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Niksen, a arte de fazer nada

Esta será a última crónica antes de o blog ir de férias durante o mês de agosto. Por isso, o tema que vos proponho hoje é o Niksen, a arte de fazer nada.

A crónica em questão foi também publicada no P3 do Público (a colaboração com o P3 já antiga mas tem estado mais em pausa).

Link para a crónica no P3: https://www.publico.pt/2019/08/03/p3/cronica/niksen-a-arte-de-nao-fazer-nada-1881564

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Foto by Milan Popovic on Unsplash

Estamos no final do mês de julho…está aí à porta o mês de agosto, mês de férias por excelência. É um facto que este ano parece que muitos foram os que escolheram usufruir do período de férias nos meses de junho e julho mas acredito que ainda são muitos os portugueses que, tal como eu, apenas podem usufruir das férias durante o mês de agosto. O certo é que o verão é, mais cedo ou mais tarde, aquele período em que a maior parte de nós goza de um período de férias mais ou menos longo que nos permite retemperar forças para mais um ano de trabalho que surgirá, mais coisa menos coisa, pelos inícios de setembro.

São estes os meses (julho e agosto) em que decidimos que iremos fazer tudo aquilo para o qual não tivemos tempo durante todo aquele interminável ano: ler, atualizar filmes e séries que se encontram pendentes há tantos meses, levantar cedo e praticar aquela corridinha ou aquela voltinha de bicicleta para as quais já não nos sentíamos com força nos últimos tempos e passear, claro! Iremos, como é suposto num país em que o verão é tão soalheiro e quente, passar dias nas praias e nas piscinas. E, tal como todos os anos, iremos chegar ao final das férias a sentirmo-nos mais cansados do que estávamos no início das mesmas e a pensar –  só para nós mesmos porque não temos coragem de o admitir aos outros – que precisamos de férias das próprias férias. A verdade é que acabamos por ter ainda mais atividade durante os dias de férias do que durante os longos meses de trabalho. Não recuperamos fisicamente até porque não se podem recuperar 11 meses de desgaste físico e/ ou mental em pouco mais de três semanas (na melhor das hipóteses) e porque, sobretudo, não nos permitimos parar um pouco e, efetivamente, nada fazer.

Deste modo, e tal como em todos os outros anos, iremos pensar que necessitamos mudar de vida e que setembro vai ser, mais uma vez, o mês das decisões (à semelhança do que acontece com o primeiro dia do ano). Iremos aprender a levar a nossa vida com mais calma, a não nos deixarmos levar pelo stress, aprender a controlar a ansiedade, aprender a dormir com qualidade e as horas que é suposto, viver ao máximo cada momento, cuidar mais da nossa saúde física e mental, praticar mais exercício, conseguir encontrar tempo para nós próprios e para o nosso bem-estar e, claro, focar-nos em reforçar e melhorar os nossos níveis de motivação ou até a nossa autoestima. No fundo, iremos ser mais felizes.

E tal não será difícil uma vez que, nunca como agora, existiram as ferramentas para nos ajudar a alcançar todos estes propósitos. Por um lado, proliferam como cogumelos os livros de autoajuda nas livrarias. Por outro, e com um smartphone sempre ao nosso alcance, estão também à nossa disposição as suas apps de saúde, fitness, promoção de resiliência e de bem-estar. As escolhas são muitas e variadas e os preços também. Contudo, a questão que se me coloca é: “necessitaremos mesmo de todas essas “apps” e destes livros de autoajuda?”

Parece-me que não. Aquilo que, quanto a mim, necessitamos é de parar, estar quietos e respirar profundamente, sem pensar nem fazer nada. No fundo, o que estou a defender é que todos precisamos de pôr em prática a tendência holandesa a que deram o nome de Niksen. E o que é isso do Niksen?

Poderia resumir numa só frase o que se entende por Niksen: é a capacidade de não fazer nada e ser feliz. E quando digo nada, é nada mesmo. É não ter qualquer objetivo a ser atingido naquele momento. Praticar o niksen é ter a capacidade de desligar completamente do mundo que nos rodeia e até de nós próprios. Quando escolhemos ter um tempo para nós a verdade é que aproveitamos para ler, para ver televisão ou até mesmo para trabalhar no nosso desenvolvimento pessoal. Para os praticantes de niksen, até esse aspeto é retirado para apenas se trabalhar no aspeto de não fazer nada.

Dito assim, com essa simplicidade, torna-se quase risível. Todos temos uma pequena voz neste momento a dizer-nos: “é para não fazer nada?! Nisso eu sou bom! Vamos lá!”.

Mas a verdade é que num mundo que gira tão depressa e em que estamos sempre ligados, será assim tão fácil desligarmos? Provavelmente não! E é por isso que praticar o niksen é algo que tem de ser aprendido. Sugere-se iniciar esta prática por 10 ou 15 minutos diários, alargando esses minutos até aos 60 minutos quando tal for confortável para o praticante. E o que se fará durante esses minutos? Reforço, uma vez mais: nada! A ideia é apenas estar sentado e observar, a uma janela (por exemplo) o mundo. Sentar-se afastado de tudo o que seja computador, smartphone, televisão. Fazer-se acompanhar de alguma bebida que nos seja agradável e limitarmo-nos a estar, observar. Dar um passeio também poderá considerar-se praticar o niksen. Mas, volto a repetir, longe de qualquer objeto tecnológico. Passear só porque sim e não numa caminhada onde estaremos a contar os passos, o tempo em que caminhámos, as calorias que queimámos. Apenas caminhar, observando o que nos rodeia, limitando-nos a praticar o ato mecânico de caminhar.

Dizem os praticantes de niksen que tal atividade (ou seria melhor dizer, inatividade?) permite reduzir a ansiedade e o stress, ao mesmo tempo que fortalece o sistema imunitário. É referido que este “sonhar acordado” (efeito inevitável destes momentos de não fazer nada) poderá aumentar a criatividade dos seus praticantes, ajudar a encontrar soluções para vários problemas, tornando as pessoas mais decididas e com raciocínio mais rápido.

É certo que nos últimos anos foram várias as “modas” que foram aparecendo neste sentido de melhorar a nossa qualidade de vida, permitindo-nos atingir o bem-estar e a almejada felicidade. Tivemos o hygge, o segredo dinamarquês para atingir a felicidade, e o Lagom dos suecos. Contudo, a palavra de ordem hoje é o niksen. E é esta a minha proposta: comecem a praticar o niksen desde já nas vossas férias, preparando o vosso regresso ao trabalho, e iniciem a uma nova forma de estar na vida pessoal e profissional menos ansiosa, com mais bem-estar e mais feliz!

Um amor acidentado

Com julho já quase a terminar, chega a vez do “Conto do mês” aqui na Steff’s World – a Soma dos Dias. Como estamos já em ambiente de férias (ou quase) escolhi trazer-vos um conto ligeiro, recheado de bons sentimentos.

Como sempre, o conto foi escrito tendo em conta versos de uma música. Desta vez, os versos foram retirados de “O Calhambeque” de Roberto Carlos, na proposta de uma das leitoras mais assíduas do blog, a querida Vitalina Espada. (Espero que goste, Vitalina)!

Parem a “vida” um pouco e gastem uns minutos a ler o conto deste mês!

Enjoy!!!

Tempo de leitura: 12 minutos

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Foto de Marc A. Sporys on Unsplash

“Mandei meu Cadillac pro mecânico outro dia
Pois há muito tempo um conserto ela pedia
E como vou viver sem um carango pra correr
(…)

Com muita paciência o rapaz me ofereceu
Um carro todo velho que por lá apareceu
Enquanto o Cadillac consertava eu usava
O Calhambeque

(…)

Saí da oficina um pouquinho desolado
Confesso que estava até um pouco envergonhado…”

                                                           “O Calhambeque” – Roberto Carlos

Miguel, meu querido, está na hora de ires deitar. Aliás, passa largamente da hora, portanto, dá um beijo ao teu avô e vamos lá vestir pijama, lavar dentes e deitar. Sem mais conversas!

– Ó ‘vó! Ainda é tão cedo! Lá em casa nunca me deito a esta hora! A mãe deixa sempre deitar um pouco mais tarde. ‘Vô, diz à avó que são 22.30! É muito, mas muito cedo mesmo!

Miguel, à semelhança de todos os verões que se lembrava de ter vivido, passava a maior parte dos três meses de férias do verão, na casa dos avós. Era uma situação que agradava a todos. A mãe, que tinha de trabalhar a maior parte destes três meses, sabia que o filho estava bem tratado e, mais do que isso, tinha a oportunidade de passar as férias da sua vida. Podia contar com os pais (e só com eles) para tratarem do seu filho tão bem ou melhor que ela. Desde que se tinha divorciado que o pai de Miguel se tinha demitido das suas funções de progenitor e os avós paternos, ainda que telefonassem várias vezes ao Miguel, nunca o tinham convidado para a sua casa e nunca se tinham oferecido para ficar com ele. Assim sendo, restava a Elisabete o apoio dos seus próprios pais ou inscrever o filho num qualquer campo de férias. Contudo Miguel escolhia sempre ir para casa dos avós. Para ele o verão valia por todo um ano de trabalhos e deveres. Os pais de Elisabete viviam no campo e isso proporcionava a Miguel toda uma série de atividades que o divertiam e entretinham. A criança passava aqueles dias a levantar cedo, a regar as hortas com o avô, a tratar dos coelhos, galinhas e cabras, entre outras atividades que todos os dias os avós desenvolviam. Para além disso, os avós tinham um burro – o Isaías – que fazia as delícias de Miguel: passeavam com ele até os campos e “agriculturavam” alguma coisa pela manhã enquanto Isaías pastava. Durante a tarde, quando o calor era demasiado intenso para se andar na rua, o avô dormia uma sesta enquanto o Miguel e a avó passavam o seu tempo, lendo, tomando banho de piscina ou realizando alguma “experiência” culinária: bolos e doces eram sempre os que mais interessavam ao Miguel. Estes meses passados com os avós eram de uma riqueza enorme para Miguel. A verdade é que ele não se identificava com a cidade e muito menos com as brincadeiras da cidade. É claro que tinha amigos lá em casa, mas as brincadeiras passavam, a maior parte das vezes, por um qualquer jogo de computador e ele preferia, de longe, esse contacto com a natureza, essa liberdade que lhe era negada na cidade. Portanto, estes três meses de liberdade eram os melhores tempos do ano para Miguel. É claro que para os pais de Elisabete – Maria e Joaquim – ter o neto perto deles durante tanto tempo era uma dádiva dos céus. Apenas tinham aquela filha e aquele neto e tê-los por perto era a alegria daquele velho casal. Assim, não só passavam tempo de qualidade com o neto como viam mais vezes a sua própria filha, uma vez que Elisabete vinha ver o filho todos os fins-de-semana. Sem dúvida que o verão era, para eles, o tempo de viver em pleno: assim acontecia com a natureza e assim acontecia com eles.

Miguel adorava estar com os avós. As únicas birras aconteciam à hora de deitar. Os avós deitavam muito cedo. E o próprio Miguel, por ser ainda uma criança muito nova, precisava de umas boas horas de sono para recuperar de toda a atividade diária. Contudo, a verdade é que ele nunca tinha sono: queria sempre ficar a ver mais um desenho-animado, ou ficar a brincar com o cão Rex ou simplesmente ficar no alpendre a observar a noite e as estrelas…

Vamos, Miguel – disse Maria – tens mesmo de ir deitar. Amanhã tens de levantar cedo se quiseres ir com o avô e com o Isaías à feira!

– Ok, vó Maria. Mas então contas-me uma história para eu adormecer?

– Conto sim, meu amor. Vamos então?!

Miguel levantou-se, dando a mão à avó. Quando iam a caminho do quarto, Maria mandou-o vestir o pijama e tratar da sua higiene enquanto ela ia buscar uma caneca de leite para o ajudar a adormecer.

Quando já estava instalado na sua cama a avó começou então a contar uma história para ajudar Miguel a adormecer:

– “Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Certo dia…”.

– Avó! Não quero que me contes essa! Não me apetece ouvir essa! Quero a do calhambeque! Quero ouvir a TUA história!”

– Outra vez? Mas eu contei-te essa ainda a semana passada!

– Mas eu quero ouvir essa! Essa é bonita! E faz-me rir!

– Certo – disse a avó – sabes, Miguel, tudo começou há mais de 40 anos. Estava um dia de trovoada, daqueles que acontecem uma vez no ano. Chovia tanto que se diz que naquele dia praticamente caiu a água que deveria ter caído num mês inteiro. O teu bisavô, o meu pai, tinha discutido comigo logo ao pequeno-almoço. O dia estava de temporal e, segundo ele, eu não deveria levar o carro para o trabalho. Era muito perigoso. Ele próprio me levaria, dizia ele, ao serviço e me iria buscar, no fim da tarde. O teu bisavô sempre achou que conduzir não era uma atividade própria de uma mulher, porque achava que todas conduzíamos mal e éramos um perigo na estrada. Tinha sido uma luta enorme para eu comprar o meu carrinho. O meu pai achava que, já que trabalhava, devia poupar o meu dinheiro para quando um dia casasse poder participar na compra de uma casa e para ter a minha própria independência. Era totalmente contra a compra de um carro uma vez que eu podia ir para o trabalho de autocarro. Contudo, Miguel, esta tua avó era muito teimosa! Para começar, eu nem sabia se queria casar (ainda que nem me atrevesse a contar isto ao meu pai) e depois eu queria mesmo era a minha independência, não estar presa a horários de autocarros e aos seus percursos. Queria poder ir onde muito bem me apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Por isso, assim que consegui poupar algum dinheiro lá fui eu comprar o meu primeiro carro. É claro que houve discussão em casa, que tinha umas ideias demasiado modernas para os gostos do meu pai mas a minha mãe lá o conseguiu acalmar e, no fim, o meu pai acabou por aceitar o meu famoso “Lindocar” como eu o chamava. Era um Fiat 127, branco e eu achava-o o carro mais bonito que andava na estrada. Era todo o meu orgulho. É claro que, por isso, não perdia uma oportunidade de o conduzir. Não seria um miserável dia de chuva, um dia em que parecia que S. Pedro tinha estacionado todas as nuvens deste mundo por cima de Portugal, que me iria impedir de conduzir o meu fabuloso Lindocar. Sabes, Miguel, ainda hoje tenho saudades desse carro.

– E então, avó, sempre saíste nesse dia com o carro? Mesmo sem o teu pai querer?

– Sabes, Miguel, eu era um pouquinho afoita. Muito decidida e de ideias fixas. Tinha dito que ia trabalhar e levaria o carro e não havia volta a dar. Por isso, se bem o disse, melhor o fiz. Vesti a gabardina, abri um chapéu-de-chuva e lá fui eu a correr até o meu Lindocar, tentando não me molhar muito, até entrar no carro. E lá ia eu, na minha calma, a caminho do trabalho, quando sinto atrás de mim um carro a aproximar-se a uma velocidade estonteante mas meio aos solavancos, numa condução completamente tresloucada, sobretudo para um dia de chuva como aquele.

– Eu não acredito que estás a contar outra vez esta história ao miúdo! Ainda não reparaste, Miguel, que sempre que a tua avó conta esta história ela inventa mais algum pormenor? Conta sempre um chorrilho de mentiras sobre mim, é o que te digo!

– Então conta tu o resto, avô. Senta-te aqui connosco e conta-me tu o resto da vossa história!!

Joaquim não se fez rogado, até porque começava a sentir-se muito só naquele alpendre enquanto se conversava tanto naquele quarto. Então começou o avô a contar:

O teu avô, Miguel, ainda hoje é um apaixonado por carros. Quando era mais novo, então, procurava sempre ter carros novos, último modelo. Tenho de assumir que o meu pai me ajudava nesse meu gosto. Achava que “o filho do dono da fábrica” devia andar num carro que dignificasse a imagem da família pelo que nessa altura eu andava a conduzir um Cadillac Seville preto, magnífico. Quando andava na estrada sentia que toda a estrada era minha, que ninguém tinha um carro tão veloz como o meu, que ninguém tinha um carro tão seguro como o meu. E o meu grande problema era mesmo esse excesso de confiança…de quando em vez, lá ia um risco, uma pequena amolgadela, … Eu ia escondendo isso do meu pai tanto quanto podia, na esperança de o poder mandar arranjar, logo que possível. Ora a hipótese surgiu quando o meu pai me informou que se iria deslocar aos Estados Unidos para fechar um negócio. Não estaria pelo país nos próximos 15 dias pelo que pedia ao filho – ou seja, a mim – para estar atento à fábrica e ao seu funcionamento. E foi nessa altura que aproveitei para mandar «o meu Cadillac pro mecânico…/ pois há muito tempo um conserto ele pedia». É claro, Miguel, que eu me questionava: «como vou viver sem um carango pra correr, sem o Meu Cadillac?». Como iria eu trabalhar, tomar conta da fábrica? E foi aí que «com muita paciência o rapaz me ofereceu/ Um carro todo velho que por lá apareceu». Miguel, era a velha Renault 4 L que ainda está ali na garagem. Já nessa altura ela era velha e estava bem mais maltratada do que está agora. Um verdadeiro calhambeque vergonhoso. O certo é que enquanto «o Cadillac consertava eu usava/ o Calhambeque». Nessa época, Miguel, eu assumo que era um jovem um pouco arrogante, convencido que tinha o mundo a meus pés. Modéstia à parte, era jovem, bem-parecido, conduzia um bom carro…a verdade é que as meninas faziam fila à minha porta!…

Maria pigarreou ligeiramente como que dando a entender que não seria tanto assim. Miguel soltou um pequeno riso.

Assumo que «saí da oficina um pouquinho desolado./ Confesso que estava até um pouco envergonhado» com aquela carripana. Ainda por cima, o raio do calhambeque andava só aos solavancos, ora acelerava, ora travava…parecia que tinha vida própria. Para mais num dia que parecia que o céu nos haveria de cair em cima com tanta chuva!

Maria voltou a tomar a palavra: – Já estás a prever o que aconteceu, não já, Miguel? O teu avô nunca foi um grande condutor como ele tanto gosta de se gabar. Ia eu com todos os meus cuidados na estrada, tentando fugir às poças de água quando aquela velha e feia Renault abalroou o meu rico Lindocar. Senti um empurrão enorme e por instantes nem consegui perceber o que tinha acontecido. Travei e encostei. Continuava a chover torrencialmente. Nem queria acreditar no que tinha acontecido! Aquele louco que vinha atrás de mim a conduzir uma velha Renault 4 tinha acabado de bater no meu rico Fiat 127. Tinha-me amolado toda a parte de trás do carro. Fiquei furiosa. O teu avô (jovem que eu não conhecia) saiu do carro com o ar mais pesaroso do mundo, já a pedir desculpas, que não conhecia o carro, que aquela Renault parecia ter o demónio dentro dela, que pagava os estragos… Mas eu estava tão zangada, Miguel! Olhava para o meu carro e sentia fúria ao mesmo tempo que sentia tristeza. Pensava na cara do meu pai quando chegasse a casa com o carro todo amassado. Para dizer a verdade, mal conseguia ouvir o que dizia o jovem rapaz ao meu lado.

– Já eu – disse Joaquim – não estava muito preocupado com os estragos. Nem lembro do estado em que ficou a 4L com essa batida. Apenas lembro de pensar que devia ter furado algo de importante uma vez que, mesmo debaixo daquela chuva, se via algum fumo e uma poça de óleo a formar-se por baixo dela. Mas a verdade é que todo eu era olhos para a tua avó, Miguel. Ela era, apenas e só, a mulher mais bonita que eu tinha visto. Pedi-lhe para entrarmos no carro dela para conversarmos, para eu lhe deixar o meu cartão. Assegurei-lhe que pagaria os estragos, que não tinha com que se preocupar. A tua avó tinha os olhos de um brilho quase metálico. Mais tarde percebi que ficam assim quando ela está muito zangada. Pensei que me ia espancar quando lhe pedi se me dava boleia até à fábrica!

– «O senhor deve achar que ainda não me prejudicou o suficiente? Bateu no meu carro, estou aqui a queimar tempo precioso, já devia estar a trabalhar e ainda me pede para o levar ao seu próprio trabalho? O senhor não tem noção alguma de coisa nenhuma, certo?» – foi essa a resposta da tua avó, Miguel. Mas quanto mais zangada ela ficava comigo mais eu ficava interessado nela. Para além da beleza estonteante, sentia-se um fogo na tua avó, uma força, uma firmeza de caráter que me faziam pensar que nunca tinha conhecido uma mulher tão interessante. Fiz o meu melhor sorriso, pedi desculpa, dei-lhe toda a razão e então pedi-lhe que me levasse, pelo menos, ao seu local de trabalho. Aí poderia pedir um táxi para seguir até à fábrica. Assim não a atrasaria mais e eu poderia tentar resolver toda aquela trapalhada.   

A tua avó acedeu. Aquela viagem até ao trabalho da minha Mariazinha passou a grande velocidade. Senti que tinha conhecido a mulher da minha vida. Posso dizer-te, Miguel, que existe amor à primeira vista porque foi exatamente o que aconteceu comigo assim que vi a tua avó.

– E tu, avó, também foi assim?

– Não, Miguel. Eu estava demasiado zangada para olhar sequer para a pessoa que tinha à minha frente. Só pensava que tinha de ir trabalhar, estava encharcada e tinha o meu carro todo amolado, que teria de ir para arranjo. Nos dias que se seguiriam teria de voltar a andar de autocarro, teria de ouvir o meu pai a dizer-me que, como sempre, ele tinha razão e devia ter deixado o carro! A verdade é que desabafei isto tudo com o teu avô até chegar ao meu trabalho. O teu avô só pedia desculpas e dizia que iria pensar em resolver toda esta situação que ele tinha provocado. Quando chegámos ao meu trabalho, trocámos contactos e o teu avô disse que iria tratar de tudo, que não me preocupasse. E, ainda hoje não sei porquê, mas a verdade é que acreditei no teu avô. Acreditei que ele iria resolver toda aquela trapalhada, acreditei na sinceridade que lhe lia no olhar… E, com o decorrer do dia, à medida que o tempo ia passando, a imagem do teu avô começou a pintar-se na minha memória com maior nitidez, comecei a pensar que, de facto, até tinha sido abalroada por um homem bem interessante.

Quando chegou a hora de sair do trabalho nem acreditei no que viam os meus olhos…o teu avô esperava, com um senhor a seu lado (que vim a saber mais tarde que era mecânico, para levar o meu carro) e um magnífico BMW M1 preto (que o teu avô pedira emprestado enquanto o pai não voltava dos EUA).

– Disse que iria resolver a situação. Aqui está o mecânico que irá levar o teu carro para arranjo e prometo que ficará como novo. Como o arranjo levará alguns dias, prometo que serei o teu “chauffeur” particular. Irei buscar-te a casa e levar ao trabalho até que voltes a ter o teu carro à disposição. Não aceito um não, é a minha forma de pedir desculpa. E quero acreditar que não teremos qualquer acidente nos próximos dias!

– Não fui capaz de dizer “não” ao teu avô. Quando subi para o carro tinha um ramo de flores à minha espera no banco da frente. O teu avô sabia ser um cavalheiro como nunca antes tinha visto. Antes de voltar para casa parámos para lanchar. A conversa foi bem mais amena do que a da manhã e posso dizer-te que os nossos olhos disseram bem mais do que as nossas palavras. E ainda nesse dia trocámos o nosso primeiro beijo.

Ambos contavam a história deles, olhando-se com o mesmo amor e ternura que tinham sentido desde sempre um pelo outro. Tinham sido felizes toda a sua vida e continuavam a sê-lo. O amor tinha-se desdobrado numa filha e, agora, neste neto. Maria acreditava, desde o primeiro dia que a sua relação com Joaquim estava destinada a acontecer, que estava escrito nas estrelas. Amava-o hoje com 70 anos com a mesma intensidade que o amara no esplendor dos seus 25 anos. E, acima de tudo, sabia que era amada com a mesma intensidade que amava.

Olharam para o neto que tinha, finalmente, adormecido. Levantaram-se e abraçados seguiram até ao alpendre onde, sentados, de mão na mão, ficaram a observar a serenidade da noite, não sentindo a necessidade de dizer mais nada, saboreando aqueles silêncios tão significativos que tanto dizem. Algum tempo depois o silêncio foi quebrado por Joaquim:

Amo-te.

– Sempre – respondeu ela.

“Escoje un amante que te mira como si quizás fueras magia” *

O mês de julho é o mês, por excelência, para relembrar Frida Kahlo. E é-o não só porque é este o mês do seu nascimento (a 6 de julho de 1907) como também o da sua morte (a 13 de julho de 1954). Como tal, decidi que seria ela uma das protagonistas do texto de hoje. Desengane-se quem pensa que irei falar apenas e só sobre Frida Kahlo (aquela que, sem dúvida, teria o primeiro lugar na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”).

Frida não será a única protagonista do texto de hoje pela simples razão que já lhe dediquei todo um texto e porque a rubrica de hoje pressupõe que existam, pelo menos, dois protagonistas. Hoje é dia da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais” e venho falar-vos um pouco do amor entre Frida Kahlo e Diego Rivera. É verdade que existe alguma tendência para acreditar que apenas Frida amava intensamente Diego, não sendo retribuída com a mesma intensidade. A isso não será alheio o facto de muita da informação recolhida sobre a relação deles ter provindo do diário que Frida mantinha. O facto é que poucas vezes ouvimos o pensamento de Diego Rivera sobre esse assunto. Contudo não concordo com esta perspetiva. Não penso que fosse um sentimento unilateral. Considero que, ainda que fosse de uma forma particular, não só Frida amava Diego como Diego tinha em Frida um dos amores da sua vida. Frida e Diego viveram um amor atípico: um romance cheio de discussões, a que se seguiam reconciliações, uma relação problemática mas cheia de paixão, um amor muito instável, marcado por infidelidades de parte a parte mas que, no final, os uniu para a eternidade. E é sobre esse amor tão diferente que hoje vos venho falar.

Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón viu Diego Rivera, pela primeira vez, quando este se encontrava a pintar o mural: “La Creación”, no Anfiteatro Simón Bolívar, na Escola Preparatória Nacional do México, escola onde Frida estudava. Diego era já consagrado artisticamente, contava com 36 anos, era casado e já tinha fama de mulherengo. Frida tinha, na época, 15 anos. Contudo, a não ser as conversas que aconteceram entre os dois (Diego falava de Paris, dos seus amigos Modigliano, Picasso e Breton… enquanto Frida o observava a pintar), nada mais se passou entre eles nessa época. Diego contava, na época, já com dois casamentos que pouco tinham durado e já era pai.

Diego e Frida foram reapresentados em 1928 por Tina Modotti, fotógrafa italiana que era amiga comum dos dois. Tanto Tina quanto Frida se tornaram as musas de Rivera. Tina foi modelo em murais como “A Terra Adormecida” enquanto Frida foi retratada como uma militante comunista nas paredes do Ministério da Educação Pública. Para além disso, foi esse também o ano em que Frida ingressou no Partido Comunista Mexicano.

É nessa altura que o interesse que Frida tinha revelado com 15 anos acerca do artista se estende ao homem e pouco tempo depois de serem reapresentados, Frida e Diego casam-se (estávamos em 1929). A cerimónia, que foi bastante simples, realizou-se na Casa Azul, em Coyoacán (casa onde passariam a viver) contrariando a família de Frida que não considerava Diego R. a pessoa adequada para casar com Frida: ele era ateu, comunista, mulherengo e 21 anos mais velho que Frida Kahlo. Para eles o casamento era comparado ao de um elefante com uma pomba.

A vida deles, enquanto casal, foi particularmente intensa. Viajaram para os Estados Unidos, onde Rivera pintou alguns murais. Será lá que Frida irá sofrer o seu primeiro aborto (o primeiro de três).

Frida conseguiu, por uns tempos, que o marido abandonasse os seus hábitos de conquistador e mulherengo mas, após algum tempo de casamento, Diego voltou a somar infidelidades. Em 1934 Diego e Frida regressaram ao México e é nessa altura que ela descobre que o marido lhe tem sido infiel ao manter uma relação com a sua irmã mais nova, Cristina Kahlo. Apesar de ter conhecimento de outras infidelidades do marido, e de a própria Frida ter também a sua parte de amantes, essa traição foi das mais difíceis que Frida sofreu e que a fez afundar-se numa depressão. Foi a partir de então que Frida tomou a decisão que continuariam juntos mas numa relação aberta em que cada um poderia ter outras relações, com o conhecimento e consentimento do outro. Sendo bissexual, Frida passou a ter relacionamentos com outros homens mas também com outras mulheres. Apesar do que tinha sido combinado, tal situação despertava os ciúmes de Diego. Ele aceitava os relacionamentos da mulher com outras mulheres mas não suportava saber que ela se tinha envolvido com outros homens.

A verdade é que a relação conturbada, os casos extraconjugais de ambos, a luta de duas personalidades fortes acabou por resultar num divórcio dez anos após o casamento, apesar de todo o sofrimento que tal separação causou.

Será o assassínio de um dos amantes de Frida Kahlo que levará, curiosamente, a novo casamento de Frida e Diego. Um ano depois da separação, em 21 de agosto de 1940, León Trotsky é assassinado. Como a relação que ele mantinha com Frida Kahlo era conhecida, a polícia deteve-a para ser interrogada, fazendo-o com alguma dureza. Aproveitando a situação, Diego Rivera, que se encontrava, naquele momento, em S. Francisco, chamou-a para ir viver com ele. Frida não pensou duas vezes e voou para S. Francisco. Foi o reacender da velha chama que sempre tinha ardido entre eles, apesar de todas as vicissitudes, e ainda nesse ano, voltaram a casar.

Ao voltar para o marido, Frida decidiu construir uma casa igual à de Diego, ao lado da casa em que eles tinham vivido no primeiro casamento. As casas eram ligadas uma a outra por uma ponte. Viveram, desse modo, como marido e mulher sem morarem juntos. Encontravam-se na casa dele ou na dela, nas madrugadas, celebrando o amor que os unia.

A última vez que Frida Kahlo apareceu em público foi a 2 de julho de 1954, numa marcha a favor do povo Guatemalteco. Dez dias depois, prostrada na sua cama, a perna amputada porque estava a gangrenar, sofrendo de dores intensas, devolveu a Diego o anel que este lhe tinha comprado para celebrar o seu 25º aniversário de casamento. Deu-lho referindo que sabia que a sua morte estava eminente. Morreu no dia seguinte, a 13 de julho de 1954.

Após a sua morte, Diego criou coragem para pensar em  transformar a famosa Casa Azul num museu para celebrar o amor da sua vida. Reuniu roupas, cartas, livros, espartilhos e até alguns dos remédios de Frida, assim como alguns dos seus pertences e lacrou-os num dos quartos. Informou que esse depósito improvisado só poderia ser aberto 15 anos após a morte de Frida.

Contudo…um ano após a morte de Frida, Diego voltaria à sua vida de sedutor e voltaria a casar. Diz-se que também não foi fiel a essa quarta esposa. Viria a morrer a 24 de novembro de 1957. Os pertences de Frida caíram em esquecimento e ficaram fechados até 2004…

É claro que este “amor intemporal” está longe de ser um conto de fadas. Está longe de ser a história de amor a que muitos aspiram. Foi um relacionamento doentio, disfuncional e destrutivo. Contudo, foi um relacionamento fortíssimo que, se não lhes permitia estarem juntos, também não lhes permitia estarem separados. Ainda que se tivessem divorciado, nunca perderam o contacto um com o outro. Viveram um amor pouco convencional mas a ligação superior entre ele era inegável. Quando Frida morreu Diego reconheceu que Frida foi o grande amor da sua vida, ainda que não tivesse sabido amá-la como ela teria merecido.

*“Escolhe um amante que olhe para ti como se fosses mágica”

Para lá do esquecimento

Já sabem que, uma vez por mês, deixo-vos o meu registo (que é como quem diz, a minha crónica) no Semanário Registo. Este mês, uma crónica que versa sobre a importância ou não de esquecer. Para ler (por cá ou em papel) e, se gostarem, partilhar! Enjoy!

esquecimento registo

Há dias, num diálogo com uma amiga, falávamos da importância e do peso do passado nas nossas vidas presentes, do seu valor, do facto de ser ou não relembrado com saudade e nostalgia. Percebi, no decorrer da conversa, que as nossas opiniões divergiam quanto ao tema. Ela era de opinião que o passado deve estar onde ele está: atrás das costas. Considerava que importante era o momento presente e que o que tinha passado, as pessoas que tinham feito parte daquele tempo pretérito e que não faziam parte do presente, deviam ser banidas da nossa memória, relegadas ao esquecimento. Já eu, a eterna saudosista, achava que o passado deve ser relembrado naquilo que ele tem de bom, que se devia guardar o que nos fez bem, relembrar, com saudade aquelas pessoas que gostámos e que num momento da nossa vida foram importantes para nós, independentemente de hoje pertencerem a uma vida que ficou lá atrás.

Tal conversa fez-me recordar um dos filmes da minha vida: “The Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, ou, na sua tradução em português, “O Despertar da Mente”, o fabuloso filme protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet. Para quem não viu, aconselho, antes de mais a ver este já antigo mas maravilhoso filme. O filme é uma mistura de comédia romântica com ficção científica: um médico inventou uma máquina que nos permite apagar da memória uma pessoa e os momentos dolorosos que ela nos fez passar. Quando Joel (Jim Carrey) percebe que a sua antiga companheira, Clementine (Kate Winslet), aquela que ele tem como o “seu amor verdadeiro”, o apagou completamente da sua memória, e descobre como ela o fez, toma a decisão de, também ele, se submeter ao mesmo tratamento e apagar Clementine da sua memória. Perante uma relação que terminou mal, percebemos que, para seguir em frente, ambas as personagens preferem apagar todas as memórias ligadas àquela relação. Não vos falarei mais do filme (caso não tenham visto, espero ter aguçado a vossa curiosidade) mas lembro que na época este filme me fez pensar e refletir muito. Se tivéssemos oportunidade de esquecer, apagar alguém que fez parte da nossa vida, deveríamos fazê-lo? Como seria a minha vida se pudesse apagar, facilmente, todas as dores provocadas por amores e paixões mal resolvidas? Como seria eu, enquanto pessoa, se conseguisse desvincular da minha mente todos aqueles momentos que antes me tinham trazido conforto e bem-estar mas que se tinham convertido em dores e mágoas e, mais tarde, em cicatrizes?

E a verdade é que estas questões vieram mais uma vez à tona aquando da conversa com a minha amiga e andaram a assombrar-me os pensamentos durante uns dias. Na teoria, o conceito parece-me correto e adequado. Não devemos olhar para o passado. Quem vive no passado vive com uma âncora atada aos pés, que não o deixa seguir em frente. A verdade é que o olhar tem de estar projetado no presente e a nossa atenção focada naqueles que nos acompanham. A máxima tem de ser esquecer o passado e projetar-nos, sempre, no futuro. Contudo, a verdade é que não consigo pensar assim. Jamais conseguiria tomar uma atitude tão drástica como a Clementine do The Eternal Sunshine of the Spotless Mind. No meu modo de pensar e analisar o passado, apagar alguém das minhas memórias, por mais dolorosas que as memórias que essa pessoa me traz possam ser, iria deixar um vazio estranho no meu presente. E concluí que eu, pura e simplesmente, não quero esquecer, nem os momentos bons, nem os momentos maus. Esquecer seria apagar as minhas memórias e ao apagá-las eu estaria a apagar um pedaço de mim, a esquecer-me de quem fui e, consequentemente, de quem sou. Aquela que sou hoje é o resultado do que fui, da soma dos momentos bons com os momentos mais dolorosos e, sobretudo, das aprendizagens que realizei com esses momentos. E não quero esquecer nada disso. Quero guardar tudo num cantinho bem recôndito da minha alma e do meu coração, com algum carinho e sem ressentimentos. Quero pensar que aprendi com os maus momentos. Se não me lembrasse deles, se não fizessem parte do meu ser, o que me impediria de voltar a cometer os mesmos erros? Sem a aprendizagem que o passado nos pode trazer o que somos nós? Apenas conchas ocas a construir constantemente um presente recheado dos vazios que o passado esquecido deixou.

Tenho hoje uma certeza: nem que existisse uma máquina para me fazer esquecer, como no filme, nem que criassem uma pílula do esquecimento, como aquela de que falava com a minha amiga, nunca iria recorrer a elas. Considero que as minhas memórias são demasiado valiosas. Cabe-me a mim encontrar uma forma de lidar com as memórias dolorosas do pretérito, descobrir um modo de desatar as amarras daquilo que é demasiado pesado no passado, para o deixar seguir para um lugar aprazível e sem dor e guardar no coração apenas aquilo que é bom de guardar: as memórias felizes.

E vocês, tomariam a pílula do esquecimento ou escolheriam manter todas as memórias intactas?

A Felicidade e a Metade da Laranja

[Novo]Para hoje trago-vos uma crónica – uns pensamentos esparsos sobre aquilo que parece ser uma necessidade de encontrarmos a nossa metade da laranja. São pouco mais de 3 minutos de leitura. Enjoy

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Photo by Austin Schmid on Unsplash

Sou uma pessoa cheia de contradições. Tenho que assumir isto perante todos os que aqui me leem. E não digo isto assim de ânimo leve. Posso dar-vos logo assim em segundos uma série de contradições que vivem em mim! Por exemplo: adoro o calor e o verão mas sonho com tardes de frio e chuva, no sofá, com um belo lume a arder. Adoro gelados (das minhas sobremesas preferidas) mas sinto-me reconfortada com um belo chá quente! O gelado que eu adoro sabe-me melhor no inverno, junto à lareira, do que no verão. Adoro tudo aquilo que uma cidade me pode oferecer (cinema, lojas, acesso à cultura) mas eu gosto mesmo é de viver no campo. Isto para não falar de contradições ainda mais gritantes como seja o facto de comer carne ainda que seja incapaz de ver matar qualquer tipo de animal (quanto mais matá-lo para comer!)

Outra das contradições que noto em mim tem a ver com o meu modo de estar na sociedade. Sou uma faladora compulsiva. Adoro falar, opinar, conversar. Penso que terei criado a minha página Steff’s World – a soma dos dias exatamente por isso. Contudo, gosto de estar sozinha, gosto de controlar o meu espaço e o meu tempo. Sair à noite para dois dedos de conversa com uns amigos é ótimo mas ficar a ver uma boa série, em casa, enquanto degusto um excelente copo de vinho também é de qualidade. Talvez seja por esse gostar de estar sozinha no meu canto que sempre fui tão exigente quanto às companhias que poderia ter ao meu lado. Talvez seja por isso mesmo que continuo solteira.

Dizem muitas vezes que as pessoas estão sozinhas porque assim escolheram estar. No meu caso, não sei bem se é uma escolha. Tenho certeza é que é uma exigência e que tem a ver com as características que acima citei: gosto de estar sozinha, de ter a minha independência e de poder usufruir do meu tempo e espaço como bem me apetece. Não se pense com isso que sou uma solteira inveterada! Até digo que ponho a possibilidade de abdicar de algum do meu tempo e espaço para o partilhar com alguém. Contudo, apenas abdicarei de todas as partes que me agradam em ser solteira, em ser sozinha, se encontrar alguém que me faça sentir que a sua presença é melhor do que a minha solidão. E só assim me faz sentido.

A educação que nos vão dando enquanto somos crianças passa muito por nos fazer acreditar que apenas podemos ser felizes se encontrarmos alguém com quem possamos partilhar a nossa vida. Os filmes, os livros, os contos infantis refletem essa ideia em todos os sentidos: os amores eternos, os “felizes para sempre”, a princesa que precisa encontrar o seu príncipe para que a sua vida faça sentido. Desde cedo nos vendem a ideia que somos seres incompletos, divididos, que procuram incessantemente a sua metade que a poderá deixar completa. Desse pensamento surgiram as velhas e batidas frases “para cada panela há seu testo” ou o “somos todos uma metade da laranja que procura a sua outra metade”. E a verdade é que essa ideia acaba por se enraizar na nossa mente e muitos acreditam que só poderão ser felizes se encontrarem alguém que os preencha em todos os sentidos, alguém que os faça acreditar que encontraram, de facto, a sua metade da laranja.

Talvez seja por isso que se encontram tantos casais por aí que não eram para acontecer… . Parece-me que algumas pessoas acreditaram mesmo nesta questão da metade da laranja e que temeram tanto não encontrar aquela pessoa que as completasse que acabaram por se unir a uma metade que não era bem a metade da sua laranja apenas e só para não ficarem sozinhas. É claro que ninguém irá admitir, sem pejo, que está numa relação apenas e só porque não quer caminhar, por esta vida, sozinho. Mas…não conhecemos, todos nós, exemplos destes? Não conhecemos todos casais que, desde o início, se percebeu que aqueles dois seres não iriam resultar juntos? Conhecemos sim, ainda que muitos perdurem ao longo dos tempos.

Por outro lado, temos ainda, aquelas pessoas que acreditaram mesmo, durante algum tempo, que tinham encontrado a sua metade da laranja. Porém, com o passar dos dias, perceberam que se tinham enganado, que aquela não era a pessoa que as fazia sentir completas. Quantas delas não mantêm a relação apenas e só porque se recusam a admitir que ela naufragou? Quantos casais vemos unidos ao longo dos anos, ainda que se saiba e se perceba que aquela união soçobrou, que ambos vivem de coração vazio e sem esperança?

E tudo isso porquê? Porque sempre nos fizeram acreditar que não estamos bem sozinhos. E muitos, nessa situação, pensam que é melhor ter alguma coisa a que se agarrar do que não ter coisa alguma… Muitos acreditam que caminhar para lados opostos será sempre melhor que caminhar sozinho. Não consigo pensar assim!

A verdade, e a que temos de perceber, é que nós não somos metade de nada. Somos inteiros. Cabe-nos a nós lutar para sermos felizes. Ninguém merece ter às costas o peso de pensar que nos completa. O peso de pensar que sem ele seremos apenas parte de algo. Nós é que temos de lutar por nós próprios, lutar para crescermos, lutar para atingirmos os nossos objetivos, lutar para sermos felizes. E eu percebi isso. Por isso sei que escolherei ter alguém ao meu lado porque assim o quero e não porque penso que preciso de me sentir metade de alguém. Escolherei ter alguém ao meu lado por vontade e nunca por necessidade. Escolherei ter alguém ao meu lado quando esse alguém me fizer acreditar que a caminhada, junto dele, será mais agradável do que sozinha. Por enquanto, não encontrei esse alguém. Sigo o meu caminho sozinha…e feliz. Escolhi não ser uma metade da laranja mas ser um limão inteiro. E por enquanto, sigo bem nesse caminho.

Idade? 40, alínea C

24 de junho é dia de crónica, dia de analisar isto de estar a envelhecer, dia de pensar na vida… Enjoy!

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E não é que desde que vim aqui falar dos meus 40+2 já a terra deu 365 voltas sobre si e já tenho de vos falar dos meus 40+3? Raios, é só impressão minha ou a terra está a dar estas voltinhas depressa demais? O tempo corre a uma velocidade assustadora, é o que vos digo! Lembro que pelos meus onze, doze anos o tempo se arrastava de forma dolente: o ano letivo era interminável. Tanto acontecia naqueles dez meses! Criavam-se amizades que pareciam para sempre, odiávamos visceralmente tal ou tal disciplina (ou professor) e por isso cada aula parecia levar dias a passar! Ainda assim, e apesar disso, sentíamos que nos sobrava tempo depois das aulas para fazermos muito do que nos apetecia e que os fins-de-semana esticavam o suficiente para descansar e nos divertirmos. As férias – de três meses – mais pareciam anos. Chegados a setembro mal lembrávamos do que se tinha passado em junho. Basicamente o tempo tinha tempo para ser tempo e por isso ele (o tempo) sobrava-nos!

E agora? Estarei assim tão…”experiente”? Como é que o tempo começou a passar tão depressa? Como raio passou desse passo dolente para uma corrida desenfreada? A verdade é que sinto que o tempo me escapa pelos dedos. O tempo esgota-se em nada, as semanas passam a uma velocidade estonteante e, quando dou conta, eis que me encontro a pensar em celebrar mais um ano, mais um aniversário. E se ainda há pouco me estava a habituar à ideia dos 40+2 eis que já tenho de me habituar a um novo número. Como raio isto aconteceu? Ainda ontem estava a entrar numa nova década! Assumo que gostei de entrar na década dos 40. Já falei sobre isso. Tornei-me mais segura, mais autoconfiante e, ao mesmo tempo, mais serena, mais calma, menos exigente comigo, com os outros e com o mundo. Tudo bem interessante, de facto. Entramos numa fase celebrada e cantada: ele é “A ternura dos 40” de Paco Bandeira, ele é a “Mulher de 40” do Roberto Carlos…

O problema põe-se no “+1”, “+2” e por aí fora. Conhecem música que cantem sobre a mulher de 40 E DOIS, 40 E TRÊS? Duvido! É esse somar aos quarenta que me aborrece um pouco.

Posto isto, decidi tomar medidas!

Decidi que vou continuar a ser a celebrada “Mulher de 40” . E, como sou da área das letras, irei, apenas, anexar-lhe uma pequenina letra. Assim sendo, hoje, dia 24 de junho, faço sim 40 anos, mas com um pequeno anexo: a letra “C”. Hoje a Steff completa os seus 40 anos, alínea C!

Desengane-se porém, quem com isto considera que não gosto de fazer anos. Muito pelo contrário! A-do-ro!! Gosto de fazer anos, de celebrar, de ser “a miúda” do dia!

Sou uma pessoa bem-disposta por natureza. Gosto da vida e gosto de a viver com os altos e baixos que ela nos traz. Não conheço outros mundos mas este que conheço é-me muito simpático. Sou feliz por estar viva, sou feliz com a vida que tenho, sou feliz com as pessoas que me rodeiam. Por isso gosto de fazer anos uma vez que celebro, cada ano, tudo o que a vida me deu ao longo destes anos. Obviamente, não tenho tudo o que quero, obviamente que almejo a algo mais. Mas enquanto tenho e não tenho, escolho ser feliz com o que me é dado. E, por isso, espero andar aqui pelo Planeta Terra mais uns bons anos para poder somar mais letras aos meus 40. Estamos vivos e de saúde. Essa é uma dádiva que devemos reconhecer. Devemos agradecer a terra ter girado 365 vezes e ainda estarmos por cá, agradecer tudo de bom que nos aconteceu neste último ano e celebrar a possibilidade de continuarmos a sonhar, a rir, a viver, a festejar.

Acima de tudo, devemos relembrar que números são apenas números. 40, 43, 60 ou 90. Apenas números. O importante, de facto, é a atitude perante a vida, é a idade com que nos sentimos, a idade que acreditamos ter. E aí, caros amigos leitores, posso dizer-vos que nunca terei passado dos 30 (isso porque algumas “dorzitas” dizem-me que já não sou jovem, jovem!)

Hoje faço anos. O meu cartão de cidadão diz que nasci em 1976 e que, como tal, faço 43 anos. Eu direi, por cá e a quem pergunta que faço 40, alínea C. Contudo hoje, quando me deitar, sei que irei refletir sobre o meu dia e sobre mim mesma e pensar: “Que idade tenho? Tenho a idade que a minha mente acredita ter. E, na minha mente, posso dizer-vos que ainda sou aquela miúda de 25 anos que pensa que tem a vida pela frente, com uma imensidão de sonhos para viver.

E que venham os festejos!

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Um dia em contramão

A minha proposta para hoje é o “Conto do mês”. Um conto para pensarmos um pouco sobre a forma como levamos a nossa vida e sobre o que realmente importa nela!

Parem um bocadinho e degustem a leitura de mais um conto baseado nos versos de uma canção. Este mês os versos vêm de “Os quatro e meia” e da fantástica “A Terra Gira”. Como já deverão saber, os contos escritos partindo dos versos de uma música não procuram seguir a mensagem veiculada pelas letras das várias canções que têm sido escolhidas mas sim criar toda uma nova história.

Enjoy e, já sabem, podem sempre propor uma canção do vosso agrado.

[Tempo de Leitura – 9 minutos]

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Photo by Ben Rosett on Unsplash

“Eu não sei
Nem como, nem quando, aqui cheguei
Sem saber
Dou por mim a viver a correr

E o mundo segue
Sem olhar para nós
Queremos tudo
Mas vivemos tudo a sós

A terra gira em contramão
Ficamos tontos sem direção
Corremos até nos faltar o ar
E a vida vai ficando para depois
E continuamos os dois a sonhar…”

                                   A Terra Gira – Os Quatro e Meia

Naquele dia Artur sentia-se extremamente cansado. O dia no escritório tinha sido exaustivo. Que saturado estava desta vida que ele levava! Ser Diretor executivo da empresa não lhe tinha trazido a felicidade e a satisfação que ele sempre pensara, isso era um facto… Mal podia esperar para chegar a casa, tirar a gravata, descalçar os sapatos e poder degustar uma taça de vinho em frente a um qualquer programa desportivo! Essa era a parte boa de se ter divorciado e de ter a casa vazia: não tinha que conversar com ninguém se não lhe apetecesse, não tinha que sentar à mesa para jantar se não lhe apetecesse, poderia comer pizza no sofá sem ouvir a mulher a queixar-se das nódoas e das migalhas. Pensando bem, a sua nova vida podia ser solitária mas tinha estes momentos agradáveis…

E, tal como tinha pensado quando ainda estava a trabalhar, quando chegou àquela casa silenciosa, descalçou-se ainda a caminho do quarto, despiu a roupa que deixou largada em cima da cama (tal seria impossível de fazer enquanto era casado! “Não posso fazer tudo nesta casa. Importas-te de, pelo menos, arrumar a tua roupa nos devidos lugares?” – parece que ainda ouvia a ex-mulher a resmungar todos os fins de dia). Pelo menos agora, ele deixava a roupa onde muito bem lhe apetecia! Tomou um duche que, por instantes, lavou todas as preocupações e cansaços daquele dia e instalou-se, depois de comer uma fatia de pizza e uma fruta, em frente à televisão para, finalmente, poder descansar.

 E, foi nesse momento, quando se sentou no sofá, que se deu conta do silêncio que estava instalado naquela casa…por menos que o quisesse admitir, sempre que deixava um pequeno espaço para isso, o pensamento voava para analisar a sua situação atual: tinha atingido, profissionalmente, o patamar a que se tinha proposto, não tinha ninguém a discutir com ele o tempo inteiro, tinha a sua própria casa…supostamente seria um homem realizado. Contudo, sempre que Artur se permitia ser um pouco sincero consigo mesmo, percebia que, na verdade, se sentia um falhado. Ser diretor executivo não lhe tinha trazido a realização que pensava que iria obter. Continuava a sentir aquele trabalho apenas como uma forma de ganhar um bom dinheiro ao fim do mês. Não se sentia mais motivado hoje do que se sentia ontem. A nível pessoal também sentia que tinha falhado. Não tinha cultivado as amizades, pois encontrava-se sempre a trabalhar. As relações familiares tinham sofrido o mesmo destino dos amigos…o tempo escasseava. E, por fim, o próprio casamento se tinha deteriorado. Mais uma vez, sentia que grande parte da culpa disso ter acontecido era dele. Artur sentia-se só, sentia que tinha apostado todas as fichas da sua vida no trabalho e que este não lhe tinha retornado o prémio que ele pensava obter.

Enquanto estes pensamentos rodopiavam na sua cabeça, Artur acabou por adormecer, profundamente, no sofá. Acordou, já de madrugada, ainda com o comando na mão, a televisão sintonizada num qualquer canal de televendas. Arrastou-se até ao quarto onde dormiu, num sono profundo, as horas que ainda tinha até serem horas de iniciar um novo dia.

Às sete horas em ponto o despertador do telemóvel tocou e Artur levantou-se para iniciar a sua rotina diária, a caminho do trabalho. Lançou um olhar lacónico ao seu quarto, à desarrumação que imperava e, mais uma vez, pensou na ex-mulher. Jamais ela permitiria que o quarto estivesse assim!… A essa hora já ela estaria a dizer-lhe “Bom dia, alegria! Não achas que são horas de levantar? A que se seguiria, provavelmente, alguma queixa…” Mas a verdade é que naqueles primeiros minutos da manhã, ainda de olhos fechados, quase que sentia saudades daquele beijo da manhã, da sua disposição matutina, e daquele “bom dia, alegria!” Bem, havia que levantar e enfrentar mais um dia de trabalho! E duro que este ia ser! A agenda estava carregada de reuniões!

Verdade seja dita que, quando Artur saiu de casa ainda se encontrava meio que em modo de autogestão, mais adormecido que acordado, e não se deu conta que algo muito estranho se passava na rua. Enquanto ele avançava em direção ao carro, não se dava conta que as pessoas caminhavam em sentido contrário, em vez de seguirem para a frente, parecendo impelidas a andar para trás. Apenas reparou nisso quando se sentou no seu carro. Ele próprio sentia uma estranha pressão, como se uma força o puxasse para trás. No início essa era uma força muito ténue, mal se pressentia, mas assim que se sentou no carro sentiu a força aumentar de tal forma que se sentiu colado às costas do assento do seu Mercedes. Mas foi no momento em que ligou o carro que a situação piorou. A força a puxá-lo para trás aumentou drasticamente, e ele começou a ver tudo à sua volta a desfilar para trás a uma velocidade astronómica. Na verdade, não sabia bem se era o mundo à sua volta que estava a andar para trás, se era o seu próprio carro. “Raios! O que se passava?! Estaria ele, de facto, acordado? Alguém que o beliscasse!!” A verdade é que Artur continuava a ver o mundo desfilar à sua frente, num processo de retrocesso, assustador, como se estivesse a realizar uma marcha atrás a uma velocidade impressionante. Perante os seus olhos desfilavam momentos e lugares que tinham sido da sua vida. Tanto estava no seu carro, como estava em sua casa, no escritório, em lugares onde tinha passado férias, em casa dos seus pais. Pelos seus olhos passaram muitas das personagens que fazem ou fizeram parte da sua vida: colegas de trabalho, a mulher, ou melhor, a ex-mulher, amigos, os pais e tantos e tantos…alguns que não via há muito e outros que tinha visto ontem, alguns que ainda estavam vivos e outros que já tinham partido há tempo. Alguns momentos passavam num ápice, pouco mais do que uma fotografia, outros momentos atardavam-se por longos minutos, permitindo a Artur relembrar momentos, sentimentos e até saudades que nem tinha dado conta de que sentia.

O primeiro momento em que Artur esteve mais tempo parado foi uma recordação de Natal. Estava tão feliz! Tinha recebido um kit de pintura artística. O Artur dos 44 anos ficou parado a olhar para aquele pequeno Artur que se deliciava com a prenda que tinha acabado de receber! Que momentos felizes aquele kit lhe tinha trazido! Os seus primeiros quadros tinham sido pintados naquela época…época em que Artur tinha certeza que queria ser artista, tinha certeza que a arte seria o seu caminho e se tornaria um pintor reconhecido… O Artur mais velho olhou para o seu “eu” mais novo e pronunciou, em voz alta, dirigindo-se não sabia se a ele, novo, ou a ele próprio, adulto. “A vida pregou-te uma partida daquelas! Quem diria que te irias tornar num profissional da gravata!”. O Artur mais novo não pronunciou uma palavra que fosse. Contudo, ergueu o seu olhar para o adulto que se encontrava à sua frente. Era um olhar frio, inesperado numa criança, um olhar que se diria acusador…

Ainda estava Artur focado na sua imagem mais nova quando, mais uma vez, se sentiu puxado para trás. Parou, desta feita, no momento em que terminou a sua licenciatura em economia. Ainda se notava no Artur jovem, apesar do curso de Economia, um certo ar de artista, pensou o Artur velho. “Nessa altura estava convencido que seria capaz de levar todos os meus sonhos em frente. Trabalhar numa empresa, sim, mas continuar as tertúlias à quinta-feira com os amigos, também eles artistas…se os vi três vezes ao longo destes anos foi muito…”. Artur não sabia que viagens no tempo eram aquelas mas começava a sentir um certo pesar, uma certa pena ao rever-se tantos anos antes.

Na viagem que se sucedeu Artur reencontrou-se ao telefone a informar os pais que não poderia ir passar o fim-de-semana, não poderia passar a Páscoa com eles, não poderia ir visitar o pai que estava doente…o trabalho exigia-lhe tanto…ele não tinha tempo para coisa alguma que não fosse o seu trabalho…ele tinha tanto para fazer e tanto para atingir nessa altura – pensou. Tantos foram os telefonemas…Artur nunca tinha, até hoje, tomado consciência do número de vezes que se tinha mostrado indisponível para os pais. Só hoje notava o olhar triste da mãe, o semblante carregado do pai… Eles nunca disseram nada! Eles nunca se queixaram!

Ainda estava com o pensamento fixo nos pais e no facto de se sentir um péssimo filho quando, mais uma vez, foi sugado por aquela máquina do tempo. “Que miúda gira! Tinha esquecido o quanto ela era gira na Faculdade!” Artur tinha, à sua frente, Maria, a sua ex-mulher. Maria olhou para ele e sorriu-lhe a ele, um homem que ela, com certeza, acharia velho e barrigudo. Contudo, a Maria dos anos 90 olhou para ele e sorriu-lhe. Aproximou-se dele dizendo-lhe: Estava farta de esperar por ti!” – e pontuou esta frase com um beijo longo e sentido. E as viagens ao longo dos tempos sucederam-se a um ritmo vertiginoso. Vezes sem conta a Maria pronunciou a mesma frase “estava farta de esperar por ti, estava farta de esperar por ti” – em momentos diferentes da vida deles. Maria no café, Maria à porta do cinema, Maria na cozinha,  depois de ter jantado sozinha, Maria na cama, meio adormecida…Maria sozinha, Maria sozinha sempre, Maria à espera dele… Foi isso mesmo que ela tinha dito quando saíra de casa: Cansei-me de esperar…

Artur não fazia ideia do que estava a acontecer. Sentia que estava a ser obrigado a olhar para o seu passado e nada do que via o deixava feliz…

De um momento para o outro aquele enorme movimento de retrocesso pareceu parar. Artur olhou à sua volta. À sua frente, num banco de jardim, o seu avô parecia esperar por ele, desde a altura em que tinha deixado o neto, mais de 20 anos antes, tinha Artur 25 anos. Contudo, o avô não estranhou este Artur com mais 20 anos e quilos no corpo. Pareceu reconhecê-lo como se o tivesse visto ainda ontem. Olhou para ele, sorriu-lhe e disse-lhe:

Senta-te, filho. Estás com um ar cansado e preocupado. Senta-te aqui junto do teu avô. Vamos conversar um pouco. Não converso contigo há tanto tempo… 

Artur, sentou-se junto do avô, que temia tocar. Contudo, o avô pareceu ler-lhe os pensamentos e, voltando-se para ele, deu-lhe um abraço apertado, sentido. Artur sentiu que aquele abraço o deixava ainda mais desarticulado, sem saber o que se estava a passar, sem saber se se sentia triste ao rever todos aqueles momentos ou feliz por rever e por poder abraçar pessoas como o avô que não via há tantos anos. Começou, aos tropeções, meio a gaguejar, ainda abraçado ao avô:

– Avô, Eu não sei/ Nem como, nem quando aqui cheguei. Sem saber/ (dei) por mim a viver a correr este dia e, para dizer a verdade, toda a minha vida! Percebi que não tenho dado atenção ao que realmente interessa. Ficou claro para mim, neste dia de loucos, que anda aos tropeções para a frente e para trás, que ando a perder a minha vida e a perder aqueles que foram importantes nela. E a verdade é que o mundo e as pessoas da minha vida habituaram-se a viver sem mim. Percebi, avô, que “o mundo segue/ Sem olhar para (mim). A verdade, avô, é que hoje percebi que queremos tanto da vida, Queremos tudo/ Mas vivemos tudo a sós”, ninguém está ao nosso lado para viver o nosso suposto sucesso. Não sou a pessoa que sonhei quando era criança, não sou o filho que pensei ser, não sou o marido que quis ser. Trai-vos a todos nesta minha luta constante para me realizar profissionalmente…eu que queria ser artista! Falhei-vos a todos e por isso me sinto assim: sozinho e vazio na vida.

O avô escutava o neto com atenção. O seu olhar, sábio, deixava transparecer uma enorme ternura pelo neto, para além de uma luz de compreensão. Deixou-o falar e falar, esvaziar-se de tudo o que o neto sentia, da sua tristeza, da sua frustração, do remorso, da saudade. Quando, finalmente, Artur sentiu as palavras escassearem, o avô fixou o olhar no neto e tomou a palavra. Disse-lhe:

Sentes que o dia hoje é um dia atípico. Sentes que a terra acordou a girar ao contrário, certo? Sentes que estás a ser obrigado não só a andar mas, também, a olhar para trás. Sentes que “a terra gira em contramão/ (que) Ficamos tontos sem direção/ (que) corremos até nos faltar o ar…”, até nos sentirmos doentes e cansados de todo este movimento contrário, certo? Mas…e se a terra girou, precisamente, ao contrário, para te abanar, para te acordar, de facto, para a vida? Se a terra começou a girar ao contrário para te mostrar que a tua vida está a ficar para depois? Tens noção que pode não haver nenhum depois? E se a terra girou ao contrário para te mostrar que não estás a viver mas a sobreviver?… e se a terra girou ao contrário para te mostrar que estás a perder todos os teus sonhos de criança, adolescente, jovem adulto?… E se, afinal, este não for um dia terrível?…

Artur preparava-se para responder ao avô quando voltou a sentir aquela sensação de ser puxado para um outro momento…ainda teve tempo de se questionar sobre qual seria o momento da sua vida desta vez…aterrou no sofá onde tinha adormecido no início da noite. Viu-se, a si próprio, ainda de comando na mão. À sua frente, o prato com o resto de pizza que nem acabara de comer. A televisão continuava sintonizada num qualquer canal de televendas. Eram sete da manhã…tinha passado a noite toda a dormir no sofá, e, provavelmente por isso, tinha tido sonhos estranhíssimos. Olhou para a rua. O dia estava a nascer. As pessoas que já percorriam a rua andavam para a frente e não para trás. Artur suspirou: “Raios, que pesadelo o meu! Vamos mas é levantar que a vida não espera por nós!”

Quando se dirigia para a casa-de-banho estranhou um papel rasgado de um qualquer caderno que se encontrava pousado em cima da mesa de apoio, na sala. Nele, apenas duas frases:

E a vida vai ficando para depois/ E continuamos os dois a sonhar”… Por baixo, uma assinatura floreada que tão bem conhecia, do seu avô: Artur Antunes.

Artur ficou tão estarrecido que voltou a sentar-se no sofá. Ficou de olhar ausente, observando fixamente o papel que ali se encontrava. E nesse momento decidiu que hoje não iria trabalhar. Iria tirar o dia de férias e visitar os pais…afinal, a vida deve ser vivida sem ficar para depois!

Flying High – A Vida de Amelia Earhart

Hoje venho falar-vos de mais uma mulher excecional, uma mulher que quebrou barreiras e que olhava para o mundo com uma coragem inaudita. Foi pioneira na aviação dos Estados Unidos, a primeira mulher a atravessar o Oceano Atlântico com um avião e uma defensora dos direitos da mulher! Já sabem de que vos venho falar hoje? Isso mesmo, a “Elas, as que fizeram a diferença” deste mês é dedicada à espantosa Amelia Earhart, um nome que não poderia deixar de ser mencionado nesta rubrica.

 

 

Amelia Earhart nasceu no dia 24 de julho de 1897, no Kansas. Desde a sua mais tenra infância que Amelia (ou Meeley, como carinhosamente a família a chamava) demonstrou ter um espírito aventureiro. A educação que recebeu da mãe foi pouco convencional uma vez que Amy Earhart não acreditava que as crianças pudessem ser “moldadas”, tornando-se em “crianças adoráveis”. Assim, tanto Amelia como a irmã tinham liberdade para passar horas a escalar árvores, a descer encostas com o seu trenó e até mesmo a caçar ratos com uma arma. Amelia era o que comumente chamamos de “Maria Rapaz” e teve sorte de ter uma mãe que lhe permitia dar largas à sua imaginação e rebeldia. Com seis anos construiu, com a ajuda do seu tio, uma rampa que simulava um montanha russa que ela tinha visto em St. Louis, que descia do telhado de uma cabana. Este será o primeiro voo de Amelia de que se tem conhecimento. Saiu da caixa de madeira, que se partiu, com um lábio sangrando e o vestido rasgado. Contudo, terá dito à irmã: “Oh Pidge, é como se eu estivesse voando!”. Ainda que cultivasse um gosto pela aventura, verificava-se, também, que na sua infância apresentava grande interesse por leituras, passando imensas horas a ler os livros que existiam na biblioteca dos avós. Estes seriam traços que Amelia nunca iria perder: um gosto pela aventura e um conhecimento do mundo assinalável.

Amelia teve uma infância feliz mas uma adolescência difícil. Com a morte da sua avó materna, ela começou a ter uma vida conturbada, economicamente menos facilitada, provocada, em parte, pelos problemas de alcoolismo do pai e pela impossibilidade da mãe desfrutar da sua própria herança (uma vez que toda a herança se encontrava sob custódia, temendo a avó que o alcoolismo do seu genro destruísse toda a riqueza herdada). Amelia contava, nessa época, com 17 anos.

Formou-se no Hyde Park High School, em 1915 (com 18 anos). Entrou, no ano seguinte, para a faculdade mas não terminou o curso. Nesse mesmo ano, e ao assistir ao regresso de soldados feridos da Primeira Guerra Mundial, decidiu ser enfermeira. Após receber treino como enfermeira na Cruz Vermelha, começou a trabalhar no Destacamento de Ajuda Voluntária no Spadina Military Hospital, em Toronto.  Em 1919 Earhart preparava-se para entrar para o Smith College mas mudou de ideias e foi para a Universidade de Colômbia inscrevendo-se num curso de medicina. Desistiu um ano depois…

O interesse de Amelia em tornar-se aviadora começou quando, em 1920, aquando de uma visita a um campo de aviação, lhe foi proporcionada uma viagem de avião de dez minutos, como passageira. A vontade de aprender a voar surgiu logo após esse voo. Amelia tinha, finalmente, um objetivo na vida. Trabalhando como fotógrafa, motorista de caminhão e estenógrafa na companhia telefónica da cidade, conseguiu reunir, num ano, mil dólares para pagar as lições. No ano seguinte iniciou a suas aulas para se tornar piloto. A primeira aula foi dada por Anita Snook, outra pioneira da aviação feminina, a 3 de janeiro de 1921. Em seis meses tinha conseguido poupar o dinheiro suficiente para comprar o seu primeiro avião a que deu o nome de “O Canário” – um biplano kinner amarelo brilhante em segunda mão. A 15 de maio de 1923 Amelia tornou-se a 16ª mulher a conseguir uma licença de voo da Fédération Aéronautique. Nessa época já ela tinha batido um recorde: meses antes tinha alcançado uma altitude de 4300 metros, o mais alto que qualquer voadora tinha chegado naquela época.

Em 1928 Earhart recebeu um telefonema de um publicitário questionando-a se ela gostaria de voar sobre o Atlântico. Informaram-na, à época, que ela teria a companhia do piloto Wilmer Stultz e do co-piloto/ mecânico Louis Gordon no voo, tornando-a uma mera passageira, ainda que mantivesse o registo de voo. Apesar de ser apenas uma passageira, Amelia aceitou. Ficou famosa, na época, apenas por ter sobrevivido ao trajeto. Ao regressar do voo foram recebidos por uma parada pública em Nova-York e acolhidos, com honras, na Casa Branca. Logo após o seu regresso, deu uma série de palestras e a sua imagem passou a ser usada para fins publicitários: a pastilhas elásticas, cigarros Lucky Strike, roupas femininas e desportivas, tendo chegado a criar a sua própria marca de roupa, que ostentava o slogan: “para quem tem uma vida ativa”. Ganhava a vida em apresentações e concursos. Usava os lucros que fazia para financiar os seus voos e o das suas colegas mulheres.

Ainda que se tivesse tornado famosa com o seu voo transatlântico, Amelia queria ter um recorde apenas seu. E conseguiu-o. Earhart tornou-se, em 1928, a primeira mulher a efetuar um voo a solo de ida e volta através do continente americano.

A nível pessoal, Amelia casou-se com o publicitário, e seu empresário, que acompanhava a sua carreira há algum tempo, George Putnam, em 1931. Também nesse aspeto os ideais de Amelia eram bem liberais em relação ao pensamento do seu tempo. Recusou-se a mudar o seu nome para o nome do marido e fazia questão de dividir tarefas e dinheiro de igual para igual.

Sendo a primeira mulher a efetuar um voo solo sem escalas através do Atlântico, Amelia recebeu a “Distinguished Flying Cross” do Congresso dos Estados Unidos, a “Cruz de Cavaleiro” da Legião de Honra do governo francês e a Medalha de Ouro da National Geographic Society. Nessa época a fama de Amelia crescia e ela acabou por tornar-se amiga de várias pessoas que tinham cargos públicos importantes, como era, por exemplo, a primeira-dama Eleanor Roosevelt.

Entre 1930 e 1935 foram vários os recordes batidos por Amelia Earhart, de velocidade e distância, demonstrando a todos que o futuro se encontrava mesmo nos aviões e que as mulheres possuíam as mesmas capacidades que os homens para os pilotar. Amelia assumia desafios cada vez mais difíceis tornando-se, cada um deles, um grande acontecimento. De tal forma era a sua fama, nessa época, que ela tinha de ter muito cuidado nas suas aterragens uma vez que era sempre aguardada por uma multidão.

Em 1937 iniciou o seu projeto de dar a volta ao mundo num avião, para comemorar os seus 40 anos. Não sendo o primeiro voo a procurar dar a volta ao globo, seria o mais longo, uma vez que seguiria a rota equatorial – seriam à volta de 47 000 quilómetros de percurso.

Depois de uma primeira tentativa falhada, voltou a tentar a 1 de junho de 1937. Ela e o navegador Fred Noonan partiram de Miami. Pousaram na Nova Guiné, 28 dias depois, quando faltavam apenas 10 000 quilómetros. A 2 de julho de 1937, descolou para terminar o percurso mas o avião de Amelia Earhart desapareceu. A Guarda Costeira perdeu o contacto com o avião e o que se sabe é que ele nunca chegou a pousar na Ilha Howland. Apesar das muitas pesquisas, nenhum vestígio do avião foi encontrado. Várias foram as teorias criadas sobre esse trágico desaparecimento: o avião teria ficado sem combustível, teriam perdido a orientação e teriam aterrado numa ilha desabitada, Amelia e o seu acompanhante teriam aterrado de emergência e teriam sido capturados pelos japoneses…essas eram apenas algumas das explicações que foram encontradas. O certo é que tanto os corpos como os destroços do avião nunca foram encontrados. Amelia desapareceu tinha 39 anos…

Em 1940 foram encontradas ossadas em Nikumaroro, uma ilha do Pacífico, que se acreditou poderem pertencer à aviadora.

Em 2018 alguns mergulhadores encontraram restos, em águas perto da Ilha de Buka, no Oceano Pacífico, que poderiam pertencer à aeronave onde seguia Earhart.

A verdade é que as circunstâncias da morte de Amelia ainda hoje não são claras nem conhecidas.

Não se sabe como e onde morreu mas sabe-se que Earhart ainda hoje é lembrada pelo grande legado que nos deixou: provou que não existem barreiras para atingir os nossos sonhos, inspirou as mulheres a seguirem as carreiras por elas escolhidas e a lutarem pelos seus objetivos. Lutou pelos direitos das mulheres e pela sua independência. Casou-se mas recusou-se a aportar ao seu nome o nome do marido. A roupa da sua marca, a AE, apresentava roupas que tinham que ser fáceis de lavar pois para ela as mulheres não podiam passar o dia a lavar e a limpar. Foi uma celebridade internacionalmente conhecida. Era carismática, apesar da sua timidez. Tudo isto somado ao seu desaparecimento precoce, ainda jovem, ajudaram a que se criasse um mito à sua volta, tornando-se um ícone popular e um símbolo do empoderamento feminino. Como tal, não seria possível não falar desta pioneira da aviação que viveu de forma tão diferente e que exigiu da vida tudo o que ela lhe poderia dar nesta rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”.

 

Saber dizer «até já»

Início de mês é o momento para a publicação de crónica no Semanário Registo. Este mês trouxe ao público esta “Saber dizer «até já», uma crónica sobre despedidas. Enjoy!

Tempo de leitura – 3 minutos

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Aqueles que me rodeiam sabem que detesto a palavra “Adeus”. Para mim “Adeus” significa “para sempre” e essa noção de “para sempre” não existe na minha forma de viver e sentir. Quer seja nas despedidas por ir embora, nas despedidas por escolher outro caminho ou nas despedidas, bem mais duras, devidas à morte de alguém que nos é querido, a palavra “Adeus” não tem sentido nem utilidade para mim. Em todos os casos sinto que um “Até já” é bem mais sentido e verdadeiro. Sei, bem no meu íntimo que, de uma forma ou de outra, haverá um reencontro com as pessoas de quem me despeço naquele momento penoso. Até lá, e por nunca serem esquecidas, pertencem à minha vida, pertencem-me…

Quase poderia dizer que sou uma profissional das despedidas. Desde muito cedo aprendi a dizer “até já” às pessoas e situações de quem gostava. Não, não considero isso como algo de positivo mas é apenas uma constatação. Ainda criança fui obrigada a despedir-me de pessoas que serão sempre das mais importantes na minha vida (fisicamente ausentes mas sempre presentes numa forma menos terrena).

A vida que escolhi também me obriga a muitas despedidas. Despedidas de colegas que conheci num ano, de cidades ou vilas de que aprendi a gostar, de alunos que por uma razão ou outra me marcaram, de verdadeiras amizades que criei durante todo o tempo em que estive longe do meu lar e longe dos meus.

Nas relações amorosas também fui “obrigada” a despedir-me algumas vezes. Por vezes por opção minha, por perceber que determinada relação já tinha trilhado todo o caminho que poderia ser trilhado e que, por isso tinha chegado ao fim. Outras vezes, porque o outro terá pensado exatamente o mesmo…não havia mais caminho a percorrer, juntos…

 O certo é que as despedidas fazem parte da minha vida desde há muito. Têm sido bastantes ao longo dos anos. Mas não me tornei uma profissional das despedidas. O facto de as ter iniciado tão jovem e de já o ter feito tantas vezes não me tornou mais hábil nessa questão. Continuam a ser difíceis…sinto que perco uma parte de mim sempre que me despeço de algo ou de alguém que me é caro. É uma ferida que fica ali à procura de uma cura… Umas feridas são, obviamente, mais profundas que outras. Umas acabam por curar…porque somos naturalmente resilientes e aprendemos a superar faltas. Perdemos uma parte de nós mas criamos outros “bocadinhos” para superar essas perdas. Outras…apenas aparentemente ficam curadas. Criamos uma crosta que nos faz pensar que a cura chegou. Pensamos que superámos a dor e a perda. Mas facilmente percebemos que, por baixo dessa crosta, a ferida está lá. Basta pensarmos um pouco para perceber que as brechas se abrem com uma facilidade enorme e que a ferida volta a sangrar facilmente. Com o tempo sangramos cada vez menos é certo…mas quando a crosta desaparece e já quase não sangramos, aparece a cicatriz. E essa, ninguém a consegue apagar. Está lá, como se fosse parte de ti. Não nasceu contigo mas passou a fazer parte de ti…No fundo ocupa o espaço que a pessoa a quem tiveste que dizer “até já” ocupava.

Apesar de tudo o que referi, apesar das despedidas serem sempre muito difíceis (Nunca nos tornamos uns profissionais dos “até já” independentemente de passarmos por lá muitas vezes), a verdade é que, com ou sem cicatrizes, temos de aprender a seguir em frente. Acima de tudo, temos de aprender a dizer “vai em paz” a quem, sem ter escolha, deixou de fazer parte da nossa vida. E temos de continuar a acreditar que esses seres, embora de uma forma menos visível, estão connosco e connosco caminham. Por isso, como disse anteriormente, não lhes dizemos “Adeus”…

 Aos outros… aos que escolheram seguir outros caminhos, os que seguiram as suas vidas… apenas devemos deixá-los ir e desejar o melhor. Temos de aprender a dizer “farewell” a quem por opção nos deixou. Temos de deixar caminhar quem escolheu seguir a viagem sem nós. Devemos, no entanto, agradecer por terem feito parte das nossas vidas durante o tempo que fizeram parte, agradecer o bem que nos possam ter trazido e agradecer o terem ajudado a provar, com a sua partida, que somos seres humanos fortes, que podemos vergar mas que não quebramos porque somos resistentes e resilientes. E por isso sobrevivemos à despedida deles. Devemos, acima de tudo, deixá-los seguir a sua vida…tentando dizer “até já” sem criar novas cicatrizes.

De uma coisa tenho certeza: o amor, em todas as suas formas, nunca morre. Por isso, para mim, todas as despedidas dos seres que me foram importantes são um “até já”. Sei, no mais profundo de mim, que a vida se irá encarregar de me reunir àqueles que partilharam sentimentos verdadeiros comigo. Por isso, aos que amei verdadeiramente tenho uma certeza que me acompanha e me dá força: “we’ll meet again*”.

*  – Voltaremos a encontrar-nos