se tinha uma menina e todos os casais sonham em ter “o casalinho”) e que, por isso, terá trazido algum sabor agridoce aos pais aquando do primeiro choro histérico de menina. Penso que com o tempo os meus pais superaram esse pequeno sentimento de desilusão que lhes trouxe a vida mas, ainda assim, não posso dizer que tenha certezas absolutas.

O facto é que hoje é o meu aniversário e decidi assumir os números sem medo (vá-se lá saber porquê…) Depois de anos a contar alíneas (40, alínea a, 40, alínea b…) decidi que gosto deste “quatro décadas e meia” e que, este ano, vou aceitar o número sem rodeios. A verdade é que a história das alíneas acabou mais por ser uma brincadeira do que propriamente uma dificuldade em aceitar a passagem dos anos. Muito pelo contrário! Quem me conhece sabe que eu adoro fazer anos e que nunca deixo passar a data em branco. Não vou entrar em falsas modéstias: afirmo sem medos que adoro todas as atenções de que sou alvo nesse dia. Fico extremamente satisfeita com todas as mensagens que chegam até mim a felicitar-me. Não me interessa minimamente se se lembraram porque a data é, de facto, importante, ou se tiveram a ajuda do Facebook para essa lembrança. Aquilo em que me foco é que um número grande de pessoas pensou em mim nesse dia e decidiu escrever duas ou 3 palavras para me felicitar ou  pegar no telefone para conversar um pouquinho comigo e desejar-me um montinho de coisas boas! E eu adoro isso, não posso negá-lo. Garanto que seria menina para andar, nesse dia, com um cartaz atrelado a mim a dizer “Dá-me os parabéns, hoje faço anos!”

É claro que hoje em dia penso um pouco mais nos anos que se vão somando. Quer dizer, não penso tanto no número em si mas, sobretudo, no impacto que eles vão deixando na minha cara, na minha pele. Os primeiros minutos da manhã, antes de tomar banho, são sempre aqueles minutos em que, tenho de admiti-lo, sinto que os anos me começam a pesar. É aquele momento em que olho para a minha cara que por momentos me lembra uma ameixa seca. Olho para as manchas que se destacam na pele e relembro que, com 20 anos, tinha uma pele de bebé, luminosa que era todo o meu orgulho. Por vezes dou por mim, em frente ao espelho, a esticar a pele ligeiramente aqui e ali para ver como resultaria “um tratamento a sério”. Não são muito fáceis estes primeiros momentos do dia, tenho de assumi-lo…

Contudo, passados estes primeiros minutos, sigo para o banho e, quando saio de lá e passo um creme já sorrio para o espelho e penso: “é o preço de somar anos à vida! E isso é uma bênção! Deixa-te de ideias tristes!” Junto a estes pensamentos a certeza de que, bem vistas as coisas, não me sinto com 45 anos. Muito pelo contrário! Em muitas coisas sinto que sou uma eterna miúda e que isso me preserva uma juventude que não quero perder. Feliz aquele que não perdeu muitas das características das crianças! E eu, tenho de o assumir, ainda me encaro em  muitas coisas como uma miúda traquinas e bem disposta. Não perdi a capacidade de me maravilhar com as pequenas coisas que a natureza e a vida nos oferecem e por isso “perco” muito tempo a observar e a fotografar pormenores que me parecem “pormaiores”. Não perdi a capacidade de rir e gargalhar, ainda que isso me faça parecer infantil. Não perdi a espontaneidade de dizer aquilo que penso (como alguém dizia há dias: “tens o coração na boca”) não tendo adquirido a capacidade adulta de calar e dissimular. Não perdi a capacidade de, por vezes, ser dada ao disparate (pequenas loucuras que fazem tão bem ao corpo e à alma!). Não perdi a capacidade de sonhar e de acreditar que o futuro me reserva sempre coisas boas e aliciantes. E, acima de tudo, não perdi a capacidade de olhar para as pessoas e para as coisas com um certo ar de inocência acreditando sempre, até prova em contrário, que as pessoas e as situações são intrinsecamente boas. E são estas características que acabo de citar que penso acrescentarem um certo ar de frescura e juventude ao meu semblante de ameixa seca das manhãs.

Aqui chegados, tenho de fazer uma ressalva: não fiquem com a ideia que abomino tudo o que tenha a ver com o ser adulto. Muito pelo contrário. Sei que as minhas quatro décadas e meia me trouxeram, acima de tudo, um modo de estar e de aceitar a vida bem mais sereno do que aquele que tinha aos 20. Trouxeram-me maior segurança e a certeza que tudo estará bem se agir de acordo com as minhas convicções. Sei hoje que “eu sou eu e, quem gosta de mim, aceita-me desse modo”. Trouxeram-me um modo de ser determinado , uma certeza que sou capaz de lutar por aquilo que quero e, acima de tudo, a certeza que, se não atingir aquilo que quero, serei madura e forte o suficiente para aguentar a desilusão. Por tudo isso sou grata à vida e aos anos que por mim passaram!…

Celebro hoje quatro décadas e meia! Sentei-me e fiz este exercício de autoanálise. Olho para mim e percebo que há em mim muito da criança que fui e muito, como não podia deixar de ser, da “mulher de 40” (e mais uns pós) que sou. E a verdade é que gosto dessa mistura de menina e de mulher, aceito-a com as suas qualidade e com os seus defeitos.  Aceito a idade e aceito-me a mim, mulher de 45, de braços abertos e com um sorriso no rosto.

Antes do brinde digo que, mais importante que os números será, sem dúvida, estarmos bem connosco e com a vida. E eu, garanto-vos, posso gritar aos quatros ventos: “Gosto de mim! Gosto de viver! Viva la vida”! Agora…brindamos aos meus 45?!

Leonard Cohen e Marianne Ihlen – “Birds on a wire”

Para o dia de hoje decidi trazer-vos a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – Histórias de amor intemporais”. E o casal de quem vos venho falar hoje ilustra, como ninguém este título! Efetivamente, acredito que eles se tenham amado por toda a sua vida, ainda que a relação amorosa tenha terminado muito anos antes do desaparecimento terreno de ambos. Os protagonistas desta história viveram uma história de amor inesquecível, verdadeira, e que, ainda que de um modo diferente, perdurou ao longo da vida de ambos. Quero partilhar hoje com vocês a bonita história (porque feita de pessoas bonitas) de Leonard Cohen e de uma das suas musas, Marianne Ihlen.

Marianne Ihlen e Leonard Cohen

Leonard Cohen e Marianne conheceram-se na ilha de Hidra (Grécia) em 1960. O poeta tinha ouvido falar da existência, lá, de uma espécie de refúgio para artistas boémios e milionários, vindos de todos os cantos do mundo. Como tal, tinha decidido viajar até essa ilha, depois de ter alcançado o sucesso internacional com o lançamento do livro The Spice Box of Earth. Chegou acompanhado apenas pela sua guitarra, da sua famosa gabardine azul e da sua máquina de escrever, uma Olivetti verde. Contava, nessa altura, com 26 anos de idade. Marianne, tinha 25 e chegara a Hidra há três anos, acompanhada por Axel Jensen, um escritor norueguês com quem tinha casado e de quem tinha um filho. Contudo, à época em que Leonard e Marianne se cruzaram, na varanda da mercearia, já Marianne  tinha sido abandonada por Axel, que tinha fugido com outra mulher, deixando-a sozinha com um filho de seis meses nos braços.

Os olhares de ambos cruzaram-se, no supermercado, e ele convidou-a a sentar-se e a fazer-lhe companhia na esplanada. Marianne era, segundo as suas palavras, a mulher mais bonita do mundo. Pouco tempo depois já viviam juntos. Ambos foram muito felizes nestes tempos na ilha. Numa carta escrita por Cohen a um amigo ele dirá que “A maneira de viver de Marianne na casa é puro alimento. Todas as manhãs ela coloca uma gardénia na mesa de trabalho (…) Quando há comida na mesa, quando as velas são acesas, quando lavamos a louça juntos e colocamos o menino para dormir. Isto é ordem, é ordem espiritual e não existe outra”.

Como as férias não podiam durar eternamente, Cohen decidiu regressar para a sua Montreal natal e ajudou Marianne a regressar à sua terra, Oslo. Contudo, lá chegado, enviou-lhe um telegrama que dizia: “Tenho casa. Tudo o que me falta é a minha mulher e o seu filho. Love, Leonard”.  Marianne decidiu então seguir para junto de Leonard e continuar a viver a sua história de amor.

O amor e o relacionamento foram vividos entre o Canadá e os Estados Unidos da América (Nova Iorque). Construíram uma vida juntos que durou cerca de sete anos. Na companhia de Marianne, Cohen escreverá quatro livros de poemas e o romance “Belos Perdedores”. Marianne será também a musa que inspirou alguns dos temas inolvidáveis de Leonard C. Em 1967 ele lançou o seu primeiro disco, Songs of Leonard Cohen, onde incluiu o inolvidável “So Long, Marianne”. À época o casal já se tinha separado e a canção (que começou por ter o título de “Come on, Marianne”) pretendia ser, de acordo com algumas vozes, um pedido do artista para que a relação de sete anos, entretanto desfeita, voltasse ao que tinha sido.

We met when we were almost young
deep in the green lilac park.
You held on to me like I was a crucifix,
as we went kneeling through the dark.
Oh so long, Marianne, it’s time that we began …
Your letters they all say that you’re beside me now.
Then why do I feel alone?
I’m standing…

(Excerto de “So Long, Marianne”)

Alguns anos depois, Cohen lança o seu segundo disco, Songs from a room, (na contracapa do disco aparecerá uma fotografia de Marianne a escrever na Olivetti verde de Cohen) eonde o artista incluirá a canção Birds on a Wire, uma canção inspirada na história que ambos viveram na ilha de Hidra.

Ainda que  o relacionamento de ambos, durante aqueles sete anos, tenha sido interrompido algumas vezes – Cohen tinha dificuldade em ser um homem de uma mulher só – a verdade é que este foi um amor vivido de forma plena e que nunca foi esquecido por nenhum dos dois até ao último momento das suas vidas.

Cohen demonstrava, na sua forma poética de se expressar, que a história de amor com Marianne não estava esquecida e por isso lhe cantava “So long, Marianne” (Até breve, Marianne). Quanto a Marianne, esta reconheceu que dizer adeus a Cohen a tinha destruído por um tempo e chegou mesmo a admitir, numa entrevista, muitos anos mais tarde, que continuava a sonhar com Cohen.

Passadas mais de quatro décadas da separação, o cantor e Marianne continuavam a sentir-se próximos. De tal forma que, quando Leonard Cohen soube que Marianne Ihlen estava doente (sofria de leucemia) escreveu-lhe uma mensagem que poderá ser considerada a derradeira declaração de amor:

“Chegámos a um tempo em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que serei o próximo, dentro de pouco tempo. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a mão, talvez possas tocar na minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e sabedoria, mas não preciso de discorrer sobre isso porque já sabes de tudo perfeitamente. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, encontramo-nos no caminho”.

Jan Christian Mollestad (um cineasta norueguês) e amigo de Marianne foi  quem informou Leonard Cohen que Marianne estava internada com uma esperança de vida muito pequena. E terá sido ele, também, que leu a carta que Cohen enviou a Marianne, assim que tomou conhecimento dessa triste notícia.

O realizador escreveu depois a Cohen informando-o da morte de Marianne. A mensagem, publicada no Facebook do músico, dizia que ela ainda estava plenamente consciente quando ouviu as suas palavras. “Quando a lemos e voz alta, ela riu-se à gargalhada como só ela sabia fazer”, contou. “E levantou a mão quando lhe disse que estava mesmo perto dela, perto o suficiente para a tocar”. A mensagem referia ainda que “Durante a sua última hora, tomei a mão dela e cantarolei “Birds on a Wire” enquanto ela respirava muito ligeiramente. E quando deixámos o quarto, depois da sua alma ter voado pela janela em busca de novas aventuras, beijámos o seu rosto e sussurrámos as suas eternas palavras: “So long, Marianne”.

Marianne tinha 81 anos e morreu a 29 de julho de 2016. Cohen, como previra, morreu pouco tempo depois, a 7 de novembro do mesmo ano.

Leonard Cohen e Marianne Ihlen conheceram-se e apaixonaram-se na paradisíaca ilha grega de Hidra. Construíram uma vida em comum durante sete anos. A relação foi, de algum modo, breve e terminou. Mas o amor, esse, apenas a morte conseguiu pôr um fim.

Aqui chegados espero ter-vos inspirado o suficiente para que revisitem o fabuloso Leonard Cohen, nalgumas das suas inesquecíveis canções.

Da tristeza inscrita em papéis coloridos

Esta semana apeteceu-me voltar aos contos. A inspiração veio de uma canção que gosto muito, magistralmente interpretada: “Ne me jugez pas” de Camile Lelouche. Os contos são, habitualmente, textos mais longos, mas penso que vale a pena dispensar 5 minutos do dia para se deixarem levar pela história de Isabella e, depois, dispensar mais 2 ou 3 minutos para a comentar. Enjoy!

“…Vos regards sur moi, vous qui me jugez vite,“…os vossos olhares sobre mim, vocês que me julgam tão depressa,
Vous qui ne me connaissez pas,Vocês que não me conhecem
Même si, vous dites que oui  Ainda que vocês digam que sim
(…)(…)
Ne me jugez pas, c’est trop facile quand on n’sait pas

Não me julguem, é demasiado fácil quando não se sabe
C’est trop facile quand on n’vois pas

É demasiado fácil quando não se vê…”
Ne me jugez pas…”  Não me julguem
C

Camile Lelouche – “Ne me jugez pas”

Isabella contava mentalmente os segundos que passariam a minutos. De acordo com as suas contas não faltaria muito mais do que dois, três minutos para que aquele homem acabasse o serviço. Esses clientes que preferiam alimentar as suas necessidades num qualquer banco de carro ou até numa moita mais recôndita de um jardim eram bastante rápidos a chegar onde queriam chegar. Nem sempre fora assim mas agora Isabella preferia estes clientes que não procuravam qualquer motel barato, que apenas chegavam, faziam o que tinham a fazer na sua urgência, raramente olhando para ela, pagavam e seguiam para as suas vidas, os seus empregos, as suas famílias.

Isabella encontrava-se assim perdida nos seus pensamentos quando, ao longe, ouviu dois ou três suspiros mais profundos. “Ótimo, este já acabou – pensou ela – dia terminado! Tal como todos os outros que tinham passado algum tempo com o seu corpo, este também não a observou, não levantou os olhos para ver melhor a mulher que tinha à sua frente ou se dignou a um “obrigada” ou a um, quem sabe, “até à próxima”. Limitou-se a estender-lhe o dinheiro, em silêncio, esperando que ela saísse do carro sem demora.

Isabella assim fez. Não tinha qualquer intenção de se demorar naquele carro, de vender conversa fiada. Tinha mais que fazer. Queria ir para casa, tomar um banho, livrar-se do cheiro daqueles homens que a tinham procurado, esquecer-se por momentos que esta era a vida que levava há já tanto tempo…

Seguia lentamente a pé, procurando uma paragem de autocarro onde pudesse apanhar o autocarro que a levaria para casa, para o seu pequeno casulo que tanto venerava. Ponderou se deveria seguir a pé ou chamar um uber. Decidiu-se pela caminhada. Ela gostava de caminhar. Abriu a bolsa que trazia a tiracolo, tirou uns ténis e calçou-os ali mesmo, tentando, tanto quanto podia, equilibrar-se apenas num pé enquanto calçava os ténis. Depois de calçada, pegou nos auriculares, escolheu a banda sonora que a iria acompanhar até à próxima paragem de autocarro – a escolha recaiu em Caetano Veloso – e evadiu-se para o seu próprio mundo. Observava a cidade que desfilava sob os seus olhos, as pessoas que por ela passavam, mas sem, de facto, as observar. Na sua mente ela estava no seu país e ainda era uma miúda de 15 anos que passava os dias a ouvir Caetano Veloso e Elis Regina ao mesmo tempo que ouvia Bruce Springsteen, Rolling Stones e Bon Jovi. Nunca lhe passaria pela cabeça que iria relembrar esses tempos, marcados pela pobreza e por tantas carências afetivas como os tempos da felicidade. É verdade que a casa pouco lhe oferecia. Não lembrava nunca de ter vivido com o pai (nem com o dela nem com o pai dos outros dois irmãos) e muito menos se lembrava da mãe sem ela estar perdida no seu próprio mundo, envolta numa nuvem de tabaco com o cérebro toldado pelo álcool. Ainda assim…vivia perto da tia que era a única em toda a sua vida que lhe tinha oferecido algum carinho na infância e na adolescência e tinha aquilo que ela chamava “a sua turma” que contemplava grandes amizades que ainda hoje mantinha (ou se esforçava por manter, com algumas videochamadas esporádicas).  Que fosse pelas amizades que lá tinha cultivado, que fosse porque todos temos tendência a lembrar o passado com uma aura dourada à sua volta ou porque o seu presente era tão vazio de tudo, a verdade é que ela lembrava o seu país  e aqueles tempos como os bons momentos a que gostaria de regressar…um dia.

Isabella chegou, por fim, a uma paragem e aguardou que chegasse o autocarro que a poderia levar até perto de casa. Não gostava particularmente de voltar para casa usando esse meio de transporte, considerava que era sempre olhada de soslaio pelas pessoas que lá se encontravam e não raras vezes lhe tinha acontecido as pessoas se terem levantado depois de elas se ter sentado ao lado delas. Raios – pensava ela – não tenho doença nenhuma! Que gente cheia de preconceito! Não raras vezes pensava que, provavelmente, algum dos clientes que tinha tido naquele dia poderia ser o pai, o irmão, primo ou tio dessas pessoas preconceituosas que a olhavam com maus olhos…

Hoje, contudo, sentia-se exausta e não teria forças para caminhar. Táxi também estava fora de questão que o dinheiro estava escasso neste mês. Assim, lá subiu para o seu autocarro, quando o mesmo chegou e, tendo encontrado onde sentar, escolheu descansar corpo e mente, fechando os olhos na tentativa de se isolar daquelas pessoas, daqueles olhares e dos seus próprios pensamentos.

Chegou finalmente a casa (se é que aquele minúsculo quarto e cozinha se poderiam chamar de casa!) Contudo, era o seu canto, era o canto que conseguia pagar e era ali que podia esquecer, por momentos, a vida que levava e a pessoa em que se tornara. Tomou banho (tomava sempre banhos muito prolongados, tentando apagar o cheiro dos homens que tinha conhecido naquele dia), comeu qualquer coisa e sentou-se em frente à televisão com a firme decisão de ver uma qualquer série que lhe surgisse à frente até que adormecesse. Contudo, ainda não se tinha sentado há dez minutos, quando ouviu o som de uma videochamada a chegar. Era a sua tia. Compôs o melhor sorriso antes de atender:

– Minha tia, como estás? Que bom ver-te! Já sentia saudades!

Tentava sempre mostrar às pessoas que lhe ligavam (os amigos lá da terra e a tia) a melhor cara. Por maior que fosse a dor, o sofrimento com a vida que lhe tinha sido reservada aqui em Portugal, ela não deixava que essa tristeza passasse pela sua cara.

Falou por uns largos minutos com a tia. Que sim, que estava tudo bem, dizia ela à tia. Que estava mais magra e com um ar cansado porque o trabalho nas limpezas era muito exigente. Que não que não tinha conhecido mais ninguém depois de ter terminado a relação com  Adriano, o namorado lá da terra, mas que estava bem assim. Que assim que pudesse enviaria mais dinheiro à tia para a ajudar e aos seus irmãos mais novos. As conversas não passavam muito desse teor. A verdade é que não tinha muito para contar porque não queria que soubessem da vida que ela levava aqui em Portugal. Apenas lhes tinha dito que Adriano já não existia na sua vida e que, por enquanto, continuaria em Portugal.

Não lhes tinha contado, nem iria contar nunca, que a vinda para Portugal tinha sido tudo menos idílica. O pouco dinheiro que tinham juntado para emigrar para Portugal tinha sido gasto nas viagens e nas primeiras semanas em que ela procurou emprego. A verdade é que Adriano dizia que procurava emprego mas lembrava-se, dos tempos que viveram juntos, que o via mais na esplanada da esquina, a consumir cervejas com o pouco dinheiro que lhes restava do que, propriamente, a trabalhar. Tinha trabalhado uns dias como servente nas obras mas uma discussão com o seu chefe, que acabara em luta física, tinha terminado com essa possibilidade de emprego. Quanto a ela, ao fim de algum tempo, conseguiu um emprego em part-time a servir às mesas. Contudo, o salário era tão magro que rapidamente perceberam que seria impossível encontrarem um canto onde pudessem ficar. Tinham sido recebidos por uns amigos que tinham também eles vindo para Portugal uns anos antes e já tinham uma vida mais ou menos organizada mas a verdade é que a presença deles, na casa dos amigos, em pouco tempo se começou a tornar pesada. Saíram de lá num dia em que Adriano bebeu demais e discutiu com Cristiana e Jorge. Seguiram, então, para um quarto miserável, numa pensão ainda mais miserável. E até para pagar esse quarto o dinheiro não chegaria, se Adriano não encontrasse emprego e se Isabella não encontrasse um emprego melhor pago.

A solução mais fácil foi apresentada, num dia ao jantar pelo próprio do Adriano que tinha estado toda a tarde a beber na esplanada. Que ela era muito bonita, que todos os amigos dele diziam isso. Que poderia tirar proveito dessa beleza…Eles precisavam muito de dinheiro, mais uns dias e não teriam onde dormir. Que no fundo, era um dinheiro fácil de ganhar. Isabella sentiu-se mortificada com aquela proposta do seu próprio namorado. “Quem pensava ele que ela era? Como podia ele não se importar com a possibilidade da sua própria namorada vender o corpo a um outro?” As lágrimas caíram durante a noite toda. Adriano começou por explicar que não era caso para tanto, que tinha sido só uma ideia. A verdade é que eles praticamente não tinham dinheiro para comer, teriam de pagar em breve a pensão e também não tinham dinheiro…O que poderiam fazer? “Queres que roube, Isabella? Queres que arrisque passar o resto da minha vida na prisão?! E o que vais fazer nessa altura!? O mais certo será fazeres aquilo que te proponho agora! Mas eu, nessa altura, estarei a apodrecer numa prisão! É esse o amor que me tens?!”

Nos dias seguintes mal trocaram duas palavras. Isabella sentia-se completamente enganada pelo homem que pensava ter amado. Já Adriano optava por uma atitude de despeito, acusando-a da situação em que se encontravam.

Foi no dia em que lhes foi pedido para pagar o quarto que Isabella vendeu o corpo pela primeira vez. Não tinha qualquer outra possibilidade. Era isso ou dormir na rua. O “negócio” tinha sido arranjado pelo próprio Adriano com o dono do café que ele costumava frequentar. O ato foi consumado ali mesmo, numa dispensa que o café tinha. Isabella sentiu que uma parte dela tinha morrido naquele momento. Sentia-se suja e não conseguia parar de chorar. O ar de satisfação do namorado magoava mais do que tudo. Pensou, nessa mesma noite, que não viveria muito tempo nesta situação. Preferia morrer a tornar-se empregada de mesa, de dia, e prostituta de noite.

Os dias foram passando e os clientes continuaram a aparecer. Era sempre Adriano quem tratava desse assunto e era ele próprio que recebia o dinheiro. Isabella sentia-se cada dia mais miserável. No trabalho andava distraída, tinha dificuldade em adormecer o que a levava a andar, durante o dia, em piloto-automático, somava erros sobre erros e chegou o dia em que foi despedida. Foi nesse dia que decidiu que melhor faria em acabar com a vida. Como poderia ela manter esta vida? Sem este emprego o que mais lhe restava fazer? Prostituir-se o dia todo? Ela não aguentava sequer pensar nisso. Se depressa o pensou mais depressa o tentou. Pegou nos antidepressivos que lhe tinham sido receitados pelo médico, comprou uma garrafa de aguardente e, pegando nisso tudo, dirigiu-se até ao jardim que existia próximo do local onde trabalhava e, com toda a serenidade, engoliu os comprimidos com a ajuda da aguardente. Depois, com toda a calma, foi continuando a beber…enquanto conseguiu.

Não sabe de como sucedeu tudo o que se passou em seguida. Só sabe que acordou, tempos mais tarde, numa cama de hospital, a sentir-se péssima. Ao seu lado não estava ninguém. Claro! Quem poderiam ter avisado?! Ela não tinha ninguém. O namorado era só namorado e ainda que ele soubesse, provavelmente não a viria visitar.

Isabella passou 3 dias nos hospital. Assim que recuperou algumas forças, decidiram que tinha alta e que poderia voltar para casa. Casa? Ela lá tinha casa para onde voltar?!…

Foi nesse preciso momento que decidiu que não voltaria para a pensão e não voltaria para o Adriano. A vida longe dele poderia não ser boa mas com certeza seria melhor do que tendo-o como seu proxeneta. Foi assim que passou a correr no quarto da pensão que tinha sido dela e do Adriano, pegou nuns poucos pertences dela que colocou num saco, num pouco dinheiro que tinha escondido de Adriano e abandou aquele homem que nunca a tinha amado e que não valia nada.

Quando se viu na rua, com um saco nas mãos, sem saber para onde ir, pensou no que estava a fazer. Mas, num passo decidido, seguiu em frente. Hoje dormiria no local mais barato que encontrasse e amanhã iria procurar e encontrar trabalho. E iria ganhar dinheiro, poupar tudo o que pudesse para, um dia, voltar para o seu país natal. Portugal não tinha sido bom para ela. seria feliz no seu próprio país, junto da tia e dos amigos! O pensamento positivo tinha uma força enorme!

Gostaria de dizer que assim aconteceu na vida de Isabella. Gostaria de dizer que encontrou um emprego a tempo inteiro e que ganha um bom salário que lhe permite viver de uma forma mais desafogada. Mas tal não aconteceu. Isabella palmilhou a cidade de lés a lés à procura de um emprego. Em lado nenhum a aceitaram. Que agora não precisavam, que voltasse mais tarde, quem sabe?…

Isabella sentia-se mais sozinha que nunca. Não tinha familiares, não tinha amigos a quem pedir ajuda. A única saída desenhou-se-lhe com muita clareza. Pelo menos, pensou ela, todo o dinheiro seria para ela.

Isabella deixou de procurar emprego. Prostitui-se diariamente pelas ruas da cidade. Sabe que corre riscos mas não perspetiva outra saída. Guarda todo o dinheiro que pode com o objetivo de voltar para casa mas, agora, com algum dinheiro, como alguém que venceu em Portugal. Sabe que é vista com maus olhos por muitos que por ela passam na rua, pelas pessoas nos autocarros. Sabe que é observada com curiosidade e algum desdém pelos vizinhos. Mas nada disso a magoa. Criou uma capa de insensibilidade que veste todos os dias antes de sair à rua. É uma mulher fria e sem sentimentos. Nunca mais chorou na sua vida. Não tem amigos, não convive com ninguém, não conversa com ninguém, não sente necessidade de desabafar. Recusa-se a contar a verdade da sua vida aos que ficaram lá em casa, no seu país. Por isso, vai criando uma versão romanceada da sua vida aqui neste país que tantas amarguras lhe tem trazido. Apenas adquiriu um hábito: habituou-se a desabafar para o papel. Quando se sente mais triste e ferida escreve frases em pequenos papéis coloridos que, em seguida, amachuca.. No fim de colocar todas as dores e ressentimentos no papel, de os ter amachucado muito bem, pega naquelas pequenas bolas coloridas, coloca-as no bolso e sai de casa para caminhar. Dirige-se sempre para um jardim, junto ao rio. Aí senta-se e vai atirando, uma a uma, as bolas coloridas que contêm as suas dores e as suas mágoas, as recriminações dos outros e as tristezas do seu dia-a-dia. Sente que tudo o que está escrito naqueles papéis segue, por instantes, para longe dela e, por momentos, sente que volta a ser a jovem inocente e sonhadora que um dia saiu do seu país para vencer na vida em Portugal.

Isabella dirigiu-se hoje até ao rio. Ainda sente o olhar das pessoas do autocarro. Ainda se sente suja, apesar de já ter tomado banho e escovado bem cada milímetro do seu corpo. Os bilhetes que seguiram rio abaixo, esse diziam: Odeio “Os vossos olhares sobre mim, vocês que me julgam tão depressa/ Vocês que não me conhecem/Ainda que vocês digam que sim. (…) Não me julguem/ é demasiado fácil quando não se sabe/ é demasiado fácil quando não se vê…Não me julguem”…

Tudo isto foi escrito com a raiva de quem sente que é julgado por aqueles olhares de quem não a conhece, de quem não sabe a sua história, de quem prefere não pensar em todo o sofrimento. Isabella sente-se aliviada ao ver os pedacinhos coloridos seguirem rio abaixo. Deitou-se mais calma. Recita o seu mantra, que lhe dá forças dia após dia: “Não penses nisso. Amanhã é outro dia!”

E, como quase todas as noites, Isabella sonhou com o seu regresso ao país do seu coração, onde, finalmente, poderá ser feliz.

A criança que guardo em mim

Este exercício de memória foi realizado em especial para o Dia da Criança, respondendo ao desafio da Sandra Ramos e da sua página @Escrevinhar/ Sandra Ramos que propôs que se escrevesse um texto (crónica, poesia, o que fosse) subordinado ao tema “A Criança que Guardo em Mim”. A minha proposta foi a que se segue…

A criança que guardo em mim tem o dom de se deslumbrar com as coisas que a deixavam maravilhada na sua infância.

A criança que guardo em mim adora um dia de sol. E adora ainda mais os primeiros dias de sol, nos dias de primavera amenos, no campo, quando ela podia (e pode) rebolar na erva fresca, pintada de margaridas-menores, rindo por qualquer tonteira que me tenha passado pela cabeça.

A criança que guardo em mim continua a não gostar de dias de chuva. Mas ela, a criança, continua, isso sim, a gostar de saltar nas poças de água a pés juntos, apenas e só para ver a água “espirrar” para todo o lado e gosta, como sempre gostou, de andar à chuva, sem medo de se molhar, desde que em seguida lhe seja permitido tomar um bom banho quente!

A criança que guardo em mim continua a gostar de “perder” tempo em brincadeiras que há muito devia ter abandonado. Essa criança continua a olhar para as nuvens à procura de formas de objetos e animais e continua a criar pequenas histórias através dessas personagens; ela ainda gosta de brincar a fazer bolas de sabão apenas e só para observar as bolas coloridas a voar por aí, donas de mil cores, até explodirem num nada de vida.

A criança que guardo em mim continua a recitar velhas ladainhas e a realizar pequenas brincadeiras como cantar às joaninhas (que continuo a adorar) “Joaninha, voa, voa, que o teu pai está em Lisboa” ou a colher dentes-de-leão gritando antes de soprar sobre eles “o teu pai é careca?” explodindo numa gargalhada quando o dente-de-leão nos responde que o pai é mesmo careca.

A criança que guardo em mim continua a fazer amizade com todo o tipo de animais que com ela se cruzam na rua. Essa criança continua a ter longas conversas com eles, observando os seus olhares inteligentes e acreditando, plenamente, que se estão a entender na perfeição.

A criança que guardo em mim não perdeu o dom de ficar maravilhada com os pequenos mimos que nos permitimos de quando em vez: comer um gelado em fim de tarde, saborear um chocolate de olhos fechados enquanto nos evadimos para um pequeno mundo de sensações. A adulta, que tomou conta deste corpo, aprendeu a gostar de café e vinho mas a criança que guardo em mim ainda gosta de se deliciar com um cacau quente daqueles que nos deixam com uns bigodes que fazem rir os que estão à mesa.

A criança que guardo em mim, acorda em sobressalto, perante um saco de gomas que considera preciosas e que quer só para ela!

A criança que guardo em mim continua a realizar concertos em casa e no carro, cantando a plenos pulmões, dançando como se não houvesse amanhã pelos corredores da casa e a rir de si própria quando se vê ao espelho nestas figuras!

A criança que guardo em mim continua a sonhar, ainda que de uma forma diferente. Em criança sonhava com o dia “em que fosse grande”. Curiosamente, hoje, ela sonha muito com o que ficou para trás, lá naquele tempo da infância, nas pessoas que a povoaram e já não povoam o presente, nos cheiros que ficaram incondicionalmente ligados a esses tempos de meninice.

A criança que guardo em mim continua a acreditar que as pessoas são intrinsecamente boas e que, por isso, uma atitude positiva pode mudar o mundo. Essa criança acredita que o mundo é um lugar bom de se viver e que todas as pessoas são boas até prova em contrário. Por isso a criança que guardo em mim, e a adulta que sou, são felizes!

A criança que guardo em mim, é cheia de ingenuidade e tolerância para com o outro e, por isso, continua com um olhar, puro, de criança.

E sabem o que concluo no fim deste exercício de investigação pessoal?

Concluo que se a criança que guardo em mim, a criança que eu fui um dia, me viesse visitar, reconhecer-se-ia neste adulto a quem deu lugar. Não deixei que pelo caminho se perdesse a inocência e a capacidade de me maravilhar com coisas pequenas, não perdi a capacidade de brincar, nem  a capacidade de rir e, muito menos perdi, a capacidade de acreditar que amanhã será sempre um dia melhor. No fundo tornei-me uma adulta, guardando, como um tesouro, a criança que sempre habitou em mim.

Há sempre alguém que será a nossa fraqueza

Hoje proponho uma crónica sobre pessoas e o papel delas na nossa vida. Depois de a lerem, proponho que partilhem a vossa opinião e experiência comigo.

Seria impossível lembrar e contabilizar todas as pessoas que passam pela nossa vida. Ao longo dos nossos anos de vida são imensas as pessoas com quem nos cruzamos por instantes, por meses, por anos e até por uma vida. Dos amigos de infância aos amigos que vamos fazendo ao longo da vida, dos colegas de turma, que vão mudando ao longo dos anos, aos poucos colegas de faculdade que ficaram amigos para toda a vida, dos colegas de trabalho –  daqueles que mal lembramos o nome um ano depois de deixar de os ver – aos que se tornam amigos por uns tempos ou para uma vida inteira, das pessoas que foram importantes em determinado momento da vida aos que nunca foram esquecidos, a verdade é que, durante o nosso tempo por este planeta cruzamo-nos com um número infinito de pessoas.

Nesse número infinito, há pessoas mais importantes e menos importantes. Há os que entram na nossa vida, fazem parte dela por uns tempos e que depois, saem dela sem deixar grandes memórias nem recordações. São pessoas que vêm, observam e passam. Isso acontece não necessariamente porque houve algum tipo de zanga, ou porque a pessoa não tinha sentimentos positivos em relação à nossa pessoa, mas apenas porque a vida seguiu o seu rumo e os destinos que se tinham cruzado em dado momento, bifurcaram para outros destinos, diferentes daquele que os tinha juntado. Costumo dizer que isto é a vida a ser vida. Ao decorrer normalmente, vamos adquirindo pessoas para o nosso caminho e abandonando outras sem que para isso haja alguma razão mais clara.

Existem, depois, aquelas pessoas que entraram na nossa vida e que nunca mais dela saíram. Costumo chamar a essas pessoas “as nossas pessoas”. São os amigos com quem sabemos que podemos contar e que, acreditamos piamente, serão velhinhos e ainda serão amigos. Serão também, pelo menos falo do meu caso, a nossa família mais próxima: pais, irmãos, sobrinhos. Aqueles que costumamos apelidar de “o nosso sangue”.

E depois, no meio de toda esta multidão, de gente que vem e vai, de gente que vem e fica, de gente que sempre esteve, alguns têm a sorte de encontrar A Pessoa. Uma pessoa que, independentemente da hora em que entra na nossa vida, sabemos que ficará para sempre ligada a nós. Aquela pessoa que surge do nada e que, de um momento para o outro, nos vira a vida do avesso e nos desafia a viver uma vida a 100%. Uma pessoa tão diferente que marca um ponto de viragem na nossa vida. A partir daí haverá um “antes dela” e um “depois dela”, porque ela nos faz profundamente felizes. É aquela pessoa por quem nos sentimos ligados por um fio invisível, independentemente de ela se manter ou não na nossa vida.

Essa será a “nossa pessoa especial”!

Nos casos mais felizes, essa pessoa mantém-se na nossa vida. Será a pessoa que amaremos e com quem iremos criar uma vida, a partir daquele momento, em conjunto. Falo desses casais raros que observamos felizes ao longo dos tempos, que enfrentam juntos as tempestades e em que todos têm certeza que foram feitos um para o outro.

Noutros casos, essa pessoa, ainda que se tenha quase certeza que poderá ser a “nossa pessoa especial”, acabará por sair da nossa vida.

 Há que ter em atenção esta ideia: o ser a “nossa pessoa especial” não significa que ela ficará para sempre na nossa vida. Nem sempre a pessoa especial chega até nós no corpo ou nas circunstâncias de vida certas. E, por isso, ainda que nos encontremos momentaneamente, ainda que um faça feliz o outro por uns tempos, poderemos acabar, pelas mais variadas razões, por nos desencontrar e por seguir caminhos e destinos separados.

Contudo, ainda que aconteça essa separação, a ligação existente entre as pessoas especiais, entre as suas almas, não se quebrará. Podem não ser ver durantes meses ou anos mas a conexão entre ambos manter-se-á. No dia em que se cruzarem sentirão aquele calorzinho no coração que os fará lembrar que, em determinado momento, foram muito importantes na vida um do outro e que entre eles se criou uma ligação inquebrável. Uma energia, quase palpável, surgirá sempre que estas duas pessoas se cruzarem. Dir-se-ia que se manteve naquelas almas uma espécie de fogo-fátuo, uma energia latente que espera o momento certo para voltar à superfície, para voltar ele mesmo numa chama incandescente. Contudo, tal poderá nunca acontecer e ambos continuarão vivendo e calcorreando trilhos que não se cruzam.

 É um facto que muitos destes seres aparentemente feitos um para o outro poderão nunca mais se cruzar e/ ou entender. Mas o certo é que, ainda que nunca mais se venham a reunir, entre elas existirá para sempre uma gratidão eterna pelos momentos que a outra lhe proporcionou, a crença que existe entre eles uma ligação muito especial e a convicção inabalável que  um é e será sempre a fraqueza do outro. E se isto, por um lado, pode parecer-nos muito bonito, por outro não deixa de ter nuances de uma maldição da qual nos quereríamos livrar sem segundos pensamentos.

E vocês têm/ tiveram uma pessoa especial na vossa vida?

Virgínia Hall – Uma espia na IIª Guerra Mundial

Nem todos os textos que aqui vos trago me “roubam” o mesmo tempo a escrevê-lo e me dão o mesmo trabalho. Uma crónica é, habitualmente, escrita num sopro. Ando uns tempos a cozinhar as ideias e, quando as passo “para o papel”, faço-o num quase piscar de olhos. A rubrica “Vidas – entre a ficção e a realidade” também contém textos escritos de um modo relativamente rápido. Como todas as personagens são verdadeiras ou inspiradas em pessoas verdadeiras, basta-me o tempo de pensar sobre elas e escrever. Já os contos, pela sua extensão, são os que me levam mais tempo a escrevê-los e a pensá-los. Mais longos, mais pormenorizados, são, de facto, laboriosos e difíceis. E depois há aquelas duas rubricas: Elas, as que fizeram a diferença e “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimeraishistórias de amor intemporais” que me levam muito tempo não a escrever mas a investigar sobre as pessoas de quem vou falar. É este o processo mais longo: consultar várias fontes, criar uma imagem mais pormenorizada daqueles seres que escolhi para vos falar deles. A escrita, essa, acontece num ápice. Depois do muito tempo dispensado à leitura e à investigação, sinto que já conheço o protagonista da história que vos vou contar, já conheço bem a sua história e características e já quase o sinto como um amigo meu. Como tal, falar e escrever sobre eles torna-se muito fácil.

É o caso do texto que escrevi para vos trazer hoje. Conhecia, de uma forma muito geral, a “Ela” de quem vamos falar. Sabia que tinha sido uma mulher excecional (e por isso escolhi falar dela) mas não conhecia muitos pormenores da sua vida. À medida que ia lendo sobre ela ia ficando cada vez mais entusiasmada com a minha escolha.

A “ela” que hoje vos trago foi uma mulher fantástica e, como acontece com tantas mulheres ao longo da história, tem um nome que não é tão recordado como deveria ser. Ela foi “Marie Monin”, foi “Germaine” e foi “Diane”, foi ainda “Marie de Lyon”, “Camille” e até “Nicolas” (citando apenas alguns dos seus pseudónimos). Para os alemães ela foi “Artemis”. Contudo, o seu nome verdadeiro era, simplesmente, Virgínia Hall, aquela que foi considerada uma das maiores espias americanas e uma das mulheres mais temidas pela Gestapo.

Virgínia nasceu em 1906, em Baltimore. Vinda do seio de uma família abastada, estudou na prestigiada Universidade de Colúmbia, tendo cursado alemão, francês e italiano. Sonhava em tornar-se diplomata. Terminou os seus estudos na Europa, tendo passado pela Alemanha, França e Áustria e encontrou um emprego que a poderia aproximar do que ela queria ser profissionalmente, uma vez que trabalhou como auxiliar na embaixada dos Estados Unidos em Varsóvia, Polónia.

Apesar dos seus esforços, e de se mostrar extremamente competente, conquistar o seu sonho de se tornar diplomata era algo que dificilmente poderia acontecer, uma vez que era mulher e a diplomacia era vista como uma carreira “de e para homens”. Ao facto de ser mulher juntou-se um acidente que viria a encerrar qualquer possibilidade para ela de trabalhar para o serviço diplomático. Em 1933, enquanto caçava na Turquia, sofreu um acidente que a levou a ter de amputar a perna esquerda abaixo do joelho. A perna foi substituída por uma prótese de madeira, que assim possibilitou a Virgínia voltar a andar.

Depois da sua recuperação, tentou novamente encontrar uma posição de diplomata mas terá sido informada que o Departamento de Estado norte-americano não a poderia contratar não só por ser mulher mas também por coxear.

No ano em que a IIª Guerra Mundial foi declarada, Virgínia encontrava-se em Paris. Foi aí que se juntou ao serviço de ambulâncias e resgate, ajudando deste modo os Aliados. Contudo, quando a França foi ocupada pelas forças alemãs, correndo risco de vida, Virgínia mudou-se para Londres. Na época, o governo britânico criou a Special Operations Executive – SOE, uma organização ultrassecreta de espionagem para combate dos nazis. Na sua origem, a organização tinha sido criada para ser exclusiva para homens. Contudo, o recrutamento de voluntários era difícil, tendo em conta o perigo que a profissão oferecia. Ainda assim, houve uma pessoa já nossa conhecida que se voluntariou: Virgínia Hall. Tendo em conta a dificuldade em encontrar pessoas que aceitassem aquela posição de risco, aceitaram a candidatura de Hall. Depois de receber treino das forças armadas foi transferida para França, Vichy, em 1941. Vichy era ainda, nesse ano, uma zona livre que se encontrava sob o regime colaboracionista francês. Mudou o seu nome e apresentou-se como uma repórter do New York Post. Foi a primeira mulher aliada a ser enviada para trás das linhas inimigas. Nos quinze meses que se seguiram ajudou e colaborou com a Resistência francesa para além de ter servido como correspondente de guerra para o New York Post.

O facto é que Hall serviu os Aliados muito para além do que era esperado. Durante anos – primeiramente a serviço do governo britânico – na SOE – e depois do governo dos Estados Unidos, na OSS (o Escritório de Serviços Estratégicos, um serviço de inteligência nos EUA, durante a guerra, que dará lugar, mais tarde, à CIA) organizou, apoiou e comandou unidades de resistência criando uma vasta rede de espiões e organizando a chegada de armas; ajudou a libertar prisioneiros; mapeou zonas para pouso de suprimentos, encontrando locais seguros; recrutou homens e mulheres para operar abrigos secretos; ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa em táticas de guerrilha contra os alemães; serviu de informadora e correspondente para as tropas aliadas. Virgínia H. era um elemento central da Resistência e tornou-se lendária pelos seus feitos. A sua determinação e o seu talento foram percebidos por todos os agentes que ficavam sempre impressionados com a coragem que apresentava. Ficou conhecida como sendo uma das mais eficazes e audaciosas agentes secretas durante a Segunda Guerra Mundial. Estava sempre um passo à frente da Gestapo que queria desesperadamente capturar “a dama que manca”. Numa das ordens dadas para a sua captura a Gestapo classifica Hall como “a mais perigosa ente os espiões dos Aliados. Temos de a encontrar e destrui-la”.

Nota:  Os nazis nunca conseguiram capturá-la!

Em 1945, logo após o fim da guerra, V. Hall foi a única mulher a atuar como civil a receber a Cruz de Serviço Distinto, condecoração pelo “heroísmo extraordinário” demonstrado contra o inimigo. Recebeu, ainda, condecorações militares dos governos francês e britânico.

Em 1950 Virgínia casou com o ex-agente da OSS, Paul Gaillot e em 1951 ingressará na CIA, trabalhando como analista de inteligência para assuntos parlamentares franceses. Aposentou-se em 1966, passando os anos da sua reforma numa fazenda, em Maryland. Faleceu em 1982, com 76 anos.

Virgínia Hall, “a dama que manca” foi uma mulher diferente, corajosa, destemida, um exemplo de heroísmo. Foi uma mulher muito à frente no seu tempo, enfrentou uma sociedade machista, o preconceito contra as mulheres e contra a diferença física e enfrentou o maior desafio de todos: uma guerra mundial. Soube brilhar e destacar-se num mundo de homens e, por fim, viu o seu trabalho reconhecido, ao ser condecorada. Ainda assim, a  história tratou-a como alguém sem importância, durante muito tempo. Só agora se começa a relembrar a extraordinária história de vida desta fabulosa mulher.

Para quem ficou interessado em saber mais sobre esta destemida Virgínia Hall posso informar que foi publicado, há muito pouco tempo, o livro de Sonia Purnell intitulado “Uma mulher sem importância”, que aborda, de um modo minucioso, a biografia de “A dama que manca”. Posso assegurar que está na minha lista de “livros a adquirir”.