Mata Hari e Vadim Maslov – Amor em tempos de guerra

Já não é a primeira vez que escrevo sobre a fascinante Mata Hari. Foi uma das protagonistas da rubrica “Elas, as que fizeram a diferença” porque seria impossível não falar nela como uma mulher que ousou ser, viver e agir de forma diferente. Contudo, mais uma vez venho falar de Mata Hari. Desta feitavenho falar dela como a protagonista da rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais”, pois quero contar-vos a história dela com o jovem Vadim Maslov.

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Mata Hari e Vadim Maslov

Mata Hari nasceu com o nome de Margaretha Geertruida Zelle, a 7 de agosto de 1876, numa pequena cidade da Holanda. Casou aos 18 anos com Rudolph MacLeod, um militar holandês, colocado no exército colonial no Oriente (atual Indonésia), que colocara um anúncio no jornal, procurando mulher. Depois de casarem, a jovem Margaretha seguiu o seu marido para as Índias Orientais. Diz-se que não foi uma união muito feliz uma vez que Rudolph bebia muito, era bastante violento, para além de ter uma amante que não fazia questão de esconder. Contudo, Margaretha terá aproveitado esse tempo para aprender mais sobre a cultura oriental e sobre as danças tradicionais javanesas. (Conhecimentos esses que lhe serão preciosos no futuro). Apesar de ter dois filhos desse marido (um acabará por morrer), acabará por se divorciar de MacLeod em 1902, tendo perdido a guarda da filha por não ter grandes meios financeiros com que sustentar-se a ela e à filha.

Em 1903 Margaretha partiu em direção a Paris, contabilizando 27 anos, em busca de uma nova vida. Não demorou muito tempo até ela se começar a apresentar como bailarina e a ganhar fama. Reinventou o seu passado, afirmando ser uma princesa hindu que vinha da Indonésia. É nessa altura que abandona o nome MacLeod e adota o nome de Mata Hari, que significava “Olho do dia” ou “Pupila da Aurora” em malaio.

O seu grande sucesso, que a tornou uma mulher conhecida em toda a Europa e cobiçada por todos os homens de Paris, adveio da sua apresentação no Museu de Arte Oriental, em 1905, numa sessão realizada dedicada à cultura asiática. É a partir dessas sessão que Mata Hari passará a ser contratada para atuações em salões privados de Paris onde cobrava mil francos por noite, chegando a ter atuações no “Folies Bergère” e no “Olympia”. Essa foi a época na vida de Mata Hari de sucesso, glamour e de colecionar muitos amantes.

Mas eis que, em 1914, se iniciou a 1ª Guerra Mundial. Mata Hari encontrava-se, à época, em Berlim. Sendo holandesa (e relembrando que a Holanda se manteve neutra nesse conflito), podia viajar sem grandes dificuldades entre os países europeus. Talvez por isso lhe tenha sido oferecido um cargo de espionagem a fim de colaborar com os serviços secretos alemães.

E é em 1916 que Mata Hari conhece o homem que irá mudar a sua perspetiva sobre o amor. Conhece, nesse ano, o capitão Vadim Maslov, um oficial do exército russo que se encontrava ao serviço da França. Maslov era bem mais novo do que ela, contando apenas 21 primaveras, quando ela já contava com 40. Apesar dos muitos homens que passaram na sua vida, e da diferença de idades, será por ele que ela se irá apaixonar perdidamente (e assim se manterá) até ao fim dos seus dias.

 Quando Mata Hari descobriu que o avião do seu apaixonado tinha sido abatido e que ele, ferido, se encontrava em recuperação em Vittel, tudo fez para poder reunir-se com o amor da sua vida, para poder tomar conta dele, tanto quanto fosse possível. Ora à época Vittel era uma cidade termal à qual apenas os civis que tivessem passe poderiam ter acesso. Para obter autorização codificada para entrar em Vittel, Mata Hari fez um pacto com o diretor da contraespionagem francesa, o capitão Georges Ladoux: ela iria espionar os alemães, recolhendo informações cruciais. Este era o preço para se reencontrar com o seu amante. Assim, por amor e dinheiro, Mata Hari acabou por se tornar, desta feita, espia em prol dos franceses, tornando-se, uma agente dupla (espionava para os franceses e para os alemães).

Segue, então para Espanha, procurando seduzir um general alemão e levá-lo a revelar segredos militares. Ela pensa ter atingido os seus fins. Contudo, este envia uns telegramas para Berlim onde menciona o agente H21 com detalhes suficientes para ser possível reconhecer Mata Hari, utilizando um código conhecido pelos franceses. Presume-se que os alemães teriam agido dessa forma para que agente dupla fosse reconhecida.

Quando regressou a França, em dezembro de 1916, a sua sorte já estava traçada. Foi presa em fevereiro de 1917 e submetida a alguns interrogatórios, onde muito pouco de relevante foi confessado.

Foram encontradas algumas fotos de Maslov no quarto de hotel onde Mata Hari foi presa. Numa delas podia ler-se: “Em memória dos dias mais bonitos passados com Vadim, a quem eu amo mais do que tudo”… Contudo parece que esse sentimento era bem mais forte pelo lado de Mata Hari. Diz-se que Maslov terá dito que não se sentia mais especial que todos os outros. Apesar de ter sido chamado a depor em tribunal o mesmo não apareceu. A partir daí ela perdeu qualquer vontade de lutar pela sua salvação.

Mata Hari foi então condenada à morte. Enfrentou o pelotão no dia 15 de outubro. Diz a lenda que terá retirado a venda que lhe cobria os olhos e enviado beijos àqueles que a iriam matar. Foi morta por uma bala no coração e, como o seu corpo não foi reclamado por ninguém, foi doado à ciência.

Assim morria aquela que se tornou espia dos franceses por amor, aquela mulher que conheceu tantos homens mas que apenas amou, verdadeiramente, um, aquela que depois de uma vida tão preenchida acabou por morrer por amor. É por isso que fiz questão de abordar esta história na rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – amores intemporais”. Apesar de ser, ao que parece, um amor não correspondido, a verdade é que Mata Hari, a mulher fria que colecionou amantes, deixou-se conquistar pela força maior do amor e amou um homem com uma força e dedicação que merecem ser relembradas mais de cem anos após a sua morte.

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“Sobre a esperança…”

A iniciar o mês venho aqui trazer-vos a crónica que publiquei este mês no Jornal Registo. O título não deixa grande margem para dúvidas: trata-se de uma crónica sobre esperança, essa palavra mágica tão carregada de luz. Leiam! Se gostarem…partilhem, comentem, deixem um gosto!

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Penso que já terei por aqui dito uma ou outra vez que nutro uma relação algo específica com as palavras: amo umas, odeio outras…para além das mais que muitas que me são indiferentes, como não poderia deixar de ser. Hoje não quero falar daquelas que me incomodam, seja pelo som (sim, há palavras que têm até um significado inocente mas que soam tão mal que não consigo gostar delas. “Pedagogo” soa bem a alguém? Não acredito!), seja pela realidade que representam (alguém consegue dizer “furúnculo” sem ficar meio enojado? Aposto que não!) Hoje quero falar-vos de palavras que gosto, que me soam bem, que me fazem sorrir porque transmitem realidades boas de pensar: “saudade”, “resiliência”, “amor”, “sonho”, “cafuné” (faz parte do português com açúcar mas acho que devia ser adotada por nós, de tão bonita que é) não são palavras tão bonitas que despertam no nosso semblante, e sobretudo nas nossas mentes, um sorriso que pode estar entre o sorriso tímido e o sorriso rasgado? Gosto delas! Fazem-me sentir bem quando falo delas. São palavras positivas que criam na pessoa que as usa, de forma afirmativa, pensamentos bons, sensações agradáveis.

A estas que acima citei, e que pertencem a um grupo não fechado que poderá comportar mais umas quantas palavras de luz, juntaria aquela que é para mim A PALAVRA. Falo, como não poderia deixar de ser, da palavra “Esperança”. Gosto tanto da palavra em questão que a mandei tatuar em mim. Não em português, pelas simples razão que se trata de uma palavra algo grande, mas em inglês, contendo apenas em quatro letras todo um significado de luz, força e resistência. Sempre fui de opinião que o pensamento positivo atrai coisas positivas para nós e para a nossa vida. Sempre fui de opinião que encontrar algo de que rir perante as adversidades só nos dará mais força para as encarar sem medo. Na minha forma de ver a palavra ESPERANÇA encerra em si a realidade que ela define: uma força interior, uma crença de que as coisas, cedo ou tarde, irão correr bem, uma fé na certeza de que nada dura para sempre, nem as dores, nem as tristezas, nem as preocupações e muito menos os desamores. É claro que a esperança só por si, não pode tudo. A ela tem de estar associada uma outra palavra que ainda não tinha citado mas que também faz parte do lote das preferidas: a Perseverança. É ela que dá forças à esperança para acreditar que os momentos menos bons têm um fim, é ela que nos faz crer que lá longe nos espera a porta do arco-íris com muito daquilo que ansiámos e desejámos, ainda que as indicações que tal ponto algum dia seja atingido sejam parcas. E isto porquê? Porque ainda que a esperança seja algo intrínseco a nós, sem a perseverança ela poderia desaparecer, dar-se por vencida. Contudo, com a força que a perseverança empresta à esperança, somos levados a nunca desistir, a acreditar que iremos alcançar o nosso pote de ouro (imagem utilizada para ilustrar a felicidade plena) cedo ou tarde.

A esperança mais não é do que uma parte ínfima da nossa alma que sussurra à nossa mente, numa voz doce e serena, todas as manhãs um “tu sabes que vai dar certo”, ainda que a tristeza te pese nos ombros e no coração, um “tu sabes que vai dar certo” porque o amanhã pode sempre ser diferente do hoje, um “tu sabes que vai dar certo” porque foste feito daquela fibra dos que vergam mas não quebram, um “tu sabes que vai dar certo” porque caminhas com um objetivo pela vida e com a certeza que o irás atingir.

Por isso, e em última análise, é a esperança que nos torna mais humanos, impedindo-nos de nos sentirmos vencidos, amargos e revoltados quando a vida não corre no sentido que queríamos e será ela, a Esperança, que nos fará vencer neste jogo que é estar vivo e ser feliz lá nas portas do arco-íris.

Estamos a iniciar um novo mês. Para além disso, a nova estação – o outono – iniciou há poucos dias. Olhemos então para estes inícios focando-nos nesta palavra de luz e força para os encarar (mês e estação) encarar com a energia e a positividade necessárias!

Violação: como tratamos as vítimas?

Hoje é dia de crónica e, logo pelo título perceberão que o tema não é o mais agradável. Ainda assim, espero que leiam a crónica e que partilhem comigo as vossas opiniões sobre o tema. Enjoy!

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Photo by Sydney Sims on Unsplash

Para aqueles que me conhecem de mais perto não será novidade alguma dizer-vos que sou uma ávida consumidora de séries e que considero que temos tido a possibilidade de assistir, nos últimos tempos, a séries de grande interesse e qualidade. Ainda assim, posso dizer que vejo todas aquelas que consigo ver: desde as melhores àquelas que mais não são do que um passar de tempo simpático.

Contudo, hoje quero falar-vos de uma das últimas séries a que assisti e que me prendeu, literalmente, ao ecrã. Caros leitores se não viram, aconselho-vos vivamente a verem “Unbelievable”.

Para quem ainda não viu a minissérie em questão posso dizer-vos que se trata de mais uma série da Netflix e que nos traz uma história baseada em factos verídicos (pelo que ouvi, a série mantém-se muito fiel aos reais acontecimentos) que ocorreram entre 2008 e 2011: violações em série a mulheres que viviam entre Washington e Colorado. Contudo, o primeiro episódio foca-se na violação de uma personagem – Marie. Todo o episódio decorre para nos deixar na dúvida se, de facto, ela terá sido amarrada, vendada e abusada sexualmente por um homem misterioso que não deixou para trás qualquer indício ou prova ou se estamos perante uma mentira contada por uma jovem que, fruto de um passado problemático, se apresenta como alguém que gosta de chamar a atenção para a sua pessoa. A questão central deste primeiro episódio é mesmo a pergunta: “Terá sido Marie mesmo violada ou estará ela apenas a querer chamar a atenção?” A dúvida instala-se à medida que algumas personagens mais próximas de Marie e os policiais questionam a sua história, exploram o seu passado e a sua forma de estar, condenando-a e emitindo juízos de valor sobre ela. Para o caso de não terem visto a série não quero aqui ser spoiler mas o facto é que a própria polícia questiona, uma e outra vez, a vítima sobre a veracidade das suas afirmações, a tal ponto que a faz recuar no seu testemunho. Fica a questão: afinal, Marie foi violada ou apenas quis chamar a atenção, de um modo errado, àqueles que a rodeiam?

Aviso desde já que não é um episódio (e uma série) fácil de assistir: tudo é apresentado de uma forma crua, dura e difícil de assimilar. A vítima é obrigada a contar, uma e outra vez, toda a situação aos vários “especialistas” que tomam conta do caso ou que a observam, sendo obrigada a reviver, uma e outra vez o pesadelo da violação. E tudo para chegar a que conclusão? Aquela de que, possivelmente, ela estará a mentir! De vítima, Marie passa a acusada do crime de falso testemunho.

E pergunto eu: será esta uma situação isolada? Não acontecerá algo de parecido sempre que alguém tem a coragem de apresentar queixa por agressão sexual? Quantas e quantas vezes a vítima não tem de provar que é mesmo vítima, não tem que provar (ou tentar provar) que tudo o que diz é verdade? Quantas e quantas vezes a vítima ouve perguntas e comentários que a colocam como a pessoa que provocou a situação e lhe é dito que aquela é uma alegação muito séria!? Quantas vezes ouve ela talvez fosse melhor lidar com a situação de forma privada! Quantas vezes lhes é pedido para analisar bem a situação: terá ela sido assim tão grave? Quantas vezes lhes é aconselhado a considerar sobre como tudo aquilo irá afetar a sua própria reputação! A verdade é que as vítimas veem questionadas as suas vidas, os seus comportamentos e a sua forma de vestir. Têm que provar que não provocaram a “pobre” pessoa que as violentou. Têm de ouvir que seria importante haver quem pudesse corroborar a sua acusação…

E, no fim de tudo, quando se prova sem qualquer dúvida que houve efetivamente abuso sexual, o que acontece? Grande parte das vezes a atitude é de desculpabilização quando o agressor é um elemento importante da comunidade, alguém integrado na sociedade, um simpático homem de família, ou alguém famoso. Não são raros os casos em que o agressor recebe pena suspensa, é obrigado ao pagamento de uma qualquer multa e segue a sua vida, na maior normalidade. E isto tudo porque, afinal, cumprir uma pena de prisão iria dificultar a vida a um nobre cidadão que até trabalha e tem família. Não foi exatamente essa a decisão tomada naquele caso da cidadã inglesa que foi violada no Algarve? O nobre cidadão saiu de braço dado com a sua esposa que sempre esteve ali para o apoiar e seguiu a sua vida sem maiores complicações. Afinal, violar aquela cidadã parece ter sido, aos olhos da lei, um pequeno deslize sem valor (muito me apraz saber que esta situação foi recentemente alterada por outro tribunal).

 E estas questões e comportamentos não partem apenas de quem tem obrigação de nos defender. Uma parte importante da população mantém o comportamento de culpabilizar, logo à partida, a vítima afirmando que, provavelmente, ela procurou aquela situação ou, como se costuma dizer “se pôs a jeito”.

Basta olhar para os comentários que se leem nas redes sociais sempre que surge mais um caso no famoso movimento Me too. Existe sempre um grande número de pessoas que questionam o que se terá efetivamente passado, referindo que deveria ter falado mais cedo, que procura os 5 minutos de fama ou rematam tudo com o famoso: Hum, essa história está mal contada! O certo é que, logo à partida, a atitude é a de desconfiar das palavras da que se apresenta como vítima.

Olhemos a verdade de frente: as vítimas de violação não sofrem, apenas, com a violação. Sofrem com a violência física e psíquica a que são submetidas naquele ato bárbaro. Sofrem, mais tarde, com todos os estigmas sociais que à violação estão, inevitavelmente associados. A vítima acaba por ser, não raras vezes, maltratada por quem tinha obrigação, de a compreender e defender. Unbelievable deixa isso bem claro: a justiça não funciona para milhões de mulheres que terão sido violadas. Não encontraram a ajuda e o apoio que necessitavam nem na polícia nem na sociedade que as rodeava. Ambas lhes falharam. E continuam a falhar.

Solidão não é estar sozinho, é estar vazio

A crónica que vos trago hoje aborda o tema da solidão. Apenas sente solidão quem está sozinho? A solidão é necessariamente algo de negativo? Venham daí ver a minha opinião e deixem a vossa sobre este assunto!

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Photo by Paola Chaaya on Unsplash

Penso que não trarei nenhuma novidade a nenhum de vocês se disser que a solidão é um dos grandes males que assola a nossa sociedade. A verdade é que lentamente assistimos ao nascimento de uma sociedade em que cada vez menos se conversa, se socializa, se passa tempo de qualidade na presença de pessoas que nos agradam.

É um facto que, por um lado, são cada vez mais aqueles que vivem sozinhos e/ ou que não partilham a sua vida com ninguém ao lado. Quer seja por serem solteiros inveterados, por serem divorciados e não quererem repetir a experiência ou até por serem viúvos, vivem numa casa em que, a maior parte das vezes, o silêncio apenas é quebrado por algum animal de estimação (quando os têm) ou pelo som companheiro de um qualquer televisor. Será fácil, nestes casos, instalar-se aquele sentimento frio e corrosivo que se chama solidão.

Mas não se pense que a solidão será uma característica, apenas, daqueles que não partilham a sua casa e a sua vida com um outro alguém. Muito pelo contrário! Quantas pessoas conhecemos nós que vivem na mais profunda solidão apesar de partilharem a sua cama, a sua casa e a sua vida com uma outra pessoa? Eu conheço casos vários…demasiados até. Diria que essas pessoas apenas coabitam. O diálogo é parco ou até mesmo nulo, as pessoas evitam-se, passando a maior parte do tempo em assoalhadas diferentes, ocupando o seu tempo livre com interesses diferentes. Atrever-me-ia a dizer, até, que a pior solidão é aquela mesmo que sentimos quando estamos acompanhados daqueles que deveriam, teoricamente, preencher a nossa vida. Ainda que acompanhadas, não estarão essas pessoas a atravessar o inverno mais frio, a viver na maior solidão que se possa pensar?

A verdade é que a solidão de que falava nada tem a ver com o termos ou não alguém a nosso lado. Vivendo acompanhados ou sozinhos, aquilo de que vos falo é a solidão que nos faz sentir vazios, que nos traz uma sensação estranha e incómoda de quem não se sente bem no lugar onde está nem com as pessoas com quem está. Falo-vos daquela solidão que nos faz sentir uns estranhos, que nos traz uma dor indefinida, aquela que nos faz sentir no maior isolamento ainda que possamos estar no meio da multidão, uma sensação que não entendemos nem nos integramos no seio do grupo que nos rodeia. Aquela solidão que muitos de nós sentimos apesar de passarmos a maior parte do tempo com gente à nossa volta, seja no local de trabalho, seja no seio do nosso lar.

 E que fazemos nós para combater essa solidão? Rodeamo-nos de tudo aquilo que poderá afastar o silêncio que se gera na nossa mente, procuramos todo o tipo de estímulos que nos façam esquecer que nos sentimos, de facto, sós. Por isso não largamos as redes sociais (que nos trazem uma falsa sensação de companhia), fixamo-nos na televisão com o som bem alto ou praticamos desporto até nos sentirmos tão cansados que o nosso cérebro não terá forças para pensar quando chegar a hora do descanso. O certo é que nos afundamos num frenesim de estímulos a fim de esquecermos que nos sentimos sós.

E quando se fecha o livro que estamos a ler, desligamos a televisão, o telemóvel ou qualquer aparelho a que estamos ligados, quando ficamos a sós com nós mesmos? Muitas vezes não gostamos do que se vê e sente: desde um aborrecimento mortal a um enorme vazio que nos assusta. Não estamos bem connosco. Não somos boa companhia nem para nós próprios. Já dizia Séneca que “A solidão não é estar só mas sim estar vazio”.

E é essa a solidão que mata. Aquela solidão que não procuramos, que não queremos. A solidão dos pensamentos negativos, dos sentimentos de tristeza e melancolia, de vazio interior. É contra ela que, quem a sente, tem de lutar.

Contudo, existe um outro tipo de solidão que nada tem de negativo. Se somos pessoas equilibradas a nível mental, se gozamos de um mundo interior rico, a nossa própria companhia será aprazível não só para os outros mas, sobretudo, para nós. A solidão, neste caso, irá permitir que nos analisemos interiormente. Ela irá permitir que se clarifiquem ideias, sentimentos e objetivos. No fundo são momentos connosco que nos permitem definir-nos, sabermos qual o caminho que queremos seguir. É essa solidão que nos permite perceber o que queremos da vida e, sobretudo, quem queremos na nossa vida. Essa solidão não só é boa como é necessária.

Pessoas que estejam de bem consigo próprias procuram esses momentos de solidão, esses momentos em que, de alguma forma param e pensam naquilo que foi, onde estão e para onde querem ir. Analisam as situações mas sobretudo analisam-se a si mesmas. Analisam o que querem da vida mas, sobretudo, o que não querem da vida. E, por isso, não entrarão em qualquer tipo de relacionamento só porque têm medo da solidão e têm medo da pessoa que são quando estão sozinhas. Estas pessoas sabem que a solidão é boa para nos fazer perceber que a relação mais importante que temos é a nossa relação connosco e essa tem que ser aprazível e positiva. Estas pessoas aprenderam a saborear um bom vinho ou uma chávena de chá, um bom livro ou um bom filme, ou qualquer outra situação que lhes possa ser aprazível, sozinhas porque perceberam que estar sozinho é bem diferente de se sentir sozinho. Essas pessoas aprenderam a tirar partido da sua própria companhia e não temem o silêncio. Essas são as pessoas felizes. As que sabem estar na solidão, apreciá-la no que ela tem de bom e serem felizes nessa situação. Aquelas que não se sentem incompletas apenas porque não estão junto de alguém. Aquelas que escolhem estar acompanhadas porque assim querem e não porque sintam que é uma necessidade para serem felizes. Aquelas que perceberam que existe uma solidão positiva cultivam essa mesma solidão. A elas pertence a felicidade porque perceberam que apenas se sente só aquele que está vazio.

 

Queres passear comigo?

Dia de conto! O primeiro conto depois das férias de agosto. A música escolhida é de Mariza, “Quem me dera”. A sugestão foi feita pela minha leitora de longa data, Luana Esteves. Espero que goste do resultado.

Leiam e, se gostarem, partilhem!

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Imagem de Lisajules por Pixabay

“O meu amor é puro
É tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria

Quem me dera
Abraçar-te no outono, verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração…”

                                            “Quem me dera” – Mariza

 

Finalmente aquelas intermináveis férias de verão tinham terminado. Hoje seria o dia de voltar para a escola! Hoje iria iniciar o seu quarto ano de escolaridade! Que orgulho! Sentia-se tão crescido! Manuel estava em pulgas para chegar à escola. A própria mãe, que o observava pelo canto do olho enquanto ele tomava o pequeno-almoço, estranhava toda aquela felicidade e euforia por causa do regresso às aulas. É um facto que Manuel mostrara-se, nos três anos anteriores, bem mais interessado pelos estudos e pelas suas tarefas que a sua irmã Henriqueta. Para esta, a escola mais não era do que uma lenta tortura a que se submetia dia atrás de dia, enquanto esperava pelas férias que mais cedo ou mais tarde chegariam. Ainda hoje, estando às portas de frequentar o décimo primeiro ano, era um desafio fazê-la levantar a horas para não chegar atrasada à primeira aula do dia!

Manuel, importas-te de ver se a tua irmã já se levantou? Já fui chamá-la duas vezes mas ainda não sinto qualquer movimentação no andar de cima.

Num dia normal, Manuel iria resmungar que era sempre a ele que cabia acordar a irmã e que ela era a irmã mais velha e devia ser a mais responsável. Mas hoje, para espanto da mãe, levantou-se e foi ver o que se passava no andar de cima.

Já está levantada, mãe. Mas ainda está na casa de banho. Posso ir sem ela? Não preciso da companhia dela. Ela atrasa-se sempre e, afinal, eu já sou um menino crescido! Posso bem ir sem ela!

A mãe de Manuel ficou a olhar para ele com um ar de interrogação no semblante. Tanta vontade de ir para a escola? Tudo bem que o período de férias já ia longo mas…nunca vira nenhum dos filhos com tanta vontade de iniciar o ano escolar! Podes, sim. Afinal conheces bem o caminho e não é assim tão longe. Mas antes terás de terminar o teu pequeno-almoço e, ao mesmo tempo, explicares-me a que se deve essa pressa toda para ir para a escola!

Ora, mãe! Pressa? Qual pressa? Apenas quero chegar a horas! E sim, é verdade, tenho algumas saudades dos meus colegas de escola. Sabes bem que não nos vemos, nem brincamos há tempo!

A mãe não quis insistir na questão mas considerou toda aquela conversa muito estranha. Como assim, não brincava com os amigos há tempo? Tinham passado o verão todo com os amigos, percorrendo a vila e todos os seus caminhos mais recônditos de bicicleta e terminando, inevitavelmente, o dia no rio que passava pela pequena vila. Que vontade estranha era aquela? Marina acabou por desligar da questão enquanto pensava “mais vale ter muita vontade de ir para a escola do que o contrário”…

Manuel saiu de casa, ainda olhou para a bicicleta mas decidiu que seguiria o caminho até à escola a pé. Sentia-se nervoso e ansioso e caminhar, sentir o ar puro da manhã, só iria fazer bem! Enquanto caminhava pensava se ela estaria lá. Só podia estar! Afinal, desde a semana passada que ele via as janelas da casa dela aberta! Que vontade que ele tinha de a ver! Ele bem tinha passado algumas vezes com a bicicleta em frente aos portões da casa dela mas nunca a tinha avistado. Pareceu, um dia, ouvir-lhe uns gritinhos divertidos, enquanto se ouvia o som dos saltos na piscina, mas não tinha certezas que fosse ela.

Manuel encontrou uns amigos pelo caminho e juntos seguiram até à escola entre umas brincadeiras e umas gargalhadas. Foi quando transpôs os portões da escola que sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Ali estava ela. Aqueles cabelos loiros não enganavam ninguém! Pareciam ainda mais loiros do que a última vez que a vira, em junho. E estavam ainda mais compridos! E mais bonitos! Sentindo a chegada de pessoas nas suas costas, virou-se. “Como é possível ela estar ainda mais bonita do que estava em junho passado?” – pensou ele. A verdade é que os olhos de Catherine estavam ainda mais verdes, o cabelo ainda mais loiro e o sorriso ainda mais verdadeiro. “Caramba, ela é mesmo uma deusa!”

É claro que o caro leitor já terá percebido qual era a razão da tão grande vontade de Manuel regressar à escola! Desde que vira pela primeira vez aquela menina tão diferente das meninas da vila, e tão bonita, que Manuel se tinha sentido irremediavelmente cativado por ela e pela sua beleza.

Catherine era uma menina que tinha chegado à escola, já o ano ia adiantado. Se a memória não o enganava, tinha chegado precisamente a 11 de março. Lembrava-se perfeitamente daquela beleza loira que tinha chegado pela mão da mãe. A professora tinha explicado que a menina se chamava Catherine e que ia passar a fazer parte da turma deles de terceiro ano. Tinha chegado há uns dias da África do Sul e ainda dominava muito pouco o português (para não dizer quase nada). Os pais tinham comprado a quinta do velho Ferreira (que estava abandonada há uns anos) e havia alguns meses que andavam a construir uma casa, estranhamente, toda feita de madeira. Agora que a casa estava pronta, tinham-se mudado finalmente para esta pequena vila onde queriam viver num maior contacto com a natureza, cultivando os seus próprios vegetais e criando os seus próprios animais. Os habitantes da vila achavam-nos um tanto ou quanto estranhos e não entendiam uma palavra do que diziam. Contudo, aos poucos foram-se habituando à presença deles, as línguas – portuguesa e inglesa – foram-se misturando, dando lugar a um dialeto em que todos se entendiam, melhor ou pior. Ao fim de poucas semanas tinham sido “adotados” pela vila e todos conversavam animadamente no Café Central, o único café que existia na vila. Quanto à filha deles, Catherine, passou a frequentar a escola da vila e em muito pouco tempo já percebia e falava o suficiente a língua portuguesa para conseguir socializar com os seus coleguinhas.

Poderei dizer-vos que desde a primeira vez que Manuel vira Catherine ficara encantado pela beleza dela. Tudo nela o deixava maravilhado e fascinado. Quando lhe ouviu um tímido “bom dia” naquele primeiro dia na escola pensou que nunca tinha ouvido uma rapariga com uma voz tão bonita. Pouco mais sabia dizer em português mas aqueles meses até ao final do ano foram de uma intensidade enorme. Em poucas semanas deixou de se sentir como um extraterrestre que não entende nada daquilo que a rodeia e passou a participar ativamente na sala de aula. A língua e a escola situavam-se nas maiores dificuldades que Catherine sentira. De resto, tudo tinha sido fácil. Integrara-se sem dificuldades de maior com os restantes alunos da escola e adorava esta pequena vila soalheira que lhe permitia ter uma liberdade que nunca tinha tido na África do Sul. As crianças têm uma capacidade de comunicar sem perceber uma palavra do que o outro diz espantosa. Como tal, rapidamente Catherine criou amizades com os meninos, com quem jogava futebol, e com as meninas, que admiravam as suas roupas diferentes e a sua beleza tão diferente da delas. É claro que no meio destes amigos se incluía o Manuel. Já tinham jogado futebol pertencendo à mesma equipa, já tinham andado a correr as ruas da vila de bicicleta e até tinham mergulhado no rio numa tarde de início de verão. Mas a verdade é que Manuel queria bem mais do que isso. Ansiava por poder passar umas horas apenas a sós com ela. Gostaria de a levar a passear pelas margens do rio da vila. Gostaria de partilhar um gelado com ela, ou umas gomas, tal como tinha acontecido um dia com o Ricardo que, sendo mais afoito, a tinha convidado. Mas a verdade é que até ao final do ano letivo Manuel nunca tinha tido essa coragem. E Catherine tinha, pura e simplesmente, desaparecido durante aqueles três longos meses.

Manuel pensou, em todas as férias, no que lhe teria acontecido e se teriam escolhido ir embora. Agora sabia que não tinham sido assim! Catherine e os pais tinham voltado para a vila nos inícios de setembro. Quando Manuel passou em frente à antiga casa do Ferreira e viu as persianas abertas sentiu que o sol se tinha tornado, subitamente mais quente e o céu mais azul! Ela tinha voltado! Poderia voltar a vê-la! Poderia voltar a brincar com ela! Poderia estar sentado na sala de aula a observar o seu lindo perfil, aqueles braços maravilhosos cobertos por uma ligeira penugem loira, ouvir aquela voz e aquele riso cristalino. O mundo fazia sentido, mais uma vez! Descobriu, já na sala de aula, que Catherine tinha ido visitar os avós e, mais tarde, ela e os pais tinham aproveitado as férias para conhecer Portugal. Por isso tinha desaparecido por tanto tempo!

Nunca um primeiro dia de aulas tinha sido tão esperado por Manuel e nunca se tinha sentido tão feliz por voltar à escola. Durante uma semana andou Manuel como quem anda nas nuvens! Poder vê-la, poder brincar com ela, poder estar perto dela era o suficiente para se sentir feliz. E mais um pouco de tempo e ele iria arranjar coragem para a convidar para irem ao Café Central comprar umas gomas que partilhariam enquanto caminhavam nas margens do rio! Chegava a sonhar com esse momento. Contudo, não era ele o único a sentir-se enfeitiçado por Catherine. Sentiu que um bloco de gelo lhe trespassava o coração quando, ao sair da escola, ouviu o Ricardo dizer-lhe: “então, encontramos a seguir ao lanche no rio?”…

Mais uma vez o Ricardo tinha tido a coragem que a ele lhe faltava. Convidava-a para uma atividade qualquer e ela aceitava!! Como podia ser?!

Manuel foi para casa sentindo-se zangado, irado consigo próprio! Fazia o caminho de regresso a casa com a irmã mas mantinha-se sorumbático, não pronunciando uma palavra que fosse. Henriqueta ainda o questionou sobre o que se passava mas da boca de Manuel apenas saiu um seco “Nada”. E assim foi todo o caminho. Henriqueta sentia que o irmão estava zangado e tentou, depois de perceber que ele não iria falar sobre aquilo que o incomodava, fazê-lo esquecer o assunto. Falou de tudo um pouco: sobre o seu dia nas aulas; sobre um acontecimento cómico que tinha acontecido na cantina; sobre uma música que tinha ouvido e que tinha adorado…O irmão ouvia, respondia com um monossílabo de quando em vez e com longos silêncios pelo meio. Henriqueta percebeu que o melhor seria deixar o irmão remoer os seus pensamentos em silêncio…o que quer que fosse, iria passar, mais cedo ou mais tarde.

Chegaram a casa e Manuel correu para subir as escadas e fechar-se no seu quarto. A mãe, que já os esperava para o lanche, ficou espantada a olhar para o filho mais novo que nem um boa tarde lhe tinha dito. Olhou interrogativamente para Henriqueta que apenas lhe disse que não sabia o que se passava com o irmão mas que ele não queria falar. É melhor deixá-lo estar um pouco sozinho, mãe. Ele está mesmo muito zangado.

A mãe, que conhecia bem os seus filhos, considerou que seria melhor mesmo deixá-lo pensar um pouco no que quer que o estivesse a preocupar. Mais tarde tentaria falar com ele.

Manuel só saiu do quarto para jantar e continuava pouco conversador. O ar de ira que se lhe lia no rosto tinha desaparecido mas continuava com um semblante triste. Assim que pôde, pediu desculpas, disse que tinha trabalhos para terminar e voltou a fechar-se no seu quarto.

Algum tempo depois ouviu bater à porta. “Não, mãe, não quero um leite morno. Obrigado!”.

– “Não é a mãe. Sou eu. Vim só ver se queres ver um filme comigo. Escolhemos um filme de terror. Um daqueles que a mãe nunca te deixaria ver! Vemos no meu quarto e ela nunca saberá.”

– Não, Henriqueta. Desculpa mas não tenho mesmo vontade…Vou ficar aqui…a estudar. E quando disse isso, puxou pelo manual de estudo do meio que estava largado em cima da cama, testemunhando que Manuel tinha estado a fazer tudo menos estudar.

Henriqueta sentou-se em cima da cama e olhou fixamente para o irmão. “Manuel, detesto ver-te assim. O que se passou hoje? Alguém te tratou mal na escola? Sabes que já falámos em bullying várias vezes. É isso?…”

Manuel sentiu que a irmã estava deveras preocupada com ele. Ela não merecia pensar que ele estaria a ser maltratado na escola. Depois de analisar os seus pensamentos um pouco, pensou que falar com ela até poderia ser uma boa opção. Afinal, ela era rapariga. Raparigas entendem raparigas, certo? E começou então a contar. Falou de Catherine, de como era bonita e simpática. Falou de como ele se sentia em ebulição por dentro sempre que a via. Contou-lhe de como estes dias tinham sido bons, pela sua presença e pela partilha de bons momentos. Assumiu, perante a irmã, que gostava mesmo dela e que gostava de a convidar para passearem pelas margens do rio enquanto partilhavam gomas. O ar zangado voltou ao seu semblante quando assumiu que não era capaz de o fazer. Sabia que não era capaz porque já tinha tentado mais do que uma vez! As palavras não saíam…ficava com a boca seca, com um ar tolo e não saía um som! E hoje…hoje tinha acontecido o pior! Ela tinha ido passear com o Ricardo porque ele era um rapaz a sério, corajoso e tinha-a convidado! Por isso ele estava tão zangado!

Henriqueta ouviu-o atentamente achando delicioso ver o irmão mais novo apaixonado. Que história bonita – pensou ela! Olhou para o irmão e, com a maior seriedade, disse-lhe: “Escreve-lhe uma carta. Assim, podes pensar em tudo o que lhe queres dizer sem teres medo de ficares com a boca seca. Só tens de ter coragem de lhe entregar a carta. Fácil! E assim ela ficará a saber o que sentes! Tens de te preparar é para a resposta dela, quer seja positiva, quer seja negativa”.

Depois de pensar um tempo no assunto, pareceu a Manuel que a ideia não era assim tão descabida. “Ajudas-me a escrever a carta, Henriqueta?”

– Claro que ajudo!

“Querida Catherine,

Escrevo esta carta porque acontece que não consigo dizer-te tudo o que penso a olhar-te nos olhos. Mas a verdade é que gosto muito de ti. Desde o primeiro dia que te vi, apaixonei-me. Amo-te! E posso dizer-te que O meu amor é puro./ É tão grande e resistente como embondeiro (a irmã tinha dito a Manuel que fazer uma referência às árvores tão habituais em África a iria sensibilizar. O facto  é que ele não fazia ideia do que era um embondeiro). Por ti eu vou onde nunca iria/ Por ti eu sou o que nunca seria! Quem me dera/Abraçar-te no outono, verão e primavera/ (…) Herdar a sorte e ganhar teu coração.

Agora já sabes o que sinto por ti. Queria saber se queres, no final das aulas, ir comprar umas gomas ao café e depois irmos comê-las, enquanto passeamos junto ao rio. Podes devolver-me a carta assinalando sim ou não.

– Sim

– Não

(assinala um, se faz favor)

E a carta estava assinada: Manuel Antunes

É verdade que grande parte da carta tinha sido sugerida pela irmã que estava naquela fase de ler e ver muitos romances. Mas, ainda assim, considerava que a carta estava bonita e que transmitia tudo o que ele queria dizer.

No dia seguinte Manuel acordou com a melhor disposição, sorrindo para a manhã e perspetivando o dia que teria pela frente. Não iria ter medo de lhe entregar a carta. Tinha tomado a resolução de a escrever e de lhe a entregar e assim iria fazer. É claro que esperava ter uma resposta afirmativa mas, mais importante que tudo era, por fim, ter tomado uma atitude. Pelo menos iria tentar. Se ela não aceitasse…é porque não tinha de ser. Mas pelo menos não ficaria a achar, eternamente, que tinha sido um cobarde!

E assim foi! Logo que chegou à escola e que viu Catherine, pegou no envelope e deixou-lho nas mãos, disfarçadamente, afastando-se enquanto sentia que era o homem mais corajoso do mundo. As aulas decorreram lentamente até ao intervalo das dez e meia. Manuel sentia que, de quando em vez, Catherine olhava para ele mas não conseguia perceber o olhar dela. Verdade seja dita, ele não olhava fixamente. Chegou o intervalo e Manuel sentia-se em brasas. O que lhe iria ela dizer? Mas, saíram para o intervalo, foram todos brincar e Catherine não lhe devolveu carta nenhuma. Manuel começou a ficar preocupado. Será que ela não ia nem devolver-lhe a carta? O intervalo acabou por ser um suplício. Manuel nem ousava levantar os olhos e passou a maior parte do tempo a passear de um lado para o outro. Assim que ouviu a campainha tocar precipitou-se para dentro da sala. Não queria falar com ninguém! Que viessem as aulas!

Quando se sentou à sua mesa é que a viu, largada em cima da mesa, com uma pequena flor por cima. Abriu a carta a medo e lá estava a carta, com… o SIM assinalado! Por baixo tinha uma pequena nota escrita: “Não percebi tudo mas à tarde explicas no rio. Beijo. Catherine”.

Quando saíram da escola ambos seguiram para o Café Central. Manuel fez questão de pagar as gomas. Afinal, ele é que a tinha convidado. Saíram e, enquanto caminhavam, Manuel sentiu a pequena mão dela procurar a dele. E assim seguiram, de mão na mão, a caminho do rio…e quem sabe, da felicidade.

Wangari Maathai – Mulher, professora, ambientalista e ativista política

Desde o mês de junho (em que vos falei de Amelia Earhart) que não trazia aqui ao blog a rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. Primeiro porque no mês de julho trouxe, na rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais”, o amor intemporal entre Frida Kahlo e Diego Rivera, e porque depois, em agosto, a página esteve de férias.

Contudo, hoje trago o regresso desta rubrica com uma mulher interessantíssima, que merece ser lembrada, por alguns, e dada a conhecer, a outros. Hoje venho falar-vos de uma mulher, professora, reconhecida ambientalista, ativista dos direitos humanos e que recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos seus contributos para um desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz. Note-se que foi a primeira mulher africana a vencer o Prémio Nobel da Paz! Venham conhecer ou relembrar a queniana Wangari Maathai.

Wangari Maathai nasceu na vila de Ihite, na Província central do Quénia (que, na época, era uma colónia britânica), a 1 de abril de 1940. Após concluir a escola primária, foi admitida num colégio católico para meninas, a Loreto High School. Concluiu os estudos secundários em 1959, e pretendia ingressar na Universidade da África Oriental, no Uganda. Contudo, venceu uma bolsa de estudo da Fundação Joseph P. Kennedy Jr. e prosseguiu os seus estudos nos Estados Unidos da América, em 1960. Em 1964 tornou-se na primeira mulher da África Oriental a ser bacharel em biologia e, em 1966, obteve o mestrado na mesma área, passando a trabalhar como investigadora em medicina veterinária na Alemanha. Em 1971 recebe o doutoramento em anatomia pela Universidade de Nairobi. Também neste caso foi a primeira mulher da África Oriental e Central a receber o grau de doutor.

Wangari crescera observando as árvores a serem derrubadas pela indústria madeireira. O desmatamento do Quénia destruiu boa parte da diversidade local, tornando-o num país de temperaturas elevadas e seco. Wangari cedo percebeu que deveria lutar contra esta situação. Diz-se que em África as árvores são símbolos de paz, pelo que ainda se mantém, em muitas comunidades, uma tradição antiga: sempre que há um conflito, a pessoa mais velha planta uma árvore entre os dois lados em disputa, numa cerimónia que sinaliza o início da reconciliação entre as partes. Terá sido essa herança cultural, ecológica e pacifista a inspirar Wangari Maathai a fundar, em meados dos anos 70, o “Movimento Cinturão Verde” – uma organização não-governamental centrada na promoção e proteção da biodiversidade africana, na criação de empregos (principalmente nas áreas rurais) e na promoção do papel da mulher na sociedade. Wangari percebeu que a desflorestação era um grande fator de pobreza e instabilidade em África, visto que destruía grande parte da biodiversidade e reduzia a capacidade das floresta conservarem água (recurso escasso na região). Como é habitual em situações de insegurança social, são as mulheres e crianças as que sofrem mais. Por isso, Wangari iniciou uma campanha de reeducação ambiental com um grupo de mulheres interessadas em mudar o paradigma. Aos poucos conseguiu conquistá-las, demonstrando que o plantio de árvores proporcionava uma vida melhor para todas, com empregos, comida e uma melhoria do solo. Demonstrou que as árvores de raízes extensas a profundas seguravam as partículas de terra em blocos, impedindo a deslocação dos solos por efeitos da chuva e do vento. Para além disso auxiliavam na manutenção de lençóis freáticos. Permitiam ainda o retorno e a chegada de animais expulsos pela degradação, a manutenção da biodiversidade e diminuía o risco de extinção de espécies confinadas a pequenos espaços florestais.

Contudo, o passe de génio de Wangari foi aliar à necessidade de restauração das áreas florestais uma outra necessidade urgente: dinheiro para as famílias. Ela conseguiu angariar um fundo monetário para pagar uma pequena quantia por cada árvore plantada. Para além disso, criou seminários e grupos de discussões para informar os participantes dos seus direitos civis e envolvê-los na educação ambiental. Estávamos em 1977.

O Movimento e as mulheres do Quénia conseguiram plantar (diz-se) mais de 30 milhões de árvores em toda a África (há que ter em conta que o próprio Movimento se espalhou por outros países de África). Wangari ficou conhecida internacionalmente e, devido a isso, foi convidada a participar e a pronunciar-se, em várias ocasiões, em sessões especiais da Assembleia Geral da ONU, quando se debatia a Terra e o ambiente.

Foi membro ativo no Conselho Nacional de Mulheres do Quénia (entre 1976 e 1987). Lutou pela democracia contra o regime opressivo existente no Quénia. Foi presa algumas vezes pela sua atuação. Ela costumava dizer que “quando se começa a trabalhar seriamente com os temas ambientais, a arena passa a ser os direitos humanos, os direitos da mulher, os direitos ambientalistas, os direitos das crianças, isto é, os direitos de todo o mundo. Uma vez que se começa a realizar essas associações já não se pode continuar, simplesmente, a plantar árvores”. Em 2002, nas primeiras eleições livres do seu país, foi eleita como membro do Parlamento queniano. Em 2003 foi nomeada Ministra do Ambiente, Recursos Naturais e Vida Selvagem. Foi nesse mesmo ano que fundou o Partido Verde do Quénia.

Em 2004 recebe o Prémio Nobel da Paz. Durante o anúncio da vencedora do prémio o comité declarou que “Maathai resistiu corajosamente contra o antigo regime opressivo no Quénia. As suas formas de ação únicas contribuíram para chamar a atenção nacional e internacional para a opressão política. Ela serviu de inspiração para muitos na luta pelos direitos democráticos e tem especialmente encorajado as mulheres a melhorar a sua situação”. Em poucas linhas resumiram a força e a importância desta mulher para o Quénia, para África e para o mundo!

Foi nomeada como Mensageira da Paz da ONU, em 2009, em reconhecimento do seu profundo compromisso com o meio ambiente. Nos últimos anos cooperava com a ONU num projeto que visava plantar um bilhão de árvores. Em 2010 tornou-se curadora do Fundo de Educação Ambiental da Floresta Karura, criado para proteger a terra pública. Aos 70 anos, em parceria com a Universidade de Nairobi, fundou o Instituto Wangari Maathai para Estudos sobre Paz e Meio Ambiente (WMI).

Wangari foi mulher queniana, professora, ambientalista e ativista política. Na sua luta congregou uma boa parte dos temas que eram importantes para o seu país. Lutou pela igualdade e democracia contra um regime autoritário e ocupou lugares que ainda hoje é raro serem ocupados por mulheres. Lutou pelo meio ambiente porque este é fundamental para alcançar a paz – trata-se de partilhar os recursos naturais de forma equitativa para reverter a distribuição injusta que existe atualmente no mundo. Por tudo isso merece ser vista como uma heroína e tem lugar na fila da frente das “mulheres que fizeram a diferença”.

Wangari Maathai viria a falecer, em Nairobi, a 25 de setembro de 2011, vítima de cancro.

Depressão pós-férias??

E eis-nos de regresso! É verdade! A “Steff’s World – a Soma dos Dias” terminou as suas férias e inicia este novo período com uma crónica que versa exatamente sobre as férias,  ou melhor, sobre o final das mesmas.

A crónica em questão foi publicada, dando continuidade à parceria existente há uns largos meses, na edição do Jornal Registo deste mês.

Espero que a leitura seja aprazível para os “caríssimos leitores” e que as dicas cheguem a tempo! 🙂

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Lamento ser a portadora de más notícias mas a verdade é que sim, está aí o temível fim do mês de agosto. E que quer isto dizer? Quer dizer que temos à porta um dos meses mais difíceis do ano: o terrível mês de setembro, o mês da depressão pós-férias, o mês que apesar de se apresentar, quase sempre, de céu azul e sol brilhante, nos parece mais sombrio e cinzento que um mês de muita chuva no inverno. Numa só frase: as férias estão a acabar e o regresso ao trabalho está já aí ao virar da esquina! Pausa para respirar…eu sei que não é fácil encarar esta realidade!

Sei que muitos de vocês estão, quando pensam nisso, com uma ligeira sensação de morte na alma. Questionam-se, neste preciso momento, onde irão encontrar forças para aguentar estes onze meses que nos surgem pela frente. É claro que outros há que me dirão que gostam muito de trabalhar e que anseiam por reencontrar o seu local de trabalho e os seus colegas. Mas, convenhamos, todos nós, de uma forma mais ou menos intensa, estaremos a sentir uma pequena “depressão pós-férias”. Todos estaremos a questionar onde iremos encontrar a motivação para trabalhar estes longos meses que temos pela frente, onde iremos encontrar a vontade para sorrir e fazer conversa de circunstância com os colegas, quando a vontade é de estar no silêncio, onde iremos encontrar forças para levantar cedo todos os dias de manhã (essa é a minha maior dúvida). E, quase poderia apostar que a maior parte daqueles que se encontram a ler a crónica neste momento já consultaram o calendário para verificar em que dias calham os próximos feriados nacionais! Respirem fundo (e esta informação é para quem ainda não consultou o calendário) meus amigos: até dezembro, só vislumbro um fim-de-semana prolongado! Faça-se silêncio para recuperarmos o fôlego após essa informação…

A verdade é que, ainda que pareça que estou a ser exagerada naquilo que estou a dizer o regresso ao trabalho não é tão fácil como gostaríamos de acreditar e todos, de um modo mais ou menos intenso, sentimos uma pequena depressão, um pequeno stress pós-férias. Esse stress pode manifestar-se como referi, numa enorme dificuldade em levantar cedo (até porque, durante as férias, os horários, normalmente, ficam trocados), numa pouca vontade de largar a “roupa de verão e o chinelo” pela roupa, habitualmente mais formal, do dia-a-dia num emprego (conheço uma pessoa que diz sofrer horrores quando troca o calção pelas calças!) ou até nalguma dificuldade em reencontrar o fio-à-meada (Perceber em que ponto tinham ficado as nossas tarefas antes das férias). Ainda assim, esta “depressão pós-férias” pode ser mais intensa e manifestar-se fisicamente em dores musculares, dores de cabeça, insónias, ansiedade e até problemas gastrointestinais.

“Estarei em depressão?” “Que poderei fazer quanto a isso?”- serão as questões colocadas, aqui chegados. Posso dizer-vos, antes de mais, que não existe, à partida, razões para preocupações de maior. Ainda que a palavra “depressão” nos possa assustar um pouco, não podemos olhar para esta condição como uma condição clínica mas apenas como uma maior dificuldade em adaptar-se, de novo, às exigências do trabalho. Ainda assim, o melhor será não sentir qualquer tipo de sintoma pelo que algumas medidas podem ser tomadas antes de voltar para que essa transição “férias-trabalho” possa decorrer de forma mais calma e menos agressiva.

A primeira grande medida a ser tomada – e se tiver essa possibilidade – é a de tirar férias de forma faseada. Ter um mês completo de férias até pode ser bom para algumas pessoas. Contudo, pensar que os próximos onze meses não terão qualquer tipo de descanso a não ser o fim-de-semana poderá ser razão para nos mergulhar na mais profunda tristeza. Tendo essa possibilidade, faça férias faseadas.

Outra medida que me parece ser eficiente é a de não transitar diretamente do local de férias para o local de trabalho. Tentar ter uns dias de descanso e dolce fare niente em casa, sem grandes correrias, poderá ajudar-nos a preparar, física e mentalmente, para o regresso ao trabalho. E porque não aproveitar esses dias em casa para preparar o primeiro dia de trabalho? Ir a um cabeleireiro, arranjar as unhas, comprar uma roupa nova. Sei que pode parecer fútil mas o facto de nos sentirmos bem e nos sentirmos bonitas ajuda, em muito, a nossa predisposição para o dia. Recuemos uns anos nas nossas vidas. Não era isso que fazíamos para o primeiro dia de aulas? Tentávamos ir com a nossa melhor roupa e com o nosso melhor aspeto. Queríamos que os nossos amigos e colegas ficassem a pensar que o verão e as férias tinham sido generosos para connosco. E o que fazíamos mais? Claro, adquiríamos novo material escolar porque aquele seria o ano em que iríamos trabalhar a sério, com afinco. Porquê perder esses bons costumes? Ainda hoje, assumo, gosto de me apetrechar de novo material escolar sempre que inicia mais um ano de trabalho. Portanto organizar o material com que temos de trabalhar ou até o próprio local de trabalho, tornando-o mais aprazível ajudará, com certeza, a tornar mais fácil o regresso ao trabalho.

Para iniciar um novo ano de trabalho com um sorriso na cara há que, também, retomar os bons e velhos hábitos. Regressar à alimentação um pouco mais cuidada, regressar ao exercício físico, adquirir uma rotina mais ativa. Tais práticas irão ajudar, com certeza, a enfrentar com melhores olhos este regresso ao trabalho.

Acima de tudo convém não esquecer que há vida para além das férias. Existem fins-de-semana, existirão alguns (poucos) feriados. Reúnam com amigos e família para um café, um jantar, um passeio, relembrem as férias que passaram, programem as próximas. A perspetiva de dias mais positivos ajuda-nos a melhorar a nossa ligeira depressão, acreditem!

E, por último mas não menos importante: sejam agradecidos. Procurem todos os dias uma razão para estar feliz nos empregos que têm. Por difícil que isto, por vezes, possa parecer, encontramos, quase sempre, se procurarmos, uma razão para sorrir e agradecer…

E com isto vos desejo um bom setembro e um bom regresso à vossa atividade profissional!

Para os que já regressaram uma vez que usufruíram das férias mais cedo…espero que a depressão pós-férias já tenha passado!

Niksen, a arte de fazer nada

Esta será a última crónica antes de o blog ir de férias durante o mês de agosto. Por isso, o tema que vos proponho hoje é o Niksen, a arte de fazer nada.

A crónica em questão foi também publicada no P3 do Público (a colaboração com o P3 já antiga mas tem estado mais em pausa).

Link para a crónica no P3: https://www.publico.pt/2019/08/03/p3/cronica/niksen-a-arte-de-nao-fazer-nada-1881564

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Foto by Milan Popovic on Unsplash

Estamos no final do mês de julho…está aí à porta o mês de agosto, mês de férias por excelência. É um facto que este ano parece que muitos foram os que escolheram usufruir do período de férias nos meses de junho e julho mas acredito que ainda são muitos os portugueses que, tal como eu, apenas podem usufruir das férias durante o mês de agosto. O certo é que o verão é, mais cedo ou mais tarde, aquele período em que a maior parte de nós goza de um período de férias mais ou menos longo que nos permite retemperar forças para mais um ano de trabalho que surgirá, mais coisa menos coisa, pelos inícios de setembro.

São estes os meses (julho e agosto) em que decidimos que iremos fazer tudo aquilo para o qual não tivemos tempo durante todo aquele interminável ano: ler, atualizar filmes e séries que se encontram pendentes há tantos meses, levantar cedo e praticar aquela corridinha ou aquela voltinha de bicicleta para as quais já não nos sentíamos com força nos últimos tempos e passear, claro! Iremos, como é suposto num país em que o verão é tão soalheiro e quente, passar dias nas praias e nas piscinas. E, tal como todos os anos, iremos chegar ao final das férias a sentirmo-nos mais cansados do que estávamos no início das mesmas e a pensar –  só para nós mesmos porque não temos coragem de o admitir aos outros – que precisamos de férias das próprias férias. A verdade é que acabamos por ter ainda mais atividade durante os dias de férias do que durante os longos meses de trabalho. Não recuperamos fisicamente até porque não se podem recuperar 11 meses de desgaste físico e/ ou mental em pouco mais de três semanas (na melhor das hipóteses) e porque, sobretudo, não nos permitimos parar um pouco e, efetivamente, nada fazer.

Deste modo, e tal como em todos os outros anos, iremos pensar que necessitamos mudar de vida e que setembro vai ser, mais uma vez, o mês das decisões (à semelhança do que acontece com o primeiro dia do ano). Iremos aprender a levar a nossa vida com mais calma, a não nos deixarmos levar pelo stress, aprender a controlar a ansiedade, aprender a dormir com qualidade e as horas que é suposto, viver ao máximo cada momento, cuidar mais da nossa saúde física e mental, praticar mais exercício, conseguir encontrar tempo para nós próprios e para o nosso bem-estar e, claro, focar-nos em reforçar e melhorar os nossos níveis de motivação ou até a nossa autoestima. No fundo, iremos ser mais felizes.

E tal não será difícil uma vez que, nunca como agora, existiram as ferramentas para nos ajudar a alcançar todos estes propósitos. Por um lado, proliferam como cogumelos os livros de autoajuda nas livrarias. Por outro, e com um smartphone sempre ao nosso alcance, estão também à nossa disposição as suas apps de saúde, fitness, promoção de resiliência e de bem-estar. As escolhas são muitas e variadas e os preços também. Contudo, a questão que se me coloca é: “necessitaremos mesmo de todas essas “apps” e destes livros de autoajuda?”

Parece-me que não. Aquilo que, quanto a mim, necessitamos é de parar, estar quietos e respirar profundamente, sem pensar nem fazer nada. No fundo, o que estou a defender é que todos precisamos de pôr em prática a tendência holandesa a que deram o nome de Niksen. E o que é isso do Niksen?

Poderia resumir numa só frase o que se entende por Niksen: é a capacidade de não fazer nada e ser feliz. E quando digo nada, é nada mesmo. É não ter qualquer objetivo a ser atingido naquele momento. Praticar o niksen é ter a capacidade de desligar completamente do mundo que nos rodeia e até de nós próprios. Quando escolhemos ter um tempo para nós a verdade é que aproveitamos para ler, para ver televisão ou até mesmo para trabalhar no nosso desenvolvimento pessoal. Para os praticantes de niksen, até esse aspeto é retirado para apenas se trabalhar no aspeto de não fazer nada.

Dito assim, com essa simplicidade, torna-se quase risível. Todos temos uma pequena voz neste momento a dizer-nos: “é para não fazer nada?! Nisso eu sou bom! Vamos lá!”.

Mas a verdade é que num mundo que gira tão depressa e em que estamos sempre ligados, será assim tão fácil desligarmos? Provavelmente não! E é por isso que praticar o niksen é algo que tem de ser aprendido. Sugere-se iniciar esta prática por 10 ou 15 minutos diários, alargando esses minutos até aos 60 minutos quando tal for confortável para o praticante. E o que se fará durante esses minutos? Reforço, uma vez mais: nada! A ideia é apenas estar sentado e observar, a uma janela (por exemplo) o mundo. Sentar-se afastado de tudo o que seja computador, smartphone, televisão. Fazer-se acompanhar de alguma bebida que nos seja agradável e limitarmo-nos a estar, observar. Dar um passeio também poderá considerar-se praticar o niksen. Mas, volto a repetir, longe de qualquer objeto tecnológico. Passear só porque sim e não numa caminhada onde estaremos a contar os passos, o tempo em que caminhámos, as calorias que queimámos. Apenas caminhar, observando o que nos rodeia, limitando-nos a praticar o ato mecânico de caminhar.

Dizem os praticantes de niksen que tal atividade (ou seria melhor dizer, inatividade?) permite reduzir a ansiedade e o stress, ao mesmo tempo que fortalece o sistema imunitário. É referido que este “sonhar acordado” (efeito inevitável destes momentos de não fazer nada) poderá aumentar a criatividade dos seus praticantes, ajudar a encontrar soluções para vários problemas, tornando as pessoas mais decididas e com raciocínio mais rápido.

É certo que nos últimos anos foram várias as “modas” que foram aparecendo neste sentido de melhorar a nossa qualidade de vida, permitindo-nos atingir o bem-estar e a almejada felicidade. Tivemos o hygge, o segredo dinamarquês para atingir a felicidade, e o Lagom dos suecos. Contudo, a palavra de ordem hoje é o niksen. E é esta a minha proposta: comecem a praticar o niksen desde já nas vossas férias, preparando o vosso regresso ao trabalho, e iniciem a uma nova forma de estar na vida pessoal e profissional menos ansiosa, com mais bem-estar e mais feliz!

Um amor acidentado

Com julho já quase a terminar, chega a vez do “Conto do mês” aqui na Steff’s World – a Soma dos Dias. Como estamos já em ambiente de férias (ou quase) escolhi trazer-vos um conto ligeiro, recheado de bons sentimentos.

Como sempre, o conto foi escrito tendo em conta versos de uma música. Desta vez, os versos foram retirados de “O Calhambeque” de Roberto Carlos, na proposta de uma das leitoras mais assíduas do blog, a querida Vitalina Espada. (Espero que goste, Vitalina)!

Parem a “vida” um pouco e gastem uns minutos a ler o conto deste mês!

Enjoy!!!

Tempo de leitura: 12 minutos

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Foto de Marc A. Sporys on Unsplash

“Mandei meu Cadillac pro mecânico outro dia
Pois há muito tempo um conserto ela pedia
E como vou viver sem um carango pra correr
(…)

Com muita paciência o rapaz me ofereceu
Um carro todo velho que por lá apareceu
Enquanto o Cadillac consertava eu usava
O Calhambeque

(…)

Saí da oficina um pouquinho desolado
Confesso que estava até um pouco envergonhado…”

                                                           “O Calhambeque” – Roberto Carlos

Miguel, meu querido, está na hora de ires deitar. Aliás, passa largamente da hora, portanto, dá um beijo ao teu avô e vamos lá vestir pijama, lavar dentes e deitar. Sem mais conversas!

– Ó ‘vó! Ainda é tão cedo! Lá em casa nunca me deito a esta hora! A mãe deixa sempre deitar um pouco mais tarde. ‘Vô, diz à avó que são 22.30! É muito, mas muito cedo mesmo!

Miguel, à semelhança de todos os verões que se lembrava de ter vivido, passava a maior parte dos três meses de férias do verão, na casa dos avós. Era uma situação que agradava a todos. A mãe, que tinha de trabalhar a maior parte destes três meses, sabia que o filho estava bem tratado e, mais do que isso, tinha a oportunidade de passar as férias da sua vida. Podia contar com os pais (e só com eles) para tratarem do seu filho tão bem ou melhor que ela. Desde que se tinha divorciado que o pai de Miguel se tinha demitido das suas funções de progenitor e os avós paternos, ainda que telefonassem várias vezes ao Miguel, nunca o tinham convidado para a sua casa e nunca se tinham oferecido para ficar com ele. Assim sendo, restava a Elisabete o apoio dos seus próprios pais ou inscrever o filho num qualquer campo de férias. Contudo Miguel escolhia sempre ir para casa dos avós. Para ele o verão valia por todo um ano de trabalhos e deveres. Os pais de Elisabete viviam no campo e isso proporcionava a Miguel toda uma série de atividades que o divertiam e entretinham. A criança passava aqueles dias a levantar cedo, a regar as hortas com o avô, a tratar dos coelhos, galinhas e cabras, entre outras atividades que todos os dias os avós desenvolviam. Para além disso, os avós tinham um burro – o Isaías – que fazia as delícias de Miguel: passeavam com ele até os campos e “agriculturavam” alguma coisa pela manhã enquanto Isaías pastava. Durante a tarde, quando o calor era demasiado intenso para se andar na rua, o avô dormia uma sesta enquanto o Miguel e a avó passavam o seu tempo, lendo, tomando banho de piscina ou realizando alguma “experiência” culinária: bolos e doces eram sempre os que mais interessavam ao Miguel. Estes meses passados com os avós eram de uma riqueza enorme para Miguel. A verdade é que ele não se identificava com a cidade e muito menos com as brincadeiras da cidade. É claro que tinha amigos lá em casa, mas as brincadeiras passavam, a maior parte das vezes, por um qualquer jogo de computador e ele preferia, de longe, esse contacto com a natureza, essa liberdade que lhe era negada na cidade. Portanto, estes três meses de liberdade eram os melhores tempos do ano para Miguel. É claro que para os pais de Elisabete – Maria e Joaquim – ter o neto perto deles durante tanto tempo era uma dádiva dos céus. Apenas tinham aquela filha e aquele neto e tê-los por perto era a alegria daquele velho casal. Assim, não só passavam tempo de qualidade com o neto como viam mais vezes a sua própria filha, uma vez que Elisabete vinha ver o filho todos os fins-de-semana. Sem dúvida que o verão era, para eles, o tempo de viver em pleno: assim acontecia com a natureza e assim acontecia com eles.

Miguel adorava estar com os avós. As únicas birras aconteciam à hora de deitar. Os avós deitavam muito cedo. E o próprio Miguel, por ser ainda uma criança muito nova, precisava de umas boas horas de sono para recuperar de toda a atividade diária. Contudo, a verdade é que ele nunca tinha sono: queria sempre ficar a ver mais um desenho-animado, ou ficar a brincar com o cão Rex ou simplesmente ficar no alpendre a observar a noite e as estrelas…

Vamos, Miguel – disse Maria – tens mesmo de ir deitar. Amanhã tens de levantar cedo se quiseres ir com o avô e com o Isaías à feira!

– Ok, vó Maria. Mas então contas-me uma história para eu adormecer?

– Conto sim, meu amor. Vamos então?!

Miguel levantou-se, dando a mão à avó. Quando iam a caminho do quarto, Maria mandou-o vestir o pijama e tratar da sua higiene enquanto ela ia buscar uma caneca de leite para o ajudar a adormecer.

Quando já estava instalado na sua cama a avó começou então a contar uma história para ajudar Miguel a adormecer:

– “Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Certo dia…”.

– Avó! Não quero que me contes essa! Não me apetece ouvir essa! Quero a do calhambeque! Quero ouvir a TUA história!”

– Outra vez? Mas eu contei-te essa ainda a semana passada!

– Mas eu quero ouvir essa! Essa é bonita! E faz-me rir!

– Certo – disse a avó – sabes, Miguel, tudo começou há mais de 40 anos. Estava um dia de trovoada, daqueles que acontecem uma vez no ano. Chovia tanto que se diz que naquele dia praticamente caiu a água que deveria ter caído num mês inteiro. O teu bisavô, o meu pai, tinha discutido comigo logo ao pequeno-almoço. O dia estava de temporal e, segundo ele, eu não deveria levar o carro para o trabalho. Era muito perigoso. Ele próprio me levaria, dizia ele, ao serviço e me iria buscar, no fim da tarde. O teu bisavô sempre achou que conduzir não era uma atividade própria de uma mulher, porque achava que todas conduzíamos mal e éramos um perigo na estrada. Tinha sido uma luta enorme para eu comprar o meu carrinho. O meu pai achava que, já que trabalhava, devia poupar o meu dinheiro para quando um dia casasse poder participar na compra de uma casa e para ter a minha própria independência. Era totalmente contra a compra de um carro uma vez que eu podia ir para o trabalho de autocarro. Contudo, Miguel, esta tua avó era muito teimosa! Para começar, eu nem sabia se queria casar (ainda que nem me atrevesse a contar isto ao meu pai) e depois eu queria mesmo era a minha independência, não estar presa a horários de autocarros e aos seus percursos. Queria poder ir onde muito bem me apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Por isso, assim que consegui poupar algum dinheiro lá fui eu comprar o meu primeiro carro. É claro que houve discussão em casa, que tinha umas ideias demasiado modernas para os gostos do meu pai mas a minha mãe lá o conseguiu acalmar e, no fim, o meu pai acabou por aceitar o meu famoso “Lindocar” como eu o chamava. Era um Fiat 127, branco e eu achava-o o carro mais bonito que andava na estrada. Era todo o meu orgulho. É claro que, por isso, não perdia uma oportunidade de o conduzir. Não seria um miserável dia de chuva, um dia em que parecia que S. Pedro tinha estacionado todas as nuvens deste mundo por cima de Portugal, que me iria impedir de conduzir o meu fabuloso Lindocar. Sabes, Miguel, ainda hoje tenho saudades desse carro.

– E então, avó, sempre saíste nesse dia com o carro? Mesmo sem o teu pai querer?

– Sabes, Miguel, eu era um pouquinho afoita. Muito decidida e de ideias fixas. Tinha dito que ia trabalhar e levaria o carro e não havia volta a dar. Por isso, se bem o disse, melhor o fiz. Vesti a gabardina, abri um chapéu-de-chuva e lá fui eu a correr até o meu Lindocar, tentando não me molhar muito, até entrar no carro. E lá ia eu, na minha calma, a caminho do trabalho, quando sinto atrás de mim um carro a aproximar-se a uma velocidade estonteante mas meio aos solavancos, numa condução completamente tresloucada, sobretudo para um dia de chuva como aquele.

– Eu não acredito que estás a contar outra vez esta história ao miúdo! Ainda não reparaste, Miguel, que sempre que a tua avó conta esta história ela inventa mais algum pormenor? Conta sempre um chorrilho de mentiras sobre mim, é o que te digo!

– Então conta tu o resto, avô. Senta-te aqui connosco e conta-me tu o resto da vossa história!!

Joaquim não se fez rogado, até porque começava a sentir-se muito só naquele alpendre enquanto se conversava tanto naquele quarto. Então começou o avô a contar:

O teu avô, Miguel, ainda hoje é um apaixonado por carros. Quando era mais novo, então, procurava sempre ter carros novos, último modelo. Tenho de assumir que o meu pai me ajudava nesse meu gosto. Achava que “o filho do dono da fábrica” devia andar num carro que dignificasse a imagem da família pelo que nessa altura eu andava a conduzir um Cadillac Seville preto, magnífico. Quando andava na estrada sentia que toda a estrada era minha, que ninguém tinha um carro tão veloz como o meu, que ninguém tinha um carro tão seguro como o meu. E o meu grande problema era mesmo esse excesso de confiança…de quando em vez, lá ia um risco, uma pequena amolgadela, … Eu ia escondendo isso do meu pai tanto quanto podia, na esperança de o poder mandar arranjar, logo que possível. Ora a hipótese surgiu quando o meu pai me informou que se iria deslocar aos Estados Unidos para fechar um negócio. Não estaria pelo país nos próximos 15 dias pelo que pedia ao filho – ou seja, a mim – para estar atento à fábrica e ao seu funcionamento. E foi nessa altura que aproveitei para mandar «o meu Cadillac pro mecânico…/ pois há muito tempo um conserto ele pedia». É claro, Miguel, que eu me questionava: «como vou viver sem um carango pra correr, sem o Meu Cadillac?». Como iria eu trabalhar, tomar conta da fábrica? E foi aí que «com muita paciência o rapaz me ofereceu/ Um carro todo velho que por lá apareceu». Miguel, era a velha Renault 4 L que ainda está ali na garagem. Já nessa altura ela era velha e estava bem mais maltratada do que está agora. Um verdadeiro calhambeque vergonhoso. O certo é que enquanto «o Cadillac consertava eu usava/ o Calhambeque». Nessa época, Miguel, eu assumo que era um jovem um pouco arrogante, convencido que tinha o mundo a meus pés. Modéstia à parte, era jovem, bem-parecido, conduzia um bom carro…a verdade é que as meninas faziam fila à minha porta!…

Maria pigarreou ligeiramente como que dando a entender que não seria tanto assim. Miguel soltou um pequeno riso.

Assumo que «saí da oficina um pouquinho desolado./ Confesso que estava até um pouco envergonhado» com aquela carripana. Ainda por cima, o raio do calhambeque andava só aos solavancos, ora acelerava, ora travava…parecia que tinha vida própria. Para mais num dia que parecia que o céu nos haveria de cair em cima com tanta chuva!

Maria voltou a tomar a palavra: – Já estás a prever o que aconteceu, não já, Miguel? O teu avô nunca foi um grande condutor como ele tanto gosta de se gabar. Ia eu com todos os meus cuidados na estrada, tentando fugir às poças de água quando aquela velha e feia Renault abalroou o meu rico Lindocar. Senti um empurrão enorme e por instantes nem consegui perceber o que tinha acontecido. Travei e encostei. Continuava a chover torrencialmente. Nem queria acreditar no que tinha acontecido! Aquele louco que vinha atrás de mim a conduzir uma velha Renault 4 tinha acabado de bater no meu rico Fiat 127. Tinha-me amolado toda a parte de trás do carro. Fiquei furiosa. O teu avô (jovem que eu não conhecia) saiu do carro com o ar mais pesaroso do mundo, já a pedir desculpas, que não conhecia o carro, que aquela Renault parecia ter o demónio dentro dela, que pagava os estragos… Mas eu estava tão zangada, Miguel! Olhava para o meu carro e sentia fúria ao mesmo tempo que sentia tristeza. Pensava na cara do meu pai quando chegasse a casa com o carro todo amassado. Para dizer a verdade, mal conseguia ouvir o que dizia o jovem rapaz ao meu lado.

– Já eu – disse Joaquim – não estava muito preocupado com os estragos. Nem lembro do estado em que ficou a 4L com essa batida. Apenas lembro de pensar que devia ter furado algo de importante uma vez que, mesmo debaixo daquela chuva, se via algum fumo e uma poça de óleo a formar-se por baixo dela. Mas a verdade é que todo eu era olhos para a tua avó, Miguel. Ela era, apenas e só, a mulher mais bonita que eu tinha visto. Pedi-lhe para entrarmos no carro dela para conversarmos, para eu lhe deixar o meu cartão. Assegurei-lhe que pagaria os estragos, que não tinha com que se preocupar. A tua avó tinha os olhos de um brilho quase metálico. Mais tarde percebi que ficam assim quando ela está muito zangada. Pensei que me ia espancar quando lhe pedi se me dava boleia até à fábrica!

– «O senhor deve achar que ainda não me prejudicou o suficiente? Bateu no meu carro, estou aqui a queimar tempo precioso, já devia estar a trabalhar e ainda me pede para o levar ao seu próprio trabalho? O senhor não tem noção alguma de coisa nenhuma, certo?» – foi essa a resposta da tua avó, Miguel. Mas quanto mais zangada ela ficava comigo mais eu ficava interessado nela. Para além da beleza estonteante, sentia-se um fogo na tua avó, uma força, uma firmeza de caráter que me faziam pensar que nunca tinha conhecido uma mulher tão interessante. Fiz o meu melhor sorriso, pedi desculpa, dei-lhe toda a razão e então pedi-lhe que me levasse, pelo menos, ao seu local de trabalho. Aí poderia pedir um táxi para seguir até à fábrica. Assim não a atrasaria mais e eu poderia tentar resolver toda aquela trapalhada.   

A tua avó acedeu. Aquela viagem até ao trabalho da minha Mariazinha passou a grande velocidade. Senti que tinha conhecido a mulher da minha vida. Posso dizer-te, Miguel, que existe amor à primeira vista porque foi exatamente o que aconteceu comigo assim que vi a tua avó.

– E tu, avó, também foi assim?

– Não, Miguel. Eu estava demasiado zangada para olhar sequer para a pessoa que tinha à minha frente. Só pensava que tinha de ir trabalhar, estava encharcada e tinha o meu carro todo amolado, que teria de ir para arranjo. Nos dias que se seguiriam teria de voltar a andar de autocarro, teria de ouvir o meu pai a dizer-me que, como sempre, ele tinha razão e devia ter deixado o carro! A verdade é que desabafei isto tudo com o teu avô até chegar ao meu trabalho. O teu avô só pedia desculpas e dizia que iria pensar em resolver toda esta situação que ele tinha provocado. Quando chegámos ao meu trabalho, trocámos contactos e o teu avô disse que iria tratar de tudo, que não me preocupasse. E, ainda hoje não sei porquê, mas a verdade é que acreditei no teu avô. Acreditei que ele iria resolver toda aquela trapalhada, acreditei na sinceridade que lhe lia no olhar… E, com o decorrer do dia, à medida que o tempo ia passando, a imagem do teu avô começou a pintar-se na minha memória com maior nitidez, comecei a pensar que, de facto, até tinha sido abalroada por um homem bem interessante.

Quando chegou a hora de sair do trabalho nem acreditei no que viam os meus olhos…o teu avô esperava, com um senhor a seu lado (que vim a saber mais tarde que era mecânico, para levar o meu carro) e um magnífico BMW M1 preto (que o teu avô pedira emprestado enquanto o pai não voltava dos EUA).

– Disse que iria resolver a situação. Aqui está o mecânico que irá levar o teu carro para arranjo e prometo que ficará como novo. Como o arranjo levará alguns dias, prometo que serei o teu “chauffeur” particular. Irei buscar-te a casa e levar ao trabalho até que voltes a ter o teu carro à disposição. Não aceito um não, é a minha forma de pedir desculpa. E quero acreditar que não teremos qualquer acidente nos próximos dias!

– Não fui capaz de dizer “não” ao teu avô. Quando subi para o carro tinha um ramo de flores à minha espera no banco da frente. O teu avô sabia ser um cavalheiro como nunca antes tinha visto. Antes de voltar para casa parámos para lanchar. A conversa foi bem mais amena do que a da manhã e posso dizer-te que os nossos olhos disseram bem mais do que as nossas palavras. E ainda nesse dia trocámos o nosso primeiro beijo.

Ambos contavam a história deles, olhando-se com o mesmo amor e ternura que tinham sentido desde sempre um pelo outro. Tinham sido felizes toda a sua vida e continuavam a sê-lo. O amor tinha-se desdobrado numa filha e, agora, neste neto. Maria acreditava, desde o primeiro dia que a sua relação com Joaquim estava destinada a acontecer, que estava escrito nas estrelas. Amava-o hoje com 70 anos com a mesma intensidade que o amara no esplendor dos seus 25 anos. E, acima de tudo, sabia que era amada com a mesma intensidade que amava.

Olharam para o neto que tinha, finalmente, adormecido. Levantaram-se e abraçados seguiram até ao alpendre onde, sentados, de mão na mão, ficaram a observar a serenidade da noite, não sentindo a necessidade de dizer mais nada, saboreando aqueles silêncios tão significativos que tanto dizem. Algum tempo depois o silêncio foi quebrado por Joaquim:

Amo-te.

– Sempre – respondeu ela.