Pessoas negativas? Não, obrigada

Depois de, neste mês termos tido a rubrica “Vidas – entre a realidade e a ficção” e a rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je taimerai – Histórias de Amor Intemporais”, hoje damos lugar a mais uma crónica. Esta é, quanto a mim, verdadeiro serviço público uma vez que nos alerta para os perigos das pessoas negativas na nossa vida e até nos ajuda a reconhecê-las. Espero que gostem e que vos seja útil!!

Já agora, conhecem alguém assim?!

Sou uma pessoa positiva por natureza. Sou daquelas pessoas que, por mais cinzento que esteja o dia e por mais negra que esteja a própria vida, procura sempre ver um pequeno raio de sol, uma pequena luz por mais ténue que seja. E assumo que isso me é tão natural como a vontade de rir e de sorrir até nos momentos menos prováveis. Chego a achar que é uma espécie de defesa que criei: sempre que a situação me parece demasiado pesada ou dolorosa encontro, naturalmente, uma qualquer piada que aligeire o ambiente ou algo no meio circundante que me faça ter vontade de sorrir e até de rir.

Penso que sempre fui, naturalmente, bem disposta. Sempre fui mais do riso do que da tristeza. Contudo, tenho de assumir que também me caracterizo, desde muito nova, por períodos de trovoada curta mas intensa. Penso que todos nós temos tendência para sermos mais explosivos enquanto crianças e jovens. Felizmente a idade, ao mesmo tempo que nos traz rugas e cabelos brancos (aspetos menos positivos) traz, anexada a ela, uma maior calma e presença de espírito, tornando, a maior parte das vezes, as explosões de mau humor mais espaçadas.

Contudo, tal não acontece com todas as pessoas. Infelizmente para aqueles que com elas se cruzam, há pessoas que já nasceram com uma boa dose de negativismo às costas e que só foram piorando com a idade. A esses podemos adicionar aqueles que azedaram com o tempo. Existe uma frase que pulula nessas redes sociais, cuja autoria é atribuída a tantas pessoas diferentes que não me atrevo a escolher um deles, mas que diz algo como “o Homem é como o vinho. A idade azeda os maus e apura os bons”. E, efetivamente, independentemente de quem é o autor de tal pensamento, a verdade é que ele viu certo. Se a idade a alguns traz uma paz, doçura e até sabedoria, a outros só os torna mais azedos e zangados com a vida, mais negativos.

Não sei se sou eu que, por força das circunstâncias, me estou a tornar mais intolerante a esse tipo de pessoas ou se, de facto, a minha sensação de que este género de pessoas negativas está a aumentar exponencialmente é verdadeira. O que é certo é que os vejo por todo o lado e, o que é pior, sem a menor tentativa de esconder o seu azedume e negatividade. Em todo o lado os encontramos com o seu ar fechado, casmurro, zangado com o mundo e com todos em geral a debitar irritações.

Sabem o que vos digo? Falta-me a paciência para pessoas negativas. Mais do que me faltar a paciência tenho a verdadeira noção de que essa gente faz mal à saúde de quem se encontra à sua volta, sugando-lhes a energia e deixando-as exaustas só por partilharem o mesmo espaço que elas.

Pelo acima exposto, há que fugir dessa malta dada ao negativismo o mais depressa possível. Mas, para fugir delas há que, antes de mais, reconhecê-las (e à distância, diria eu). Considerem aquilo que vão ler em seguida como “serviço público” a que darei o nome de “Como reconhecer uma pessoa negativa”.

A característica principal de uma pessoa negativa é, sem dúvida, o facto de ver sempre o copo meio vazio. São pessoas que se habituaram a olhar sempre para o lado menos positivo das coisas, que encontram defeitos em tudo. Por ter essa tendência para o negativismo olham para tudo com cinismo. Não há pessoa boas nem há comportamentos bondosos. Toda a gente age com segundas intenções. Para estas pessoas o mundo mais não é do que um local negro, um campo de batalha, e as pessoas que com eles se cruzam mais não são do que agentes do mal.

Por causa dessa visão negativa do mundo e das suas gentes, são pessoas que têm tendência a reclamar muito e a toda a hora! São o tipo de pessoa que traz sempre para a mesa de café o último escândalo acontecido na cidade, as últimas indignações devidas às más decisões tomadas pelo governo, ou os últimos acontecimentos no país que lhe permitam estar zangado e revoltado. São pessoas que procuram o acontecimento negativo e o sublinham a negrito. Para eles o mundo está às avessas e eles estão irados por causa disso. No fundo são pessoas que se debruçam sempre sobre o problema, mas que nunca apontam qualquer tipo de solução. Atenção que não estou aqui a querer defender que devemos ser pessoas apenas da paz e do amor sem nunca apontar o que está errado no país e no mundo. O que digo é que não podemos fazer parte apenas da crítica. Até porque, nesse momento, mais não estaremos a fazer do que crítica destrutiva. E esta, caros leitores, de nada serve. Criticar será útil, sim, se no seu seguimento, apresentarmos uma solução, um ponto de vista construtivo.

Por quererem sempre sublinhar tudo o que está mal no mundo, são pessoas que exigem muito de quem está à sua volta. Passam o dia a bombardear-nos com notícias, vídeos, histórias que provem, de alguma forma, que elas têm razão para estar revoltadas com tudo e com todos. No fundo exigem de nós tempo, atenção e níveis de irritação no mínimo tão elevados como os deles.

Para mim, e analisando tudo o que acima ficou dito sobre esse tipo de pessoas, diria que são, na sua maioria, pessoas insatisfeitas consigo e com a sua própria vida (amorosa, profissional, familiar ou social) e que, por isso, destilam sentimentos negativos para todas as direções de tal forma que deixam um ambiente “carregado”, irrespirável.

Cito, por fim, um outro pormenor. Como são pessoas que não se sentem bem consigo e com o mundo, não conseguem aceitar que outros se sintam felizes e positivos. Assim, são pessoas que dificilmente ficam felizes pelos outros. Desconfiam sempre do sucesso, do bem-estar ou até da felicidade do outro. Vão sempre lançando aqui e ali uma farpa para questionar se aquela felicidade é mesmo verdadeira, se aquele bem-estar que apresenta é real.

Existem pessoas que encaram a vida como um desafio bom de viver, com um sorriso na cara e sentimentos positivos no coração. E depois há os outros…Os outros que consideram o mundo como um local de batalha, cheio de desafios intransponíveis, que observam tudo à sua volta com um olhar de cinismo, envenenando tudo o que está à sua volta. Se puderem escolher, prefiram pertencer ao primeiro grupo.

Lettres Portugaises – o amor de Mariana Alcoforado

Ainda sob a influência romântica do Dia de S. Valentim, escolhi trazer-vos hoje a décima segunda história de amor da rubrica “ Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerai – Histórias de amor intemporais” para vos vir falar da fantástica história de amor de  Mariana Alcoforado. À luz do tempo que passou é difícil saber onde acaba a história e começa a lenda mas toda esta incerteza só vem acrescentar interesse à história desta freira, nascida em Beja.

Mariana Mendes da Costa Alcoforado nasceu a 22 de abril de 1640, como já vos disse, na cidade alentejana de Beja. Entrou para o Convento de Nossa Senhora da Conceição apenas com onze anos de idade. Não se pense que essa entrada precoce para o Convento estará, de alguma forma, ligada a algum tipo de chamamento. Nessa época a opção pela vida religiosa era apenas uma opção de vida e bastante popular, por sinal. No caso de Mariana A., a entrada precoce para o convento ficou a dever-se, pelo que se sabe, à necessidade de honrar o testamento da mãe que a queria ver freira naquele Convento.

Com ou sem inclinação religiosa, o certo é que Mariana passou a sua infância e adolescência no Convento, em clausura, tendo feito o noviciado e professado com dezasseis anos. Mariana A. viu-se assim, desde muito nova, amarrada a um destino que não escolheu e que não terá desejado. Diz-se que sempre ansiou sair da clausura do Convento e viver em liberdade. A verdade é que, mesmo encerrada num convento, a sua vida virá a ser marcada por um amor impossível que a tornará numa das personagens mais fascinantes do século XVII em Portugal.

Antes de vos contar a história da freira Mariana Alcoforado, e para que a mesma vos faça algum sentido, há que falar um pouco antes, da situação política em Portugal nessa época. Encontrávamo-nos, por essa altura, em Portugal, em guerra com Espanha, naquela que ficaria chamada como a Guerra da Restauração. Se bem se lembram, Portugal era governado, desde 1580, por Filipe II de Espanha (e primeiro de Portugal). EM 1640 (ano de nascimento de Mariana Alcoforado) os portugueses revoltaram-se, confrontando-se com os castelhanos numa série de combates e a nossa independência foi restaurada. Contudo, garantir a independência nacional não era fácil (até porque os castelhanos eram mais poderosos e mais numerosos). Um dos países que aceitou ajudar Portugal a manter a sua independência foi a França, prontificando-se a ajudar a proteger as fronteiras portuguesas, com o envio de um exército seu.

Foi no seguimento desta guerra (que só terminaria em 1668) e desta ajuda gaulesa que chegará a Beja um regimento francês vindo para apoiar o Rei de Portugal.

Soror Mariana Alcoforado tinha, à época, 20 anos. Diz-se que estava sentada a uma janela (batizada de “Janela de Mértola”) a observar as forças francesas a executar algumas manobras quando os seus olhos se cruzaram com um jovem oficial francês de seu nome Noël Bouton de Chailly, marquês de Chamilly. Dizem que foi amor à primeira vista. Apesar de Mariana ser uma freira, e estar presa aos votos da vida religiosa que tinha abraçado tão nova, o amor e a vontade física foram mais fortes. Mariana e Noël iniciaram um relacionamento que não tinha olhos para os votos de Mariana e para todas as impossibilidades daquele relacionamento. Há que dizê-lo que, à luz dos conceitos da época, essa relação era praticamente impossível não só por Mariana ser uma freira como também por pertencer à poderosa família Alcoforado. Diz-se que o N. Bouton visitou a cela de Mariana durante várias noites até ao momento em que foram descobertos.

Não se pense que a notícia foi mantida em segredo. Pelo contrário, a notícia correu rápida pelas ruas e vielas da cidade de Beja, tornando-se o escândalo mais comentado durante alguns tempos.

Noël sabia que a situação se tinha complicado para ele e que a sua vida podia estar em risco. No seguimento do escândalo abandonou Portugal logo que pôde, com o pretexto que tinha o irmão doente não sem antes deixar a promessa de vir procurar a sua amada, livrando-a da clausura para assim poderem viver livres o amor que os unia. Nunca saberemos se Noël partilhava com a mesma intensidade dos sentimentos de Mariana e se apenas era mais racional ou se Mariana Alcoforado era a única a amar desesperadamente naquele relacionamento. O que se sabe é que Mariana esperou ansiosamente por um regresso do seu amado e por uma libertação que nunca chegou a acontecer.

Com o passar do tempo, e ao não receber notícias do seu amado, sozinha e desesperada, sem o apoio de ninguém, Mariana decidiu escrever-lhe. Foram, ao todo, cinco as cartas que ela enviou ao jovem oficial francês. Na leitura das mesmas podemos verificar o forte sentimento de amor que Mariana sentia por ele, um amor que foi viajando  desde a esperança de ele a vir salvar e de poderem viver o seu amor livremente, à incerteza que tal pudesse vir a acontecer e, finalmente, à certeza de ter sido abandonada à sua sorte e do fim daquele amor intenso e proibido.

As cartas da apaixonada Mariana A. chegaram ao conhecimento do público em geral ao serem publicadas sob o título de “Lettres Portugaises Traduites en François” traduzidas por Claude Barbin. Lá era referido que aquela publicação era o resultado da tradução das cinco cartas de uma religiosa portuguesa enviadas a um oficial francês. Foram publicadas, num primeiro momento, de forma anónima. Serão, mais tarde, reeditadas com o nome da suposta autora das cartas: Mariana Alcoforado.

É certo que muitos estudiosos questionam a autoria destas cartas mas eu escolhi acreditar que Soror Mariana Alcoforado escreveu, efetivamente estas cartas onde colocou todo o seu sentimento que transbordava por aquele que não a soube amar à mesma altura. Foi sem dúvida um amor maior, sofrido e dorido. As cartas deixam perpassar esse sentimento, que passou da esperança à desesperança, demonstrando, simultaneamente, uma habilidade para interessante para a escrita.

Deixo-vos alguns excertos das cartas.

Primeira carta

“Os meus estão privados da única luz que alumiava, só lágrimas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias decidido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo. (…)”

“Mal te vi, a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta”

“Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.” (final da 1ª carta)

Segunda carta

“Estou desesperada, a tua pobre Mariana já não pode mais: desfalece ao terminar esta carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!”

Terceira carta

“Contudo, não me resolvo a desejar que não penses em mim; e confesso ter ciúmes terríveis de tudo o que em França te dá gosto (…)”.

 “O meu amor aumenta a cada momento”.

A quinta carta, contudo, tem um tom diferente. Mariana termina com ela o relacionamento com Chamilly. Nesta última carta ela refere que pediu à Dona Brites (freira confidente da autora) que se desfizesse de todos os pertences associados a Chamilly. Acaba a sua relação epistolar com uma frase lapidar: “Que obrigação tenho eu de lhe dar conta do meus sentimentos?”

Mariana foi freira no Convento da Conceição em Beja até ao seu último dia de vida. Morreu a 28 de julho de 1723, com 83 anos. Diz-se que terá recuperado do desgosto, dedicando-se de um modo firme à vida religiosa. Não se sabe muito bem onde acaba a história e começa a lenda mas a verdade é que esta personagem e a sua vida entraram, há muito, no imaginário nacional e internacional. Eu escolho acreditar que a autoria das “Lettres Portugaises” é de Mariana Alcoforado e que elas são o resultado de um amor maior que ela viveu e sentiu.

Histórias de amor intemporais

A rubrica “Je t’aimais, je t’aime, je t’aimerais – Histórias de Amor Intemporais” já conta com dois anos de vida. Nesses dois anos contei algumas histórias de amor da vida real. É certo que falei de grande amores correspondidos mas também de outros em que, inegavelmente, um amava mais do que o outro ou até de casos em que o amor de um terá sido confundido com o desejo do outro. Mas a verdade é que todas as histórias contadas são, para mim, histórias bonitas e dignas de serem relembradas. Até agora foram onze as histórias de amor contadas e relembradas.

Hoje, Dia de S. Valentim, dia do amor, proponho que visitem (ou revisitem) estas histórias de amor que fui contando e que nos deixam de coração quentinho.

A rubrica começou com a história dos gangsters mais famosos da história: Bonnie & Clyde!

Podem reler neste endereço: https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/02/12/bonnie-clyde/

O segundo casal de quem vos quis falar era português. Nutro uma simpatia especial pelo amor destas duas pessoas, assim como não posso deixar de admirar ambos os elementos do casal. Não há dúvidas que eles viveram uma história de amor linda e corajosa. Estou a falar de Snu e Sá Carneiro e de um amor que nem a morte separou. Não percam a oportunidade de ler (ou reler) esta fantástica história!

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/04/10/snu-e-sa-carneiro-um-amor-que-nem-a-morte-separou/

O terceiro casal que trouxe aqui à rubrica foi o de Édith Piaf e Marcel Cerdan. Um amor trágico, à semelhança do que foi toda a vida de Piaf. Aproveitem para reler este texto enquanto ouvem o magnífico “Hymne à l’amour”.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/05/21/edith-e-marcel-um-hino-ao-amor/

Depois de contar a história destes três casais chegou a vez de falar de um outro casal igualmente apaixonante, apesar das suas particularidades. Foi a vez de vos falar da relação conturbada mas apaixonada de Frida Kahlo e Diego Rivera.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/07/16/escoje-un-amante-que-te-mira-como-si-quizas-fueras-magia/

Sem dúvida que Mata Hari foi uma personagem tão interessante que também ela já teve lugar na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”. Por outro lado, o amor dela por Vadim Maslov foi tão intenso e desesperado que cativou um lugar também nesta rubrica de Amores intemporais. Foi em outubro de 2019 que vim contar a história da espia Mata Hari que morreu por amor a Vadim Maslov.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/10/09/mata-hari-e-vadim-maslov-amor-em-tempos-de-guerra/

Voltamos ao país que dizem ser o do amor por excelência, a França, para falar da história de amor do escritor Vítor Hugo e a atriz Juliette Drouet.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2019/12/10/victor-hugo-e-juliette-um-amor-explosivo-e-intemporal/

O casal que se seguiu foi o primeiro casal de quem falei que não é famoso por os seus membros serem um escritor, um artista, um político… Este casal ficou famoso pela sua própria história de amor que, de tão bonita, cativou todos aqueles a quem foi dada a conhecer. Uma história de amor, um verdadeiro conto de fadas vivido por gente comum. São eles Liu Guoquiang e Xu Chaoqing.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2020/02/12/liu-guoqiang-e-xu-chaoqing-o-amor-no-cimo-da-montanha/

O oitavo casal de quem escolhi falar é um daqueles que gosto particularmente e cuja história aprecio muito. Falo-vos do homem que escreveu a carta de amor que foi considerada a mais bonita de todos os tempos e da mulher que recebeu essa carta. Já devem ter percebido que falo de Johnny Cash e June Carter.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2020/05/13/johnny-cash-e-june-carter-o-amor-do-homem-de-negro-e-a-sua-princesa/

Em julho de 2020 trouxe-vos a história de amor que durou mais de 37 anos entre a escritora Gertrude Stein e a, também, escritora Alice Babbete Toklas.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2020/07/01/gertrude-e-alice-uma-historia-de-amor/

Voltámos para o campo da política, que também é profícuo em histórias de amor, e vim relembrar o amor de Winston Churchill e Clementine Hozier, marido e mulher por mais de 57 anos.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2020/09/08/winston-churchill-e-clementine-hozier-57-anos-de-amor/

O último casal de que vos falei, até agora, não reúne muito consenso, sendo que algumas pessoas ainda antipatizam com a Yoko Ono. Eu considero que ela e John Lennon viveram uma história de amor bonita, interrompida pela morte prematura de John Lennon. Por isso considerei que tinham lugar nesta rubrica.

https://steffsworldasomadosdias.wordpress.com/2020/11/20/john-lennon-e-yoko-ono-somos-uma-pessoa-so/

Foram, até agora, 11 casais, 11 histórias diferentes. Muitos mais haverá para aqui relembrar! A próxima história de amor chegará na próxima semana, ainda sob a influência do Dia de S. Valentim. Até lá!…

Manel, o velho da romaria

Para esta semana escolhi trazer-vos a rubrica “Vidas – entre a realidade e a ficção”. Como já disse anteriormente, esta rubrica tem apenas um propósito: apresentar-vos pessoas e as suas vidas. Aqui falo de pessoas comuns mas de quem me apetece falar. Personagens reais ou fictícias? Deixo à vossa consideração pensar se se trata de personagens reais ou não. Quem sabe elas tenham um tanto de verdade e outro tanto de ficção?

Hoje escolhi apresentar-vos o “Manel, o velho da romaria”.

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Conheci o Manel ainda eu era uma criança. Por isso, para mim, o Manel sempre foi uma pessoa idosa. Hoje, quando penso nisso penso que, provavelmente, teria conhecido o Manel com pouco mais de cinquenta anos. Mas, por mais que procure nos meandros das minhas memórias, o facto é que não consigo lembrar dele com outra cara e outro aspeto que aquele de pessoa idosa que sempre lhe conheci.

O Manel sempre foi um homem da lavoura. Nasceu na aldeia e por lá passou a sua vida toda, vivendo do que a terra e os animais que criava lhe davam. Lembro sempre dele com o eterno chapéu na cabeça, que tapava o frio e o calor: um mais velho para os dias da semana e de agricultura, e um bem preto e praticamente novo para o dia de domingo que utilizava para ir à missa e seguir, mais tarde, para a taberna onde passava o resto do dia, a jogar às cartas e a conversar com os amigos. Este era o único dia na semana em que Manel se permitia aproveitar um pouquinho da vida. Todos os outros eram de labuta dura e cansativa.

O Manel sempre foi um homem simples. Não foi um homem de grandes paixões mas também não era um homem dado a grandes tristezas. Pareceu-me sempre que vivia de acordo com o ritmo das estações aceitando com a mesma naturalidade tanto os dias de inverno como os dias de primavera.

Tal como todos os seus colegas da aldeia estudou até conseguir o seu diploma de quarta classe, de que muito se orgulhava e tinha abandonado a escola para se dedicar, a tempo inteiro, às terras dos seus pais e às suas cabras. A seu tempo tinha seguido para a tropa (dizia que as poucas vezes que tinha tido sorte na vida tinha sido nesse tempo, em que não foi chamado para a Guerra do Ultramar) e, um pouco mais tarde, tinha casado. Não sei se Manel foi feliz no seu casamento. Nunca me falou muito da Maria. Maria, e a vida, tinham-lhe dado dois filhos – rapazes e valentes. Contudo, quisera o fado – assim me tinha ele dito, sem grande réstia de emoção na voz – que a Maria falecesse na tentativa de lhe dar a menina tão desejada. Penso que Manel aceitara a morte da mulher e da filha, e a morte em geral,  com a mesma naturalidade com que aceitava a vida e o nascimento. Tudo acontecia por alguma razão e não procurava razões filosóficas para a vida, nem explicações para a morte e muito menos para todos os acontecimentos que decorriam entre o nascimento e a morte. Aceitava a vida como ela chegava, com o bom e o mau, tentando passar pela vida com a maior serenidade possível. Lembro de  o ouvir falar, já um pouco mais velha, e de lhe invejar aquele ar sereno de quem pouco esperava da vida mas, acima de tudo, de quem pouco exigia da vida.

O Manel não era uma pessoa muito religiosa. Tinha a sua fé – dizia ele – muito própria. Acreditava em Deus e nos santos mas não gostava de padres. Mas também acreditava na natureza como uma divindade que devia ser respeitada. Nos seus poucos estudos, e nunca tendo ouvido falar sobre ecologia e preocupações ambientais, não deixava de ser um acérrimo defensor da Natureza e respeitava-a tanto como respeitava Deus e os seus santos.

Ainda que não gostasse de padres, não deixava um domingo de assistir à missa. Mas fazia-o por rotina e porque esse era o dia do descanso. Acordava cedo pela manhã, tomava o seu banho, desfazia a barba com todo o cuidado e penteava o cabelo com um cuidado redobrado. Procurava então a sua roupa de domingo, os sapatos bem engraxados e até passava uma colónia para ir “visitar o padre” todo jeitoso e cheiroso. É claro que essa ida à igreja fazia parte de toda a rotina de domingo: igreja, missa, conversa no adro da igreja, encontro com os amigos, converseta sobre a vida e o futebol, passagem pela taberna para beber o aperitivo antes do almoço e, em seguida, ir almoçar a casa de um dos filhos. Era essa a rotina do domingo durante o ano inteiro. Essa rotina só era alterada uma vez por ano no dia em que se celebrava o Santo da aldeia e se subia à pequena ermida, que ficava lá no cimo do monte a observar a aldeia cá no fundo. Esse era o dia de Manel, por excelência. Era o único dia no ano que Manel decidia estar por sua conta. Não queria responsabilidades, nesse dia, de qualquer ordem. Alimentava os animais pela manhã e dizia-lhes, com carinho, que comessem devagar porque só iriam voltar a ver o dono no dia seguinte. Tratava de si ainda com mais esmero do que o fazia nos dias de domingo. Estreava, inevitavelmente nesse dia, um chapéu novo assim como uma camisa. Sentia-se “um velho janota” como ele gostava de dizer. Fazia questão de acompanhar o rancho de jovens e menos jovens que subiam até à ermida a pé. Segundo ele, era assim que se subia “no antigamente”. Não havia carros – dizia ele – Seguia o rancho todo a pé a conversar, a rir e a cantar. Por isso, ainda que já tivesse ultrapassado os 80 anos quando me falava sobre isso, ainda subia, ano atrás de ano, a pé, acompanhando os mais jovens. Dizia que todos os anos, sempre que chegava lá acima, cada ano mais cansado, pedia ao Santo que lhe permitisse voltar, no ano seguinte, da mesma forma que sempre subira: a pé.

Uma vez lá chegado, fazia questão de entrar na pequena capela, para fazer as suas orações. Dizia que devia esta visita anual ao Santo. Ia lá conversar um pouco com ele e falar da vida. Dizia que não pedia nada ao Santo e que por isso nunca lhe cobrava nada. Apenas gostava de o visitar como se visita um velho amigo. Terminada a visita ia sentar-se, perto da capela, à espera da missa.

Aquilo que Manel mais gostava era a romaria que se seguia após a missa. Manel fazia questão de percorrer todo o recinto para falar com este e com aquele. Encontrava sempre velhos amigos que não via há muito. Uns porque tinham abandonado a aldeia em prol da cidade, outros porque tinham ido viver para casa dos filhos, outros, ainda, porque já não tinham forças para viver sozinhos e estavam num lar. Aquele era o dia dos reencontros, dos abraços fraternos, das conversas, das gargalhadas. Era o dia de relembrar o passado. Mas era também o dia de conversar com os mais novos, com as gentes da cidade que, grande parte das vezes, já não conhecia. Como gostava de se sentar com os mais jovens, partilhar um copo de vinho e uma sandes de carne assada e de conversar com eles sobre o que era aquela festa no antigamente, sobre a aldeia de que tanto gostava, sobre acontecimentos da sua vida, sobre o dia-a-dia, sobre o tudo e o nada. Foi a ele que ouvi contar, pela primeira vez, a lenda do Santo da ermida. Disse-me com toda a certeza que se colocasse na cabeça o chapeuzinho que o santo envergava estaria curada para sempre das minhas dores de cabeça. Contava-me também que as árvores que rodeavam a ermida também tinham poderes mágicos pelo que, sempre que ali chegávamos, devíamos encher os pulmões de ar com a certeza que aquele ar puro só nos poderia trazer saúde. Para todos os outros males ele aconselhava beber água da fonte que também tinha propriedades milagrosas. Eu ficava encantada com as suas palavras. Adorava essa mistura de fé na religião cristã misturada com um certo paganismo,  palavra e conceito que ele, na certa, desconhecia.

Para além disso tudo, era um contador de histórias de mão-cheia. Era um delícia ouvi-lo a discorrer sobre tudo e nada. Não raras vezes me lembro de o ver numa mesa a conversar, rodeado de juventude suspensa nas suas palavras. E acho que era isso que dava vida ao velho Manel. Acho que vivia para esse dia. Ele não se coibia de dizer que esse era o dia mais feliz de todo o ano. Dizia ele que tinha começado a vir à romaria ainda novo com os pais e os amigos. Mais tarde, tinha começado a vir com a mulher e, uns tempos a seguir com os filhos. Tinham sido momentos muito bons. A vida já lhe tinha tirado os pais, a mulher e os filhos,  diziam-se demasiado ocupados, pelo que não subiam ao cimo da ermida, não assistiam à missa nem aproveitavam a romaria. Mas nem o facto de ter passado a subir sozinho lhe tirava a alegria genuína que sentia nesse dia. Onde quer que vá, tenho amigos. Aqui sinto-me sempre acompanhado! – Eram essas as suas palavras, ditas com uma felicidade no rosto que atestava as suas palavras. Há muitos anos que não subo à ermida nesse dia de festa. Quando penso seriamente no assunto penso que será pouco provável que o Manel ainda ande por lá a contar as suas historietas, os contos e lendas da aldeia. Tenho quase receio de chegar lá e de sentir a sua ausência. Prefiro pôr de lado esses pensamentos sombrios e acreditar que um dia, quando o tempo e a vida mo permitirem, subirei à ermida no dia de festa e ele lá estará com o seu melhor traje domingueiro, o seu chapéu novo, os seus sapatos negros engraxados até brilharem e o seu melhor sorriso a receber-me ao mesmo tempo que ele me dirá “Oh “ca(t)chopa! És mesmo tu?! Há quanto tempo não te via! Já te contei a história aqui do nosso Santo?!”

Da Saudade, nestes dias

O primeiro texto do mês é uma crónica que vem versar sobre a saudade, em tempos de pandemia. Aconcheguem-se e passem os próximos 3 minutos na “minha” companhia. Enjoy!

Foto de Artem Maltsev em Unsplash

No passado dia 30 de janeiro celebrou-se o Dia da Saudade. Ou pelo menos assim o dizem as redes sociais. Depois de uma breve pesquisa constatei que, ao que parece, esse “Dia da Saudade” foi instituído no Brasil. A ideia passa por recordar a memória das pessoas que partiram, lembrar de pessoas que nos são preciosas e que não vemos há muito ou lembrar de tempos bons que já passaram.

Já se sabe que, nos dias de hoje qualquer ideia, novidade ou celebração navega oceanos à velocidade da luz o que levou a que o “Dia da Saudade” começasse a ser lembrado e, de algum modo festejado, também por cá, por terras lusas. Devo confessar que gosto da ideia de existir um “Dia da Saudade”. É claro que não será apenas nesse dia que nos devemos lembrar daqueles de quem gostamos e sentimos falta. Óbvio. Mas gosto da ideia de existir um dia que sublinha a importância desse sentimento tão nosso, dessa forma de estar tão portuguesa.

Há coisas aliadas ao ser e sentir português com as quais não me consigo identificar mas no que ao saudosismo diz respeito posso afirmar que sou 100% portuguesa. Sou uma pessoa de saudades. Tenho saudades de alguns momentos da infância e da adolescência, tenho saudades dos meus tempos de estudante, tenho saudades de momentos que vivi na minha vida profissional. Tenho saudades de décadas passadas (quem não olha com nostalgia para os gloriosos anos 80?) mas, sobretudo, tenho saudades de pessoas. A verdade é que quando olho para trás e refiro quais os tempos de que tenho saudade, eles vêm, inevitavelmente, ligados a pessoas. E é sobretudo dessas que tenho saudades. Das pessoas que fizeram parte daqueles momentos que, por uma razão ou por outra, se tornaram inesquecíveis. Considero que a saudade é feita desse material: de momentos de vida que se tornaram inesquecíveis junto de pessoas que são, por alguma razão, uma pequena parte de nós.

Há quem diga que quem é muito saudoso vive de olhos pregados no passado. Não sinto isso. Gosto de olhar para o passado, sim. Gosto de o lembrar e de o analisar. Muitos dos meus textos têm as suas raízes neste meu passado, em pessoas que conheci, nas vivências que fui tendo. Mas, tenho noção que vivo com os dois pés no presente. Gosto da sensação quentinha que a saudade das coisas e das pessoas me traz quando penso nelas. Gosto de perceber que os anos que passaram foram bem vividos e deixaram marcas positivas, dignas de serem relembradas. Mas não me aconchego indefinidamente nessa sensação.

Estamos a viver tempos muito difíceis. Tempos que, presumo, a maioria não esperava viver. Tempos de medo, de insegurança e incerteza, de falta de liberdade e tristeza. São tempos, sem dúvida, que levam a que se acentuem estes sentimentos de saudade. Saudade não só de todas aquelas pessoas com quem não podemos privar – os nossos familiares, os nosso amigos – mas também saudades de todas aquelas coisas que parecem tão pequeninas e insignificantes (beber um café acompanhado de um pastel de nata, por exemplo) e que agora não podemos fazer. Saudades de viver e  conviver de forma despreocupada, de dar um aperto de mão, um beijo e um abraço. Acima de tudo, saudades de viver em liberdade. Por isso, e por sermos um povo dado ao saudosismo, não me deixou admirada que a palavra do ano escolhida como a palavra do ano fosse essa mesmo: “Saudade”.

Portugal hoje é feito de saudade. É feito de uma nostalgia, de um olhar para o passado em que, como gostamos de dizer, “éramos felizes e não sabíamos”. E essa saudade, que pode, em determinados momentos e pessoas, ser doce e aconchegante, e de que tanto gosto, é, neste momento, dura e difícil de suportar. Vivemos uma saudade fria e feia que nunca pensámos ter de vivenciar. É uma saudade que nos pesa no semblante e nos pesa na alma. Por isso, hoje somos um país cinzento, triste e silencioso.

Disse e volto a repeti-lo: sou uma saudosista por natureza. Tenho saudades (muitas) de pessoas que se ausentaram  para sempre. E tenho saudades das “minhas pessoas” que não vejo há muito porque estamos confinados e limitados nas nossas liberdades. Sinto saudades de olhares, sorrisos e gargalhadas. Tenho saudades de toques e, raios, tenho saudades de abraços, daqueles apertadinhos em que sentimos que um pouco de nós ficou com aquela pessoa assim como um pedacinho delas ficou connosco. Tenho saudades da minha vida, do meu dia-a-dia. No fundo, tenho saudades “dos dias normais”.

Aqui chegados pergunto a mim mesma: “o que poderei fazer com essa saudade? O que poderei fazer a esse sentimento constante de falta e de ausência?” Depois de muito pensar no assunto, respondi a mim mesma: “NADA!”. A verdade é que necessitamos de  “matar a saudade”. Não há outra forma. O facto é que de outra forma, a saudade não passa. Pelo contrário, ela intensifica-se. Não considero, como  muitos dizem, que o tempo cure este sentimento. Podemos procurar esquecer aquilo e aqueles que nos fazem falta. Podemos até arrumar a nossa saudade numa gaveta bem fechada do nosso ser. Mas a verdade é que, cedo ou tarde, por causa de uma paisagem, de um riso leve, uma música, uma palavra, do que seja, inesperadamente, a gaveta irá abrir-se deixando sair um turbilhão de saudades.

Termino dizendo que, por cá, se têm aberto muitas gavetas de saudade nos últimos tempos…

As cores da vila cinzenta

O primeiro conto do ano de 2021 acaba de ser servido. À semelhança dos outros contos, também fui buscar a inspiração para o escrever aos versos de uma canção. A escolha hoje recaiu sobre uma música francesa de Jean Jacques Goldman. Sabem que podem sempre propor a letra de uma música. Dito isto, e como é um texto um pouco mais longo, sugiro que se instalem confortavelmente, sirvam-se de um chá quente e que se deixem mergulhar nesta história que se passa numa vila cinzenta e sem cor.

“Elle attend que le monde change“Ela espera que o mundo mude
Elle attend que changent les tempsEla espera que mudem os tempos
Elle attend que ce monde étrangeEla espera que este mundo estranho
Se perde et que tournent les ventsSe perca e que os ventos mudem
Inexorablement elle attend”  Inexoravelmente, ela espera”
“Elle attend” – J. J. Goldman

Bianca nasceu sob o desígnio de uma má estrela. Esta era a frase mais proferida pela mãe de Bianca. Efetivamente, desde o primeiro segundo que tinha chegado ao mundo que a sua vida era pautada pela diferença, pela estranheza, por um sentimento de solidão e de não identificação com os demais. Talvez tivesse mesmo nascido num dia aziago – pensava Bianca.

De facto, a vida de Bianca tinha sido marcada, até ao momento, por circunstâncias mais ou menos estranhas que faziam pensar em Bianca numa jovem, se não estranha, pelo menos, peculiar. Tudo tinha começado com o seu próprio nascimento. Se tivesse nascido em casa, com a ajuda de uma parteira, talvez a notícia do seu estranho nascimento não tivesse circulado tão depressa pela vila. Mas a mãe de Bianca tinha sido levada para o hospital em urgência quando se percebeu que a criança não iria nascer facilmente e que mãe e filha corriam perigo de vida. Assim, apesar de ser noite de bruxas e de estar um temporal, com raios e coriscos, como ninguém se lembrava naquela vila, levaram, tão depressa quando podiam, a mãe em sofrimento para o hospital. O facto é que a criança não tinha dado a volta e quis nascer apresentando ao mundo, em primeiro lugar, um pé, e depois outro, pés esses que pareciam estranhamente brancos. Não bastando esta estranha forma de chegar ao mundo, diziam as enfermeiras que tinham assistido ao nascimento que a criança não tinha chorado, nem depois da palmada habitual do médico. Pelo contrário, o bebé vinha com os olhos bem abertos, como quem já conseguia observar o mundo em todos os seus detalhes e, ao receber a palmada, tinha soltado um pequeno som que mais parecia uma pequena gargalhada, considerada sinistra por quem a ouviu, do que propriamente um choro. Por fim, diziam que, no exato momento em que ela tinha posto os dois pés no mundo, a tempestade terminara tendo ficado uma noite estrelada, iluminada pelo brilho de uma lua tão cheia que parecia fazer da noite, dia.

Terei que vos dizer antes de avançar, caros leitores, que tudo isto se passou (e passa) numa vila muito pequena em que quase todos os habitantes se conhecem. E é sabido que nesse tipo de aldeia/ vila os diálogos entre “comadres” passam sempre por muito “diz que disse”, por muitas histórias em que, sempre que contadas, se lhes acrescenta um ponto e, por fim, por alguma maledicência. Todos os acontecimentos que envolveram o nascimento de Bianca foram assim passando de boca em boca, acrescentando-se-lhe sempre mais um pormenor, mais um apontamento, mais uma particularidade que tornassem a história do seu nascimento mais sombrio e até terrífico.

É claro que todos estes comentários, todas estas conversas, eram tidas pelas costas da mãe de Bianca que, nos primeiros anos, se manteve perfeitamente alheada de todo esses “sussurros mordazes”. Para Celeste a filha mais não era do que um bebé perfeito que tinha vindo trazer luz à sua vida. Não existia, tal como nunca existe para mãe nenhuma, bebé mais bonito do que o dela. A sua pele alva, o seu olhos de azeitona, os seus lábios que pareciam pintados de tão vermelhos que eram tornavam-na diferente e preciosa. A primeira vontade, quando olhou para ela pela primeira vez, foi chamá-la de “Branca de neve”. Claro que sabia que tal não lhe seria permitido num país tão preenchido por “Marias” e “Joaquinas” mas decidiu que poderia fazer, ainda assim, uma homenagem à alvura da pele da sua filha, dando-lhe o nome de Bianca.

Os primeiros anos de Bianca foram muito felizes. Ela e a mãe viviam uma para a outra. A mãe de Bianca, Celeste, nunca dera a conhecer quem era o pai da filha. Quando a filha a questionava, a mãe respondia que a tinha encomendado diretamente aos anjos e aos elfos e que, por isso, a tinham trazido do céu para os seus braços. Sem necessidade de existir um pai. É claro que Celeste não queria  falar do pai de Bianca e preferia que esta não soubesse coisa alguma sobre ele.

Bianca era fruto de um profundo amor entre Celeste e João que tinham sido amigos desde sempre e namorados praticamente desde sempre. Ambos tinham crescido naquela vila cinzenta marcada por tempos frios  e de fome. Os tempos eram muito difíceis, naquela época. Os empregos eram escassos. Quase todos viviam da exploração da terra e de alguns animais que iam tendo. A maior parte dos jovens tinha abandonado o ensino muito novos. Saber um pouco sobre as letras e os números, o suficiente para ler, escrever quanto baste e fazer umas contas básicas era o suficiente para sobreviver naquele pequeno país. João e Celeste desde cedo tinham preferido levar as cabras a pastar, partilhando tempo, almoço e conversas do que ficarem presos dentro das paredes de uma sala que pouco lhes dizia. Assim, Celeste não sabia muito bem dizer com que idade tinha dado o seu primeiro beijo a João, não sabia distinguir muito bem em que momento tinham deixado de ser amigos para começarem a ser namorados. Ou, talvez, nunca tivessem deixado de ser, apenas e só, amigos. Às vezes a dúvida instalava-se na mente de Celeste. Ela sabia que Bianca tinha sido feita com muito amor. Não tinha dúvida que João era não só o pai da sua filha mas o amor da sua vida. Sabia que nunca encontraria (nem queria encontrar) alguém com quem se sentisse tão completa como ela se tinha sentido com João. Ele sempre tinha sido a peça que encaixava no seu puzzle, aquele que a preenchia, que a compreendia, aquele que ela sentia que lhe dava, acima de tudo vida.

Ambos, João e Celeste, odiavam viver naquela “vilinha” cinzenta, fechada sobre si mesma, recheada de preconceitos que limitavam as liberdades individuais. Ambos aspiravam a fugir dali o quanto antes para um país onde poderiam ser livres. Sabes que há países onde é permitido aos homens usarem o corte de cabelo que lhes apetecer? Sabes que alguns até usam o cabelo comprido? Celeste deitava-se na relva a sonhar na vida que poderia ter nesses países mais livres. Sabia, sim, que havia países que permitiam essa liberdade aos homens. Sabia que nesses países as mulheres também usavam o cabelo como bem lhes apetecia. Diziam por aí, com algum medo e reverência, que algumas mulheres o usavam ainda mais curto do que os próprios homens! Sabia que era permitido a todas as mulheres, e comumente aceite, pintarem os lábios, as unhas, os olhos! E sabia também que lá era-lhes permitido usar calças! Como ela gostaria de poder usar calças! Tinha experimentado usar as de João uma vez, enquanto guardavam as cabras e tinha adorado a sensação de liberdade, enquanto corria pelos montes abaixo sem sentir os movimentos tolhidos pela saia.

Passavam horas a decidir como poderiam fugir. Tinha de ser pela calada da noite. João sabia que corriam um grande risco. Se fossem apanhados, esperá-los-ia a cadeia, sem qualquer dúvida. Mas a verdade é que preferia correr esse risco do que continuar a viver naquele pequeno vilarejo sem qualquer perspetiva de melhorar a vida, sem perspetivas de futuro, num mundo que se apresentava num estranho tom monocromático. Passavam horas a decidir como poderiam fazer, quem os poderia ajudar, a conversar sobre como seriam as vidas deles lá no outro país, sob o desígnio da liberdade.

E, quando tinham tudo pensado, tudo organizado, quando já só faltava decidir o dia em que colocariam o seu plano em marcha, abandonando de uma vez por todas aquelas terra de tristura, eis que surgiu a notícia mais aterrorizante de sempre para Celeste. Ela estava grávida. O amor dela e João tinha gerado um fruto. A notícia gerou pânico em Celeste mas rapidamente essa sensação deu lugar a uma outra: sentia bem no fundo do seu coração uma chamazinha latente que lhe aquecia o corpo todo. Soube, nesse preciso instante, que iria amar a sua filha (porque logo nessa hora teve certeza que seria uma menina) acima de tudo e que a iria proteger toda a vida como uma leoa.

Celeste sabia que ia ter a conversa mais dura da sua vida nessa tarde. Tinha certeza do que queria mas também conhecia muito bem João para saber qual seria a sua reação. E, efetivamente, toda a cena se desenvolveu exatamente como a tinha desenhado na sua mente. À perplexidade de João ao saber que ia ser pai, tinha-se seguido uma alegria que se desenhara de forma clara no seu rosto. Dera-lhe um abraço apertado e um beijo apaixonado. Fizera-a sentar (afinal, não se podia cansar à toa) para conversarem, uma vez mais, sobre como seria o futuro. Mais do que nunca se impunha fugirem dali. O filho de ambos não iria nascer naquela terra de pobreza e tristeza! De tão entusiasmado que estava, não percebia que Celeste estava mais silenciosa do que habitualmente e que lhe respondia por monossílabos. Quando finalmente percebeu que o seu semblante não era de total alegria começou a sentir uma mão fria a gelar-lhe o coração. A realidade surgiu, num instante, na sua mente.

Celeste, não vais fugir comigo, pois não? Vais ficar aqui por causa da criança?

Celeste apenas conseguiu responder-lhe com o olhar, sentindo já as lágrimas a assomarem-lhe aos olhos. João não percebeu essa sua atitude. Gritou, implorou. Falou da vida que poderiam dar àquela criança que estava para nascer. Nada demoveu Celeste da sua decisão. Sentia que a viagem, a pé por montes e vales, correndo o risco de serem interpelados pela polícia, a que se seguiria, obviamente a prisão e, quem sabe, a tortura, assim como todos os outros riscos inerentes àquela viagem eram demasiados para aquela criança que há tão pouco tempo tinha sido gerada. Tinha de a proteger e se isso implicava ficar no vilarejo, ela ficaria.

Não voltaram a falar no assunto. Celeste assim quis. Disse que percebia que ele fosse procurar vida para outro lado e disse que ela ficaria. Pediu para que continuassem a viver aqueles dias que faltavam até à noite da sua fuga como sempre tinham vivido. No campo, levando as cabras a pastar e a observar a natureza como sempre tinham feito.

João fugiu numa madrugada escura e chuvosa de abril, aquele mês de quem se diz ser “de águas mil”. Nunca mais Celeste pronunciou o seu nome. Quando Bianca nasceu, recusou-se a dar o nome do pai. Seria filha dela e só dela.

Os tempos que se seguiram à fuga de João foram extremamente difíceis. Rapidamente o vulto da sua barriga começou a notar-se e é claro que o rumor da gravidez de Celeste se espalhou por toda a vila. Os pais dela aceitaram a situação como uma desgraça caída do céu e nem após o nascimento da neta passaram a tratá-la com o amor e o carinho que uma neta merece por parte dos avós. Logo que foi possível a Celeste, saiu de casa dos pais para ir viver sozinha com a sua filha. Ela bastava-lhe para ser feliz. E, acima de tudo, queria educá-la longe daqueles avós que toda a vida tinham sido castradores em relação à filha e sê-lo-iam, com toda a certeza, para a neta.

Foi assim que, tendo Bianca pouco mais de dois anos, Celeste e a filha se mudaram para um pequeno casebre no cimo da montanha. Celeste tinha começado a sua atividade que gozava de algum sucesso. Aproveitando o leite das suas cabras, tinha-se especializado em cozinhar umas queijadinhas de leite que começou a vender para o café da vila e à porta da igreja em dias de missa. Com o tempo a fama das queijadinhas de leite tinha-se espalhado e agora tinha um contrato com cafés da cidade mais próxima que vinham buscar encomendas três vezes por semana. Estava longe de ser rica mas gozava de alguma independência financeira que lhe permitia viver na sua própria casa, sob as suas próprias leis e, acima de tudo, educar a sua filha como melhor lhe parecia.

Foi assim que Bianca foi crescendo de algum modo afastada do resto das crianças da vila. Os rumores sobre o seu nascimento nunca tinham sido esquecidos. O seu aspeto físico não se tinha alterado. A sua pele continuava a ser de uma brancura inesperada para alguém que passava os seus dias no campo, os seus olhos negros continuavam muito brilhantes e pareciam inquirir o mundo e os lábios continuavam tão vermelhos que pareciam estar permanentemente pintados. O cabelo crescera-lhe negro e rebelde, esvoaçando à volta do seu rosto como corvos em pleno voo. Bianca cresceu na natureza, aprendendo a amá-la e a respeitá-la. Os seus primeiros amigos foram as cabras e os cabritos, os cães e os gatos, os pássaros e todos os animais que se cruzavam com ela no campo que circundava a sua casa.

 Quando Bianca fez os 6 anos, como seria de esperar, começou a frequentar a escola do primeiro ciclo. Bianca não estava habituada a seguir tanta regra, a estar tantas horas sentadas, a desenhar letras e a ouvir a professora falar. Sentia falta da sua liberdade e dos seus animais. Não se identificava com os restantes meninos. Elas brincavam com bonecas e falavam de namoricos. Eles brincavam a correr atrás de uma bola, o que sinceramente lhe parecia mais interessante, mas não a aceitavam porque “as meninas não jogam futebol” – diziam eles. Depressa se desinteressou da escola e dos colegas e, em todos os intervalos, limitava-se a passear pelo jardim da escola falando com as flores e com os animais. É claro que tal comportamento foi criticado por todos: adultos e crianças. Que parecia atoleimada, que parecia estar noutro mundo – diziam os adultos – que era pouco simpática e que não brincava com ninguém – diziam os mais novos. Num ápice as histórias sobre o seu estranho nascimento voltaram a ser relembradas e rapidamente as crianças lhe deram a alcunha de “a bruxa”, atirando-lhe pedras e até cuspindo para o chão quando por ela passavam.

Os anos passaram, Bianca tornou-se uma jovem lindíssima. Continuava a adorar passear pela natureza, conversar com os animais. A cabra Amélia e a gata Mafalda eram as suas melhores amigas. Era com elas que desabafava as suas tristezas e alegrias. Nunca, até o dia de hoje, tinha feito qualquer amigo na vila. Trocava dois, três dedos de conversa com um ou outro mas a verdade é que nunca se conseguia identificar com ninguém em particular. Bianca parecia seguir o mesmo caminho dos pais. Não compreendia os outros e os outros não a compreendiam. Tal como a mãe, sentia as pessoas da vila como sendo cinzentas por dentro e por fora, sempre vestidas em tons monocromáticos. Pelo contrário tanto ela como a mãe tinham desenvolvido um gosto pelas roupas coloridas que, muitas  vezes, elas próprias confecionavam. Elas eram um arco-íris, uma profusão de cores e alegria que contrastavam, dolorosamente com os tons cinzentos, pretos e castanhos que os habitantes da vila preferiam. Os habitantes, esses, chegavam a achar ofensivo esta forma de se apresentar e de chamar a atenção para si. Passavam facilmente de bruxas a mulheres de má vida na boca dos habitantes do lugarejo. Acima de tudo elas não eram aceites por aquela sociedade pelo seu gosto pela liberdade e pela fuga a todas as regras mais ou menos convencionadas por aquele povo. Elas eram livres, seguindo as suas próprias regras e ignoravam tudo aquilo que lhes parecia espartilhos impostos por outros. E esta forma de viver, de acordo com as suas próprias regras, era considerada uma heresia por aquele povo. Eram tão diferentes dos restantes que, com toda a certeza, elas não podiam ser pessoas de bem!

Apesar de tudo isto, Bianca tinha uma grande diferença em relação aos seus pais. Ela amava por demais a casa onde vivia, a natureza que a circundava. Sentia-se uma privilegiada por poder acordar e usufruir, diariamente, daquela paisagem magnífica e de poder conviver com todos aqueles animais que pareciam conversar com ela. Quantas e quantas vezes ela não dançava, sozinha, por aqueles campos, numa verdadeira celebração da vida e da natureza! Por nada nesta vida ela queria abandonar este seu pequeno cantinho do céu. Apesar de pouco conviver com os habitantes da vila, de não se identificar com eles, de saber que era apontada a dedo por eles, a verdade é que continuava a adorar aquele local e pretendia continuar por lá. Acreditava que, algum dia, as pessoas poderiam mudar e tornar aquele mundo cinzento num mundo de vida e cor.  E por isso, dia atrás de dia  ela esperava que o mundo mudasse/ ela esperava que mudassem os tempos/ ela esperava que este mundo estranho/ se perdesse e que os ventos mudassem/ Inexoravelmente ela esperava…

Naquele dia a manhã tinha acordado especialmente soalheira. Bianca tinha tido como despertador o chilrear dos passarinhos e um raio de sol que se tinha infiltrado por um pequeno espaço deixado livre pela persiana. Tal tinha-a feito sorrir  e levantar-se com um ânimo redobrado. Estava a acabar de tomar o pequeno-almoço quando ouviu uma buzina. A mãe, ocupada com o forno e as suas queijadinhas pediu-lhe que fosse abrir a porta que seria, provavelmente, o senhor que vinha buscar a encomenda de queijadinhas dos sábados de manhã.

Bianca acedeu ao pedido da mãe, indo no seu passo leve abrir a porta. Quando a abriu, o raio de sol que tinha vindo brincar com o seu rosto pela manhã, entrou pela porta dentro, como quem tivesse estado atrás da porta à espera de entrar, iluminando-a e deixando-a encandeada. Quando conseguiu abrir, finalmente, os olhos, viu um jovem com ar simpático e muito bem parecido a sorrir para ela. “Olá. Sou o Simão. Venho buscar a encomenda das queijadinhas.” Perante o silêncio de Bianca acrescentou: “Este é o meu primeiro dia de trabalho. Espero não me ter enganado na casa!”

Bianca não respondia porque estava surpreendida com tudo o que a rodeava. O dia parecia mais luminoso que o habitual. As cores da natureza que a rodeava pareciam mais fortes, mais definidas. Olhou para o Simão e viu que vestia umas calças de ganga e uma t-shirt vermelha. Ao longe viu, com todas as suas cores, um arco-íris enorme, maior do que qualquer um que poderia algum dia ter visto. Pensou de si para si “E não é que os ventos mudaram de direção e que o mundo mudou?”

Naquele preciso momento soube que iria criar uma grande amizade com aquele jovem. Perguntam vocês, como sabia ela? Não sei…eventualmente ela seria mesmo uma bruxa…

                                  

Lábios vermelhos? Sim, eu posso

Foto de Ina Garbé – Unsplah

Inicio esta crónica deixando bem claro que esta não é uma crónica política nem tenho qualquer pretensão de, com ela, apoiar este ou aquele candidato, esta ou aquela pessoa. Esta é uma crónica sobre liberdade e sobre a importância de nos insurgirmos contra tudo aquilo que possa querer colocá-la em questão ainda que pareça se tratar de um comentário, como muitos dizem, apenas e só desadequado.

Desde a minha mais tenra idade que ouço as pessoas dizerem que sou barulhenta, reivindicativa, que tenho sempre uma resposta na ponta da língua e que me é difícil não ter a última palavra. (Nada disso é mentira, informo desde já). Também desde muito jovem que ouço que o lugar destas pessoas reivindicativas é na política, onde podem esgrimir pontos de vista com outras pessoas e podem dar voz às suas ideias. Curiosamente, e apesar do que me era dito, nunca foi uma área que me inspirasse. Eventualmente porque sempre achei que era um terreno demasiado sujo em que tinha mais razão aquele que mais alto falava. Efetivamente os anos passaram-se e a opinião não mudou. Muito pelo contrário. Mais do que nunca penso que a política é terreno para o vale-tudo, para o opinar sem filtros, para a ofensa barata só porque sim.

O discurso de André Ventura no CAE de Portalegre teve momentos de verdadeira vergonha alheia. Efetivamente, aquele a que se tem dado mais destaque, e que me leva a escrever a crónica, foi o ataque barato e desprezível desse senhor à candidata Marisa e ao seu batom vermelho. Mas convenhamos que o ataque feito a Jerónimo de Sousa, comparando-o ao velho avô bêbado é igualmente vergonhoso, vil, revelador de uma total falta de saber ser e estar. Até na política temos que aceitar que não vale tudo.

A verdade é que foi o comentário sobre o batom vermelho de Marisa, com a insinuação que ele trazia, aquele que mais celeuma levantou. E porque terá sido? A razão parece-me óbvia. Ao proferir aquele comentário André Ventura não atacou apenas a candidata (o que por si só já era suficientemente mau) como atacou todas as mulheres e, acima de tudo, a liberdade das mulheres tao duramente adquirida. Toda e qualquer mulher tem direito de usar um batom vermelho, preto, rosa ou da cor que bem lhe apetecer. E toda a mulher tem o direito de o usar sem ouvir insinuações maldosas de que parece “uma boneca” (sabendo todos de antemão o que o senhor Ventura quis insinuar).

Esse tipo de alusão vem ao encontro de outras a que a sociedade nos foi habituando ao longo dos tempos e que, infelizmente, ainda se ouvem no século XXI, sem pejo nem vergonha. Refiro-me a frases como “vais mesmo trabalhar com esse decote?” (Lembram-se daquela mulher que recebeu um comentário desse género no comboio por parte do revisor?) ou associar o tamanho de uma saia a um qualquer tipo de violência sobre quem a envergava: “Com uma saia deste tamanho estava mesmo a pedi-las, não estava?”

Tais comentários sempre foram e são inaceitáveis. Como tal, temos que nos insurgir sempre que alguém, homem ou mulher, os profere. Porque sim, caros amigos. Não se pense que esse tipo de comentário é proferido apenas e só por homens! Desenganem-se. Existem mulheres, e muitas, que consideram que existe um dress code que deve ser seguido a fim de essa pessoa ser considerada uma pessoa da sociedade e uma pessoa de bem. Portanto, batom vermelho, saias curtas e decotes – para além de toda uma série de roupas e de acessórios – não são aceites no bem vestir de uma mulher sob pena de não ser considerada “uma portuguesa de bem”. E é isso que não consigo perceber nem aceitar. Raios, tanto que se lutou para adquirirmos a liberdade de sermos quem quisermos, como quisermos e em 2021 ainda temos de sofrer “piadas” destas. E, para aqueles que, aqui chegados, já enchem os pulmões para gritar que todos temos liberdade de expressão e que podemos dizer aquilo que bem nos aprouver, apenas uso uma expressão (que não é minha mas que pedi emprestada a quem a usou). Existe uma grande diferença entre “Liberdade de expressão” e “”Libertinagem de expressão” que é exatamente o que se passa nestes exemplos. E essa, a libertinagem, é inaceitável!

Posto isto, considero que a onda de lábios vermelhos que surgiu no Facebook não apareceu por um claro apoio à candidata Marisa mas sim por uma revolta por ver a liberdade das mulheres, conseguida a tanto custo, ser beliscada por um misógino com tiques de fascista. Legitimar esse tipo de discurso é recuar anos numa conquista de direitos que tão dura tem sido de levar em frente. E isso não é um discurso feminista (como tão depressa gostam de acusar). Pelo contrário, é um discurso que luta pela igualdade de direitos e, acima de tudo, pelo direito de ser e de me apresentar como bem me apetece sem ter que ouvir comentários maldosos e machistas sobre isso. O meu corpo, os meus lábios, as minhas regras.

 Concluindo: a minha luta é contra o  discurso de André Ventura que se tem pautado por ser um discursos machista,  limitador de liberdades, para além de ser de uma boçalidade sem precedentes. Mas é, antes de mais, um discurso de luta pela liberdade de ser e de me apresentar como bem me aprouver. E é, acima de tudo, um discurso que se opõe à típica verborreia destes políticos extremistas que negam e não aceitam tudo o que seja diferença, tudo o que se oponha à sua visão cinzenta do mundo, tudo o que se oponha à sua razão, que não aceitam que a sociedade é livre e é composta pela diferença. Os meus lábios vermelhos são o registo gráfico  desta minha oposição.

Josefa de Óbidos, a pintora emancipada

O segundo texto do ano de 2021 traz à vossa presença uma rubrica que já vai contando algum tempo mas que tem estado menos presente nos últimos meses: “Elas, as que fizeram a diferença”. Para hoje escolhi trazer-vos um nome sobejamente conhecido mais que não seja por emprestá-lo para nomear ruas em várias cidades deste país, um hotel, uma escola secundária e provavelmente uma série de outras realidades que neste momento desconheço. O nome da Ela que procuro relembrar hoje é, sem dúvida, bem reconhecido por todos. Já a sua biografia talvez não seja tanto. Posto isto, informo que hoje venho falar-vos de Josefa de Óbidos, uma mulher portuguesa diferente, muito à frente no seu tempo e que, por isso, merece o seu lugar de destaque nesta rubrica.

Josefa de Ayala e Cabrera foi filha de um também pintor – Baltazar Gomes Figueira – e de Catarina Cabrera e Romero. O pai, pintor português natural de Óbidos, tinha ido trabalhar para Sevilha, onde acabaria por casar com Catarina Romero, natural da Andaluzia. Josefa virá a nascer em Sevilha, em 1630, mas muito cedo se mudará para Portugal, com a família, contando ela com quatro anos. Instalaram-se em Óbidos que era, como foi dito, a terra do pai. Baltazar Gomes Figueira, o pai, pintava sobretudo naturezas-mortas, tendo bebido a inspiração naquilo que tinha visto e presenciado em Sevilha.

O gosto pela pintura continuou pela família, começando, tanto Josefa como o irmão, a pintar. Josefa, que é quem nos interessa para esta história, começou a pintar com alguma regularidade com dezasseis anos, tendo iniciado a sua arte com pequenos formatos sobre cobre e gravuras, num género denominado “pontinho”. A sua obra centra-se, sobretudo, na pintura de naturezas mortas (tal como o pai), de cenas religiosas e figuras de Menino-Jesus. Era uma mulher de interesses diversificados tendo-se dedicado, para além da pintura, à estampa, à gravura, à modelagem do barro, ao desenho de figurinos, de tecidos, de acessórios vários e arranjos florais.

Josefa adquiriu fama e depressa se tonou uma artista reconhecida na sua época. Trabalhou como pintora para diversos conventos e igrejas. Havia quadros dela no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro de Cós, no Mosteiro da Batalha, no Mosteiro de São Jerónimo. Foi retratista da família real portuguesa, destacando-se os seus retratos da rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboia, esposa de D. Pedro II, e da sua filha princesa D. Isabel.

Nos dias de hoje não se coloca em causa a importância e a qualidade de Josefa de Óbidos enquanto artista. Mas, acima de tudo, foi a forma como ela viveu a sua vida, e forma como encarou a sociedade da sua época, a razão que me fez relembrar esta grande mulher na rubrica “Elas, as que fizeram a diferença”.

O facto é que Josefa levou uma vida contracorrente. Convém relembrar que ela viveu em pleno Antigo Regime no século XVII, numa época em que as mulheres dependiam da permissão de um homem para fazer negócios. Contudo, a nossa pintora, Josefa, não necessitava dessa autorização. Isto porque em 1661, com o consentimento dos pais, ela se tornou na primeira mulher do país a ser emancipada. Tal emancipação permitia-lhe ser independente, nomeadamente, a nível administrativo, tendo adquirido, à época, rendas e propriedades.

Outro dado que a individualiza e a distingue das outras mulheres da sua época foi o facto de Josefa ser reconhecida como a única pintora profissional da sua época e possuir ateliê próprio onde recebia encomendas importantes. As encomendas de retábulos procedentes da Extremadura (região espanhola) tornaram-na uma pessoas bastante abastada assim como muito prestigiada. Vivia uma vida autónoma, não dependendo de pais nem marido, acompanhada pelos criados e por duas sobrinhas, na vila de Óbidos que continuou a ser o seu lar. Era a própria quem administrava os seus negócios. Não vos posso dizer se terá conhecido o amor mas a verdade é que se manteve solteira até ao último dos seus dias.

Josefa de Óbidos (assim ficou conhecida) foi uma mulher emancipada e culta. Tornou-se uma mulher independente, exercendo a sua profissão de pintora, o que era muito raro na sua época. O seu talento foi reconhecido na sua época e gozava de grande reputação. A sua fama era tal que muitos que iam a banhos às Caldas da Rainha se afastavam do seu caminho para irem até Óbidos apenas e só para a cumprimentar. É reconhecida, hoje, como um dos mais reputados expoentes do Barroco português, na época que se seguiu à Restauração. Viveu praticamente a sua vida toda na quinta da Capeleira, em Óbidos. Não teve filhos nem marido, tendo-se dedicado de corpo e alma, à sua arte. Alcançou um sucesso raro que lhe permitiu conquistar fama e fortuna. No testamento deixou os bens às sobrinhas sublinhando que os mesmos deveriam continuar sempre por linhagem feminina, mostrando, mais uma vez, um pensamento bem desfasado do pensamento corrente na sua época.

Entre as suas obras mais celebradas, destacam-se “O Casamento Místico de Santa Catarina”, “A Vida de Santa Teresa de Jesus”, “O Retábulo de Santa Maria de Óbidos” e as imagens do “Menino Jesus”.

Josefa de Ayala e Cabrera, que adotou o nome da vila em que viveu e passou a ser conhecida como Josefa de Óbidos, pintora reconhecida do Barroco, uma mulher avans la lettre em muitos domínios, faleceu a 22 de julho de 1864. Espero que tenham gostado de a conhecer ou de a relembrar.

Basta de teimosia

O primeiro texto do ano no blogue é uma crónica algo pessoal e recheada de intenções. Proponho que se sentem no sofá, com uma chávena de chá bem quente e que passem 3/ 4 minutos a lê-la. Depois, se quiserem, podem gastar mais um ou dois minutos para partilharem a vossa opinião comigo. Enjoy.

Foto de Engin Akyurt em Unsplash

Sou uma pessoa teimosa. Começo desde já por dizê-lo, sem medos. Teimosa, obstinada, de ideias fixas. E assumo que não considero isso um defeito. Aliás, noto que quando perguntam a alguma pessoa famosa para identificar os seus defeitos, grande parte das vezes, a teimosia  é mencionada. E acho que fazem isso porque a consideram uma qualidade trasvestida  de defeito. A maioria fala da sua teimosia como algo de quase positivo. A identificação da característica: teimosa, vem sempre anexada a um Sou persistente, luto para atingir os meus objetivos. E assim, como quem nada quer, dizem en passant que aquele defeito que tinham pedido para encontrar na sua pessoa, mais não é do que uma qualidade procurada nos indivíduos da nossa sociedade: persistência e perseverança.

É claro que podemos ver a teimosia por um lado bem menos romântico e com qualidades bem menos positivas. Podemos ver o teimoso como uma pessoa pouco flexível. A certeza de estar certo não o deixará dar espaço aos outros para apresentar as suas verdades. Por não estar aberto a quaisquer outras interpretações que não a dele, centraliza em si a certeza da verdade, numa atitude um tanto ou quanto arrogante e autoritária.  Podemos assim vê-lo como pouco humilde, como alguém que não dá ouvidos a nada nem ninguém. Até porque fazê-lo seria colocar em causa as suas certezas.

 Não há dúvidas que esta interpretação da teimosia é bem mais negativa do que a anterior.

Iniciei este texto referindo que me tenho como uma pessoa teimosa. Mas a verdade é que não me identifico nem com a versão mais romântica da teimosia e muito menos com a visão mais cínica. Não sinto que seja uma qualidade, é um facto, mas também, devo dizê-lo, não sinto que seja um defeito. Sou teimosa, sou de ideias fixas, sou obstinada e sou, efetivamente, persistente. Mas assumo que tenho a capacidade de ouvir o outro e aceitar as suas opiniões. Apesar de ser uma pessoa de ideias fixas, reconheço, se me provarem esse facto, que estou errada e que o outro tem razão. Penso que não tenho uma atitude arrogante e ouço outras opiniões, aceitando-as se me demonstrarem estar certas.

É verdade que não mudo de ideias facilmente. Sou de ideias fixas. Poderia chamar de persistência mas assumo que chega a ser casmurrice. Não digo que não mudo de ideias mas, como já referi, tenho que ter, à minha frente, alguém que saiba argumentar e que tenha uma opinião bem fundamentada para me provar que não estou a ver a questão pelo lado correto. Sou assim quanto às opiniões alheias mas sou assim também em relação à vida. E talvez seja por aí que sinta que a teimosia me é mais prejudicial. Quando quero alguma coisa, quero muito. Coloco o foco no objetivo e apenas olho em frente. Nada que estará nos lados me poderá cativar um momento de atenção. Sejam coisas ou pessoas, a verdade é que quando quero, quero a cem por cento. E é aí que considero que a teimosia/ casmurrice me é altamente desfavorável. Levo demasiado tempo a dar as pessoas ou as situações por perdidas. Persisto no erro de acreditar que vai dar certo, que tudo vai correr como quero. Penso apenas que, para que isso aconteça, há que dar tempo ao tempo. Defendo a máxima (assumo que de forma errada) que o tempo tudo leva, tudo traz e tudo cura. E, sempre na perspetiva que o tempo me traga algo que quero, me leve algo de que me deveria ter retirado há muito ou que me cure de um amor ou de uma vontade, deixo-me estar em espera, persistindo não raras vezes num erro, no  fundo não tomando as decisões que deveria tomar. Por mais que me custe assumir isso (afinal, este abrir de alma que estou a fazer mostra da minha pessoa um traço de fraqueza que habitualmente prefiro esconder) sou uma pessoa de vírgulas, de ponto e vírgulas e, sobretudo, de reticências. Acho sempre que há que dar espaço, uma pequena pausa para que lá na frente as coisas se possam resolver. Gosto de pensar que nada está terminado até eu considerar que está acabado. Gosto de pensar que aquilo que quero chegará  num futuro mais ou menos próximo. No fundo, a minha teimosia obriga-me a pensar que se eu não tiver atingido o ponto que desejo, a luta não está terminada.

Aqui chegados perguntarão vocês por que razão venho aqui fazer este mea culpa, certo? Ora, penso que será claro para qualquer pessoa  um pouco menos casmurra que eu que esta teimosia não é de todo positiva na minha vida. Como tal, e como estamos no início do ano, venho aqui partilhar com as pessoas que me leem esta resolução de novo ano!

– Vou deixar de ser as pessoas das vírgulas e das reticências. As decisões serão tomadas atempadamente por mim não deixando nas mãos do tempo a resolução do que quer que seja. Vou colocar pontos finais definitivos em situações em que já os deveria ter colocado há muito em vez das reticências de esperança que sempre preferi. No fundo, vou deixar de ser tão teimosa com a vida.

É claro que acreditamos que o ano que começa será sempre mais positivo e mais rico em realizações que o anterior. Para ser sincera, não será muito difícil 2021 ser mais e melhor que 2020. Mas é por isso mesmo que eu própria quero ser mais e melhor. E vou começar por estar resolução: basta de teimosia; basta de reticências. Ponto final às situações, aos desejos e vontades que não se concretizaram até ao momento. Há que  acreditar que se não me foram oferecidas pela vida até agora é porque não é suposto chegarem às minhas mãos.

Se esta é uma resolução fácil? Não tenho dúvidas que não é. Mas também não é fácil aquela decisão de passar a fazer exercício físico pelo menos três vezes por semana ou a de deixar de comer chocolates e doces em excesso, certo? Fica lançado o desafio a mim mesma. Daqui 12 meses (o mais tardar) poderei dizer-vos se mantive a minha palavra quanto ao basta na minha teimosia!

2020 – um ano horribilis

E no último dia do ano deixo-vos uma crónica em jeito de balanço deste ano de 2020. A crónica foi publicada, simultaneamente, na P3 no endereço: https://www.publico.pt/2020/12/31/p3/cronica/2020-ano-horribilis-1944336

Espero que tenham tempo para a ler e para deixarem a vossa opinião!

Agora sim, até 2021!!

Quer o ano tenha sido, para nós, de sonho, como por vezes acontece sem qualquer outra razão que não seja o alinhamento dos astros, ou que tenha sido um perfeito pesadelo, provavelmente pelas mesmas razões, a verdade é que é quase impossível chegarmos aos últimos dias de dezembro sem fazermos um balanço de como foi o ano que passou. Pelo menos isso acontece comigo todos os anos.

Assim sendo, e tendo chegado dezembro de 2020, aqui estou eu a tentar fazer o meu balanço anual. Assumo que este ano escrever este “resumo” que pretendo que seja sempre, acima de tudo, positivo não é muito fácil. Quando olho para trás penso nuns apreensivos primeiros dois meses do ano, em que fomos vivendo e, ainda que com algum receio, festejamos o Carnaval. E depois? E depois tudo se precipitou, os casos de Covid19 começaram a aparecer, chegaram os confinamentos, o trabalho em casa, o ensino à distância, o medo, o isolamento, a falta de contacto físico, a proibição dos abraços. O que raio poderei eu encontrar para falar de positivo este ano? – questionei-me eu.

O facto é que não faz parte da minha personalidade olhar apenas e só para o lado mau e triste das situações. Sempre achei que, por mais escura que seja a noite, encontraremos sempre um pequeno ponto de luz que nos possa iluminar. No fundo defendo, como defendiam os  Monty Phyton que devemos always look on the bright side of life (espero que tenham assobiado depois de ler esta frase!) Posto isto…e depois de muito pensar, lá alinhavei alguns pensamentos positivos sobre este 2020 que está a acabar.

Começo por falar no confinamento. É verdade que nos obrigaram a passar tempo e tempo em casa. E é verdade que as quatro paredes pareceram, muitas vezes, fechar-se sobre nós. Mas também é verdade que pegámos nesse tempo que nos parecia sobrar e procurámos reinventar-nos. Quantas casas não se transformaram em verdadeiras padarias portuguesas? Não posso dizer que tenha desenvolvido o gosto de cozer pão em casa mas assumo que foi uma época em que cozinhei mais doces e tartes do que o habitual.

É verdade que grande parte de nós experienciou o teletrabalho e, pelo que vou ouvindo, poucos de nós apreciaram a experiência. O meu teletrabalho traduziu-se em Ensino @ Distância e nunca escondi que odiei a experiência! Mas, como em tudo o que é negativo existe algo de positivo, eis que surgiram as Reuniões Online! Caros leitores, no meu caso posso dizer que sou a favor das reuniões online. Mais rápidas, mais eficientes, com menos espaço para conversas paralelas! O meu desejo é que estas se mantenham por muitos e bons anos!

Penso também que 2020, por tudo o que nos tirou, ensinou-nos a reavaliar situações, a olhar para as coisas com outros olhos. Quem não suspirou de gosto, quem não olhou para aquilo que o rodeava quando realizava aquilo que se convencionou chamar de “passeios higiénicos”? Não percecionámos nós um pouco de felicidade quando os fazíamos?

2020 foi um ano que nos afastou das pessoas, do seu contacto físico. É verdade. Passámos uma Páscoa em confinamento, imersos no medo do desconhecido, deixámos de cumprimentar com beijos e passou-bens , deixámos de dar abraços. Mas a verdade é que tudo isso aconteceu numa época em que existem as redes sociais e existe a possibilidade da videochamada. Transferimos as conversas de café, que tanto faziam parte da nossa vida do dia-a-dia para as conversas em videochamada. Passamos do “cada um na sua cadeira” para “cada um no seu quadrado”. Pode ser um fraco substituto, é um facto, mas a verdade é que ajudou a afastar a solidão durante uns jantares e nos dias mais sombrios. Reinventámos a nossa forma de socializar, procurando combater a solidão e a tristeza e isso só pode ser considerado de um modo positivo.

2020 foi um ao em que o vírus no virou a vida de pernas para o ar. O ano que nos obrigou a viver “um novo normal” que ninguém queria viver. Mas foi também o ano em que aprendemos a combater o vírus. Aprendemos a conviver de outra forma, aprendemos a mostrar os afetos de outra forma e, mesmo no final do ano, foi descoberta a vacina contra este maldito vírus (e eu acredito que ela fará a diferença!) Vivemos um daqueles pedaços da história que sabemos que irá ser escrita nos livros de história, que será relembrada por muitos anos! Vale o que vale mas ando à procura de pontos positivos, lembram-se?

Por fim: 2020 foi o ano do papel higiénico. Toda a boa tragédia tem o seu pequeno momento de comédia. Neste 2020 trágico apontaria como o pequeno momento de comédia a corrida desenfreada aos hipermercados pelo receio de que o papel higiénico esgotasse. Não era o pão (que esse aprendemos a cozer), não era o leite (bebemos chá), não eram os vegetais (assim como assim, nem como muitos vegetais no dia-a-dia!). Não, caros leitores, aquilo que mais preocupou os nossos portugueses foi a possibilidade do desaparecimento do papel higiénico!!! Se isto não vos fez gargalhar na altura, não sei o que fará!

Feito o balanço, procurando pontos positivos, é claro que 2020 não deixa grandes memórias. Mas a verdade é que continuamos aqui, continuamos na luta, continuamos a tentar habituarmo-nos a este “novo normal” esperando, com convicção, que a “velha normalidade” volte o quanto antes. Isso é positivo! E, posso garantir-vos que no fim do ano, à meia noite do dia 31, estarei, sozinha ou acompanhada, a comer as minhas 12 passas e a pedir os desejos para 2021. Porque a fé de que dias melhores virão, essa, ninguém me tira! E isso também é um ponto positivo de 2020:  ter percebido que, no fim, possuímos uma fé inabalável.