Auschwitz está na moda?

A crónica que vos trago hoje aborda um tema que há algum tempo me tem vindo a incomodar. E é ela a ideia que estão na moda os livros que contenham no título a palavra “Auschwitz”, supostamente baseados em factos reais (Por vezes pouco mais que o local).

A Crónica em questão foi publicada, simultaneamente, no P3 do Público, com o título “A moda dos livros sobre Auschwitz” e pode ser lida no seguinte link: https://www.publico.pt/2020/09/19/p3/cronica/moda-livros-auschwitz-1931300

Aqui, na página, ou no P3, não deixem de ler e de dar a vossa opinião sobre o assunto!

Photo by Jean Carlo Emer on Unsplash

“Fotografem, façam filmes, reúnam testemunhos. A certa altura da História um idiota vai erguer-se e dizer que isto nunca aconteceu” – É atribuída a autoria destas palavras ao General Dwight D. Eisenhower (1945), após libertar um campo de concentração nazi. Não raras vezes dou por mim a pensar na clarividência deste general que, ao libertar um campo de concentração nazi solicitou que os países aliados enviassem jornalistas e fotógrafos para tomar notas, reunir provas documentais e noticiarem todas as atrocidades cometidas naqueles campos. Ele tinha noção, já em 1945, ainda os factos tinham acabado de acontecer que algum dia algum iluminado iria chegar e dizer que tal nunca tinha acontecido.

E o que nos diz a “história” posterior a 1945? Que, efetivamente, o momento de negar o que aconteceu não tardou assim tanto em chegar. Já não são poucas as vozes que se vão levantando, aqui e ali, promovendo aquilo que se convencionou chamar de “negacionismo” (Algumas pessoas preferem falar em “revisionismo histórico”). Várias são as personalidades que entendem  que o Holocausto, o genocídio de judeus durante a IIª Guerra Mundial não aconteceu ou não terá acontecido na maneira e nas proporções historicamente conhecidas.

Não sendo o propósito desta crónica abordar quais as razões que apontam os negacionistas para pôr em questão o holocausto não poderei deixar de referir que esta é, para mim, uma tentativa de diminuir e de menosprezar os crimes e horrores praticados nos campos de concentração e que, como tal, é para mim inaceitável.

Não sei se o fenómeno de que vos vou falar poderá ter alguma ligação com esta situação ou se estamos apenas perante uma nova moda no mercado da literatura. A verdade é que nos últimos tempos têm-se multiplicado os livros cujo assunto é, de algum modo, os campos de concentração, em particular o campo de concentração de Auschwitz. Todos sabemos que de tempos a tempos aparecem filões na literatura que são explorados até que se esgote o interesse no mesmo. O sucesso bombástico de “O Código da Vinci” de Dan Brown deu lugar a uma série de livros que seguiram o mesmo género: thriller de conspiração. O megassucesso de “As 50 sombras de Grey” deu lugar a uma quantidade insana de romances eróticos que tentaram replicar o estilo de E. L. James. Agora, pelos vistos, chegou a vez de escrever sobre Auschwitz e sobre, supostamente, algumas personagens que vivenciaram, de algum modo, os campos de concentração. Não necessitei de realizar uma pesquisa muito aprofundada para encontrar a série de títulos dedicados ao tema que agora vos deixo. Vejamos:

“O tatuador de Auschwitz” (que já tem uma espécie de sequela a que deram o nome de “A coragem de Cilka”; “As cartas perdidas de Auschwitz”; “A bibliotecária de Auschwitz”; “O carteiro de Auschwitz”; “O bloco das crianças”; “O rapaz que seguiu o pai para Auschwitz”; “As gémeas de Auschwitz”; “A rapariga de Auschwitz”; “A bailarina de Auschwitz”; “Irmãs em Auschwitz”, “O voluntário em Auschwitz”; “Aquela noite em Auschwitz”; “A fuga de Auschwitz”; “O mágico de Auschwitz”…

Gostaria de acreditar, como acima referi, que toda esta escrita seria uma forma de dar continuidade à vontade do General Eisenhower, de escrever para não esquecer, de escrever para preservar a memória. Mas a verdade é que a minha visão mais cínica pende mais para acreditar que se descobriu um novo filão para que todo e qualquer escritor venda livros: coloca-se “Auschwitz” no título e o sucesso é certo.

E aqui chegados, perguntar-me-ão por que raio isso me incomoda?

Poderei dizer-vos que me incomoda pelo facto de sentir que estamos a cair na vulgarização do tema. Qualquer “historieta” é apresentada sob o cunho do “baseado em factos verídicos” (mais que não seja, o facto da história se passar num campo de concentração/ extermínio que de facto existiu…). Parece que de tudo aconteceu nos campos de extermínio: romances, mais que muitos. Relações de amizade, mais que muitas. Aventuras, várias. Parece que tendemos a esquecer que a esperança de vida naqueles campos de concentração era extremamente limitada. Contam-nos histórias tão bonitas que até chegamos a acreditar que uma amizade entre uma criança alemã e uma criança judia poderia ser possível junto às redes que limitam um campo de concentração…

Se há algo que quero fazer na vida é visitar um campo de concentração. Até considero que é algo que todos devíamos fazer na vida. Penso que observar de perto as memórias que por ali ficaram poderá ajudar-nos a nunca esquecer para não permitir que a história se volte a repetir. Contudo, essas visitas devem ser realizadas com o respeito que nos merecem, no caso de Auschwitz, as mais de um milhão de pessoas ali falecidas.

Infelizmente vamos ouvindo aqui e ali, que também estes locais estão a ser banalizados. Os responsáveis pelo complexo já se viram na obrigação de solicitar que se evitasse tirar fotos que não fossem dignas das memória de todas as pessoas que ali foram vítimas (fotografias de pessoas a equilibrar-se na linha antiga de caminhos de ferro que transportava as pessoas que ali chegavam, por exemplo).

A sensação que me fica é que, mais que nunca, Auschwitz (e tomando aqui a parte – Auschwitz – pelo todo – todos os campos de concentração e extermínio) está na memória de todos nós. Mas não está da forma que é devido à memória de todos os que ali pereceram. A visão é cada vez menos de respeito, mostrando alguma inconsciência, indiferença e até ignorância sobre o que era um campo de concentração e de como decorria a vida lá. Muitos dos imensos livros que encontramos hoje em dia mais não fizeram que apresentar uma história romanceada num local de horror. E isto não é preservar a memória nem do local, nem das pessoas que lá pereceram, nem das barbaridades que lá foram cometidas.

Permito-me deixar-vos com uma proposta de leitura: “Se isto é um homem” de Primo Levi. Um livro escrito por alguém que descreve as suas experiências num campo de concentração, sem ceder ao melodrama, de uma forma objetiva. Uma obra imprescindível!

Winston Churchill e Clementine Hozier: 57 anos de amor

Neste mês de setembro, mês de regresso após as férias , é também mês de trazer de regresso a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – histórias de amor intemporais”. Para hoje escolhi trazer-vos a história de amor de um dos políticos mais conhecidos a nível mundial: Winston Churchill com aquela que foi a sua mulher, Clementine Hozier, durante 57 anos.

Clementine H. e Winston C.

Winston Churchill, nascido em 1874, foi, como todos saberão, um político britânico que, para além de desempenhar os cargos de ministro da Guerra e da Aeronáutica, foi Primeiro-ministro inglês por duas vezes. Contudo, Winston não se destacou apenas no panorama político mas também no da escrita (foi jornalista e escritor) tendo sido, até, galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.

A mulher que com ele casou e que o acompanhou por cinquenta e sete anos, nasceu em Londres, em 1885 e recebeu o nome de  Clementine Hozier.

Winston conheceu Clementine em 1904, contava ela com 19 anos. Ele era bem mais velho que ela, contando já com 30 anos. Este primeiro encontro deu-se num baile oferecido pela Marquesa de Crewe, em Londres. Na época Clementine não ficou muito impressionada com ele, achando-o arrogante. Cada um seguiu os seus caminhos durante 4 anos até que se voltarem a encontrar em 1908 durante um jantar. Clementine relembraria mais tarde que a primeira coisa que Churchill lhe terá perguntado era se ela tinha lido o seu livro. Apesar deste, diria eu, passo em falso, passaram a noite conversando. Terá sido nesse dia que Churchill se apaixonou por ela, num amor que duraria cinquenta e sete anos, até à morte do antigo primeiro-ministro inglês. Pouco tempo depois desse reencontro Churchill pediria Clementine em casamento.

O facto de Winston ter cerca de mais dez anos de idade que Clementine era algo complicado de aceitar, sobretudo para a mãe de Clementine. Ainda assim a mãe, Lady Blanche, acabaria por dar o seu consentimento para o casamento  da filha com Churchill que seria celebrado em Westminster a 12 de setembro de 1908 .

Dar-se-ia então o início de uma longa união que, como diz o próprio título, sobreviveria a duas guerras mundiais e até à traição. Clementine tornar-se-ia a mãe dos cinco filhos de Churchill (ainda que um dos filhos tenha falecido com apenas dois anos). Ambos tinham um estar diferente e era nessa diferença que se apoiou a força do seu relacionamento. Ela era a doçura que suavizava o lendário mau caráter de Churchill e diz-se que era das únicas pessoas que conseguia fazê-lo refletir antes de cometer algum erro. Apesar da sua juventude, Clementine aprendeu a lidar com o seu, por vezes, irrascível marido, levando a sua relação e casamento a bom porto. Diz-se que Clementine raramente discutia com Churchill até porque ele, dizia ela, a oprimia nas discussões.  Ainda assim, não deixava de manifestar a sua opinião. Quando tinha algo importante para lhe dizer, escrevia-lhe um bilhetinho.

Tendo aprendido com os erros dos próprios pais (divórcios e infidelidades), Winston e Clementine empenharam-se em construir e em manter forte a sua relação ao longo do casamento, procurando não cair em tentações fáceis. Sem dúvida que a relação foi duradoura porque ambos investiram no casamento. É claro que, como em todos os casamentos, as dificuldades foram algumas. Também eles tinham discussões, como seria de esperar. A filha Mary conta, até, que as discussões eram algumas e bastante sonoras. Chega a relembrar um episódio em que a mãe terá atirado um prato de espinafres à cabeça do marido. Conta-se, também, que ambos tiveram a tentação de buscar consolo ou alívio em outras relações. Contudo, conscientes da importância da sua relação e do seu amor, mantiveram, em última instância, a lealdade como um pilar inamovível da sua união. Mantiveram um amor verdadeiro ao longo dos anos procurando sempre a realização plena do ser amado, buscando dar lugar à melhor versão de cada um. Por isso ambos tiveram papéis de destaque nas suas vidas pessoais. Churchill, como referi, destacou-se como escritor e como político. Clementine, por seu lado, não se limitou a desenvolver o papel de “mulher de Churchill”. Ela foi  presidente do Fundo de Ajuda da Cruz Vermelha para a Rússia, organizou cantinas em Londres durante a Primeira Guerra Mundial, presidiu à Associação Cristã de Mulheres Jovens, foi nomeada para a Grã Cruz da Ordem do Império Britânico e doutorada honoris causa pelas Universidades de Glasgow e Bristol. Não tenho dúvida alguma que Clementine e Winston não teriam sido os mesmos, não se teriam destacado da forma que destacaram na sua época se tivessem existido separados. Ambos se apoiavam e procuravam que o outro atingisse a melhor versão de si mesmo.

Analisando a relação de ambos vemos que ela se baseou, ao longo dos anos, na admiração, na lealdade e na sinceridade. Baseou-se ainda no apoio mútuo dos interesses do outro. Mas, eventualmente, o maior segredo desse casal teria a ver com as suas próprias diferenças, que eram algumas. Ele gostava de pintar; ela gostava de praticar desporto. Ele gostava de caçar, sobretudo, javali. Ela preferia passar esse tempo a ler. Eram diferentes mas complementavam-se. Terão sido as suas diferenças irreconciliáveis que se tornaram essenciais para os seus triunfos. Terá sido por tudo isso que esse casamento se mostrou inquebrável até à morte de Winston em 1965. Clementine sobreviver-lhe-á por mais doze anos, tendo falecido em 1977. Winston e Clementine foram enterrados no mesmo túmulo da Igreja de St Martin em Oxforshire, muito perto do local onde Winston declarou o seu amor pela primeira vez.

Para terminar, deixo-vos com uma pequena curiosidade. Foi realizada uma votação para escolher a mais bela carta de amor alguma vez escrita. Em primeiro lugar ficou uma carta escrita por Johnny Cash à sua mulher, June Carter, por ocasião do sexagésimo quinto aniversário de June (amor também ele já abordado nesta rubrica). Em segundo lugar ficou uma carta escrita por Winston Churchill à sua mulher, Clementine, em 1935.  Aqui fica um excerto:

Janeiro 23, 1935

Minha querida Clemmie

Na carta que me enviaste de Madras, escreveste algumas palavras muito queridas por mim, sobre o quanto eu enriquecia a tua vida. Não consigo expressar o prazer que essas palavras me trouxeram uma vez que me sinto avassaladoramente teu devedor, se é que pode haver contas no amor…

O que foi para mim viver todos esses anos no teu coração e companhia, nenhuma frase pode expressar. O tempo passa velozmente mas não trará felicidade ver quão grande e crescente é o tesouro que juntámos os dois, no meio das tempestades e das tensões trazidas por tantos anos trágicos e terríveis?

O teu amante esposo.

Winston C.

Das palavras e dos seus significados

Férias terminadas!! Hoje é dia 1 de setembro e, como prometido, o blog está de regresso! Regressamos com a crónica publicada no Semanário Registo deste mês intitulada “Das palavras e dos seus significados”. Uma crónica que nos fala de palavras: palavras que me soam bem, palavras que me soam mal, palavras de que gosto e palavras que me causam urticária… Uma viagem algo delirante pela nossa língua portuguesa…Espero que se divirtam com a leitura da mesma e que me falem dos vossos gostos e ódios de estimação em relação a palavras pertencentes à nossa língua.

In Semanário Registo

A língua portuguesa é a língua, obviamente, utilizada pelos que vivem neste país à beira mar plantado mas é também a língua utilizada por brasileiros, muitos africanos e alguns asiáticos. É uma língua falada por muitos, sendo, pelo que vou ouvindo por aí, a sexta língua mais falada no mundo. É, por exemplo, uma língua mais falada que o francês. Sou suspeita porque sou portuguesa, é claro, mas é, quanto a mim, uma língua bonita e melodiosa. Há línguas que têm um som agressivo para os nossos ouvidos. Não querendo ferir suscetibilidades, poderia referir, a título de exemplo, o francês e o alemão. O francês nalgumas palavras e o alemão em quase todas, deixam a sensação que os falantes têm algo entalado que lhes arranha a garganta…aquilo soa muito mal, convenhamos! São línguas agressivas para o falante e agressivas para o ouvinte!

 Mas, hoje não queria comparar línguas nem falar na questão de umas serem mais melodiosas que outras. Queria mesmo falar do português e de algumas palavras com as quais tenho uma pequena inquietação e outras, pelo contrário, com as quais possuo grande apreço. Penso que isso acontecerá com toda a gente, certo?

Há palavras que soam bem, muitíssimo bem até, que considero melodiosas, e que, no entanto, significam realidades pouco simpáticas. Cito, para ilustrar esta ideia, a palavra “burrié”. É um facto que podemos usar a palavra para falar de pequenos molúsculos gastrópodes de concha. Até me soa bem dizer: “Estive na marisqueira e comi “burrié” e percebes”.  Contudo, será que não vem à mente das pessoas quando se fala em “burrié” o seu sentido mais informal que é o de significar monco, ranho, ranhoca? Neste preciso momento deixou de vos apetecer burriés e percebes, certo? Uma palavra tão bonita para um significado tão desastroso…

Mas há muitas mais para além do burrié. A palavra “cotonete”! Palavra tão simpática! Merecia ser utilizada noutro contexto que não o ser um instrumento para limpar cavidades!! “Queres um cotonete? Tenho doces e salgados?”, soa-me a algo delicioso. E tratar alguém de “biltre”? Quem não conhecer o significado acreditará que está a ser elogiado e não a ser tratado de sacana! “Alvanéu”? Tenho a ideia que se disser a um pedreiro que é um alvanéu o senhor vai ficar ofendido a achar que terei posto em causa a sua masculinidade. Contudo, são palavras sinónimas…E eu acho “alvanéu” uma palavra bem bonita! “Perdigoto” e “Borborigmo” também são palavras que me agradam. Perdigoto pode ser aplicado a uma jovem perdiz. Ouvir Comi um perdigoto assado que era do além!”, até nos soa bem. Contudo, poderei estar a referir-me a algo tão bom como salpicos de saliva! E provavelmente um perdigoto salpicado de perdigotos não será nada que alguém queira comer! E “borborigmo”? Quanto a mim, poderia ser o nome de um novo tipo de dança: “junto à quizomba…o borborigmo!” Mas não!! Tinha que ter como significado o ruído dos gases nos intestinos! Que desperdício de palavra!!

Por outro lado, há palavras que me soam bem e têm significados simpáticos! Essas são as que estão “corretas”! Adoro a palavra “Resiliência”! Soa-me bem e adoro o seu significado! Ser patusco é ser bem-disposto e divertido. A palavra dá logo essa ideia, não dá? E fazer um “cafuné”? Sim, é uma palavra do português do Brasil mas…não é tão bonita? Não está tão de acordo com a ação que representa? A simples palavra transmite essa ideia de repouso, de relaxamento que o cafuné provoca. E dizer que se é um “sommelier”? Caramba, não soa nada banal como soa ser professor ou advogado. É diferente! Eu gosto. Ah, significa que se é um profissional especializado em vinhos! Distinto, não é?!

Depois, há aquelas palavras que são feias e que estão de acordo com a realidade a que se referem. Palavras como “escarro” (com a popular alteração ainda mais feia “escarreta”), “varejeira”,lodo”, “réptil”, “putrefato”, “furúnculo” não despertam em nós logo uma sensação de asco? E um “algoz”? Não é a palavra certa para um carrasco?! Feia que dói. Soa mal!Nessa categoria acrescentaria ainda o “onicófago”. Roer as unhas é efetivamente algo feio mas o nome que deram às pessoas que têm esse vício é mesmo medonho!

Por fim, queria falar ainda de palavras feias mas que transmitem realidades inocentes e/ ou bonitas. Por exemplo: o “minuete”. Palavra feia para nomear uma dança! “Dançou um minuete com o senhor José”, não soa nada bem! E um “algeroz”? Mais parece uma palavra para adjetivar um assassino! Mas não, apenas se refere a uma simples caleira! “Pertinácia e pervicácia” (ser pertinaz, persistente) são, quanto a mim, qualidades. Mas esta palavra faz-me pensar num submundo de sevícias ou castigos! O jovem que é “fleumático” apenas é paciente. No entanto, a palavra dá-me ideia que estamos a falar de uma pessoa “anafadinha”, gordinha…não me perguntem porquê. “Pândego” também me soa mais a ofensa do que a uma condição de “ser alegre”. E ter um “solilóquio”? Soa quase a ter uma apoplexia, um AVC e não apenas um monólogo! Para acabar, uma palavra terrível para algo tão comum. Uma fita estreita de algodão chama-se “nastro”! Facilmente usaria essa palavra numa frase como “deixou um nastro de destruição”!!

Estas são apenas algumas das palavras que me surgiram neste “exercício”. Com certeza que haverá muitas mais, e que cada um dos que lerem este texto terá os seus próprios ódios de estimação. Despeço-me com muitos “ósculos” (Faltava esta pérola!) aos que tiveram a simpatia de lerem estas linhas que mais não foram que uma viagem meio delirante por algumas palavras da língua portuguesa.

Interrompemos as férias do blog!…Tenho de vos falar da Terceira!…

Estamos num ano, como já se sabe, atípico, às mãos de uma pandemia que teima em não nos largar. É verdade é que com o decorrer dos meses nos temos habituado a viver neste “novo normal” adquirindo novos comportamentos que em nada são da nossa natureza: não cumprimentamos as pessoas com dois beijos, não damos abraços, respeitamos o distanciamento social. É verdade também que procuramos não sair tanto de casa, passear menos, resguardarmo-nos mais em casa. Tudo isso é verdade. E, tendo isso em conta, este deveria ser um ano em que pensaria não passar férias fora de casa. Seria, quase, um absurdo pensar em sair. Contudo, e por todo o tempo que fiquei fechada em casa – primeiro com o confinamento e, depois, com o teletrabalho, este ano sentia uma estranha necessidade de sair de casa e pareceu-me uma ideia sensata. No fundo coloquei numa balança os riscos da saúde física (de sair de férias) com os riscos da saúde psíquica (ficar em casa). E, perante os resultados decidi um quase meio-termo, um “vá para fora cá dentro” e decidir ir passear este pequeno corpo até uma ilha dos Açores, neste caso, a Terceira.

Para começo de conversa, nunca tinha ido aos Açores. Apesar de achar que o local seria de facto interessante, o facto de se tratar de uma ilha e de ter de andar de avião era daquelas coisas que me fazia pensar: “sim, um dia irás lá. Mas hoje não é o dia”.

Eu sei que as probabilidades de ter um acidente jogam todas a favor das viagens de carro e contra as de avião mas eu sou incapaz de ter esses números presentes. Quando subo para um avião, e assim aconteceu desta vez, surgem-me à mente todos os acidentes, todos os problemas de que ouvi falar sobre aviões nos últimos anos, os verídicos e aqueles que vi em filmes (podem imaginar a velocidade a que segue a minha mente durante o tempo que estou no “pássaro dos infernos”). Portanto, na minha mente tudo pode acontecer: desde problemas mecânicos, a ter um louco a bordo que de algum modo sequestra o avião, a um piloto que se quer suicidar e leva os restantes com ele – juro que me passa pela cabeça até porque já aconteceu!

A juntar a este ligeiro pânico de voar juntava-se a ideia de estar numa ilha. Nunca na vida sonhei no “namorar numa ilha isolada do mundo”. A simples ideia de me sentir rodeada de água fazia crescer em mim um certo pânico, uma sensação de quase claustrofobia. Sentia, sem nunca ter estado numa ilha, a certeza que teria em mim aquele sentimento típico da insularidade que é o de querer partir e o ter de ficar.

Portanto: os dados da sorte estavam todos contra uma ida aos Açores! Não só os tempos não são de viagens, como tenho algum (grande) receio de voar e a ideia de estar numa ilha não me era particularmente aliciante. Contudo, contra todos estes pontos negativos, decidi mostrar que não sou um rato e que enfrento os receios e lá fui eu a caminho dos Açores, não de S. Miguel, como seria de esperar para uma primeira viagem às ilhas, mas sim à Terceira.

Qual o propósito desta crónica? Falar-vos um pouquinho das minhas impressões sobre os Açores.

É claro que só poderia começar pelo óbvio: raios, aquilo é mesmo bonito! Não sou uma incondicional do campo e da natureza, assumo. Não sou daquelas pessoas que ficam maravilhadas com umas flores ou com a visão de uma serra. Gosto, tiro uma fotografia ou outra mas nada de me sentir extasiada e quase emocionada. Pois tenho a dizer que foi isso que me aconteceu – sentir-me profundamente emocionada – quando a ilha se me desenhou à frente. Aquele verde todo é, de facto, de cortar a respiração.

Vista da Praia da Vitória (Miradouro do Facho)

Ao mesmo tempo que ficava maravilhada com tudo o que via e visitava percebi que, de  facto, só entendemos bem as coisas de que nos falam na escola quando as vemos in loco, quando as vivenciamos, de facto. Lembro que desde o sétimo ano, pelo menos, me falavam nas aulas de geografia de vulcões, das suas erupções, dos rios de lava,… A verdade é que só quando visitei o Algar do Carvão e a Gruta de Natal tomei consciência do quão enorme pode ser um vulcão e quão imensos podiam ser os rios de lava que por ali escorriam. E posso dizer-vos que descer àquele algar a uma profundidade de cerca de 100 metros, observando as estalactites ou caminhar pela Gruta do Natal, por aqueles diferentes túneis, formados pelas escoadas de lavas em diferentes direções é uma experiência giríssima. Adorei se não tiver em conta que a descida me lembrou uma entrada num enorme frigorífico que insistia em largar pingas geladas em cima do meu corpo, se não lembrar que dei duas cabeçadas que teriam resultado numa cabeça partida não fora o capacete que considerei inútil no início e se não recordar que fui todo o caminho a pedir aos deuses para que não aparecesse um morcego (que parece que os há típicos ali da zona e ainda mais feios que os nossos aqui do continente!)

Algar do Carvão/ Minas do Natal

Para além dos monumentos naturais, a ilha oferece, como seria de esperar, igrejas de uma enorme beleza com histórias sempre associadas aos tremores de terra (tal como quase tudo na ilha). Outro tipo de monumentos que encontramos “semeados” pela ilha, e que são tão particulares, são aquilo a que na Terceira se denomina de Impérios. Esses impérios são pequenos templos onde se venera o Espírito Santo. Entre o domingo de Páscoa e o domingo de Pentecostes desenvolvem-se, junto deles, as festividades compostas por cerimónias religiosas e profanas. São vários os que se encontram pela ilha, uns bem coloridos e ricamente ornamentados, emprestando um toque de cor mais viva ao azul e ao verde predominantes.

Império da Caridade (foto de Tiago S. – blog Perdido pelo Mundo)

Facto que também não é novidade para ninguém mas que ansiamos ver assim que colocamos os pés no Açores é que há lá vacas! Muitas vacas existem por aqueles prados e por aquelas encostas. E, quando dás por ti, já estás a cantarolar “Uma vaca feliz, outra vaca feliz, uma ilha de vacas felizes! Andam sempre a passear, têm vista para o mar, o pasto verdejante é o seu manjar!…”.

Toda a encosta é delas!

Não sou uma mulher da cidade. Fui criada no campo e conheço bem vacas e até sei distinguir uma vaca charolesa de uma vaca turina. Mas, tenho de admitir, que me apeteceu bater palmas quando no meio de uma estrada me apareceu uma pequena manada a usufruir, pacificamente, do seu direito de andar pela estrada. É claro que ninguém apita a estas simpáticas senhoras. Seguem, calmamente, atrás delas até que os caminhos de ambos –  condutor e vacas – se separem. E no fundo, penso que ninguém teria coragem de apitar. Sente-se um clima de paz e de silêncio em toda a ilha que ninguém quer interromper. E esse clima de silêncio e paz sente-se tanto no interior da ilha como junto ao litoral.

A estrada é das senhoras! Haja calma!

As praias, já se sabe, são bem diferentes daquelas que habitualmente conhecemos. Mas, se a areia negra primeiro se estranha, no meu caso, entranhou-se (na alma, é verdade, mas também na roupa e no corpo!). não consigo deixar de considerar maravilhosas aquelas águas límpidas em vários tons de azuis, em contraste com aquelas areia e pedras negras!

Areias negras, águas azuis, em vários tons!

Mas o que se estranha mesmo é o silêncio: nunca estive em praias tão silenciosas. Não sei se o silêncio se devia aos poucos banhistas que se contavam na praia ou se quem visita à Ilha Terceira procura mesmo momentos de paz e de reencontro consigo próprio, exigindo, a si e aos outros, aquele silêncio fabuloso que só é cortado pelo som do vento e das ondas…e de uma mãe mais enfurecida de vez em quando, há que assumi-lo.

Seria impossível falar da Ilha Terceira sem falar das suas gentes. Que simpáticos que eles são. É verdade que as cidades são pequenas mas adoro aquelas cidades que te fazem sentir em casa. Todos te cumprimentam e dizem bom dia. Todos querem trocar dois ou três dedos de conversa. São simpáticos e genuínos, sempre prontos a prestar algum esclarecimento, a aconselhar sobre o melhor sítio para visitar, para comer, para passear. Adorei-os a todos! Exceção feita ao senhor polícia que nos multou por nos termos atrasado uns 20 minutos no pagamento do parque de estacionamento!!!

A malfadada multa!!

Em qualquer local que se visita há um fator importante de que é preciso falar: a gastronomia. E meus amigos, posso dizer que quanto à comida é um sítio fantástico! É que não só tens o mar perto como tens a terra. Portanto tens peixe do bom e carne de qualidade!! Não deixem, se por lá passarem, de pedir um peixe grelhado, fresco e bom, e, obviamente, têm de provar a alcatra de carne (têm de ir com fome, muita fome). Para vos servir de petisco sugiro umas belas de umas lapas. Podendo, acompanhem o café com um fantástico D. Amélia. No fim de tudo, quando sentirem que não cabe nem mais um grão de arroz no vosso estômago, peçam, para ajudar à digestão, uma Abelhinha (aguardente de mel com diversos aromas). Por cá bebeu-se a de malagueta que é de beber e bradar por mais!

Mas…há sempre um más, nem tudo são rosas. Ou, tendo em conta que estamos nos Açores, nem tudo são hortênsias. Há que assumi-lo, há coisitas menos boas nos Açores. Vamos lá então avisar os incautos visitantes antes que tenham uma má surpresa como eu! A Terceira não tem uma autoestrada. Quem pensa alugar um carro, escusa de alugar um Porsche. É que a velocidade mais alta a que podes chegar na ilha é de 100 Km/h! Ah pois é! Nada de autoestradas, apenas uma, e só uma, via rápida que percorre a ilha de uma ponta à outra!

2. Não quero parecer uma shopaholic mas a verdade é que eu gosto, de quando em vez, de dar um pulo até uma zona comercial, ver montras e comprar uma coisita ou outra. Pois que deixo aqui um aviso à navegação: na Terceira…esqueçam! Não há qualquer centro comercial, pequeno ou grande! Há umas lojas de rua…e para dizer a verdade, não vi muitas! É um facto que o próprio traçado das cidades não parece conseguir comportar um centro comercial mas…em dias de chuva em que não pode haver praia nem visitas ao campo…não fica fácil estar numa ilha tão pequena!

E guardo para o fim as notícias mais dramáticas: nada de Rádio Comercial! É verdade, não estou a mentir. Não se ouve a Rádio Comercial na ilha. É-nos oferecida a rádio Top Fm e temos que estar agradecidos! E…ainda que tenham de fazer um teste à COVID19 antes de pôr o pé na ilha, se passarem 6 dias ou mais por lá, terão que fazer outro! Posso indicar-vos, desde já, o local onde o irão efetuar: o parque de estacionamento do Laboratório Regional de Veterinária! (Não têm que agradecer, considero este texto um verdadeiro serviço público!)

Termino dizendo-vos que, se puderem, deem um salto à ilha. Vale a pena! Eu…voltarei para ver mais e melhor. Para viver, se for possível, as Festas do Espírito Santo. Mas posso dizer-vos que fiquei com uma certeza: voltarei, apenas e só, para passar férias. Percebi claramente aquilo que supunha sem nunca antes ter colocado os pés numa ilha: facilmente sofreria de insularidade, jamais poderia viver numa ilha!!!

A administração do blog decretou que o mês de agosto será de férias!!!

À semelhança dos outros anos, a administração do blog (ou seja, eu) considerou que a cronista (eu), a contista (eu) e a contadora de histórias e biografias (eu) necessitam de algum descanso nisto de escrever e criar conteúdos semanalmente para o blog. Como tal, e durante o mês de agosto a “Steff’s World – a soma dos dias” vai fechar a porta à escrita e dedicar-se apenas à leitura (no que às letras diz respeito).

Voltamos em setembro!! Esperamos encontrar-vos por cá! Boas férias!!

Apologia da sesta

Esta é uma crónica que, como o próprio título indica, vem falar da sesta e fazer a sua apologia! Estamos quase em agosto, período de férias para muitos de nós. Aproveitem para dormir umas sestas e constatar os muitos benefícios que dela podem retirar!

Foto por Hernan Sanchez em Unsplash

Sempre ouvi dizer que “De Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”. Penso que tal afirmação remonta ao “tempo dos reis” (adoro usar esta expressão, que define tão pouco do arco temporal a que nos referimos), sobretudo ao tempo dos Filipes e à nossa perda de independência. Contudo, é uma máxima que se manteve até aos nossos dias, ainda que hoje seja utilizada, penso eu, mais num tom de graça do que propriamente com o sentimento que era pronunciada nos ditos tempos dos Filipes (não quero, de modo algum, ser acusada de lançar no “papel” ideias xenófobas).

Um facto é que de Espanha, para além de muitas outras coisas, vem algo de que eu, pessoalmente, gosto muito: a sesta. Considero que, nesse aspeto, os nuestros hermanos compreenderam a vida de uma forma bem mais correta do que aqui os seus irmãos portugueses e instituíram a sesta, aquele soninho de curta duração após o almoço como uma instituição na qual não se deve mexer. Sim, eu sei que é uma tradição espanhola que se está a perder aos poucos, mas eu prefiro acreditar que, lá por terras de Espanha, os trabalhadores continuam a ter uma hora de almoço alargada para assim poderem desfrutar da sesta que todo o trabalhador deveria poder usufruir.

Sou pela sesta pós-almoço. Mas também sou pela sesta de fim de tarde, quando o trabalho termina. A verdade é que poderia iniciar um movimento pró-sesta porque eu sou mesmo é a favor da possibilidade de descansar uns 20 ou 30 minutos quer seja a seguir ao almoço, quer seja ao fim da tarde. E, sim, só 20 ou 30 minutos. É a isso que se chama sesta e não a uma tarde inteira passada a dormir, seja num sofá, seja à sombra de uma qualquer árvore.

E não se pense, desde já, que aqueles que defendem e que podem usufruir de uma sesta pós-almoço são os preguiçosos que só pensam em dormir! A verdade é que a ciência já provou que a sesta traz benefícios. Existem estudos que nos dizem que apenas 20 a 30 minutos de uma sesta permitem recuperar o cansaço e refrescar a mente. (E a verdade é que, sempre que me é possível dormir uma sesta destas, sinto que fico com força e energia redobrada!). Esses estudos referem também que uma sesta de qualidade ajuda a combater o stress uma vez que ajuda a reduzir as tensões provocadas pelo trabalho. Também se afirma que uma sesta durante o dia poderá melhorar a capacidade de aprendizagem. Um estudo realizado por investigadores da NASA demonstrou que a sesta aumenta as faculdades cognitivas em aproximadamente 40%. Estudos efetuados numa amostra de mais de 1000 pessoas demonstraram que as pessoas que trabalhavam sem descanso obtiveram uma pontuação mais baixa em testes de inteligência. Os estudos em causa revelaram ainda que a capacidade para memorizar e realizar tarefas profissionais diminuiu nos indivíduos que não dormiam, em comparação com os indivíduos que dormiam após a refeição. Posso ainda dizer-vos que a sesta beneficia a nossa saúde de um modo geral e a saúde cardiovascular, em particular, uma vez que a sesta beneficia o coração. Os resultados de um estudo realizado a mais de 23 000 pessoas mostraram que quem dormia uma sesta de 30 minutos pelo menos três vezes por semana apresentava 37% menos de probabilidades de morrer devido a doença de coração. Por fim, tem-se encontrado uma ligação entre as sestas curtas e uma noção de bem-estar. Muitas das pessoas que fazem sesta relatam sentir uma sensação de bem-estar e felicidade após a sesta. Convencidos sobre a utilidade da sesta?

Volto a lembrar que falamos aqui dos benefícios de sestas de 30 minutos que poderão ser arrastadas, no máximo até aos 60 minutos (nos adultos). Caso assim não seja, poder-se-á entrar num sono profundo o que pode provocar confusão e indisposição ao acordar além de poder contribuir para as insónias à noite.

É claro que não é fácil dormir esta sesta no nosso dia-a-dia. Ainda que algumas pessoas tenham uma hora de almoço mais alargada que lhes permitiria até fazer uma “sestinha”, a verdade é que, a maior parte de nós, está longe de casa e não se pode permitir esse luxo. Vai daí (e voltamos aos “nuestros hermanos”) umas mentes iluminadas criaram um conceito bem simpático: cafés que oferecem a possibilidade de se alugar um quarto para fazer uma sesta. Não é isto fabuloso? É claro que tudo isto não é novidade absoluta, sendo que no Japão já existe muita oferta baseada nesse conceito mas gostei da ideia de já termos cafés aqui tão perto a pensar na importância da sesta. Por mim, importem, desde já, a ideia para Portugal!

A juntar a tudo isto tenho ouvido que algumas escolas nos Estados Unidos estão a criar nas escolas umas salas dotadas de cadeirões confortáveis, luz suave e música relaxante onde os professores poderão descansar e, digo eu, dormir uma sesta. Nunca sonhei em ir trabalhar para os Estados Unidos mas assumo que sonho em trabalhar numa escola que tenha uma sala destas!

Sou uma adepta das sestas. Sempre que posso, procuro dormir uma sesta. E, cumpro sem qualquer problema, os minutos máximos “permitidos”. Uma sesta de 20 minutos deixa-me totalmente renovada e pronta para mais umas horas de trabalho. A sesta preferida é, claramente, aquela depois de almoço. Mas, é verdade, a maior parte das vezes não me é possível dormi-la. Assim sendo, e sempre que posso, durmo a sesta do fim de tarde. E posso, por isso, comprovar-vos que uma sesta de 20/ 30 minutos nos dá muito mais do que aquilo que à partida nos rouba (tempo).

Com toda esta dissertação, espero ter-vos conquistado para a “equipa dos que dormem a sesta”! Verão que apenas tirarão lucros desta atividade…ou deveria dizer inatividade?

Zé, nascido num dia de trovoada

Hoje trago-vos o segundo texto da mais recente rubrica do blog “Vidas – entre a realidade e a ficção“. Como já sabem, nesta rubrica a intenção é apresentar personagens que podem ser reais, ou apenas ficcionadas. Eventualmente, terão um tanto de verdade e um tanto de ficção. Para hoje decidi apresentar-vos o “Zé, nascido num dia de trovoada”. Venham daí conhecê-lo!


Photo by Parij Borgohain on Unsplash

Há pessoas que nascem em dias de trovoada. Não há outra forma de o dizer. Podemos nascer sob vários desígnios e parece que esse nascimento traçará, de algum modo, o rumo da nossa vida, ainda que se lute e volte a lutar contra o rumo das coisas.

Alguns nascem sob os desígnios do sol. Outros sob os da lua. Os primeiros são aqueles para os quais olhamos e nos parece que tudo lhes corre bem: parecem felizes e bem-sucedidos. Conquistaram o direito (ou foi-lhes oferecido de bandeja) de serem felizes na vida familiar e na vida profissional. É óbvio que não existe ninguém neste mundo 100% feliz mas estes parecem estar mais próximos desta percentagem.

 Depois há aqueles que, como disse, nasceram sob o desígnio da lua. A esses nada é oferecido sem dificuldades. Qualquer pequena vitória é precedida de muito trabalho e/ ou sofrimento. Sentem que nunca alcançam a plenitude da felicidade e nunca se aproximam dos 100%. Existe sempre uma pedra, mais pequena ou maior, a atravessar o seu caminho. Atingem alguma plenitude sob duras penas e não raras vezes apenas conseguem essa plenitude numa área: profissional, amorosa, familiar.

É claro que, e ainda bem para a humanidade, a maior parte das pessoas nasce a meio caminho entre os desígnios do sol e da lua e, como tal, nas suas vidas, nada é tão branco ou preto, sendo mais um to de cinza.

E depois, há aqueles que nascem sob os desígnios da lua mas em dia de trovoada. Esses são aqueles para os quais a vida não tem cores alegres nem aparece matizada em tons de cinzento. Para esses não há cores mais claras. Apenas o negro da tristeza e da desgraça. Todos nós conhecemos alguém em que, quando refletimos sobre sua vida, pensamos ser impossível acontecer tanto infortúnio e tristeza numa só vida. Não são assim tão poucos. Os dias de trovoada são bem mais do que aqueles que poderíamos à partida pensar…

E porquê essa introdução tão longa? Simples. Hoje venho falar-vos do Zé. E o Zé foi uma dessas personagens que nasceu sob os desígnios da lua, em dia de trovoada. Toda a vida, desde o seu nascimento até ao dia da sua morte, a vida se divertiu em ser madrasta. Não lhe deu descanso um dia que fosse, não lhe deu o cor-de-rosa do amor familiar, nem o vermelho do amor e da paixão por alguém, muito menos lhe ofereceu o verde da esperança. Toda a sua vida foi gerida em tons de cinza e preto.

Zé não foi um bebé esperado nem desejado. Tal como os seus irmãos, Zé apenas aconteceu. A mãe de Zé, que não conheci, provavelmente, também teria nascido, sob os desígnios da lua e, quem sabe, em dia de trovoada. Nasceu pobre e não teve direito a mais do que dois ou três anos de escolaridade que mal a ensinaram a ler. Cedo se enamorou e cedo foi mãe. Pelo que se sabe, não foi uma união feliz. Ambos, pai e mãe, eram alcoólatras e a sua única preocupação era arranjar dinheiro para saciar o vício. Rapidamente as crianças que viviam naquela casa aprenderam a sobreviver com aquilo que lhes aparecia à frente, muitas vezes fruto da simpatia da vizinhança. Zé dizia que tinha mais quatro irmãos (dois mais velhos e dois mais novos) mas há muito que tinha perdido contacto com eles. Não que não soubesse quem eram. Dizia o Zé que se cruzava muitas vezes com a mais nova mas esta já nem pretendia cumprimentá-lo. Quando Zé tinha uns 15 anos a segurança social veio buscar os dois mais novos. Disseram a uma mãe chorosa, ainda assim, que ela não tinha condições para continuar a criar e a educar aquelas crianças. Os mais velhos ficaram largados a si mesmo, tendo em conta as idades. O mais velho já tinha atingido a maioridade. O irmão a seguir tinha 17 anos (e por isso consideraram que já estava perto da maioridade). Quanto a Zé, ficou a promessa que seria acompanhado pelos avós. Zé dizia muitas vezes que apenas se tinham importado com as meninas, que eram, de facto, as duas mais novas. E é verdade que o Zé passou a viver com a avó materna mas as condições de vida e de amor eram as mesmas que tinha em casa.

Zé frequentou a escola. Contudo frequentava-a sempre e quando lhe apetecia. Estar lá ou não estar era para ele a mesma coisa. Nunca conseguira aprender a ler ou a escrever. As ausências à escola eram mais que muitas e quando estava lá a sua atenção focava-se em tudo menos naquilo que eram as aprendizagens. É claro que tal nunca lhe foi diagnosticado mas pelos sintomas que apresentava e pela história que contava, penso que o Zé terá sido um bebé que nasceu com síndrome alcoólico fetal. A escola foi para ele apenas um local onde encontrava, de quando em vez, amigos com quem brincar e um local onde aprendeu, enquanto criança, que os adultos são todos os mesmos (têm sempre vontade de levantar a mão e oferecer-te uma surra). Como seria de esperar, frequentou apenas a escola primária, foi retido uns quantos anos e acabou por abandonar a escola assim que se sentiu com forças suficientes para procurar trabalho. O Portugal da época não era muito exigente quanto à escolaridade obrigatória e, ainda que não tenha aprendido coisa nenhuma, lá ficou com o diploma da quarta classe. Zé sentia algum orgulho em dizê-lo.

Assim tinha começado a vida de Zé: não tinha encontrado o amor na família (cuja dependência alcoólica não deixava espaço para esse tipo de sentimento) nem tinha encontrado qualquer sentimento de empatia na escola. Dos irmãos mais velhos pouco lembrava a não ser as surras que aconteciam porque sim e porque não. Penso que quem não foi habituado a dar amor, não saberia, por sua vez, dá-lo. Seria isso que aconteceria com os irmãos. Quanto às irmãs, Zé tinha orgulho nelas. Tinham casado bem, “são umas senhoras” dizia ele com um brilho de orgulho no olhar, enquanto se lhe sentia uma lágrima a querer brotar dos seus olhos azuis. Todavia, sentia-se nele alguma pena por essas irmãs, senhoras, não se dignarem a endereçar-lhe um bom dia que fosse.

Toda a vida do Zé foi vivida entre um emprego precário e outro. Verdade seja dita: não gostava muito de trabalhar e o pouco era-lhe suficiente. Assim, quando sentia que possuía o suficiente para sobreviver, tirava umas férias mais ou menos alargadas para fazer aquilo que ele mais gostava: sentar-se num café enquanto esperava que quem entrasse lhe pagasse uma bebida. Viveu toda a sua vida (que não foi muito longa) contando com a caridade e o amor alheios. Bastava-lhe um casebre para viver com poucas ou nenhumas condições, alguma comida que umas almas caridosas lhe iam providenciando e alguma pessoa com quem conversar, enquanto bebia uma cerveja.

Não foi uma vida de sonho, é um facto, mas dois aspetos me fazem lembrar do Zé. Por um lado, admirava nele a liberdade de ser o Zé, livre de toda e qualquer convenção social, vivendo a vida como bem lhe apetecia…mesmo que essa vida fosse quase vida de mendigo. Não tinha laços com a sua família, não criou uma família sua, mas vivia a vida sem uma queixa. Muito pelo contrário. E é esse o outro aspeto dele que me ficou gravado na memória: o Zé viveu aquela vida madrasta e negra sempre com um sorriso genuíno na cara. Ainda que a vida lhe tivesse oferecido pouco mais que nada, nunca vi aquele homem sem um sorriso largo no rosto. Muitas vezes me cruzei com ele ainda de madrugada, quando ia trabalhar para o meu Alentejo, e já o via encostado a uma qualquer parede. Tinha sempre um sonoro “bom dia” para me oferecer a que juntava um enorme sorriso bem-disposto. Contra tudo o que seria de esperar, Zé ria-se da vida que tinha decidido ser madrasta para ele e parecia genuinamente feliz com o pouco que tinha.

Penso já vos ter dito que o Zé já não me brinda com o seu sorriso desdentado e o seu bom dia matinal. A vida não se cansou de ser má para ele e levou-o mais cedo do que era suposto. E é claro que essa partida não poderia ter acontecido de forma breve, sem que ele se desse conta, como num acidente, por exemplo. Zé morreu de cancro não sem antes sofrer tudo o que teria ainda “direito” a sofrer.

O Zé abandonou este mundo num dia de trovoada. Dizem por aí que a família que lhe restava não quis oferecer-lhe uma última despedida. O enterro foi oferecido por aqueles que foram a sua família toda a vida: os “amigos” com quem se cruzou pelos cafés, aqueles que lhe ofereceram comida e roupa ao longo da sua vida. Foi embora não levando nada. A nós deixou-nos a lembrança de um sorriso largo e de uma gargalhada histriónica. E só por isso sinto que a vida madrasta não o venceu, não levou a melhor sobre o Zé, nascido num dia de trovoada.

Vida tão estranha…

Foto de Sharon McCutcheon on Unsplah

São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão mal tratado
Já nem chorar me traz consolo
Resta-me só o triste fado

“Vida tão estranha” – Rodrigo Leão

Maria Leonor acordou com a alma em festa! O domingo tinha-se tornado, nos últimos tempos, o seu dia favorito da semana. Sabia que era o dia em que poderia ver o Mário e a perspetiva de o ver deixava-a feliz, ainda de véspera! Uma vez que não tinha vindo visitar os pais nas duas últimas semanas este seria, provavelmente, o fim de semana em que ele estaria cá e assim poderiam trocar olhares tímidos e, quem sabe, até trocarem uma ou duas palavras! Estava tão ansiosa!! Rapidamente se levantou e começou a tratar da sua higiene. Faltavam duas horas para a missa e ela queria ter o ar mais viçoso e saudável possível (como se uma jovem de 20 anos necessitasse de muitos cuidados para ter um ar viçoso!)

Maria Leonor era filha do professor da aldeia. Sendo filha única, toda a vida tinha sido tratada como um pequeno tesouro que deve ser protegido. Era, como se costuma dizer, a luz dos olhos dos seus pais. Diga-se, em abono da verdade, que toda a vida tinha sido uma filha exemplar: boa filha, boa aluna, inteligente e bondosa como ninguém para os seus pais e para com todos aqueles com quem privava. Era, de facto, uma boa filha e uma boa amiga. Juntava a todas estas qualidades uma beleza inigualável. Dizem que tinha herdado a beleza da mãe (que, loiríssima e de olhos azuis, mais parecia vinda de um país escandinavo do que alguém filha de pais portugueses e nascida naquelas terras) e o gosto pelas letras do pai. Ambos – pai e filha – gostavam de “perder” horas a fio na leitura de livros de imensas páginas, enquanto ouviam as músicas tocadas no pequeno radio que tinham em casa. Maria Leonor juntava a todas essas qualidades um dom que todos admiravam: ela era dona de uma voz de rouxinol. O povo adorava reunir-se à sua volta para a ouvir cantar as celebridades da atualidade: Amália, Francisco José, Max, Toni de Matos, entre tantos outros. Tinha enorme facilidade em decorar as letras e passava todo o tempo disponível que tinha a cantarolar para si e para a sua plateia que tanto podiam ser os vizinhos, os habitantes da aldeia, como os pássaros que à sua volta pousavam. Era uma jovem feliz, amada e, porque era feliz e amada, transmitia a sua felicidade e amor aos outros, tornando o ar à sua volta mais puro e respirável. A sua beleza comparável a da mãe – loira, de olhos azuis e pele muito alva –, a sua voz doce, a sua simpatia, o seu modo de ser boa com todos aqueles que a rodeavam concediam-lhe uma luz muito própria tornando-a, à vista daqueles que com ela privavam, num ser quase etéreo que parecia não pertencer àquele mundo de agricultores rudes e de pele curtida pelo sol.

Todos lá na aldeia a consideravam uma boa menina, uma jovem que iria casar com alguém bem posicionado na sociedade e que teria uma vida simpática porque ela assim o merecia, porque assim estava escrito. Ninguém lá na aldeia cumpria os requisitos para aspirar a casar com a menina Maria Leonor ainda que mais do que um rapaz jovem suspirasse, quando a via passar, com os longos cabelos primorosamente arranjados em cachos ou em longas tranças, a caminho da igreja.

Mário era um desses jovens. Conheciam-se desde sempre uma vez que tinham feito a escola primária juntos. Desde o final da escola primária que já não se viam com tanta regularidade mas, ainda assim, sempre se tinham cruzado na aldeia, a caminho da igreja, nos bailes, aquando das festas de celebração ao santo padroeiro ou até, de quando em vez, no pequeno café da aldeia.

Mário era considerado dos jovens mais bonitos daquela aldeia. Alto de corpo atlético, moreno, olhos muito negros e brilhantes, apresentava umas feições que pareciam talhadas por uma foice. Era, de facto, um rapaz muito interessante e mais de uma rapariga suspirava por ele. Mário era, também ele, perspicaz e inteligente. Não era alheio a essa adoração por parte do sexo feminino e tirava partido dela para se divertir. Já tinha namoriscado com várias jovens da aldeia e das aldeias vizinhas e a mais do que uma tinha prometido casar para chegar aos seus intentos.

Mário era filho de pequenos agricultores que toda a vida tinham sobrevivido tratando o pequeno pedaço de terra que possuíam, cultivando e criando alguns animais para o seu sustento. Neste momento, depois de ter terminado o serviço militar, encontrava-se em casa dos seus pais, ajudando (muito pouco) nas suas terras. Mas não era essa a vida que Mário queria. O seu sonho era o de seguir para a cidade onde pudesse arranjar um qualquer emprego. Pouco lhe importava o emprego que fosse desde que o mesmo lhe permitisse passear pelas ruas da cidade, sentar-se num café a observar as modas. No fundo pretendia ser um dândi sem grandes preocupações de família e muito menos de dinheiro. Sabia que era bonito e sabia que esse poderia ser o seu único passaporte para a vida que pretendia ter. Por mais que se divertisse e prometesse casamento às jovens da aldeia, também elas filhas de pobres agricultores sem perspetivas de terem uma vida diferente da dos pais, não pretendia casar com nenhuma. Ou casaria com alguém de família abastadas, que lhe proporcionasse a vida que ele pensava merecer, ou então emigraria para outro país, procurando a fortuna que o país lhe negava.

O seu primeiro passo para o exterior, pelo menos o exterior da pequena aldeia em que vivia, foi partir mesmo em direção à cidade. Um primo já trabalhava em Lisboa e disse-lhe que o trabalho por lá não escasseava. Assim, com uma trouxa de roupa e alguns tostões no bolso dados por sua mãe (que assim tinha ficado sem os poucos trocados que tinha economizado em toda a sua vida), partiu a caminho de Lisboa pensando apenas regressar para visitar os pais de quando em vez. Partia deixando para trás alguns corações destroçados e, há que dizê-lo, o próprio de coração de Maria Leonor um pouco engelhado. Não que alguma vez tivessem tido algum momento mais íntimo mas a verdade é que os olhares se tinham cruzado algumas vezes e Maria Leonor acalentava secretamente a vontade de que pudessem ser mais do que amigos. Ele era tão bonito! É um facto que não era de tão boas famílias como os pais almejavam, mas era bonito, sensual e um excelente dançarino. Esses pormenores também deviam ser importantes aquando da escolha de um namorado e, quem sabe, um marido – pensava ela. Portanto, Maria Leonor não podia deixar de pensar em Mário como um possível namorado, alguém que a fizesse feliz como ela achava que merecia.

Nesse domingo as esperanças de Maria Leonor não saíram defraudadas. Quando chegou à igreja lá o viu, mais bonito que nunca, conversando animadamente com alguns amigos. Quando ela passou todos pararam para a cumprimentar e para a admirar. Era, de facto, um encanto para os olhos. Maria Leonor, essa, apenas tinha olhos para Mário a quem endereçou um pequeno sorriso tímido, enquanto sentia as faces ficarem afogueadas.

Maria Leonor nem conseguiu prestar qualquer atenção ao sermão do padre. Na sua mente só dançava a imagem de Mário, aqueles olhos negros tão bonitos, aquele sorriso que ela considerava meio maroto e aquele corpo ainda mais atlético do que aquele que as suas memórias guardavam. Quando saíram da missa Mário fez por se aproximar dela.

Então Maria Leonor, o sermão hoje foi interessante? Melhor terias ficado a conversar aqui comigo, não achas?

Mais uma vez ela se sentiu enrubescer. Ele tinha esse dom, sem dúvida, pensou ela. Mas, logo em seguida se viu a responder-lhe, não acreditando na sua própria coragem:

Ora, não fiquei a conversar mas podemos conversar um pouco à tarde, que dizes? Devo ir ao café com a minha prima. Podemos encontrar-nos lá.

A própria Maria Leonor tinha dificuldade em acreditar na coragem que ela tinha tido para lhe dizer isso. Até o Mário pareceu, por momentos, meio desconcertado com a resposta afoita da jovem. Mas logo retomou os sentidos e, como é óbvio, disse que lá estaria nessa tarde, no café.

Maria Leonor escreveria mais tarde, no seu diário, que tinha passado uma tarde maravilhosa. Os pais tinham-na deixado sair para passear apenas com a prima e esta tinha dado o espaço necessário para que ela e Mário pudessem conversar, passear e até descobrir um local escondido dos olhares mais curiosos onde tinham trocado o seu primeiro beijo de amor. Ela estava apaixonada e não tinha dúvidas que Mário era o homem da vida dela. E tinha certeza que Mário sentiria o mesmo. Aquele beijo tinha sido demasiado fogoso para ser outra coisa que não amor, escrevera ela.

A partir desse dia, Maria Leonor passou a viver apenas para aquelas tardes de domingo em que, supostamente, ia passear com a prima. As horas passadas com Mário voavam e eles estavam cada vez mais apaixonados. A paixão era tanta que Mário começava a insistir para que ela também fosse para a cidade. Facilmente encontraria um trabalho por lá, dizia ele. Deste modo poderiam ver-se todos os dias, poderiam estar juntos sem receios de serem vistos e poderiam levar a paixão deles a um outro nível. É que sabes – dizia ele – sou um homem. Um homem não vive apenas de alguns beijos e umas carícias fugidias. Sabes isso, não sabes?

Maria Leonor sentia-se muito dividida. Por um lado, tinha vontade de seguir com ele para a cidade. Mas os pais nunca a deixariam ir assim, sozinha. E se pensasse em casar com ele, primeiro? Não seria fácil os pais aceitarem um eventual casamento dela com Mário. E a verdade é que ele próprio nunca tinha abordado tal assunto. Sentia que queria muito estar com ela mas nunca tinha aflorado sequer a palavra casamento. A verdade é que Maria Leonor tinha a sensação que se não seguisse para a cidade, mais cedo ou mais tarde, Mário iria abandoná-la. E o que seria da vida dela sem Mário? Já nem conseguia imaginá-la sem a sua presença.

Por outro lado, ela sabia que os pais nunca a deixariam seguir para a cidade apenas e só para ir trabalhar. Uma menina da aldeia não podia seguir para Lisboa sem ser com os pais ou com o marido. O futuro apresentava-se-lhe muito obscuro, sem grandes possibilidades de resolver os seus problemas de um lado e do outro.

Nesse fim de domingo Maria Leonor sentia-se triste, desolada, sentindo que nenhuma solução era a adequada. Mais uma vez Mário tinha discutido com ela e lhe tinha dito que era incomportável para ele continuar a vir todos os 15 dias à aldeia apenas e só para a ver. Ela também teria de fazer sacrifícios uma vez que só ele os estava a fazer em prol do amor que ambos sentiam. Tinham acabado o passeio da pior forma possível. Como sempre, Maria Leonor tinha tentado acalmá-lo como sempre fazia, acariciando a sua face, o seu cabelo, dando-lhe pequenos beijos mas a resposta nesse dia tinha sido tudo menos positiva. Mário tinha-se esquivado às suas carícias, empurrando-a com tanta força que M. Leonor se tinha desequilibrado e caído. Nem isso tinha acalmado a ira de Mário que não fez um esforço para a ajudar a levantar. Apenas olhou para o horizonte e disse: “é melhor dar este passeio por terminado!…” E assim seguiram, sem trocar nem mais uma palavra, até ao local onde Margarida, a prima de Leonor, se encontrava com o namorado.

Maria Leonor chorou muito essa noite, sentindo que estava a perder o seu Mário. Quando o dia raiou, contudo, agarrou-se com toda a força à sua capacidade de acreditar que tudo iria correr bem a assim passou o resto da semana, esperando pelo fim de semana e por Mário. Mas, quando o fim de semana chegou, não chegou Mário com ele. E o mesmo aconteceu no outro fim de semana. Tentou telefonar para o café onde Mário trabalhava mas tinham dito que ele não podia falar com ela naquele momento, que ligasse mais tarde…

Quando, ao fim de um mês, Mário ainda não tinha regressado à aldeia e não retornava qualquer chamada que ela fizesse para o café, decidiu tomar a sua vida às mãos cheias e correr atrás do que a fazia feliz: iria correr atrás do seu amor. E assim, um dia, a meio da noite, fugiu da casa dos pais, levando com ela pouco mais do que a roupa que tinha no corpo e algum dinheiro que tinha conseguido tirar do pequeno cofre que o pai tinha em casa. Sentia-se um pouco mal por criar essa tristeza aos pais mas por agora iria correr atrás do seu amor e tinha certeza que a seu tempo tudo de resolveria. Foi isso que escreveu no bilhete que deixou, saindo de casa com todos os cuidados. Esperava-a uma caminhada de umas duas horas até à vila onde estaria o autocarro pronto para a levar para Lisboa e para uma nova vida. Enquanto caminhava, sorria para o mundo e para a vida. Apesar de não querer pensar na dor que iria provocar nos pais, sentia-se como uma mulher decidida, que colocava a sua felicidade à frente de tudo. “O amor tudo vence” –  pensava ela. Mais tarde, os pais iriam perceber a sua atitude e aceitá-la-iam outra vez. Seriam todos felizes, lá mais para a frente. Ela tinha certeza disso!

Chegou a Lisboa pelas 9 da manhã. Tinha consigo a morada do café (que tinha pedido uma das vezes que tinha telefonado), chamou um táxi e pediu que a levasse lá. Quando lá chegou e viu Mário sentiu que o coração ia rebentar de tanto amor e saudade que sentia. Ela correu para ele, lançou os braços à sua volta e beijou-o com mais paixão que alguma vez o tinha feito. E tanta era a saudade daquele toque que nem percebeu, ou não quis perceber, que Mário reagira de uma forma um pouco fria…

Esperou até à hora de almoço, hora em que Mário disse que poderiam ir para casa dele (ou melhor, para o quarto na pequena pensão que ele tinha alugado). Dirigiram-se para a pensão a pé, Maria Leonor mal cabendo em si de contente por ter reencontrado o amor da sua vida, pensando que tinha tomado a decisão certa. Quando lá chegaram Mário começou imediatamente a beijá-la, a dizer que tinha tido saudades dela e a despi-la. Maria Leonor achou que tudo aquilo estava a correr demasiado depressa mas não quis dizer-lhe nada. Não queria que nada estragasse o seu reencontro e pudesse manchar aquele momento.

Mais tarde, deitada naquela cama, Maria Leonor pensava que ainda ontem era uma jovem virgem, a filha adorada de seus pais e agora encontrava-se deitada ao lado de um homem, com quem tinha feito amor e com quem nem estava casada. O que seria dela se ele a abandonasse depois disto pensou? Mas Mário não a abandonou. Passaram os quinze dias que se seguiram naquilo que poderia ser uma verdadeira lua de mel. Mário apenas saía da pensão para trabalhar voltando, muitas vezes mais cedo do que previsto, para rapidamente se abraçar a Maria Leonor, a beijar e fazerem amor uma e outra vez. Parece que ele não se cansava de a possuir e ela sentia que era feliz.

Contudo, esse clima de felicidade não durou muito. No final do mês Mário chegou ao quarto com o rosto fechado, visivelmente zangado e cheirando a álcool. Com algum receio M. Leonor questionou o que se tinha passado mas Mário apenas lhe lançou um olhar que quase parecia de raiva, não se dignando, sequer a responder-lhe. Deitou-se na cama e pouco tempo depois já dormia a sono solto, ressonando mais alto que nunca. Mário só acordou no dia seguinte já o sol ia bem alto. M. Leonor tinha tentado acordá-lo, que eram horas de ir trabalhar, mas ele apenas se tinha virado para o lado mandando-a calar. Foi só mais tarde que lhe disse que tinha sido despedido. “A culpa é tua! Despediram-me porque, dizem, que faltei muito este mês, que nunca cheguei a horas e que, muitas vezes, saí antes da hora. Sabes porquê, não sabes? Vinha ter contigo. Enfeitiçaste-me! Só pensava em estar contigo, em fazer amor contigo! A culpa é tua. Devias ter-me mandado a horas para o trabalho. Não me devias esperar tão solícita aqui no quarto. Fizeste com que não pensasse em mais nada! E agora é isto! Como vamos viver? Como vamos pagar o quarto? A comida?”

M. Leonor tentou acalmá-lo, dando-lhe um abraço. Mas Mário não queria ser acalmado. Empurrou-a com tanta força que ela foi bater contra o guarda-roupa. Instantaneamente as lágrimas começaram a correr mas, longe de comoverem Mário, pelo contrário, só contribuíram para o irritar ainda mais. “Poupa-me a essas lágrimas ou garanto-te que vais chorar com razão daqui pouco!”.

M. Leonor não acreditava nas palavras e no ódio que sentia nos olhos de Mário. As lágrimas continuaram a correr, entrecortadas por soluços profundos. Fiel à sua palavra, Mário fê-la chorar por outras razões. Foi a primeira de muitas sovas que levaria de Mário. Sentiu no corpo e na pele que ele estava a descarregar toda a frustração daquele dia. Depois de se cansar de lhe bater, saiu do quarto sem uma palavra. Ela arrastou-se até à cama e ali ficou tentando que se acalmassem as dores do corpo e da alma. Mais tarde Mário voltou para o quarto. Pediu desculpa. Abraçou-a. Disse que a amava. E, no fim de a acalmar, perguntou-lhe quanto dinheiro ainda tinha daquele que tinha “pedido emprestado” aos pais. Depressa perceberam que não conseguiriam sobreviver um mês com ele, pelo que ambos teriam de arranjar trabalho, fosse onde fosse. Foi Mário quem se lembrou da sua voz de rouxinol. “E se, disse ele, enquanto não arranjas outro emprego, tentasses cantar na rua. Sempre arranjavas uns trocos que ajudassem a pagar o quarto e tudo aquilo que comes!”

Maria Leonor sentiu-se mortificada com essa proposta. Isso seria ser quase uma pedinte. Os pais não a tinham criado para isso. Ela, que era a mulher mais bonita da aldeia, filha do professor, que poderia casar com um bom partido, ia cantar na rua para ganhar uns tostões? Tudo isso se passava na sua cabeça uma vez que ela não se atrevia a expor as suas ideias em voz alta.

O certo é que os dias foram passando e nem um nem outro encontravam emprego. O dinheiro sumia-se à velocidade da luz e o olhar de Mário ia ficando cada vez mais irado. Chegou o dia em que M. Leonor se levantou, encheu-se de coragem, vestiu o seu melhor vestido e dirigiu-se para uma zona de lojas e cafés que ficava a uns dez minutos de marcha da pensão. Ali, numa pequena esquina, colocou o cesto do pão que tinha roubado ao pequeno-almoço na pensão, fechou os olhos e começou a cantar. Cantou os fados e as canções que conhecia: Amália, Toni de Matos, entre outros que sempre tinha cantado. Algumas moedas foram caindo, que ela pressentia, pelo seu tilintar, uma vez que não conseguia abrir os olhos. Assim, de olhos fechados, sentia que não estava a cantar na rua, sentia que a sua vida continuava a decorrer na pacata aldeia onde sempre tinha vivido.

(…)

Seria bonito dizer-vos que Maria Leonor juntou dinheiro e coragem e voltou para a casa dos seus pais. Ou que os próprios pais tinham ultrapassado o desgosto e a tinham procurado (e encontrado) em Lisboa, levando-a para casa. Ou ainda que Mário tinha encontrado emprego e que os dois continuavam a viver muito felizes, sendo os orgulhosos pais de um casalinho. Mas nada disso seria verdade. O futuro de M. Leonor não foi em nada risonho. Continuou a viver sim, com Mário, mas longe do conto de fadas que sempre tinha imaginado. Com o tempo Mário foi-se tornando mais e mais violento. Por mais de uma vez M. Leonor teve de receber tratamento hospitalar. A pancada por duas vezes a fez abortar. Desde aí nunca mais conseguiu engravidar. Está praticamente cega. Um olho perdeu toda a acuidade visual e do outro só vê 30%. Perdeu todo o encanto que tinha, pouco sorri. Toda a sua cara revela uma amargura dura de suportar. O próprio cabelo, tão loiro e brilhante outrora, mais não parece do que um pedaço de palha maltratada. Só a voz se manteve, límpida como a de um rouxinol. O seu local de trabalho manteve-se a mesma rua e a mesma esquina ao longo das diferentes estações, ao longo dos anos. Continuou a cantar as músicas que sempre tinha cantado, a que juntava, por vezes, letras suas, que escrevia, com grande esforço visual, nas noites que se sentia mais triste e abandonada. Um dia um jornalista quis fazer uma reportagem sobre ela. Junto a uma fotografia, de M. Leonor de pé, de olhos fechados, cantando com toda a alma que tinha, vinha uma pequena reportagem sobre quem ela era e ainda, alguns dos versos que tinha escrito, de um modo autobiográfico, e que cantava diariamente. Diziam assim: São de veludo as palavras/ Daquele que finge que ama/ Ao desengano levo a vida/ A sorte a mim já não me chama.Vida tão só/ Vida tão estranha/ Meu coração tão mal tratado/ Já nem chorar me traz consolo./ Resta-me só o triste fado.

Preciosas Eternidades

E aos poucos, vamos voltando a uns velhos hábitos que tínhamos, neste “novo normal”. Um deles é publicar mensalmente uma crónica no Semanário Registo, que voltou ao seu formato de papel.

Assim, a minha proposta para esta semana, é a crónica publicada no semanário referido. Digam-me, também têm o gosto pela fotografia?

Sou uma fã da fotografia. Sou aquela pessoa que adora capturar o momento para a eternidade, registá-lo na ótica para mais tarde poder voltar a ele, relembrá-lo e saboreá-lo com a intensidade com que foi vivido. Como tal, desde sempre me lembro de possuir uma câmara fotográfica na mão. Desde uma maravilhosa Canon na qual colocava o rolo, quando as situações eram tão importantes que sentia que teria que registar, pelo menos, 36 momentos inesquecíveis, até aos primeiros momentos da fotografia em formato digital. Até há muito pouco tempo, fazia parte da minha “trouxa” diária a máquina fotográfica Sony Cyber-shot, (tendo tido vários modelos da mesma máquina ao longo dos anos). Aí, não tendo a limitação dos números, passei a fotografar um pouco de tudo: os amigos, a família, os encontros, os reencontros, as festas, os tudo e os nada do dia-a-dia; passei a fotografar, também, animais: gatos, pássaros, todo e qualquer animal que encontrasse em posições ou situações divertidas ou caricatas. Passaram a fazer parte do meu espólio fotográfico, paredes pintadas com frases que me inspiravam encontradas por esse país fora, obras magníficas de street art e, em menor número, paisagens citadinas e campestres. Tudo e todos eram razão para fotografar. E, a partir do momento em que os telemóveis passaram a incorporar uma câmara fotográfica com maior qualidade e uma maior capacidade de armazenamento, posso dizer que este comportamento se agravou. É raro o dia em que não encontre 4 ou 5 razões para fotografar. Isto sem falar nos dias festivos, nos dias com amigos e/ ou família em que o número de fotografias sobe para o nível das centenas! E guardo todas: desde aquelas em que parecemos verdadeiras modelos àquelas que denomino de “tesourinhos deprimentes”. Sou a fiel depositária de todas essas fotos do meu grupo de amigos.

Mas desenganem-se aqueles que poderão já estar a pensar que sou uma excelente fotógrafa! Apenas gosto de capturar momentos e cenários de felicidade, momentos caricatos e divertidos. Como dizia Henri Cartier-Bresson, Fotografar é colocar na mesma linha, a cabeça, o olho e o coração. Fotografo apenas para guardar para mim a imagem vista, pensada e apreciada naquele momento.

Contudo…percebi em duas ou três situações que o contrário aconteceu. Percebi que sempre que os momentos foram totalmente arrebatadores e inesquecíveis, acabei por nem me lembrar de fotografar ou, se o fiz, foram poucas vezes. Assim aconteceu naquele concerto inolvidável dos U2 em Coimbra, em que raras foram as fotografias que tirei, e assim acontece com o meu amado Alentejo. As viagens de e para o Alentejo presentearam-me, anos a fio, com paisagens magníficas, dignas de postal. Contudo, conto pelos dedos das mãos as fotos que tenho dessas paisagens admiradas. Assim aconteceu, também, com uma das paixões da minha vida. Apesar dos muitos e bons momentos, raramente aflorou à minha mente aprisionar aqueles momentos para a eternidade.

Todavia, ainda que sem fotografias, consigo relembrar sem dificuldade a voz do Bono Vox, consigo recordar a emoção que senti durante todo aquele concerto, consigo lembrar de todo o ambiente que se sentia naquela noite chuvosa. Quanto ao Alentejo…basta pensar nele para se formar na minha mente as magníficas paisagens a que assisti na primavera com os seus tons de verde, amarelo e roxo ou no verão com os seus vários tons de amarelo. Basta pensar nestas viagens para sentir o cheiro que tão bem caracteriza o “meu” Alentejo e para sentir no meu peito aquele estado de encantamento que só o Alentejo me oferece.

Quanto a ti, paixão perdida num passado que já se vai fazendo velho, percebi que nunca precisei de uma fotografia para relembrar o teu sorriso. Tornaste-te, ou tornei-te eterno no momento em que percebi que contigo a vida era mais colorida, mais leve e mais bonita de viver. Poderia, sem dificuldade, e se a tanto me chegasse a arte, desenhar cada linha do teu rosto, cada linha do teu corpo. Nenhuma fotografia poderia manter-te mais vivo na minha memória do que as recordações que tenho. Ainda assim, se apenas me fosse permitido manter uma memória tua, se tivesse de te eternizar em apenas um pormenor, esse pormenor seria esse teu sorriso. O sorriso que apesar das vicissitudes da vida sempre se foi mantendo e que, talvez por isso, ficou gravado na minha alma.

Sou uma amante da fotografia. Através dela capturo e penso guardar para a eternidade todos os bons momentos, as pessoas interessantes que atravessaram a minha vida, os pormenores curiosos ou até divertidos. Mas percebi que existem coisas magníficas – um concerto, uma paisagem, um sorriso – que, por serem tão excecionais, se eternizaram na minha mente sem qualquer possibilidade de um dia serem apagados. E é na mente e no coração que os quero guardar como pequenas preciosidades, pequenos tesouros que não quero partilhar com mais ninguém.

Gertrude e Alice – uma história de amor

No passado dia 28 de junho celebrou-se o Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo), uma data celebrada e lembrada mundialmente. Tendo em conta essa efeméride apeteceu-me trazer até vocês a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – Histórias de amor intemporais” e falar-vos de uma história de amor sentida e verdadeira e, desta feita, vivida por um casal homossexual. Hoje quero contar-vos a história de amor entre duas mulheres, Gertrude Stein e Alice Babbete Toklas, um casal composto por duas pessoas absolutamente diferentes mas que viveu uma enorme história de amor durante 37 anos e que, por isso, merece ser relembrada.

Gertrude Stein e Alice B. Toklas
Gertrude Stein e Alice B. Toklas

Gertrude Stein nasceu em 1874 nos Estados Unidos e foi escritora e poetisa. Provinha de uma família de classe média-alta e foi educada com os melhores preceitos. Ainda criança acompanhou os seus pais e viveu em Viena e, mais tarde, em Paris (contudo, a família voltará, pouco tempo depois para os Estados Unidos). O gosto por Paris e pela sua cultura terá ficado em Gertrude pelo que acabará por se estabelecer, mais tarde, definitivamente em França.

Alice Babbete Toklas nasceu em 1877 em S. Francisco, Califórnia. Também ela foi uma escritora que fez parte da vanguarda parisiense no início do século XX. Ela e Gertrude conheceram-se em Paris a 8 de setembro de 1907, no dia em que Alice chegou à cidade. Dois anos depois deste encontro fortuito passariam a viver juntas e não mais se deixariam nos 37 anos que se seguiram.

Alice terá ficado fascinada com Gertrude ao primeiro encontro, destacando a sua aparência, a sua voz, o seu porte altivo. “Era um ser iluminado (…) Era diferente de qualquer outra: profunda, encorpada, aveludada com uma voz de contralto. (…) Embora ela fosse alta e pesada, as suas mãos eram delicadas e o formato do seu cabelo maravilhoso, único…” terá ela escrito mais tarde. Não poderiam ser mais diferentes. Stein era alta e encorpada, enquanto que Alice tinha uma pequena e fraca estatura. Stein era mais expansiva, excêntrica. Alice era mais retraída, discreta. Mas será por Stein que Alice irá permanecer em França e será por ela que Alice irá cultivar uma devoção eterna. Ainda que só tenham começado a viver juntas dois anos depois deste encontro, rapidamente o relacionamento entre elas passou do fascínio a um sentimento mais avassalador. Alice passou a ser a secretária, a administradora da casa e da vida de Gertrude para além de sua amante.

Foi em França que Gertrude Stein começou a pensar seriamente na sua carreira literária e a interessar-se por arte moderna. Juntamente com Alice B. Toklas criaram um salão literário que atraiu e congregou vários escritores americanos expatriados: Ernest Hemingway, Paul Bowles entre muitos outros escritores assim como pintores de vanguarda como Picasso, Matisse e Braque. Todos estes artistas (entre outros) eram considerados amigos, desfrutando constantemente dos encontros e tertúlias que se realizavam em casa. Stein será a primeira a pendurar nas suas paredes obras de Juan Gris, Matisse e Picasso, assim como de Cézanne, Gauguin, Renoir. A relação de ambas era considerada como absolutamente normal (relembro que estávamos em inícios do século XX) pelos amigos que frequentavam a casa e por quem as conhecia.

Alice cuidava e tratava de tudo e Stein deixava-se ser cuidada. Ela estava habituada a que os outros fizessem por ela as mínimas tarefas, apenas se preocupava com a sua produção literária que desenvolvia num ritmo algo lento. Entretanto Alice era a cozinheira, a secretária, mas também a editora, a crítica e organizadora da vida de Stein. Mas era, acima de tudo, a confidente e a amante. Viveu na sombra de Stein até à publicação, por Gertrude, da “Autobiografia de Alice B. Toklas” em 1933 e que se tornou o maior best-seller de Gertrude Stein. O tema versava, como se vê pelo título, sobre Alice, reproduzindo literariamente o que foi a vida de ambas, as suas memórias da vida. Contava ainda, com um estilo muito próprio, a forma como jovens artistas e escritores vindos de várias partes do mundo se encontram em Paris, criando novos caminhos para a arte.

Toklas e Stein permanecerão juntas até à morte de Gertrude em 1946. Vítima de cancro, virá a falecer aos sessenta e oito anos, deixando Alice desolada. Alice acompanhou a carreira literária de Gertrude com extremo zelo e terá continuado a fazê-lo até depois da morte da companheira. Continuou a exercer o seu papel de administradora da sua obra.

A velhice de Alice não foi fácil sendo marcada pela pobreza. Ainda que Gertrude lhe tenha deixado em testamento parte da sua coleção de arte moderna (que incluía quadros de Picasso…),a verdade é que o usufruto destes bens só poderia acontecer em vida pelo que, à sua morte, tudo ficaria na posse do sobrinho de Gertrude. Tal situação impossibilitava a comercialização dos quadros. Devido a isso Alice sofreu, nos seus últimos anos, inúmeras privações, contando com a ajuda de alguns poucos amigos para sobreviver.

Hoje quis trazer-vos esta história de amor intemporal acontecida numa Paris em inícios do século XX. Para a memória de todos ficou a escritora Gertrude Stein e a sua obra. Contudo, para a memória dos mais atentos à vida destas duas peculiares mulheres ficou uma história de amor singular; ficou a ternura de duas mulheres que se tratavam por “amor” e “gatinha”; ficou uma relação que durou quase 40 anos; ficou uma união que apenas a morte separou.

Gertrude e Alice encontram-se enterradas lado a lado, no Cemitério Père Lachaise, em Paris.

Deixo-vos com uma pequena curiosidade: sabiam que Gertrude Stein é uma das personagens históricas retratadas por Woody Allen no fabuloso “Meia noite em Paris”?