Regressos…

O texto desta semana resulta, mais uma vez, do desafio semanal lançado pelo Clube de Escritores. O desafio desta semana passava por escrever um texto que iniciasse com a frase “Eu tinha de voltar àquela cidade”. A cidade escolhida foi Chambéry, a cidade que me viu nascer. Venham daí “viajar” comigo!

Place des Éléphants

Eu tinha de voltar àquela cidade! Eu tinha que voltar àquela cidade que tinha assistido à primeira golfada de ar que tinha enchido os meus pulmões, ao meu primeiro grito para a vida mascarado de choro, ao primeiro olhar embevecido da minha mãe para o seu novo rebento. Não sabia quando, não sabia como, mas tinha de voltar! Foi este o primeiro pensamento a cruzar a minha mente naquela manhã.

Quis o destino – ou melhor – a vida dos meus pais, que o meu primeiro olhar para o mundo, assim como os meus primeiros anos de vida fossem vividos em França, numa cidade situada perto dos Alpes – Chambéry.

Apenas vivi lá os primeiros anos da minha vida. Com pouco mais de 6 anos, fizemos o que muitos emigrantes decidem fazer, e regressámos a Portugal. Aqui chegados, as bagagens foram pousadas na cidade da Covilhã. Curiosamente, a única semelhança que se poderia encontrar entre as duas cidades – a francesa e a portuguesa – era o facto de serem cidades encostadas aos pés de montanhas e, como tal, as visitas à neve serem algo mais ou menos recorrente. De resto, as duas cidades dos inícios dos anos 80 não poderiam ser mais diferentes. Aliás, o Portugal dos anos 80 em nada se parecia com a França daquela época. A velha ideia de que Portugal tinha um atraso de mais de 40 anos em relação a outros países da Europa não poderia ser mais verdadeira, pelo menos neste caso…

Contudo, ainda que o choque cultural fosse enorme, não poderei dizer que não gostei de Portugal e que não me tenha sentido em casa. Afinal, o meu sangue era português e este era o meu lugar. E, por estranho que pareça, ou porque de facto as crianças optam sempre por tirar o melhor partido daquilo que a vida lhes traz, rapidamente aceitei este país e a Covilhã como a minha nova casa e releguei para o esquecimento aquele país e aquela cidade.

Cresci e a vida foi decorrendo entre muitas vilas e cidades portuguesas. A minha profissão a isso me obrigou. Em todas deixei um pouco de mim e do meu coração. A todas tratei como “lares substitutos” da minha Covilhã. Em momento algum, até há pouco tempo, senti saudades daquela primeira casa, em França. Até ao dia em que, e sem nada que o fizesse prever, sonhei com Chambéry. Sonhei com a sua zona histórica, com as suas ruas pitorescas, a sua Place des Éléphants, o seu castelo…passeava-me pelas ruas com uma sensação de leveza como quem se sente a pairar, sentei-me em esplanadas deliciando-me com um éclair au chocolat, observei os transeuntes não com o olhar de um visitante mas com uma sensação de pertença àquelas ruas, àquelas velhas pedras. Acordei com uma sensação de paz, de quem tinha regressado de uma bela viagem. O primeiro pensamento que passou pela minha mente foi esse mesmo: “Tinha de voltar àquela cidade”.

Clara, a clarividente

Este pequeno conto foi escrito para responder ao desafio lançado pelo Clube de Escritores (Escrever um texto sobre alguém que consegue ler pensamentos). Respondi ao desafio com um conto que vos deixo, agora, para ler. Enjoy

Photo by Juan Goyache on Unsplash

“Clara, a clarividente”. Tinha esse epíteto desde a mais tenra idade e tal devia-se ao dom com que tinha sido agraciada: Clara sabia ler os pensamentos dos outros e isso acontecia desde que se lembrava de ser gente. Em criança usava o dom (que se pensava ter herdado da avó Joana, a sensata) a seu belo prazer, quando lhe apetecia. Usava-o para surpreender os coleguinhas, para provar que era uma feiticeira com poderes mágicos. Sabia ler a mente dos colegas, sabia o que pensavam, sabia os medos que tentavam esconder. Bastava fixar os olhos nos olhos da “sua vítima” e a magia acontecia. E ela considerava isso um superpoder que a tornava diferente dos demais.

Contudo, com o passar dos anos, Clara foi perdendo o controlo sobre esse poder. Já não necessitava fixar as pessoas olhos nos olhos para ouvir os seus pensamentos. Seguia pelas ruas e ouvia um coro incessante de vozes:

Como é possível continuar a trabalhar naquele escritório sombrio? Odeio o meu chefe!/Como abandonar aquele relacionamento tóxico?/Hoje, quando sair do emprego, tenho de ir às compras!/ Não suporto tanta gente neste comboio!…

Vozes e mais vozes a todo o momento. Tristezas, felicidades, problemas, preocupações, alegrias. Tudo passava pelo interior da sua mente sem deixar espaço para um pouco de silêncio. E isso era exaustivo! Ela só queria a paz de ter minutos de silêncio na sua mente ensurdecedora!

O pior, contudo, era essa faculdade estar sempre presente com os seus familiares e com os poucos amigos que tinha conservado desde que tinha perdido o controlo do seu “dom”. Percebera que o companheiro tinha muitos momentos em que preferiria estar sozinho no sofá do que na sua companhia. Descobriu que as amizades nem sempre eram tão sinceras quando aparentavam ser. Percebeu que atrás de um sorriso e de palavras doces se escondiam, muitas vezes, amarguras e tristezas de que preferia não ter conhecimento.

Naquele dia acordou ao lado do companheiro. Um ligeiro sorriso e um “bom dia” entaramelado. Um pensamento fugaz passou pela  mente dele: “está com péssimo aspeto…está a ficar velha. A idade não perdoa…”

Clara sorriu e respondeu ao bom dia. Agiu de um modo natural, como todos os dias. Contudo, no fim da manhã, e sem que ninguém o previsse, despediu-se deste mundo, de um modo violento, deixando o corpo (e a mente) estilhaçados por um comboio…Não suportava mais viver com tantas vozes, com tantos pensamentos alheios na sua mente, com tanto conhecimento, negativo, sobre o outro…

Josephine Baker no Panteão francês

Nota: Este texto foi publicado há 3 anos na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. Referia, à época, que pretendia relembrá-la porque, antes de mais, merecia esse epíteto de “Ela, a que fez a diferença” mas, também porque me parecia que o seu nome e a sua vida excecional estavam a cair em esquecimento. Contudo, o mundo gira e, de quando em vez somos surpreendidos com notícias, positivas, que muito nos agradam. Foi o caso da notícia que vos avanço em seguida. Josephine Baker, a “ela” que recordava em 2018, será trasladada, a 30 de novembro deste ano, para o panteão francês. Será a primeira mulher negra nesse templo de personalidades reconhecidas e veneradas pela república francesa.

Tal decisão resulta da decisão favorável do presidente Macron a uma petição entregue e que reuniu 38000 assinaturas em 2019. A petição pretendia que fosse reconhecida a importância e a excecionalidade da biografia de Josephine B. que foi a primeira estrela internacional negra no mundo do espetáculo, resistente ao lado do exército francês ou ainda uma lutadora pelos direitos civis dos negros.

Pareceu-me uma boa razão para republicar este “Elas, as que fizeram a diferença”, dedicado a Josephine Baker.

A “Ela” que vos trago hoje foi alguém que me parece que tem vindo a ser esquecida paulatinamente. E se há alguém que merece não cair nas teias do esquecimento é a mulher de quem vos venho falar. Ela foi a primeira afro-americana a desempenhar um papel principal numa grande produção de cinema; foi a primeira a apresentar-se perante um público constituído por brancos e negros numa sala de concertos americana; a primeira artista negra de variedades a tornar-se mundialmente famosa; aportou uma grande contribuição ao Movimento pelos Direitos Civis, nos EUA; colaborou com a Resistência Francesa durante a Segunda Grande Guerra; foi a primeira mulher americana a ser condecorada com a Croix de Guerre; foi mãe adotiva de 12 crianças de nacionalidades e raças diferentes… perante o que foi dito, parece-me claro que a senhora de hoje merece o seu lugar nesta rubrica! Caros leitores, hoje a “ela que fez a diferença” que vos quero apresentar é Josephine Baker!

Nascida Freda Josephine McDonald, a 3 de junho de 1906, no Missouri, era filha de Carrie Mc Donald. Não existem certezas de quem foi seu pai (ainda que a biografia oficial aponte o nome do baterista Eddie Carson). Não se pode dizer que tenha tido uma infância muito feliz, tendo em conta que aos 8 anos já trabalhava como empregada doméstica, ajudando a mãe que trabalhava como lavadeira. Ao facto de trabalhar ainda em tão tenra idade juntava-se o ser constantemente maltratada pelos patrões.

Aos 13 anos fugiu de casa tendo encontrado trabalho como empregada de mesa numa casa noturna. Ao mesmo tempo, dançava nas esquinas como artista de rua, tendo-se juntado a um grupo de músicos de rua, o Jones Family Band. O seu primeiro aparecimento em palco deu-se com esta banda, juntando-se a um grupo de bailarinas. Não terá causado grande sensação uma vez que Joséphine tinha apenas 13 anos e era muito magra comparativamente às suas outras colegas. Ainda assim foi contratada para tratar do guarda-roupa tendo abandonado, então, St. Louis. A troupe com que se deslocava passou por vários locais da América, destacando-se Nova-Orleães e Filadélfia.

Será por volta de 1921 que Josephine virá a conhecer e a casar com Willie Baker (Irá manter o nome do marido mesmo após o divórcio) É também nessa época que ela consegue, finalmente, pertencer ao corpo de dançarinas, substituindo uma bailarina que se tinha magoado. O papel dela era o da bailarina cómica, que não faz nada como as outras fazem. Seguiu então para Nova-York onde foi contratada para cuidar do guarda-roupa de revista Shuffle Along. Mais uma vez a sua oportunidade para se apresentar em palco surgiu quando uma das bailarinas ficou doente, passando ela a substitui-la. Rapidamente perceberam que Josephine era uma artista de mão cheia tornando-se uma das atrações da revista. Em 1922 ela já era reconhecida como uma verdadeira artista e ganhava bem a sua vida. Contudo, continuava a ser-lhe oferecida o mesmo tipo de papéis: a bailarina palhaça que não consegue acompanhar os restantes membros do corpo de baile, que debita umas frases cómicas. Josephine percebeu isso e decidiu abandonar os EUA e partir para Paris, onde lhe tinha sido proposto um papel. Estreou-se em outubro de 1925 no Théâtre des Champs Elysées. O sucesso foi instantâneo, apresentando-se praticamente nua em palco enquanto executava danças eróticas. Mais tarde apresentar-se-á no Folies Bergères, no figurino que ficou para sempre colado à sua imagem: uma saia de bananas artificiais enquanto executava a Danse sauvage. Em muito pouco tempo Baker tornou-se a artista americana mais bem paga de França. Para além de continuar a trabalhar no teatro musicado, participou em 3 filmes: Sereia dos trópicos, em 1927, Zouzou, em 1934 e Princesse Tam Tam em 1935. É também nessa época, em 1931, que Josephine apresentará a sua música mais conhecida (ainda hoje) – J’ai deux amours.

Decide regressar aos Estados Unidos, apresentando-se lá em 1935-36. Contudo, o seu sucesso nunca foi o mesmo que tinha em França. Dececionada com o seu país, onde chegou a ser expulsa de um restaurante que “era só para brancos”, volta a Paris onde, em 1937 casará com o francês Jean Lion. É através desse casamento que se tornará cidadã francesa.

Durante a IIa Guerra Mundial, Josephine mostrou a sua lealdade ao país que a adotou, participando ativamente como espiã na Resistência Francesa. A sua fama permitia-lhe frequentar certos círculos sociais, capturando informações que se revelaram preciosas. Cooperou também com os esforços de guerra enviando, por exemplo, presentes de Natal aos soldados franceses. Ajudou ainda muita gente que se encontrava em perigo por perseguições nazistas a conseguir vistos e passaportes para deixar a França. Esta participação trar-lhe-á, como recompensa, as mais altas condecorações militares de França: a Croix de Guerre e a Légion d’Honneur.

Casa em 1947 com um chefe de orquestra de seu nome Jo Bouillon. Nos anos 50 a sua popularidade serviu a luta contra o racismo, apoiando o Movimento dos Direitos Civis, de Martin Luther King, nos EUA. Devido a essa luta ela apenas aceitava participar em espetáculos que permitissem públicos mistos (brancos e negros). Em 1963 discursou, aquando da Marcha em Washington, ao lado de Martin Luther King. Trajava o seu uniforme da França Livre e envergava a sua medalha da Légion d’Honneur. Após a morte de Martin Luther King ainda foi convidada para tomar o lugar de líder do Movimento Americano de Direitos Civis, mas Josephine não aceitou o convite. Toda a vida protestou contra a segregação e o racismo. A forma mais evidente dessa luta verifica-se na adoção de 12 órfãos multiétnicos a quem denominou de “A Tribo Arco-íris”. Durante algum tempo, essa enorme família e uma imensa criadagem chamou casa a um castelo, o Château de Milandes. A ideia era criar um misto de local de atração turística e de centro educativo. Queria demonstrar as possibilidades de criar um mundo mais fraterno e construir uma comunidade modelo. A recuperação do castelo foi longa e muito custosa, o que levou a, mais tarde, mais um divórcio e a graves problemas económicos por parte de Josephine Baker. Os anos 60 foram vividos sempre com o medo de ser confiscado terras e castelo, que acabavam por ser sempre salvos por Josephine ou por algum dos seus muitos amigos. Ainda assim, acabou por ser expulsa de lá por acumulação de dívidas. Seguiria para uma villa, contando para a sua aquisição com o apoio monetário de Grace Kelly.

A 8 de abril de 1975, apresentou-se num espetáculo de comemoração dos seus 50 anos de carreira. Os bilhetes esgotaram. A plateia, na noite de estreia, incluía pessoas como Sophia Loren, Shirley Bassey, Mick Jagger, Diana Ross, Liza Minelli e a princesa Grace Kelly como convidada de honra. O espetáculo recebeu apenas críticas positivas. Quatro dias depois, Josephine foi encontrada desmaiada, rodeada de jornais com apreciações críticas ao seu desempenho. Tinha entrado em coma, fruto de uma hemorragia cerebral. Ainda foi levada ao hospital onde viria a morrer, com 68 anos, a 12 de abril de 1975. O seu funeral teve honras militares francesas.

Hoje quis falar-vos de mais uma mulher que fez a diferença. Aquela a quem foram dados epítetos como a Vénus negra, a Pérola Negra e a Deusa Crioula viveu de um modo diferente e corajoso. Lutou contra o racismo, lutou por um mundo mais justo, não se escusou a participar em grandes causas (como a sua participação na Resistência Francesa), usou a sua fama e dinheiro com o intuito de criar um mundo melhor e mais fraterno. Tudo isto com um sorriso nos lábios, com uma enorme alegria de viver, cantando o seu amor pela vida e por Paris. Sem dúvida uma mulher que fez a diferença e que merecia o seu lugar nesta rubrica.

Nunca se esquece quem nos tocou na alma…

A proposta de hoje é um singelo conto. Espero que gostem de o ler! Enjoy

Júlia chegou ao recinto das festas, abraçando com o olhar toda a paisagem humana que se encontrava à sua frente. Como gostava e sentia saudades das suas gentes! Podia não visitar muitas vezes a sua aldeia mas estar presente na festa de verão era condição que se tinha imposto a si mesma. Era nesta festa que  visitava pais, tios e primos, como não poderia deixar de ser. Mas era essa, também, a época em que se reencontrava com os seus amigos de infância. Tinham uma espécie de acordo não escrito que referia que se encontrariam ali, naquele recinto das festas, ano após ano, nas noites de fim de verão. E, até ao momento, a tradição tinha-se mantido com menor ou maior dificuldade. O encontro no “sábado de festa” tinha-se mantido ao longo de mais de vinte anos.

Júlia adorava esse reencontro anual. Nunca falhavam os abraços, as conversas até de madrugada tidas à volta de uma mesa onde abundavam as cervejas e o vinho tinto, o frango assado e o caldo verde, as gargalhadas e a certeza constante que a amizade, quando verdadeira, não necessita de se alimentar de telefonemas diários e visitas semanais.

Todos estes pensamentos afloravam à mente de Júlia enquanto percorria, com o olhar, o recinto e as muitas pessoas que por ali se encontravam, aguardando pelo concerto da noite para assim poderem dar aso à sua vontade de dançar “uma modinha”. Não tardou a descortinar a sua “pandilha”, como gostava de lhes chamar. Avistou o Rui e a Amélia, o Jorge e o Ricardo, o Eduardo, a Maria, a Helena e o Pedro. Faltavam alguns mas o núcleo duro já estava reunido. Gostava de os observar assim ao longe, analisando se aqueles 365 dias que tinham passado por eles tinham sido bondosos ou, pelo contrário, infernais. Procurava descortinar, através dos rostos e das suas expressões se se encontravam genuinamente felizes, se o tempo ao passar tinha deixado marcas mais profundas nos rostos de cada um ou se, pelo contrário, pareciam ter descoberto o segredo da juventude eterna. Não deixava de ser uma curiosidade de quem começa a sentir o peso dos anos e da vida, procurando perceber se o mesmo se passava com os seus amigos de toda uma vida.

Deixou-se destes pensamentos ensimesmados e decidiu avançar por entre a muita gente que a separava do seu grupo de amigos. Quando caminhava em passo decidido em direção ao grupo de amigos sentiu um olhar pesar sobre ela. A intensidade era tal que o passo ficou suspenso. Parou e virou-se em direção à sensação que acabara de sentir. Cruzaram-se os olhares e numa fração de segundo o mundo pareceu parar, o som das pessoas que os rodeavam desapareceu. O mundo ficou silencioso, em suspenso. Júlia, paralisada, apenas conseguia ouvir o som ofegante da sua própria respiração. Ele? Aqui? Como? As perguntas atropelavam-se na sua cabeça. Nunca mais se tinham visto desde que tinham rompido com o relacionamento. Três anos sem o ver, sem se cruzarem. João tinha optado por aquilo que ela intitulava de exílio autoimposto. Nunca mais o João tinha vindo à aldeia (pelo menos em tempo de festa). E Júlia era-lhe reconhecida por isso. O grupo de amigos era o mesmo. Se ele insistisse em comparecer, ela teria sido obrigada a relacionar-se com ele. Mais que não fosse o frio “Olá, tudo bem?” Tal não sucedera nos anos anteriores e Júlia agradeceu aos céus, no primeiro ano, a decisão de João de não comparecer. No segundo ano, já com as feridas mais curadas, Júlia pensou com alguma curiosidade se iria ou não o João comparecer. Contudo, João não tinha, também, nesse ano vindo à festa e Júlia sentiu, mais uma vez, que esta era a melhor atitude que ele podia tomar. Perante estes dois anos de ausência na festa, Júlia nem pensara que ele poderia estar presente esse ano. Mas o facto é que este ano ele tinha vindo e ali estava, a alguns metros dela. Sentiu uma ligeira onda de pânico. O que iria fazer? Avançar e dizer-lhe “Olá, tudo bem?” Desviar o olhar e ignorar aqueles olhos pregados nos dela?

Não precisou tomar qualquer decisão. João resolveu a situação por ela. Em passos firmes avançou através da multidão, não despregando os olhos dos dela, com um ligeiro sorriso que oscilava entre o confiante e o temeroso.

Olá Júlia! Há quanto tempo? – foram estas as palavras, enquanto a observava detalhadamente do pés à cabeça. O tempo não passa por ti, de facto! Estás fantástica, como sempre!

E com essas singelas e simpáticas palavras, que vinham acompanhadas daquele sorriso irresistível que Júlia tão bem conhecia, o gelo foi quebrado, o passado foi relegado para um canto mais recôndito da mente e Júlia sentiu que a última vez que tinha visto e falado com João não tinha sido há três anos mas sim a noite passada. Falaram um pouco sobre trivialidades das suas vidas nos últimos três anos evitando, como seria de esperar, assuntos mais pessoais. E, ao afastar-se, Júlia pensou, com o coração e a alma leves, que o passado tinha sido enterrado, que ambos tinham seguido em frente e que, daquele amor avassalador que sentira, apenas tinha ficado um sentimento que não sabia definir mas que não lhe causava qualquer dor. No fundo, nada mais que um sentimento de ternura por alguém que foi importante mas escolheu sair da sua vida.

A noite decorreu da forma que sempre decorreram aqueles encontros anuais dos amigos de infância: conversas que colocavam em dia as vidas de cada um, conversas recordando momentos divertidos da infância, anedotas, histórias vividas…tudo aquilo que se pode esperar num encontro de pessoas que partilham o sentimento da amizade há muitos anos. João não tardou a juntar-se ao grupo. Contra tudo aquilo que Júlia pudesse acreditar antes do reencontro, a presença de João não a incomodava. Pelo contrário, gostou de conversar com ele, poder observá-lo de perto, gostou de olhar, discretamente, para o seu rosto e tentar perceber o que a vida tinha feito dele nesses três anos que não se tinham visto. Não raras vezes os olhares se cruzaram deixando transparecer uma centelha dos sentimentos que os tinham unido em outros tempos mas, ainda assim, Júlia deu por si a pensar que, a seu tempo, poderiam tornar-se bons amigos. A verdade é que ele tinha sido muito importante na vida dela e o laço que os unia parecia ter-se tornado mais leve, menos intenso, dando espaço, pensava ela, a uma possível amizade entre os dois. Afinal – pensou ela – éramos amigos antes de iniciar uma relação. Por que não sermos amigos depois de esquecer a mágoa do que se tinha passado?

Foi com esse pensamento presente na mente que aceitou, depois de um arrepio de frio, o casaco que João lhe estendeu. Ele sempre fora uma pessoa atenciosa. Já tinha percebido que Júlia sentia frio, debaixo daquela blusa com aquele decote tão generoso… Júlia aceitou e vestiu o casaco com a maior naturalidade possível. Contudo, na hora em que o vestiu, foi assaltada pelo cheiro de João, que tão bem conhecia. Ainda usas o mesmo perfume – pensou. A verdade é que as memórias olfativas têm a capacidade de nos transportar para momentos do passado à velocidade da luz. Como se fosse em flashes, Júlia relembrou momentos bons que tinha partilhado com João. A verdade é que tinham sido muitos e bons. Respirou fundo e pensou que devia deixar o passado arrumado lá onde ele estava. Inspirou profundamente e decidiu voltar ao mundo, à conversa dos amigos e às gargalhadas.

O resto decorreu como sempre tinha decorrido. As conversas de grupo sobre tudo e nada, as conversas tidas mais em particular com esta ou aquela amiga, o frango assado à meia noite e o vinho tinto, as horas a passar e a madrugada a chegar. O tempo passava por todos mas, nesta situação, parecia que todos continuavam os adolescentes amigos que tinham passado o dia no rio e a noite no arraial da festa. E essa sensação era ótima. Júlia sentia-se de coração cheio. Podia ter falhado no amor mas na amizade, de facto, tinha sido abençoada. Por outro lado, sentia-se serena ao constatar que tinha conseguido apagar a mágoa que tinha sentido no fim do relacionamento com João e que era capaz de estar com ele a uma mesa de uma forma leve e bem disposta, não relembrando que tinha considerado aquela pessoa o homem da sua vida durante tanto tempo.

Já o sol anunciava a sua chegada iminente quando decidiram ir para casa. Júlia retirou o casaco e devolveu-o ao seu legítimo dono. João ainda disse para o guardar, que poderia devolvê-lo mais tarde mas Júlia insistiu no seu gesto. Seria melhor não deixar nenhum assunto pendente – pensou. No momento em que Júlia devolveu o casaco, e de um modo totalmente inconsciente as mãos de ambos tocaram-se. Foi um gesto rápido mas que pareceu durar uma eternidade. Júlia sentiu-se trespassada por um raio. Um pensamento fugaz passou pela sua mente: Raios! O toque dele continua a ter uma intensidade de choque elétrico!

Os olhar de um ficou congelado no olhar do outro. Pela mente de Júlia passava a ideia que tinha bastado um simples toque de mão, um ligeiro contacto de pele com pele, para as certezas de que poderiam ser bons amigos desmoronarem. Como poderiam alguma vez ser amigos se, ao mínimo toque, ela se sentia atravessada por um descarga elétrica?

Nessa madrugada, enquanto conduzia para casa, Júlia parou o carro para assistir ao momento mágico que é ver o nascer do sol. Enquanto, em paz, observava esse magnífico espetáculo pensava que, de facto, o corpo, a pele, jamais poderiam esquecer quem deixou marcas tão profundas na alma. Júlia sorriu de si para si e murmurou: “Eras especial. Serás sempre especial. A marca que deixaste na minha alma pode ficar mais ténue mas nunca será apagada. Hoje tive a prova disso. Penso que devo sentir-me feliz por ter experienciado algo tão profundo. Está tudo certo!…”

Voltou a ligar o carro e seguiu para casa enquanto cantarolava “Don’t cry” dos Guns N’ Roses…

Não gosto da estação das folhas secas!

Respondendo ao desafio lançado pela amiga Sandra Ramos da página Escrevinhar, escrevi uma crónica sobre o outono. Mais não é do que uma opinião sobre esta estação. E vocês são dos que adoram o outono ou fazem parte da minha equipa?

Começo esta crónica por vos dizer que não gosto da estação das folhas secas, não gosto do outono. Das quatro estações que nos são oferecidas ao longo dos 365 dias do ano, é o outono aquela que menos me agrada. E sei que muitos estarão nesse momento a pensar “como pode ela não gostar do outono?”  mas a verdade é que não gosto, quase abomino e posso afirmar, sem segundos pensamentos: “Não sou uma pessoa de outonos”. Antes de me julgarem quanto a esse “não gostar”  peço-vos que gastem dois, três minutos do vosso tempo para lerem as minhas razões para tal antipatia e que a seguir deixo explanadas.

Li uma vez que as pessoas se identificavam com a estação presente no seu mês de nascimento. Nasci em junho, poucos dias depois de iniciar o verão. E o facto é que adoro o verão! Gosto de sol, de calor (de calor intenso até), de caminhar e sentir o sol ardente nas minhas costas, de calções e de chinelos. Gosto da luz pela manhã do verão, gosto do céu azul e dos tons de rosa que adquire ao ocaso. Gosto dos dias intermináveis em que a manhã se encontra tão longe da noite que, quando ela chega, temos a sensação de ter vivido dois dias num! Gosto das cores e dos cheiros de verão emprestados pelas flores e muitas frutas maduras que encontramos pelos campos cultivados. Gosto das idas à praia, dos mergulhos nos rios, da vontade constante de procurar uma sombra para nos refrescarmos. Acima de tudo, gosto da pessoa que sou no verão: mais leve, de sorriso mais pronto, com mais tempo e vontade de estar com pessoas e conviver. O verão faz de mim uma pessoa com vivacidade e com vontade de viver.

Já o outono… O outono é aquela estação do “chove não molha”. Não é uma estação de calor mas também não é uma estação de frio. E haverá algo pior que não se ser uma coisa nem outra? Não venham já defendê-lo referindo que é uma estação de temperaturas amenas! Não é nada disso! É uma estação de manhãs frias, de quase inverno, e de tardes quentes que recordam o verão. Temos as várias estações num mesmo dia. Como eu detesto não saber com o que contamos!

 A minha avó dizia que é a estação dos mal vestidos. E é mesmo! Começas o dia com sol e acreditas que vai estar um calor fabuloso. Enfrentas o outono e decides, mais uma vez e corajosamente, colocar o pézinho de fora, numa sandália que te apetece calçar, acreditando que o verão ainda continua por cá! E o que acontece a maior parte das vezes? Pois, acontece frio quase de inverno, ou uma chuvada tão feia que até te deixa de pés sujos de terra! Mas atenção que o contrário também pode acontecer! Vês o dia cinzento, sacas da camisola mais quente e o excelentíssimo outono decide transformar-se num fabuloso dia de verão! É horrível! Nunca acertamos no outfit e, como dizia a minha saudosa avó: Nunca estamos bem vestidos!

 A juntar a essa incerteza da meteorologia tem o facto de ser aquela estação em que os dias se vão tornando, gradualmente, mais pequenos. Quando dás por ti percebes que anoitece bem mais cedo e que estás a voltar para casa, depois do trabalho, já sem a luz do sol. A luz solar parece tornar-se menos brilhante, num lento definhar até chegar à luz mortiça dos dias de inverno. Alguém consegue assistir a isso sem ficar deprimido?! Para não dizer que o famoso “horário de inverno” chega no outono. Apenas este pormenor seria suficiente para considerar o outono a estação odiada por excelência!

E a natureza? Será que sou só eu a achar triste aquele silencioso cair das folhas que de verde passaram a amarelas e, mais tarde, a castanho? Existe beleza numa folha castanha caída à beira do tronco de uma árvore?

Há uma coisa que gosto no outono: a venda de castanha assada na rua. Sim, é verdade que isso é um fator simpático. Mas, ainda que goste de castanha assada, isso em nada se equipara a comer um belo gelado na rua, sentada numa qualquer sombra encontrada!

Não gosto do outono. Já deixei isso bem claro nas linhas que acima escrevi. Sublinho, mais uma vez: aquilo que me faz não gostar do outono é ser uma situação de transição. Já não temos calor como tínhamos no verão mas também ainda não temos o verdadeiro frio do inverno. Aquele frio que nos faz almejar por uma lareira e um cacau quente! Nestas questões de clima não gosto muito de “meio termos”. Ou é branco (verão), ou é negro (inverno). Aí sabemos com o que contamos: um calor fabuloso ou um frio a sério. Esse cinzentismo do “chove não molha”, do hoje está calor mas amanhã temos invernada não me agrada de todo. O outono mais não é do que uma transição, uma passagem dos gloriosos dias de verão que irão dar lugar aos dias frios e de chuva. É impossível assistir a este processo sem um sentimento de nostalgia, sem sentir que vamos sendo envolvidos por uma névoa fria que apaga a luz  notável dos dias de verão. Não gosto dessa sensação.

E vocês? Qual a vossa equipa no que às estações do ano diz respeito?

Apologia da sesta!

Ainda com um ligeiro espírito de férias, publicámos esta “Apologia da Sesta” no Semanário Registo e deixamos o registo, agora, aqui no blogue. Enjoy!

Sempre ouvi dizer que “De Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”. Penso que tal afirmação remonta ao “tempo dos reis” (adoro usar esta expressão, que define tão pouco do arco temporal a que nos referimos), sobretudo ao tempo dos Filipes e à nossa perda de independência. Contudo, é uma máxima que se manteve até aos nossos dias, ainda que hoje seja utilizada, penso eu, mais num tom de graça do que propriamente com o sentimento que era pronunciada nos ditos tempos dos Filipes (não quero, de modo algum, ser acusada de lançar no “papel” ideias xenófobas).

Um facto é que de Espanha, para além de muitas outras coisas, vem algo de que eu, pessoalmente, gosto muito: a sesta. Considero que, nesse aspeto, os nuestros hermanos compreenderam a vida de uma forma bem mais correta do que aqui os seus irmãos portugueses e instituíram a sesta, aquele soninho de curta duração após o almoço como uma instituição na qual não se deve mexer. Sim, eu sei que é uma tradição espanhola que se está a perder aos poucos, mas eu prefiro acreditar que, lá por terras de Espanha, os trabalhadores continuam a ter uma hora de almoço alargada para assim poderem desfrutar da sesta que todo o trabalhador deveria poder usufruir.

Sou pela sesta pós-almoço. Em tempo de férias, sempre que posso, dormito uma meia hora depois de rechear condignamente o estômago.  Mas também sou pela sesta de fim de tarde, quando estamos a trabalhar e chegamos a casa cansados. A verdade é que poderia iniciar um movimento pró-sesta porque eu sou mesmo é a favor da possibilidade de descansar uns 20 ou 30 minutos quer seja a seguir ao almoço, quer seja ao fim da tarde. E, sim, só 20 ou 30 minutos. É a isso que se chama sesta e não a uma tarde inteira passada a dormir, seja num sofá, seja à sombra de uma qualquer árvore.

E não se pense, desde já, que aqueles que defendem e que podem usufruir de uma sesta pós-almoço são os preguiçosos que só pensam em dormir! A verdade é que a ciência já provou que a sesta traz benefícios. Existem estudos que nos dizem que apenas 20 a 30 minutos de uma sesta permitem recuperar o cansaço e refrescar a mente. (E a verdade é que, sempre que me é possível dormir uma sesta destas, sinto que fico com força e energia redobrada!). Esses estudos referem também que uma sesta de qualidade ajuda a combater o stress uma vez que ajuda a reduzir as tensões provocadas pelo trabalho. Também se afirma que uma sesta durante o dia poderá melhorar a capacidade de aprendizagem. Um estudo realizado por investigadores da NASA demonstrou que a sesta aumenta as faculdades cognitivas em aproximadamente 40%. Estudos efetuados numa amostra de mais de 1000 pessoas demonstraram que as pessoas que trabalhavam sem descanso obtiveram uma pontuação mais baixa em testes de inteligência. Os estudos em causa revelaram ainda que a capacidade para memorizar e realizar tarefas profissionais diminuiu nos indivíduos que não dormiam, em comparação com os indivíduos que dormiam após a refeição. Posso ainda dizer-vos que a sesta beneficia a nossa saúde de um modo geral e a saúde cardiovascular, em particular, uma vez que a sesta beneficia o coração. Convencidos sobre a utilidade da sesta?

Volto a lembrar que falamos aqui dos benefícios de sestas de 30 minutos que poderão ser arrastadas, no máximo até aos 60 minutos (nos adultos). Caso assim não seja, poder-se-á entrar num sono profundo o que pode provocar confusão e indisposição ao acordar além de poder contribuir para as insónias à noite.

É claro que não é fácil dormir esta sesta no nosso dia-a-dia. Ainda que algumas pessoas tenham uma hora de almoço mais alargada que lhes permitiria até fazer uma “sestinha”, a verdade é que, a maior parte de nós, está longe de casa e não se pode permitir esse luxo. Vai daí (e voltamos aos “nuestros hermanos”) umas mentes iluminadas criaram um conceito bem simpático: cafés que oferecem a possibilidade de se alugar um quarto para fazer uma sesta. Não é isto fabuloso? É claro que tudo isto não é novidade absoluta, sendo que no Japão já existe muita oferta baseada nesse conceito mas gostei da ideia de já termos cafés aqui tão perto a pensar na importância da sesta. Por mim, importem, desde já, a ideia para Portugal!

A juntar a tudo isto tenho ouvido que algumas escolas nos Estados Unidos estão a criar nas escolas umas salas dotadas de cadeirões confortáveis, luz suave e música relaxante onde os professores poderão descansar e, digo eu, dormir uma sesta. Nunca sonhei em ir trabalhar para os Estados Unidos mas assumo que sonho em trabalhar numa escola que tenha uma sala destas!

Sou uma adepta das sestas. Sempre que posso, procuro dormir uma sesta. E, cumpro sem qualquer problema, os minutos máximos “permitidos”. Uma sesta de 20 minutos deixa-me totalmente renovada e pronta para mais umas horas de trabalho. A sesta preferida é, claramente, aquela depois de almoço. Mas, é verdade, a maior parte das vezes não me é possível dormi-la. Assim sendo, e sempre que posso, durmo a sesta do fim de tarde. E posso, por isso, comprovar-vos que uma sesta de 20/ 30 minutos nos dá muito mais do que aquilo que à partida nos rouba (tempo).

Com toda esta dissertação, espero ter-vos conquistado para a “equipa dos que dormem a sesta”! Verão que apenas tirarão lucros desta atividade…ou deveria dizer inatividade?

From Madeira, with love

Tenho por hábito, antes de visitar qualquer local ou cidade,  procurar pela imensa internet e pelo vasto “conhecimento” por ela espraiado, as opiniões sobre o local em causa, os monumentos que me aconselham visitar, os melhores locais para comer. Apesar de realizar esse trabalho de casa, a verdade é que lá chegados, prefiro pedir a opinião dos habitantes da região sobre aquilo que consideram mais bonito e mais interessante do que seguir, ponto por ponto, o roteiro que tinha desenhado.

Algo que vem escrito e repetido por tantos e tantos amantes de viagens é que há que seguir a ordem correta das coisas no que às visitas às nossas ilhas diz respeito e essa ordem natural é primeiro visitar a Madeira e só depois visitar os Açores. Dizem os entendidos que se essa ordem for alterada, o turista irá sofrer uma deceção quando chegar à Madeira. Ora, não foi de caso pensado mas a verdade é que eu subverti as coisas e o ano passado visitei os Açores, mais propriamente, a Terceira, e este ano visitei a Madeira. E, querem saber? Contrariamente ao que dizem os entendidos, não fiquei nem um pouco desiludida. Pelo contrário: adorei a Madeira. Não poderei responder à famosa questão “de qual gostaste mais?” porque são ilhas que não têm comparação e que brilham em tons diferentes. Adorei a Terceira e adorei a Madeira – no fundo devo ser uma turista fácil de agradar, é o que é.

Tenho de confessar, assim sem grandes receios de ferir alguém, que não morri de amores pelo Funchal. O facto de se encontrar, quase toda ela em obras terá ajudado a não o ter apreciado a 1oo%. Mas, ainda assim, tem vários locais encantadores e que quero aqui destacar!

A minha visita começou logo pelo museu do nosso CR7 (e quis o acaso que nos cruzássemos logo com a D. Dolores que acedeu a tirar uma fotografia com a gente – a típica turista tira fotos a tudo e com todos!). Gostei do museu, situado num edifício moderno, onde podemos seguir, muito do que tem sido a carreira e os êxitos do melhor do mundo. Gostei particularmente das réplicas das várias Taças ganhas ao longo da sua carreira (obviamente que a mais bonita é a Taça do Campeonato da Europa de 2016!). É claro que, ainda que não ache a estátua muito conseguida, tinha que ter uma foto junto do jogador!!!

Outro ponto de grande interesse do Funchal, sobretudo para quem gosta de street art, é a baixa que tem ruas com portas e janelas pintadas que são um encanto. Poderão observá-las enquanto se sentam numa das muitas esplanadas para almoçar ou apenas tomar um cafezinho.

Um dos locais que muito me agradou foi o Mercado dos Lavradores. É, sem sombra de dúvida, um mercado criado para o turista. Provavelmente os preços estarão inflacionados mas só a beleza daquelas frutas tropicais, as suas cores e os seus aromas merecem que se pague um pouco mais por um maracujá ou uma fruta do dragão!

Para encerrar o capítulo Funchal (e tanto mais haveria por dizer) tenho de mencionar a descida nos carros de cestos de vime. Que experiência alucinante e divertida! Por várias vezes pensei que o meu destino era acabar esborrachada contra uma parede ou contra um carro (sim, porque aquando da descida passámos por alguns bem pertinho!) mas a verdade é que é uma descida absolutamente divertida e que vale mesmo a pena fazer!

Mas aquilo que apreciei na Madeira, acima de tudo, é que cada canto é um recanto deliciosamente bonito! Como não adorar Câmara de Lobos, com as suas ruelas decoradas com materiais reciclados, o seu aspeto rústico? Para não falar da baía que é absolutamente pitoresca e encantadora! Destaco ainda as janelas e portas decoradas (a sua maioria com pássaros) também elas com materiais reciclados. Caminhar por aquelas vielas é uma das atividades que não podem deixar de fazer quando visitarem a Madeira.

Outro lugar que não podem deixar de visitar é, obviamente, o Curral das Freiras (o único local da ilha onde não se consegue ver o mar) e que só considero bonito por não ter lá estado muito tempo! A aldeia fica lá tão no fundinho dos fundinhos que a sensação que vamos ser engolidos pela serra é constante.

Para esquecer essa sensação, nada como uma subida (a pique) até ao Miradouro dos Namorados onde é possível ver o Curral, lá bem no fundinho, respirar a plenos pulmões e deliciarmo-nos com uma paisagem de cortar o fôlego.

Paisagens a perder de vista também encontramos quando subimos 1810 metros e subimos ao Pico do Areeiro. Vale a pena ir lá, observar a paisagem e perceber que, estranhamente, temos à nossa frente uma paisagem que em muito nos lembra a “nossa” Estrela.

Poderia falar-vos da excelente paisagem que observamos quando chegamos ao Cabo Girão mas estaria a mentir-vos. Não quero dizer que ela não exista (pelo contrário, acredito que seja magnífica) mas porque o nevoeiro não nos permitiu ver mais do que um palmo à frente do nariz. Contudo, com ou sem nevoeiro, é um local a que não se deve deixar de ir, mais que não seja para os que têm vertigens se desafiarem. O miradouro está assente sobre uma arquitetura em vidro que permite ver toda a paisagem que fica sob os nossos pés e que nos lembra que estamos 580 metros acima do nível do mar! Fabulosa e estranhamente, não senti qualquer receio com a altura.

Ir à Madeira e não visitar as casinhas de Santana seria um erro que, penso, ninguém terá cometido. São maravilhosas, muito bem recuperadas e ao ambiente à volta é todo ele colorido e mimoso! Um encanto! Algo que adorei em Santana, até porque nunca tinha ouvido falar dele, é o teleférico de Santana. Conhecia o do Monte (no Funchal) mas este nem sequer tinha ouvido falar. É mais uma oportunidade para desafiar medos e receios ,realizando uma descida até à praia que, para além de ligeiramente assustadora, é fabulosa. Chegados à praia, ainda tive oportunidade de molhar o pézinho “nas águas da Madeira”, algo que ainda não tinha acontecido.

E quem fala em molhar os pés não poderá deixar de falar das Piscinas Naturais de Porto Moniz (de uma enorme beleza) ou, dos mais próximo que encontramos por lá das praias que conhecemos, a Praia da Calheta!

A Madeira é uma ilha cheia de particularidades e especificidades. Cada canto é um recanto. Tem pormenores que desconhecia. O facto de ter, por exemplo, semeados pela ilha, 150 túneis! O facto de ter uma cascata a cair diretamente na estrada, a Cascata dos Anjos. Passar por lá a pé ou de carro (fizemos ambas) é uma experiência sensacional!

E, por fim, o facto de ter o mais antigo monumento a Cristo Rei edificado. Com 14 metros de altura, virado para o mar é um monumento imponente que não podem deixar de visitar.

Por fim, não poderei deixar de vos falar “dos comes e bebes”! Como não pode deixar de ser, quem vem às ilhas tem de comer lapas! (Por que raio não encontramos, facilmente, lapas à venda no continente?) Sou fã de lapas grelhadas e, na hora em que vos escrevo, era menina para comer umas quantas. Depois das lapas como entrada, poderia aconselhar-vos o maravilhoso peixe espada com banana (um prato maravilhoso). A bebida, por excelência, é a Poncha. Gosto muito e, se posso dar-vos um conselho, bebam a receita original que, para mim, é a melhor. Como digestivo, passem por um Vinho da Madeira, que também é bem simpático e complementem com um belo bolo de mel!

Tenho noção que muito mais haveria para ver na Madeira e muito mais teria para vos falar! Mas espero, com este relato e com estas fotografias, ter-vos deixado com vontade de visitar a Madeira e, sobretudo, que tenham ficado com a ideia que não importa que ilhas visitamos em primeiro lugar: ilhas dos Açores ou Madeira. A beleza e interesse de cada uma são incomparáveis. O melhor, mesmo, é visitá-las, independentemente da ordem em que o fazem!

Olaaaa! Barato, barato! Bonito, bonito!… – Pensamentos numa tarde de verão!


Deitada na toalha, fecho os olhos. Sinto com as mãos a areia quente. Sempre adorei essa sensação de estar deitada na toalha e de ir apanhando punhados de areia que deixo deslizar suavemente pelos meus dedos.
Apuro um pouco o ouvido. Quero ouvir o som do mar, das ondas a rebentar na areia. É relaxante e todos nós sabemos disso. Outros sons, para além dos do mar chegam aos meus ouvidos: o bebé que chora porque quer brincar ao sol e os pais (obviamente) não deixam. A voz da mãe que repreende o filho por encher tudo de areia. A música (mais barulho que música) lançada de uma coluna de um tamanho considerável (o tempo dos rádios a pilhas na praia – vulgo tijolos – está a voltar). Aqui e ali o grito das gaivotas que hoje não me parecem muito satisfeitas. Não poderia faltar, nesse quadro, o famoso pregão “bolinha”!

O quadro é, salvo algumas mudanças pequenas, o mesmo todos os dias. Já reconheço algumas pessoas dos toldos vizinhos e, há que dizê-lo sem medos, algumas conversas também. A verdade é que em Portugal (e talvez se passe o mesmo em outros países) rapidamente nos sentimos como que em pequenas aldeias ainda que estejamos em cidades pouco conhecidas por nós. Rapidamente percebemos que as mesmas personagens frequentam os mesmos locais numa repetição que, se não for ad aeternum, sê-lo-á, pelo menos até ao final da quinzena.
No meio de todas estas personagens faltou referir aquelas que me têm chamado a atenção ultimamente. Não por serem novidade por cá mas sim pela forma com que vivem neste mundo da praia. Falo, em especial, de dois vendedores de toalhas de praia, lençóis de praia, óculos, pulseiras e afins. Ambos de pele negra, de estatura elevada, envergando óculos escuros e um chapéu. Contudo, a semelhança termina aqui.
O primeiro, vendedor de pulseiras, apresenta-se com um cansaço difícil de presenciar. Lança de quando em vez um lacónico “bonito! Barato!” Mais do que cansado de palmilhar o areal da praia acima e abaixo, parece cansado de existir. Observo-o. Decidiu sentar-se a uma sombra e organizar as muitas pulseiras que traz no seu expositor. Desconfio que usou essa desculpa para se sentar e descansar um pouco. Por momentos sinto-me pouco desconfortável com essa imagem de cansaço e, eventualmente, de saturação. Que vidas serão estas, vividas sob o areal escaldante?
Este quase sentimento de tristeza é interrompido por uma voz que se aproxima. “Lá vem ele” – pensei. Ouço, numa voz forte o habitual “Oláaaaa! Tudo beeeem? Éeee barato! Compras hoje,pagas amanhã”. Sorrio.

vendedores

Adoro essa personagem que todos os dias cruza o areal procurando vender as suas toalhas com alegria no corpo e na voz. Traz máscara mas percebe-se que sorri. Aliás, todo ele sorri: com a boca, com os olhos, com o corpo todo. Não lhe conheço o nome, nem lhe conheço a história de vida. Mas gosto dessa alegria transbordante. Tem uma forma de estar, de espalhar a sua voz e alegria contagiantes que me fazem lembrar um qualquer ator dos Estados Unidos da América.
Deito-me na toalha. Fecho os olhos. Procuro relaxar. Lá longe ouço um “bonito, bonito”. Um último pensamento atravessa-me a mente antes de adormecer: “que vidas serão as destas duas personagens?” Desconfio que teria muito para vos contar, se soubesse.

(Texto escrito na praia, ao sol e num telemóvel…desculpem alguma incorreção e/ ou erro de formatação)

Descalça os sapatos e para!

A última crónica antes do blogue ir de férias durante o mês de agosto, foi publicada, simultaneamente, aqui e no @P3 do Público no endereço: https://www.publico.pt/2021/07/31/p3/cronica/descalca-sapatos-1972043

Enjoy

Já não será a primeira vez que digo que por vezes temos de parar e, com calma, observar a paisagem que nos rodeia. Todos temos tendência a olhar e a seguir sempre em frente, procurando não perder a nossa atenção do objetivo, não olhando para a esquerda ou para a direita. O futuro está logo ali à nossa espera e não podemos perder tempo. E é por isso que, quando damos conta, a vida foi passando, decorrendo, devagar e, no entanto numa urgência tal que nem demos conta dos bons momentos que decorreram naquela semana, mês ou ano.

Esta urgência, de viver e de não parar, mais do que se acentuou ao longo destes quase dois anos de pandemia. Vivemos com a preocupação dos números (quantos mortos? quantos infetados? Quantas vacinas existem disponíveis?…), com a preocupação das regras (cumprir? Não cumprir? Castigar quem não cumpre?…) e, como sempre, com o pensamento num futuro que há de vir e que será bem mais simpático e brilhante do que este presente sombrio que vivemos atualmente. E assim seguimos numa espécie de lufa-lufa, esperando os resultados da semana ou da quinzena para saber o que nos é ou não permitido a partir daquele dia.

E, quando damos conta, o inverno passou, a primavera passou, e o verão está quase passado. E, mais uma vez, não parámos. Trabalhamos até que nos seja permitido ter uns dias de férias. Mas ainda assim, não iremos parar, nesses dias. Na ânsia de aproveitar da melhor forma as férias, iremos, mais uma vez numa correria, procurar os divertimentos permitidos, a praia, piscina ou praia fluvial que nos permitirá descansar e que nos fará chegar a casa com o corpo moído de cansaço. Iremos ler até altas horas ou ver séries em catadupa porque, afinal, temos tempo e temos, acima de tudo, de recuperar o tempo perdido ao longo de todo este interminável ano! Chegaremos ao fim das férias com a típica sensação de que “precisamos de férias das próprias férias”. Afinal, todas aquelas idas à praia, as visitas a locais nunca antes visitados por nós, foram fabulosas mas deixaram-nos fisicamente cansados e a desejar um simples “parar”.

E tudo isto porque, parar significa “cessar no movimento ou na ação”. E, pensando assim, fica no ar a questão: “quantas vezes nos damos ao luxo de parar, efetivamente?” Ao que responderei, sem dificuldade: “Muito poucas!”.

Desconfio que algumas pessoas temem este parar pois terão, nesse momento, que se encontrar consigo mesmas. E, muitas vezes, esse encontro não é fácil, tendo em conta que poderão ter um perfeito desconhecido à sua frente.  Mas, digo eu cheia de mim mesma: “ajam com coragem e sem medos”. O meu conselho será: escolham uns dias do mês, escolham locais agradáveis (pode ser mesmo em casa) e escolham ficar parados, entrar em inatividade, tal como tão bem o fazem os gatos,  num qualquer local por eles escolhidos.

A minha proposta para este fim de mês é esta mesmo: Parem! Tirem uns dias. Não façam rigorosamente mais nada que não seja degustar, com tempo, os pratos que têm à vossa frente, saboreiem as imagens que a natureza (do campo ou citadina) vos proporciona, degustem o tempo que vos é dado para dormir, provem o doce sabor que tem o não fazer nada, o doce sabor, como os italianos o imortalizaram, do dolce fare niente.

Será esse tempo que irão oferecer a vocês próprios (e apenas a vocês) que vos permitirá reencontrarem-se com vocês próprios e com o mundo que vos rodeia. Não tenho qualquer dúvida que irão dar atenção a pormenores que nunca antes tinham visto e irão ver o mundo, assim como as suas qualidades e os seus problemas, com outros olhos!

Não tenham dúvidas: parar, por momentos, é muito importante para a nossa vida, para a nossa saúde. A nossa mente necessita desse ponto e vírgula na lufa-lufa habitual para se situar no mundo e para se reorganizar. Não o fazer é condenarmo-nos a perder tempo e, sobretudo, a perder qualidade de vida. É muito importante por vezes parar, descalçar os sapatos que utilizámos todo ao ano e dar tempo para esticarmos as pernas. É importante e necessário, não só para o corpo se restabelecer mas, também, para que a alma não adoeça!

Um conselho: coloquem estas ideias em prática, já este ano, e digam-me, em setembro, como se sentiram. Perguntarão os mais atentos: “porquê, apenas em setembro, se ainda estamos em julho?” E responderei eu, sempre solícita, que eu mesma vou descalçar os sapatos e esticar as pernas. Não só os sapatos de professora, que me ocupam a maior parte do tempo, mas também os sapatos da cronista que gere um blogue durante todo o ano.

Até lá desejo-vos  um dolce fare niente!

Assim sendo, anuncio-vos que a Steff’s World – a soma dos dias vai tirar uns dias de férias e não deverá voltar antes do mês de setembro que é, como se sabe, o mês dos recomeços. Espero que sintam saudades do blogue e espero reencontrar-vos no início de setembro com mais crónicas, contos, biografias e histórias de amor.

O olfato: o sentido que dá sentido

Há muitos anos, era eu adolescente, li um livro magistral que nunca mais esqueci e que não raras vezes cito como um daqueles que deve ser lido, pelo menos uma vez na vida. Falo de “O Perfume” de Patrick Süskind. Todo o livro me ficou na memória mas não posso negar que o seu início, relatando o nascimento de Jean-Baptiste Grenouille, de uma forma extremamente detalhada, num mercado de rua, no meio dos cheiros nauseabundos de legumes podres e de peixe, me ficou gravado para sempre, na memória. A descrição era tão pormenorizada que me senti agoniada, acreditando que estava rodeada, também eu, por aqueles cheiros. Nunca até àquela leitura me lembro de dar tanta atenção aos cheiros e aromas que me rodeavam. O livro tem uma história interessantíssima, que nos agarra do princípio ao fim mas, tenho de o assumir, a grande mudança que provocou em mim foi o passar a procurar aspirar, com muita intensidade, os cheiros – bons e maus – que me rodeavam, procurando distinguir todo o mundo de aromas que existem à nossa volta.

Curiosamente, essa necessidade de distinguir todos os cheiros com os quais vou contactando no dia a dia voltou há pouco tempo, quando nos foi dito que um dos sintomas da infeção por Covid 19 era a perda do olfato. Tal como na época dei por mim a inspirar com força no banho para ver se distinguia as várias notas de aroma do gel duche, a inspirar fundo sempre que colocava o perfume ou até a procurar perceber o que era o prato do dia nos restaurantes, tendo em conta os cheiros que me chegavam da cozinha.

Já naquela altura tinha constatado, e agora comprovei, que, efetivamente, não sou uma pessoa de olfato muito apurado. Nunca senti que as flores tivessem um cheiro tão forte que conseguisse distinguir o cheiro de uma rosa do de um cravo. Não sou daquelas pessoas que entra numa casa e fica sem qualquer dúvida do que está a ser cozinhado. Ainda assim, ficava (e fico) sempre muito satisfeita quando constatava que, apesar de pouco apurado, o meu sentido do olfato se mantinha e continuava a conseguir sentir o aroma do meu perfume, do meu creme, da minha comida favorita.

No fundo, e apesar de pouco apurado, constato que dou mais importância ao olfato e aos cheiros do que poderia pensar num primeiro momento. Noto, quando penso nisso, que muitas memórias estão impressas em mim através do cheiro que me deixaram. O meu passado tem muitas memórias olfativas que reconheço no primeiro segundo em que o aroma aflora as minhas narinas. Poderia citar, a título de exemplo, o cheiro do creme que a minha mãe usava ou o seu perfume, o “Ô” de Lancôme. Quantos de nós não associamos um determinado perfume a uma determinada pessoa? Basta alguém passar por nós usando esse mesmo perfume para nos lembrarmos automaticamente da pessoa. Poderia falar-vos do cheiro das estevas, planta tão típica da aldeia da minha avó, que reconheço em qualquer local e que me lembra, instantaneamente, a minha meninice e aquela aldeia. E o cheiro tão típico de Campo Maior? É impossível dissociar a vila do cheiro de café: sempre que me cheira a café torrado, lembro-me de Campo Maior e das suas gentes.

Uma coisa é certa: apesar de não darmos muita importância ao olfato, muito do nosso conhecimento das coisas, da nossa perceção do mundo, chega-nos através do olfato e as nossas memórias ficam efetivamente ligadas aos cheiros. Por isso, tantas e tantas vezes nos emocionamos quando determinado aroma chega até nós.

Tal como em tantas outras coisas importantes, habituámo-nos a ignorá-lo mas a verdade é que o olfato é o mais antigos de todos os nossos sentidos. Um bebé consegue reconhecer a mãe pelo cheiro que ela exala desde a primeira semana de vida! É através do olfato que fazemos as nossas escolhas. Quantas e quantas vezes não dizemos que não gostamos de determinada comida porque o odor dela não nos agrada? E a verdade é que não estamos enganados e não apreciamos, efetivamente, aquele ingrediente ou aquele prato de comida!

 E ainda há mais! Não só o olfato é capaz de nos dirigir nas nossas preferências, nas nossas escolhas mas é também responsável pela atração sexual que sentimos por alguém (ainda que esse facto não seja consciente em nós). Todas as pessoas têm um cheiro próprio, uma combinação de todas as substâncias odoríferas libertadas através da pele. Sentimo-nos atraídos, sem saber porquê, por determinada pessoa e a verdade é que o seu cheiro é em muito responsável por essa atração. Um pouco na mesma linha de pensamento, li há uns tempos que um dos primeiros sinais do fim de um romance acontece quando um dos parceiros passa a não suportar o cheiro do outro!…

Como comecei por vos dizer, foi o livro “O Perfume” o primeiro que me fez despertar para o mundo dos aromas e dos odores, bons e maus e para a sua importância na construção da minha imagem do mundo, para a escolha daquilo que gosto, que não gosto, que me atrai ou me repele. Não tenho qualquer dúvida que o olfato não é um sentido menor e perdê-lo levar-nos-á a perder, simultaneamente, muito da beleza do mundo. Perderemos não só o seu cheiro mas também o seu sabor, uma vez que o cheiro está presente em tudo: no amor, no apetite, nas nossas recordações…

Aqui chegados, sinto-me à vontade para vos pedir que fechem os olhos por uns segundos e absorvam, bem devagar, os cheiros que vos rodeiam. O mundo adquire toda uma outra cor quando passamos a dar mais atenção  não só ao que vemos e ouvimos mas também àquilo que cheiramos!