Portugal, 2020: sem beijos nem abraços

Quando toda esta história tenebrosa da COVID 19 e do isolamento social se iniciou disse para mim e a quem me lê que não iria escrever muito sobre esse assunto. Não sentia que seria um tema que quereria abordar muita vez (Uma espécie de atitude infantil de “se não se falar muito nisso, talvez desapareça”). Contudo, as crónicas que escrevo baseiam-se nas minhas experiências pessoais e nos meus pensamentos no dia-a-dia. E a verdade é que os meus pensamentos giram muito à volta do mesmo tema nos últimos dias… Segue então a crónica desta semana…Espero que gastem 2, 3 minutos a lê-la e, se assim quiserem, partilhem a vossa opinião sobre a crónica, sobre o assunto.

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Photo by Ava Sol on Unsplash

Venho aqui apresentar-me, sem medos, com uma frase lapidar: sou uma pessoa que não gosta de beijos. Pronto. Está dito e sem medos! Não sou muito dada a beijos. Não gosto (para não dizer que odeio) de beijos de circunstância. |Aborrecem-me e incomodam-me. Uma das minhas perguntas de sempre é: “haverá necessidade de cumprimentar com dois beijos aqueles amigos que vemos todos os dias?” Questiono ainda: “haverá necessidade de cumprimentar os amigos e familiares quando chegamos e quando vamos embora (por vezes, uns minutos depois?) ”E a verdade é que este “beijocar” não é o cúmulo! Tenho a dizer-vos que há gente bem pior (como se isso fosse possível!)! Tenho familiares (que vivem noutros países que não este, à beira mar plantado) que cumprimentam não com dois mas com quatro (sim, leram bem!) quatro beijos!!! É tanto virar a cara, estalar os lábios, virar a cara, estalar os lábios que quase fico com tonturas depois de cumprimentar um primo! Imaginem quando vem o casal!!! 10 minutos são usados apenas para beijos!

Convenhamos!! Beijo é uma coisa íntima! É uma coisa para ser dada a quem nos é muito próximo!! Existirá coisa pior que acabar de conhecer uma pessoa e cravar-lhe logo dois beijos na bochecha?? Não seria bem mais simpático, e bem menos pessoal (afinal, acabámos de conhecer a pessoa!) dar-lhe um passou-bem? Facto é que, entre homens e mulheres esse comportamento até é aceite. Conhece, estende a mão, dá um vigoroso passou-bem e por aí nos ficamos, sem maiores intimidades. Já entre senhoras, esse comportamento é pouco usual. Acabou de conhecer e lá vem o beijo! E que incomodativo que ele pode ser! Basta pensar nas camadas excessivas de base que nos fazem ficar coladas à pessoa que nos cumprimenta! Dirão, e com razão, que há muita gente que transpira das mãos. E que dar um passou-bem a uma mão transpirada também não é muito agradável. E é verdade! Mas entre a mão molhada de transpiração e a bochecha que cola…eu escolho a mão!!!

Contudo, toda esta teoria cai por terra quando gosto muito das pessoas. Aí sou uma beijoqueira nata! Adoro aqueles beijinhos leves espalhados pelo corpo da pessoa amada. Adoro um beijo a sério, o famoso “french kiss” (acho o nome lindo!) que usas para explicar ao outro o quanto ele é especial para ti. Adoro o ligeiro tocar de lábios apenas porque passaste pela pessoa que amas. Para quem gosto e amo não poupo nos beijos. Espalho-os, quais borboletas, leves mas cheios de sentido.

Talvez seja por isso que não goste tanto de dar beijos como um hábito social que nos incutiram. Esses beijos são, no geral, insípidos, são apenas e só um gesto formal, que nos obriga a uma intimidade que, a mim, não me apetece ter.

Tendo em conta o que acima refiro, deveria regozijar-me, de alguma forma, com as novas regras que este malfadado vírus nos impôs. Acabaram-se os beijos às pessoas que acabaste de conhecer. No mesmo momento acabaram-se até os apertos de mãos! É um facto que estamos no inverno e a síndrome “mão transpirada” não anda muito por aí mas, ainda assim, de quando em vez aparece. Os beijos às pessoas que vês todos os dias, em forma de cumprimento, foram banidos, tanto à chegada como à partida (nem tudo são más notícias!). E quanto aos amigos e familiares do estrangeiro? Ainda não os vi mas tenho cá para mim que também se deixaram da loucura dos quatro beijos! Penso que ao escrever estas linhas estou a procurar algo de infimamente positivo neste “bicharoco” que nos tomou conta da vida…

Mas…a verdade é que não consigo. Não consigo vislumbrar nada de “infimamente positivo” nesta situação. Nem este abandono destas regras sociais que sempre, de um modo ou de outro me atormentaram. Posso dizer-vos que já me aconteceu mais do que uma vez estes dias parar um abraço a meio caminho (e o que eu gosto de abraçar os que me são caros?). Já tive vontade de abraçar uma pessoa amiga a passar por um momento menos positivo e senti o medo a crescer dentro de mim…Aqui há dias, ainda não tinha começado este isolamento social a sério, uma criança de 5 anos aproximou-se e disse-me “Olá. Não te posso dar um beijo, como sabes…” e, estranhamente, senti um pequeno vazio. Acho que foi nessa hora que percebi que o mundo e os seus hábitos estavam mesmo a mudar…

Foi nesse momento que pensei que este vírus, para além de tudo, nos está a roubar, também, velhos hábitos tão enraizados como sejam o da palmada nas costas, do beijo como cumprimento, do beijo como uma forma de dizer “gosto de ti” e do abraço mais ou menos apertado. Esta “Covid19” não se limita a retirar a vida a uns quantos (demasiados) seres humanos, a esvaziar as cidades da vida que as caracteriza como também nos está a esvaziar de alguns momentos de ternura e cumplicidade tidos como tão nossos.

Aqui chegados dei por mim a pensar que já tenho saudades de cumprimentar os amigos, saudades do beijo, dos abraços, desta forma tão familiar que o português tem de ser. E cresceu o medo em mim que em pouco tempo possamos vir a dizer: “houve um tempo em que a ternura era manifestada com beijos e abraços. Estranho, não é?”

 Tenho saudades do toque, do abraço, do beijo. Tenho saudades das minhas pessoas que sinto tão longe de mim e hoje, mais que nunca, sinto que o mundo nunca mais será igual.

Revisitando o mês de março

Foram estas as fotos que ilustraram as crónicas “Sonhadores precisam-se” , “Portugal num sábado como outro qualquer”, “Seis dias de isolamento social”, “Ensino à distância em tempos de COVID – 19, o conto “112 anos de Esperança”, a biografia de Mary Seacole e os textos especiais de aniversário e “30 perguntas, 30 respostas” . Leram tudo?! Relembrem os textos e vejam então ao vídeo:

 

A Steff responde a 30 perguntas

Hoje trago-vos algo bem diferente daquilo que é habitual. Encontrei esta lista de perguntas na Revista Rua e decidir responder por escrito. Posso dizer-vos que foi um exercício interessante e que me fez pensar em muita coisa, muitas pessoas, muitos momentos.

Deixo-vos aqui o resultado, caso queiram saber algumas curiosidades desta que se assina.

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Photo by Jon Tyson on Unsplash
  1. Quem foi a última pessoa a quem deu as mãos?

A última pessoa a quem dei a mão? Começa logo com uma pergunta difícil…Não me lembro. Mesmo (ainda que consiga lembrar de vários momentos passados em que dei a mão a pessoas como quem faz uma promessa!…)

  1. Quem está desejoso por ver?

Poderia dizer “aquela pessoa especial”. Mas a verdade é que estou desejosa de ver e abraçar toda a gente que tem um lugar especial no meu coração. Sinto saudades de todos os que estão longe de mim nestes dias.

  1. Quais são as cinco músicas que estão na sua cabeça nesta altura?

Começaria por falar de “Let it be” dos Beatles que ouvi pela manhã na Rádio Comercial (uma música que adoro e que me parece muito bem escolhida para os tempos que correm); Dua Lipa com “Physical”, porque me faz querer dançar e saltar; “Underdog” da Alicia Keys; “A noite” de Stereossauro, Marisa Liz e Carlão; “Onde estará o meu amor?” da grande Maria Bethânia (que me é recordada diariamente na novela! Sim, eu estou a seguir uma novela!)

  1. Com quem teve uma conversa profunda mais recentemente?

Eventualmente, e penso que ela não se zangará por nomeá-la, com a amiga Helena Sofia Pais.

  1. Se só tivesse três palavras para se descrever a si próprio, quais escolheria?

Bem-disposta, conversadora e “sentimentalona” (coração mole).

  1. Que tipo de coisas realmente o fazem rir?

Finas ironias, piadas inteligentes.

  1. Qual foi a pior mentira que já contou aos seus pais?

“Está tudo bem” quando no fundo queria fazer explodir o mundo.

  1. Quais são os seus três piores hábitos?

Dormir até tarde; ver séries em catadupa; explodir facilmente.

  1. Qual é o seu espírito animal?

Os testes dizem que é a raposa (tenho um tio que me chama sempre de raposinha…ele lá deve saber! Hehehe)

  1. Qual é a sua piada favorita?

Não sei se entendi a pergunta…

  1. Que objeto/ fruto seria bem melhor se alterasse a cor?

Os computadores (todos eles) seriam bem mais giros se fossem rosas, azuis, laranja!

  1. Qual foi o último concerto a que foi?

Lembrei logo do concerto dos “The Killers”. Mas estava enganada. Foi há poucas semanas o fabuloso The Lengendary Tigerman.

  1. Que talento gostava mesmo de ter?

Aqui não há dúvidas: adorava saber cantar!

  1. Qual foi a coisa mais espontânea que já fez?

Não sei se posso dizer que foi espontâneo porque levaram algum tempo a convencer-me. Mas a decisão foi mesmo um “coup-de-tête” e vamos lá em frente: fazer slide.

  1. Se tivesse uma máquina do tempo, preferia voltar atrás no tempo ou dar uma espreitadela no futuro?

Sem qualquer dúvida, voltar ao passado.

  1. Qual foi o momento mais embaraçoso na sua vida?

Devo ter mais uns quantos mas lembro de uma vez numa Bertrand ter visto um baralho de cartas ilustrado com Fernando Pessoa. Queria perguntar, na altura, se não tinha baralhos com outros autores. Saramago, por exemplo. E pergunto com um ar muito sério ao senhor: “Olhe, desculpe, não tem caralhos de cartas com o Saramago?”. E, já agora, um buraquinho para me esconder…

  1. Se pudesse alterar o seu nome, que nome escolheria?

Aí está uma hipótese que nunca considerei…eventualmente Antónia (assim chamávamos a minha avó, ainda que fosse Maria do Rosário…história longa)

  1. Quais são as suas peças de roupa preferidas?

Adoro aqueles calções que parecem saias à frente. Super confortáveis sem perder alguma sensualidade. Ah e vestidos, claro!

  1. Se saltasse para uma piscina cheia de alguma coisa, o que preferia que estivesse lá dentro?

Ora…queria banhar-me em leite de burra, como a rainha do Nilo!

  1. Qual foi a alcunha mais estranha que já lhe deram?

Estranha não sei…mas chamavam-me frasquinho de veneno! 😉

  1. Qual é a sua maior crush do mundo do entretenimento?

Pois que terei de dizer que é…suspiro…o Bradley Cooper.

  1. Qual é o seu emprego de sonho?

Eu sei que pode parecer clichê mas gosto mesmo de ser professora. Bastava que fosse sempre à porta de casa e seria feliz

  1. Se pudesse fazer 3 perguntas ao seu animal de estimação, quais seriam?

Carlota, esse arzinho de superioridade é mesmo teu ou é fachada?

Carlota, odeias alguma coisa? (acho que me iria responder: o computador que rouba o meu lugar nas tuas pernas!)

Carlota, qual é tua série preferida?

  1. Qual foi o sítio mais bonito onde já esteve?

Um sítio só meu (e de quem estava comigo, na altura). Um sítio despido de tudo, onde entretanto tinha nevado. Estava tudo branco, virgem, sentia-se uma paz fabulosa. Foi, sem dúvida, um dos sítios mais bonitos que vi até hoje.

  1. Qual é a sua frase de engate preferida?

Simplesinha: “Buongiorno principessa”.

  1. Está a ter um dia infernal. O que a faz sentir melhor?

Poder descalçar-me, sentar, colocar o pé no chão e degustar uma taça de vinho. (Um banho de mar, se estiver na praia!)

  1. Que conquista sua lhe dá mais orgulho?

Outro chichê mas sentir que consigo criar uma boa relação com os meus alunos. Sempre que sinto que faço a diferença na vida deles.

  1. Qual foi o seu maior fail na cozinha?

Não lembro de nada em particular mas provavelmente algum bolo que ficou com tanto pé que parecia uma sola de sapato

  1. Qual é a memória mais engraçada que tem da sua infância?

Na altura não achei muita piada mas…levei um pastor alemão a passear de socas de madeira. O animal viu um gato e saiu disparado. Eu tinha a mão presa na trela, cai de cu e fiz sku durante um bom bocado no alcatrão. Tenho uma imagem das cuecas que levava…pouco mais sobrou que os elásticos!

  1. Se tivesse de se transformar num objeto inanimado por um ano, que objeto escolheria ser?

Provavelmente um carro que era para andar sempre na “giraldina” (de um lado para o outro.

Mary Seacole, o Anjo da Misericórdia

Há algum tempo que não vos trazia aqui a rubricas “Elas, as que fizeram a diferença”. Escolhi trazê-la hoje porque é uma rubrica que, como sabem, vem falar de mulheres excecionais que, pela vida que levaram, fizeram a diferença no mundo em que viviam. São, na sua maioria, histórias de vida diferentes, histórias de mulheres inspiradoras. A intenção é trazer-vos hoje mais uma história de vida de uma mulher fenomenal, transportando-vos para uma outra época, e levando-vos, por momentos, a esquecer estes tempos mais negros que vivemos no país e no mundo.

Para hoje escolhi falar-vos de uma ela que não é tão famosa quanto outras que já aqui foram abordadas mas que merece, sem dúvida, o destaque que hoje lhe vou dar. Venham daí conhecer Mary Seacole.

Mary Seacole nasceu Mary Jane Grant, decorria o ano de 1805, na Jamaica. Era filha de James Grant, um oficial escocês no exército britânico e de uma mulher jamaicana negra livre. (Há que relembrar que época em que Mary nasceu, a escravidão ainda não tinha sido abolida no Império Britânico, embora houvesse negros livres). A mãe de Mary era curandeira, praticando medicina tradicional com base em plantas caribenhas e africanas. Era conhecida por cuidar de militares inválidos na sua pensão. Foi com ela que Mary adquiriu o seu gosto pela enfermagem. Dizia que começou por aplicar os conhecimentos da mãe nas bonecas e, mais tarde, nos seus animais de estimação. Quando cresceu aprendeu a tratar dos doentes e a combater doenças como a cólera e a febre-amarela (doenças comuns na época), com ervas medicinais.

Com apenas 18 anos decidiu visitar Londres, onde permaneceu um ano. Mary Seacole tornou-se, desde aí, uma inveterada viajante e, ainda antes de casar, visitou outras partes das Caraíbas, incluindo Cuba, Haiti e as Bahamas assim como alguns países da América Central. Nestas viagens ela acrescentou ao seu conhecimento de medicina tradicional, conhecimentos da medicina europeia. Exercia a “sua medicina” em cada país que visitava, países esses que se encontravam afetados, à época, por epidemias tropicais. Estas viagens e atividades aportaram-lhe, como disse, maiores conhecimentos e a reputação de excelente curandeira/ médica.

Será em 1836 que virá a conhecer Horácio Seacole com quem virá a casar. Contudo, o casamento não será duradouro tendo Mary ficado viúva em 1844.

Continuou então a trabalhar na área da saúde. Trabalhou, por exemplo, junto de médicos na Jamaica em 1850, durante a epidemia da cólera. Pouco depois viajou para o Panamá onde se deparou com a mesma doença. Num primeiro momento as autoridades não quiseram aceitar a sua ajuda, por ser mulher e negra mas mais tarde acabaram por aceitá-la e receber de bom grado o apoio de Mary Seacole. Mais tarde, Mary Jane regressou à Jamaica, sentindo que ela era lá necessária. A Jamaica atravessava uma grave epidemia de febre-amarela. Nesse momento já Mary Jane era conhecida como o “Anjo da Misericórdia”. Já todos a caracterizavam como uma pessoa tímida e dócil mas, também, uma pessoa carismática, determinada, perseverante e lutadora.

Em 1854 estalou a Guerra da Crimeia onde a França e a Grã-Bretanha declararam guerra à Rússia. A Jamaica enviou imensos soldados para a frente da batalha. Mary Seacole viajou até Inglaterra depois de ter tomado conhecimento de que Florence Nightingale estava a selecionar enfermeiras para irem cuidar dos soldados feridos na Crimeia, para oferecer o seu apoio. Contudo, o seu pedido não foi atendido por Florence, apesar das cartas de recomendação dos governos da Jamaica e do Panamá. Dizem que não terá sido aceite por alguns preconceitos da própria Florence que exigia que as “suas enfermeiras” pertencessem a uma determinada classe social e que fossem mulheres jovens. Ora Mary, para além de negra contava à época, com 50 anos…

Inconformada com esta recusa Mary procurou arrecadar fundos para viajar por conta própria para Scrutari, onde ficariam sedeadas as voluntárias da Guerra de Crimeia. Com o dinheiro que obteve montou um hotel a que se deu o nome de British Hotel, um hotel onde vendia comida, bebida e medicamentos aos soldados para deste modo poder arranjar dinheiro para cuidar dos feridos de guerra. Seacole tratava dos soldados em campo de batalha e por diversas vezes foi encontrada a cuidar de solados de ambos os lados, enquanto a batalha acontecia. Foi nessa altura que passou a ser chamada de Mãe Seacole. A sua reputação rivalizava de perto com a de Florence Nightingale.

Com o fim da guerra, em 1856, voltou para Inglaterra, enfrentando problemas de saúde. Ainda assim, quis seguir para a Índia para trabalhar como enfermeira, repetindo a mesma iniciativa de angariação de fundos, mas não conseguiu a quantia necessária. Escreveu um livro “As maravilhosas aventuras da Senhora Seacole, em muitas terras”, sendo essa a primeira autobiografia de uma mulher negra editada na Grã-Bretanha. Foi-lhe atribuída a medalha de honra da Crimeia, a Legião de honra francesa e uma medalha honorífica da Turquia. Os seus últimos anos foram vividos entre a Jamaica e a Inglaterra.

Mary Seacole, o “Anjo da Misericórdia”, a “Mãe Secole”, viria a morrer de uma apoplexia em 1881. Desaparecia então uma mulher corajosa, decidida, humanitária, altruísta, lutadora frente às adversidades. Sem dúvida uma mulher que viveu numa época conturbada, que encontrou um mundo difícil de viver mas que procurou deixá-lo melhor do que aquele que ela encontrou. Como tal, não poderia deixar de lhe prestar homenagem falando dela nesta rubrica.

 

Ensino à distância em tempo de COVID 19

Amanhã começa mais uma semana de “teletrabalho” para as escolas, para os alunos, para os professores. Vamos lá ter calma desta vez, digo eu.

Esta crónica serve para deixar a minha opinião, a quem a quiser ler, sobre este “teletrabalho” nas escolas…

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Todos nós ficámos satisfeitos quando o governo compreendeu que poderíamos ser um foco de infeção no que à COVID 19 diz respeito e decidiu fechar as escolas. Tanto quanto me recordo, a preocupação maior dos professores, na última 6ª feira em que se trabalhou nas escolas, era conseguir fazer passar a mensagem aos alunos de que deviam ter cuidados e permanecer em casa. É claro que houve a preocupação de deixar algum trabalho para os alunos irem fazendo, a promessa de que iríamos entrar em contacto com eles para trabalharem alguns conteúdos mas, em momento algum senti naqueles últimos dias de aulas, que a preocupação maior seria a forma como íamos manter os alunos a trabalhar, afincadamente.

Não sei se o estado de semiloucura que se vive atualmente no que ao “teletrabalho nas escolas” diz respeito se deve à intervenção do nosso Ministro da Educação mas é a explicação mais lógica que encontro. Efetivamente, assim que foi decretado o encerramento das escolas, o nosso caro Ministro da Educação saiu do seu estado de quase coma (única explicação que encontro para estas ausências tão prolongadas, em que ninguém o ouve falar) para deixar logo os professores (e, claro, os alunos) em ânsias relembrando que isto não eram férias! Havia que continuar a trabalhar!

É claro que não estávamos em férias. É claro que tínhamos de trabalhar (e tínhamos muito para faze)r. Contudo, perante o aviso do senhor Ministro, a maior parte dos professores decidiu fazer o que faz de melhor: executar o que lhes é pedido e, como quase sempre, ainda mais do que lhes é pedido. Como tal, dedicaram-se às atividades ditas mais administrativas (maioritariamente avaliação e relatórios) e decidiram dedicar-se com afinco a criar material para enviar aos alunos! Afinal tínhamos todo um mundo (para muitos, novo) a descobrir: as plataformas digitais estavam abertas para usufruto de todos, sem para isso ter que pagar!

Mas foi nesse exato momento, quanto a mim, que surgiu o problema maior. Começamos por falhar porque não conseguimos, logo à partida, manter a equidade no ensino. Nem todos os alunos conseguem aceder aos conteúdos veiculados. E essa devia ser a nossa preocupação.

Enganam-se aqueles que dizem que, hoje em dia, todos têm computador em casa. Há uma média de um em cada 5 alunos que não tem acesso a computador em casa. Ah, dir-me-ão, mas têm telemóvel e têm acesso à internet! Sabem que ainda há em Portugal sítios que não têm rede de telemóvel? Sabem que, efetivamente há alunos que não têm telemóvel? Poderão responder-me que são poucos mas bastava um não ter para não estarmos a respeitar a ideia de que em Portugal queremos uma escola inclusiva onde TODOS, independentemente da sua situação pessoal e social possam adquirir um nível de educação que seja facilitador da sua plena inclusão social. Não estaremos, com todo esse “teletrabalho” a ajudar a cavar ainda mais o fosso entre aqueles que têm e os que não têm?

Questiono ainda: será justo enviar trabalhos para avaliação tendo em conta, mais uma vez, o apoio que alguns poderão ter em casa e outros não ter? Falo no apoio que os agregados familiares poderão dar, ou não, tendo em conta os níveis de escolaridade bem distintos ou o acesso, ou não, a um explicador do outro lado do telefone.

Por fim, mesmo aqueles que têm computador em casa e internet: haverá necessidade de enviar a quantidade de tarefas que tenho visto? Eu ouço falar em testes online, eu ouço falar em aulas em direto, eu ouço falar em trabalhos e trabalhos para resolver, fichas de trabalho que nunca mais acabam. Há alunos que querem cumprir e que não conseguem dar continuidade a tudo o que lhes é pedido. Lembrem-se que nem todos terão um computador só para eles! Temos famílias inteiras em casa! Pergunto-me eu, como gerem elas o teletrabalho com a realização de exercícios de dois filhos, por exemplo? Há um computador para cada elemento da família? Tenho as minhas dúvidas.

Vamos lá ser realistas: acreditam mesmo que estes pedidos todos irão de alguma forma mitigar tudo aquilo que não poderá ser ensinado este ano? Convenhamos, e não quero ser alarmista, mas dificilmente voltaremos atempadamente a uma sala de aula este ano letivo. O que irão fazer a seguir? Lecionar conteúdos novos através de vídeos e plataformas esquecendo, uma vez mais, aqueles que não acedem a elas? Estarão de facto preocupados com as aprendizagens dos alunos ou quererão, como é hábito nesta profissão, mostrar mais e melhor trabalho a quem de direito?

 Sinceramente acho que com todo este trabalho apenas estão a conseguir aumentar o stress que os alunos devem sentir. Não sinto que essa catadupa de tarefas os ajude a manter aquilo a que podemos chamar de rotina. Muito pelo contrário. Este “estar na escola sem estar na escola”, essa imensa carga de trabalho em casa não é rotina para eles. Apenas é mais um motivo para estarem ansiosos por se apresentarem muitas das dificuldades que acima citei.

Se há algo que esta COVID 19 está a ensinar-nos é que há que tirar o pé do acelerador porque a vida e o mundo como o conhecemos rapidamente mudam. Não continuemos nesta corrida cega do “tem de fazer” para ontem nem ensinemos os nossos alunos a serem assim. Somos professores: não veiculamos só conteúdos. Veiculamos um saber ser e estar também. Neste momento é hora de procurar conversar com eles, mostrar que sabemos sentir empatia por eles e não inundá-los de trabalho que apenas estão a tornar a vida deles e das famílias num inferno.

Seis dias de isolamento social

Sei que tinha dito que não escreveria muito sobre o assunto mas a verdade é que a angústia é crescente e uma forma de lidar com ela é escrevendo. Hoje trago-vos uma crónica que é, praticamente, um diário de bordo. Seis dias de isolamento social…o que há para contar?

É este o tema da crónica de hoje.

Leiam…e contem-me um pouco da vossa experiência!

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Photo by Kristina Tripkovic on Unsplash

Dia 19 de março. Estou no meu sexto dia de isolamento social. Até 6ª feira passada, apesar de já estar informada que as escolas iriam fechar, parecia que ainda não tinha caído bem em mim. É certo que já cumpríamos algumas normas na escola: espirávamos para um lenço de papel que automaticamente ia fora, tossíamos (tanta tosse alérgica que por aqui andava) para o interior do cotovelo (como nos tinham ensinado). Mas a verdade é que na escola o isolamento, como era sugerido, era impossível. Continuávamos a conversar e a partilhar as nossas crescentes preocupações, continuávamos a dar aulas como sempre demos (com proximidade com os alunos)… Rapidamente, e tal como prevíamos, o governo percebeu que facilmente seríamos foco de propagação deste vírus e, finalmente, decretou, o encerramento das escolas, o encerramento antecipado de um segundo período. Ficámos, de um modo geral satisfeitos com essa decisão.

Assim, depois de nos despedirmos dos alunos, depois de muitos de nós lhes deixarmos algum trabalho nesta ausência mais ou menos prolongada da escola, viemos para as nossas casas e decretámos, finalmente, isolamento social. Penso que terá sido nesse momento (pelo menos falo por mim) que, como se diz popularmente, “nos caiu a ficha”. Agora era oficial, iríamos ficar em casa salvo alguma necessidade premente de supermercado e/ ou farmácia. Faz hoje cinco dias…

 Não posso dizer-vos que o tempo me tenha sobrado até agora. Entre a tentativa de manter ativo o meu trabalho (mas sobre teletrabalho falar-vos-ei outro dia) e as atividades próprias de uma casa, a verdade é que tenho estado ocupada. O problema coloca-se mesmo com a minha mente. Durante o dia vou-me mantendo ocupada e estou com os meus mas a minha mente começa a lançar as suas ideias perniciosas todos os dias pela noite dentro, quando se instala o silêncio, quando os de casa se vão deitar e quando as redes sociais se calam (sou uma noctívaga. Se não tiver obrigatoriedade de levantar muito cedo acabo sempre por deitar tarde). É nessa altura que me surgem as dúvidas: será que o mundo tal como o conheço vai desaparecer? O que restará do nosso país e da sua economia depois disto? “Quando voltaremos a ser seres despreocupados que se reúnem num café com amigos, que descansam e passeiam num jardim, que observam o mudo numa esplanada, que abraçam e dão beijos sem qualquer preocupação?”

Sei que muitos dirão, neste momento, que esta será a nossa última preocupação. Temos duas preocupações prementes neste momento: a primeira é sobreviver e a segunda é perceber como ficaremos a nível económico depois desta tempestade passar. Mas a verdade é que não podemos, pelo menos eu não consigo, descurar a parte social. Socializar é uma necessidade do ser humano e isto está a ser-nos roubados por esta COVID -19! Podemos dar-nos por satisfeitos de esta pandemia acontecer no século XXI, por podermos comunicar a viva voz com os outros, ainda que estejam longe. Contudo, mais que nunca entendo que esta comunicação não substitui a presença, o toque, o beijo, o abraço.

Como sou pessoa de sempre ver o copo meio cheio espero que, apesar de tudo, possamos retirar algum tipo de ensinamento deste vírus que nos veio virar a vida de pernas para o ar. Talvez venhamos a perceber com ele que temos que tirar o pé do acelerador. Pensar que podemos “viver” amanhã, porque hoje temos que trabalhar, mais não é que um erro crasso que nos leva a sobreviver e não a viver. Este vírus vem lembrar-nos que somos um pequeno nada que facilmente desaparece. Por isso talvez tenhamos de perceber que temos de viver hoje e não deixar para amanhã. Talvez com este vírus venhamos a perceber que não vale a pena ser ganancioso. De que serve encher os carrinhos de compras com pacotes e pacotes de papel higiénico, ou quilos e quilos de arroz? Basta perceber que este vírus nos pode apanhar facilmente na curva para nos capacitarmos da inutilidade desse ato (para além de provar que somos, provavelmente, umas bestas que não pensam nos outros). Por outro lado, talvez este vírus nos faça perceber que não somos ilhas. Os atos de uns ajudam ou prejudicam os outros. Por isso temos de ter claro que se cada um fizer a sua parte (respeitar o isolamento social, por exemplo) mais facilmente sairemos deste pesadelo. Contudo, se alguns continuarem a pisar o risco, a agir como se o perigo não existisse, estarão a pôr em risco a sua saúde e a dos outros. Repito: não somos ilhas: o comportamento de uns afeta a vida de todos.

Por fim, talvez este vírus nos faça perceber o quanto o contacto social é importante e o quanto ele nos faz falta. Talvez nos faça perceber que não podemos viver atrás de um ecrã e que isso não se chama socializar, ainda que nestes momentos seja uma grande ajuda. Talvez percebamos, no fim disto tudo, que a sociedade tem mesmo de mudar, dando menos importância à aquisição das coisas (que neste momento de pouco servem) e mais importância às pessoas.

Seis dias de isolamento social (ainda só!): ainda assim, já sinto falta de pessoas, sinto falta dos abraços, sinto falta de ser uma cidadã totalmente despreocupada a caminhar pela rua. Apesar de tudo, desse mau estar que se vai instalando, há que cumprir com o que nos é pedido (que não é muito) e esperar que os dias melhorem. Cuidem-se!

Um sábado soalheiro, como outro qualquer…

Não sei se escreverei muito mais sobre este assunto. E se o vier a fazer será, com certeza, para falar de coisas positivas que poderão acontecer entretanto. Gosto de trazer histórias positivas, divertidas, contos que nos façam esquecer por momentos toda esta loucura que vivemos nestes dias. Contudo, tinha de escrever sobre isto pelo menos uma vez, colocar em palavras algumas coisas que penso, algumas preocupações, partilhá-las para assim poder sentir que o peso delas é partilhado.

Para ler e, sobretudo, pensar!

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Photo by 🇨🇭 Claudio Schwarz | @purzlbaum on Unsplash

São 16 horas. E até ao momento poucos foram os momentos que não estive presa a um qualquer meio de comunicação. Sinto que tenho a vida em suspenso presa às notícias, aos boatos, ao diz que diz. Quero muito ser informada sobre tudo e sobre todos os pormenores. Quero saber quantos são os casos confirmados de coronavírus. Quero saber quantos casos são suspeitos e quantos estão em vigilância. Quero saber como estamos a reagir, enquanto povo, quais as regras emanadas pelo governo, quero saber, saber, saber! E para isso procuro ouvir notícias o dia inteiro. Televisão, rádio, jornais online…passo os olhos e os ouvidos por tudo. A juntar a toda essa informação (ou à procura de informação) assumo que ainda “varro” as redes sociais, lendo aqui e ali os pedidos que se vão espalhando, solicitando às famílias para se manterem em casa, as muitas técnicas apresentadas às famílias para ajudá-las a passar o tempo em casa com os seus rebentos mais novos e procurando perceber que estabelecimentos se mantêm abertos aqui na minha cidade. Contudo, bem no fundo, sei que não estou apenas e só a procurar manter-me informada. Sei que se tirar dez minutos a toda esta necessidade de me informar para me analisar, não será difícil entender que aquilo que procuro, de facto, é ouvir uma boa notícia. Procuro ouvir que o aumento de casos não está a ser tão vertiginoso quanto se esperava. Procuro ouvir que temos alguns casos confirmados mas nenhum deles é extremamente preocupante. Quero, acima de tudo ouvir falar daqueles casos que recuperaram (ao que parece, dois neste momento), casos que passaram por este vírus “feio e desagradável” e estão perfeitamente recuperados para nos contar a história.

 Sei bem que as notícias não podem ser as melhores mas procuro-as incessantemente à espera de encontrar, no meio de todas esta informação que nos deixa a cada dia mais alarmados, algo que nos vá mimando a esperança e nos dê coragem.

Mas, bem no fundo, sei que quero algo que dificilmente vou encontrar. E não estou pura e simplesmente a ser negativa. Estou apenas a constatar que somos portugueses e que por isso levamos sempre imenso tempo a tomar consciência da gravidade das situações e uma eternidade para tomar qualquer decisão mais drástica!

Vejamos. Há quanto tempo se exigia o fecho das escolas? Contudo, a opinião da nossa cara Ministra da saúde é de que não existiam razões para as fechar! Ouvimos uns, ouvimos outros e lá se tomou a decisão de fechar as escolas. Mas só no dia 16 de março. Assim como assim, o vírus há-de compreender que gerimos a nossa vida por semanas e que a semana de trabalho só acaba à 6ª feira! O educado senhor vírus também não haveria de ser tão desagradável que aparecesse nalguma escola a uma sexta-feira 13, então! A isto junta-se a interpretação enviesada das regras ditadas pelo governo (em muito ajudadas pelos discurso sempre tão desconexo do Ministro da Educação). Em que ficamos? Afinal todos os profissionais da educação cumprem isolamento social ou não? Na segunda-feira veremos qual a situação em que estamos: professores e funcionários!

Decidida esta medida, entre outras, poderíamos pensar que finalmente estávamos no caminho dos países que veem este vírus com receio e respeito. Desenganem-se! Continuamos a brincar. Continuamos a enviar umas medidas avulso que não entendo que bem possam fazer. Fecham-se as escolas mas continuamos a tentar perceber quem vai ter de trabalhar presencialmente nas mesmas e quem não. Decidimos que algumas lojas irão abrir mais tarde e fechar mais cedo. O mesmo irá acontecer com super e hipermercados. (como se o vírus tivesse hora marcada para comparecer em certos locais!) O uso de máscaras na rua continua a ser obrigatório apenas para quem desconfia que possa estar infetado ou para quem esteve em contacto com alguém infetado. A sério?! Acham mesmo que ainda estamos nessa fase ou não obrigamos ao uso de máscara porque, pura e simplesmente, elas não existem no território nacional? Decretamos isolamento social, avisamos para sair à rua apenas para realizar o estritamente necessário, aconselham-nos a não nos reunirmos em grupos mas, pelo que mostram as imagens, o Cais do Sodré ontem esteve à pinha com jovens divertidíssimos com toda esta situação. Não iam limitar para um terço a lotação dos estabelecimentos? Ou isso também só começa segunda-feira? Será que acreditam que o fim-de-semana soalheiro que nos é apresentado é uma espécie de prémio antes de entrarmos todos em isolamento social? É isso que “o meu povo” entende? Até lá aproveitamos o sol e o calor?

Por fim termino com uma pergunta: para quando um controlo apertado e um encerramento das fronteiras? Não deveríamos ter começado por aí? Espanha é, neste momento, o segundo país europeu mais afetado por este coronavírus. Contudo, as minhas certezas são de que facilmente teremos umas boas centenas a visitar as nossas zonas fronteiriças, como tanto gostam de fazer nos fins-de-semana soalheiros. Tudo isto sem qualquer controlo!

Já não podemos questionar se este vírus é algo para ser tomado a sério. Os exemplos repetem-se: vimos o que aconteceu na China, vimos o está a acontecer em Itália, seguida de Espanha! Será que não podemos aprender com quem soube agir e tomar exemplo com os bons? Leia-se, Macau?

Há pouco vi um pequeno GIF que ilustrava muito bem o que poderá ser esta situação: uma família numa esplanada de uma qualquer serra, linda e cheia de neve. Todos estão calmamente observando a paisagem num clima ameno de um dia cheio de sol. Alguém diz, ainda calmamente, que parece que vem aí uma avalanche. Ninguém se levanta, ninguém se mexe. Alguém mais sábio chega a dizer “Nã…é só um pequeno deslize de neve!…” O GIF termina com uma avalanche a sério e todos a fugirem tentando salvar a vida… Penso que a imagem é bem clara…

112 anos de Esperança

Há algum tempo que não publicava um conto mas hoje é dia de “Conto do Mês”. Trago-vos uma narrativa onde, mais uma vez, a protagonista é uma personagem com uma idade veneranda, alguém “maior”, como dizem os espanhóis (expressão que muito me agrada). Espero que gostem desta personagem tanto como eu!

O meu convite é para desligarem por alguns minutos a ficha, dedicarem-se à leitura durante alguns minutos e deixarem-se envolver por este conto que vos trago.

Ah…e no fim, partilharem! Enjoy

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Photo by Cristian Newman on Unsplash
« Sachez que c’est l’espoir qui gagne « Saiba que é a esperança que vence
Et qui terrasse l’indifférence E que supera a indiferença
C’est lui qui déplace des montagnes É ela quem move montanhas
C’est lui qui provoque la chance É ela que provoca a sorte
Et c’est l’envie et non la rage É a vontade e não a raiva
Qui doit tracer votre chemin Que deve guiar o nosso caminho
Il doit y avoir dans vos bagages Deve haver na nossa bagagem
Du courage pour vos lendemains… Coragem para os amanhãs
(…) (…)
Sachez qu’il faut vivre vos rêves Saiba que é preciso viver os sonhos
Et qu’il faut choisir l’aventure ( …) » Que é preciso escolher a aventura (…) »

                                                                                                      Mes enfants – Grégoire

Paula não queria acreditar no trabalho que tinham acabado de lhe atribuir. Era de certeza a forma velada de lhe “agradecerem” os dias em que tinha faltado ao serviço, fruto de um gripe que a tinha pregado à cama por, praticamente, uma semana. Ela sabia que o trabalho na revista era muito e que não podiam prescindir de uma jornalista de um momento para o outro. Sabia que a sua ausência tinha sobrecarregado os seus colegas mas, caramba, não tinha sido escolha dela ficar doente! Mais! Estava convencida que a monumental gripe que se apoderara do seu corpo se devia àquelas estadias na rua na vã esperança de conseguir entrevistar alguma das estrelas na entrada para aquilo que tinham apelidado de “A Festa do Ano”. Que coisa tão desinteressante… Não era para isto que ela tinha estudado tanto. Podia admitir, neste momento, que sempre olhara para a sua profissão de um modo um pouco sonhador. Aquando da faculdade imaginava-se num qualquer cenário de guerra a fazer diretos que o país seguiria, suspenso nas suas palavras. Imaginava-se junto do primeiro-ministro do país a colocar perguntas pertinentes que todos queriam ver respondidas, sendo reconhecida como uma das maiores jornalistas políticas do país. Imaginava-se a correr o país, sim, mas para fazer reportagens sobre temas pertinentes para o país e para o mundo e até tinha chegado a imaginar-se a receber um qualquer prémio jornalístico. Na sua juventude tinha pintado a sua profissão de uma forma idílica, é um facto. Preferia, de longe, o mundo do jornalismo televisivo, chegara a sonhar com ter o seu próprio “Prós e Contras”. Ainda que apreciasse mais o jornalismo televisivo não colocava de parte o jornalismo escrito. Poderia ter uma coluna semanal num jornal de renome onde poderia expor as suas opiniões sobre o país e o mundo. Na sua juventude e enquanto se formava as possibilidades, na sua cabeça, eram mais que muitas. Podia ser o que quisesse, quando quisesse. Contudo nunca, em tempo algum, se tinha imaginado a trabalhar para uma “revista da sociedade”, o que era uma forma bonita de se referir às revistas cor-de-rosa. Nunca tinha encarado o trabalho que se fazia nestas revistas com seriedade, nem acreditava que quem escrevia aqueles artigos pudesse ter algum tipo de formação jornalística. Portanto, revistas nunca tinham sido uma possibilidade de emprego para ela. E no entanto, ali estava ela… O facto é que fora a revista que lhe permitira, primeiramente, estagiar lá e, mais tarde começar a trabalhar. Não era o trabalho de sonho para ela, é verdade, mas a verdade é que era com ele que podia contar para pagar as contas. E, tinha de ser honesta, aos poucos tinha conseguido impor algumas das suas ideias. A revista contava agora, uma vez por mês, com uma reportagem mais alargada sobre temas que ela considerava pertinentes, importantes e, sem dúvida, mais interessantes do que saber se a Cristina Ferreira tinha um namorado novo ou qual era a marca do vestido e dos sapatos que a Rita Pereira envergara na festa que marcara o fim do verão no Algarve. Ela própria já tinha assinado algumas destas reportagens e era algo de que se orgulhava bastante. Aquela reportagem sobre uma família de refugiados Síria tinha até trazido alguma notoriedade para o seu nome. Perante isto tudo ela pura e simplesmente não podia aceitar que a enviassem para os confins do país para entrevistar uma idosa! Que interesse poderia isso ter? Ela poderia escrever o artigo praticamente sem ir lá. “A mulher mais velha do país conta com 112 anos”. O que poderia escrever sobre esse assunto? Que era criança aquando da I ª Guerra Mundial. Que tinha vivido a IIª Guerra Mundial? Se falasse sobre o assunto até poderia ser uma entrevista interessante. Mas o mais certo era ir encontrar uma velhota meio senil que não se lembraria de muito para contar para além do tempo em que era criança e vivia feliz no campo… E também a revista não pretendia um artigo muito longo. Alguns comentários sobre a festa de aniversário, alguns dados como a data de nascimento, número de filhos e neto…o básico. No fundo algo que poderia ser feito, sem qualquer dificuldade, por um jovem estagiário mas que lhe tinha sido atribuído a ela. Raios! Ninguém conseguiria tirar da sua cabeça que estava ser punida severamente por algo que não era mais do que um direito seu. O ambiente com o novo diretor da revista estava longe de ser calmo e pacífico. Tinha como objetivo dobrar os resultados da revista. O lado humano era algo que não o preocupava muito. Os funcionários estavam ali para trabalhar (e muito!) e não para ficar em casa por algo tão simples como uma gripe!

Paula ia remoendo todos estes pensamentos na sua cabeça enquanto avançava pelas estradas de Portugal à procura da pequena aldeia de Casal Fragoso, perdida no meio do Alentejo. “Pelo menos posso apreciar a paisagem, enquanto conduzo” – pensou de si para si. Era primavera, os campos estavam verdes, apresentando longas extensões de amarelo e/ ou roxo, cores oferecidas pelas pequenas flores que se encontravam em pleno florescimento. Abriu um pouco o vidro, aumentou o som do rádio e decidiu tirar partido daquela viagem. “Pior seria estar à chuva à espera de entrevistar alguém! Vá, anima-te! Com sorte chegas e a velha senhora dorme, falas rapidamente com um filho ou um vizinho e segues viagem…”. Posto isto começou a acompanhar, alto e bom som, a canção que passava na rádio. Considerou que era até bom presságio ouvir, de forma totalmente inesperada, uma das suas músicas de sempre: “We are the world”. Cantou, imitou os tons de voz dos vários cantores, gritou ao estilo da Cindy Lauper e sentiu que aquela única música tinha tido o dom de a deixar animada e com a alma a sorrir.

Pouco passava do meio-dia quando finalmente chegou a Casal Fragoso. Dirigiu-se ao centro da vila para saber onde poderia encontrar a D. Esperança (assim se chamava a senhora mais velha de Portugal!). Sabia que pernoitava no lar da vila mas, segundo lhe tinham dito, passava o dia fora, em casa da filha. Parou o carro e olhou à sua volta. Que vila bonita aquela em que se encontrava. Parecia um verdadeiro postal representativo do Alentejo. Umas casas baixinhas e imaculadamente brancas, janelas com barras amarelas à volta. Várias ruas que seguiam paralelas umas às outras, ladeadas de vasos com flores que acrescentavam um colorido fantástico às ruas calcetadas de uma pedra escura. Lá mais acima via-se a igreja: pequena mas também ela de uma alvura ofuscante.

Decidiu seguir a pé. Visitaria a vila, com certeza iria encontrar uma pessoa na rua ou até mesmo um café onde lhe pudessem dar informações de onde encontrar a D. Esperança. Começou a subir uma rua. Um pouco à frente encontrou um gato que olhou para ela com um ar desconfiado, olhar de quem sabe que ela não pertencia àquela vila. Mais à frente, um cão veio ter com ela num trote leve e um ar de quem adora a vida e as pessoas. Paula baixou-se para lhe fazer uns mimos e aproveitou para pegar na sua máquina fotográfica. Toda aquela beleza merecia ser imortalizada.

Chegou então, junto dela, uma pessoa que seria, sem dúvida alguma, um habitante da vila.

B’dia – disse ele. Não parece de cá a menina. Precisa de ajuda?”

Paula sorriu. Como eram diferentes as pessoas das aldeias em relação às pessoas da cidade. Havia quem as achasse intrometidas. Ela apenas considerava que eram pessoas simpáticas e prestáveis. Apressou-se a responder, apresentando-se:

“Olá, boa tarde. Sou a Paula Teles, jornalista. Tenho uma entrevista marcada com a D. Esperança. Sabe onde posso encontrá-la?”

O senhor Américo apressou-se a responder que sabia que a “senhora jornalista” era esperada e que até tinham organizado um pequeno lanche convívio para a tarde na Junta de Freguesia, numa espécie de receção de boas vindas à “senhora jornalista”. Dito isso prontificou-se a acompanhá-la até à casa da filha mais nova de D. Esperança. “Ela hoje está por lá. Por vezes, quando se sente mais cansada, passa o dia no Lar mas hoje disse que fazia questão de receber a “senhora jornalista” naquela que considera ser a sua casa.

Paula aceitou a oferta do senhor Américo e seguiram então pelas ruas da Vila. Aproveitou para tirar mais umas fotos porque achava tudo deliciosamente bonito. O próprio sr. Américo pousou para umas quantas. Bem, pensava Paula, o dia não foi totalmente perdido. Estava a gostar da simpatia daquela vila e do senhor Américo e tinha tirado umas fotos fabulosas. Pouco tempo depois chegaram a um pequeno largo, criado por três pequenas casas e ladeado por flores. “Que sítio encantador”, pensou ela. À porta de uma casa, numa cadeira de baloiço, viu um pequeno vulto, de um aspeto frágil, parecendo perdido na imensidão da cadeira. Quando se aproximaram vislumbrou a cara envelhecida (como seria de esperar em alguém que já contava com 112 anos), sulcada de rugas, mas que envergava um ar de alegria contida, um pequeno sorriso que se conservava travesso e um semblante de total contentamento. Esperança cativou Paula logo à partida. O silêncio circundante foi quebrado pelo sr. Américo.

-“Esperança! ‘Tás boa? Olha lá, tens aqui a senhora jornalista que te quer entrevistar. Encontrei-a ali no fundo da vila”.

Paula avançou em direção ao pequeno corpo que fazia algum esforço para se levantar e cumprimentar Paula. Paula pediu-lhe que o não fizesse, não era necessário esse esforço. D. Esperança aceitou. Já não tinha idade para fazer esforços em vão. Raios que a idade a tinha deixado tão trôpega, pensou a velha senhora. Paula apresentou-se então e relembrou a idosa que a vinha entrevistar, em virtude de, à data, ser a pessoa viva com mais idade em Portugal.

Esperança olhou para Paula e as primeiras palavras que lhe dirigiu foram: “Bonita que és rapariga! Pareces um raio de sol aqui à minha frente. Anda vai além à porta da adega e traz uma cadeira ou um banco para te sentares. Não quero que te canses a ouvir-me falar. Ó Américo, queres entrar aí em casa? A Maria do Céu saiu a fazer umas compras mas deixou lá um cestinho com bolos e uma jarrinha com refresco que preparou para receber aqui a senhora Paula. Traz um copo também para ti”. Américo aceitou a proposta de Esperança, voltando com as mãos ocupadas com um cesto de bolos, o refresco e os copos. Largou tudo em cima de uma pedra que mais parecia uma mesa, sentou-se e por ali se ficou a comer um bolinho feito de propósito para a ocasião, enquanto ouvia a conversa entre a jovem jornalista e a sua amiga de longa data, Esperança.

Paula teve de admitir para si própria que Esperança não se parecia com a imagem que tinha criado mentalmente. Era pequena e magra, praticamente enfezada mas mantinha um olhar vivo, um ar interessado pelo mundo, uma grande atenção ao pormenor e uma enorme vontade de comunicar. Lembrava-se da sua própria avó (que tinha chegado àquilo que ela considerava uma bonita idade – 96 anos) mas que se tinha fechado para um mundo só seu uns quantos anos antes. Pouco comunicava e quando o fazia era para falar do passado. Não reconhecia os seus e, pelo fim, não se reconhecia sequer a si mesma. Paula considerava que a sua avó lhe tinha sido roubada bem antes daquela fatídica tarde em que já ela contava com os 96. Era esta a ideia que a jornalista fazia das pessoas com mais idade, pré-cadáveres que esperavam calmamente que a morte os levasse. Portanto, quando lhe disseram que ia entrevistar uma senhora de 112 anos pensou que ia encontrar um corpo de poucas ou nenhumas palavras, alguém perdido no seu próprio tempo e no seu próprio mundo e, na certa, alguém por perto (uma filha, quem sabe, uma neta?) que falasse por ela. Esperança era o oposto desta ideia. Disse-lhe que tinha maiores dificuldades em se mover e que para distâncias mais longas já era conduzida numa cadeira de rodas. Mas disse-lhe que gostava de se manter ativa, saindo, sempre que podia para apanhar ar e dar dois dedos de conversa com quem passava na rua. O seu maior amigo era o gato Tobias que se aninhava ao seu lado sobretudo quando se sentava na rua a apreciar a natureza e a apanhar um pouco de calor. De acordo com as suas próprias palavras, continuava a ser um bom garfo. Gostava de um bom naco de carne assada ainda que ultimamente preferisse o peixe. Continuava a adorar comer um doce e podia dizer que era dependente de chocolate. Vinho também era um velho companheiro. Não podia beber em todas as refeições (eles não me deixam – dissera ela num tom de confissão) mas tinham chegado a um acordo. Às 4ªs feiras e ao fim-de-semana era dia de poder beber um copinho de vinho ou até uma ginjinha, quando os domingos eram de festa.

Paula estava suspensa nas palavras de Esperança. Era uma mulher interessantíssima, cheia de vida apesar dos 112 anos, não mostrando qualquer tristeza por momentos passados mais tristes (que também os tinha), não se queixando de qualquer dor (ainda que o seu semblante por vezes demonstrasse que as sentia). Percebeu, na hora, que não poderia limitar-se a fazer o pequeno artigo que lhe tinham proposto. Iria fazer uma reportagem sobre a mulher mais velha de Portugal, sim, mas iria fazer uma reportagem, sobretudo, sobre a ciência de saber ser idoso, mostrando o quão exemplar e fantástica era aquela pequena grande Esperança.

Estiveram por ali a conversar, a responder às perguntas de Paula umas boas horas. Seguiram mais tarde para o lanche que tinha sido organizado para receber a “senhora jornalista” que vinha entrevistar a fantástica “mulher mais velha do país” . Paula aproveitou para entrevistar amigos e familiares de Esperança. De uma forma geral, todos eram unânimes: ela era uma força da natureza e a sua crença de que tudo iria correr sempre pelo melhor, fazendo jus ao seu próprio nome, eram a força motriz de toda a sua vida.

Já o sol estava quase a pôr-se quando Paula percebeu que era a hora de ir embora. Já tinha material (dados e fotografias) para uma excelente reportagem. As ideias fervilhavam na sua cabeça. Quase sentia formigueiro nos dedos tal era a vontade de passar à escrita a experiência maravilhosa que tinha tido nessa tarde. Aproximou-se de Esperança para se despedir. Decidiu fazer-lhe uma última pergunta:

“D. Esperança, mostrou-me que é uma mulher sábia que soube e sabe aproveitar a vida com o melhor que ela lhe dá. Diga-me, qual é o seu segredo? Qual é a fórmula certa para atingir essa longevidade com essa clareza de espírito e alegria?”

Esperança sorriu. Pareceu, durante algum tempo, perder-se nos seus próprios pensamentos, enquanto procurava escolher as palavras adequadas para transmitir o seu pensamento. Pegou delicadamente na mão de Paula e, com uma voz doce disse-lhe:

“Sabes, minha querida, penso que fui fadada para ter sempre, acima de tudo, esperança. Não sei se foi o meu nome que me tornou assim ou se os meus pais perceberam logo que seria uma pessoa cuja vida seria moldada, acima de tudo, pela esperança e, por isso, decidiram nomear-me assim. A certeza que tenho é que é a esperança que vence e que supera (toda e qualquer) indiferença. É ela quem move montanhas, é ela quem traz a sorte. Percebi ainda nova que junto à esperança deve seguir sempre uma vontade férrea. É a vontade, a força de vontade, que deve guiar o nosso caminho. A isto basta juntar, à nossa bagagem, coragem para todos os amanhãs que haverá na nossa vida. Juntando a esperança, a força de vontade e a coragem, tens as ferramentas necessárias para viver uma vida plena e feliz. E com estas ferramentas apenas tens de ter em mente que não podes abdicar, em momento algum, dos teus sonhos. Saiba, menina, que é necessário viver os sonhos e há que escolher, sempre a aventura, e nunca o comodismo, a rotina, o deixar-andar. Foi assim, minha querida, que vivi estes 112 anos, foi assim que me casei com o homem que amava e que foi o homem da minha vida, foi assim que criei os meus filhos e os eduquei e é esse pensamento que procuro passar aos meus netos e bisnetos. E tenho certeza, querida Paula, que quando a minha caminhada terminar, poderei fechar os olhos com a certeza que vivi uma vida muito longa, sim, mas, sobretudo, uma vida feliz e preenchida.”

Paula despediu-se de Esperança com lágrimas nos olhos. Que mulher extraordinária!

Quinze dias depois a reportagem saiu. A entrevista tinha ficado deveras interessante. O texto tinha-se escrito praticamente por si só, tal era a riqueza do discurso da entrevistada. As fotografias também tinham ficado fabulosas, apresentando com toda a clareza a alegria de viver da entrevistada. Paula estava orgulhosa do resultado da reportagem. De facto, a vida traz-nos surpresas enormes. Aquilo que ela tinha considerado como um castigo tinha-se revelado uma surpresa boa e gratificante.

Paula entrou no seu carro e fez-se à estrada. Fazia questão de entregar, em mãos, a revista a D. Esperança. A alegria e o reconhecimento que leu nos olhos de Esperança deixaram-na feliz e orgulhosa. Este tinha sido, sem dúvida, o seu melhor trabalho!

(…)

Contaram a Paula, mais tarde, que Esperança manteve um exemplar da revista na sua mesinha de cabaceira até ao seu último dia de vida.

3 anos de Steff’s World – a Soma dos Dias

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Photo by Ylanite Koppens from Pexels

 

Quando comecei a escrever umas crónicas numa página que nomeei “Steff’s World – a soma dos dias” não sabia muito bem se iria seguir com ela muito tempo, com que regularidade iria escrever, se as ideias para escrever não iriam pura e e simplesmente desaparecer ao fim de algum tempo…

A verdade é que faz hoje 3 anos que escrevi o primeiro texto para esta página. Durante estes 3 anos (à exceção de alguns dias de férias em agosto) foram publicados, fielmente, textos todas as semanas: crónicas, biografias de mulheres que merecem ver as suas vidas relembradas , histórias de amor que, de tão bonitas, devem ser narradas e contos. Uma variedade de diferentes tipos de texto que por aqui vão ficando registados.

3 anos depois posso dizer que as ideias sobre o que escrever não desapareceram, continuo a tomar notas no telemóvel a toda a hora de temas/ ideias que me surgem do nada, mantenho a vontade de escrever e de partilhar tudo isto com aqueles que me seguem.

Posso dizer, ainda, que continua a dar-me um enorme gosto perceber que conquistei mais um leitor, que é fantástico perceber que há leitores que me seguem, fielmente, praticamente desde o primeiro dia do blog mas, sobretudo, que continua a ser fabuloso abrir o coração e “atirar umas palavras para o papel”. São três anos e parece-me que vamos continuar por cá mais uns tempos!

Curiosamente faz hoje 2 anos que iniciei a minha parceria com o Semanário Registo. Sinto que estou duplamente de parabéns!

Parabéns a mim e parabéns à Steff’s World – a Soma dos Dias! Um brinde a mim e aos que me seguem, no blog, na página do Facebook ou no Instagram!

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Sonhadores precisam-se

Para iniciar o mês trago-vos como proposta de leitura a crónica que publiquei na este mês no Semanário Registo. O título é claro: precisamos neste mundo de gente que tenha a capacidade de sonhar e a força de cumprir os seus sonhos.

Enjoy

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Sou uma sonhadora por natureza. E gosto de me rodear de gentes sonhadoras. Aprecio pessoas que possuem mais a cabeça nas nuvens que os pés na terra, que acreditam que a vida pode e deve ser melhor que a que têm neste momento. Pessoas que têm objetivos, que não se acomodam e que lutam por eles. Pessoas que procuram fugir das rotinas. Indivíduos que vão de peito aberto para a guerra porque acreditam na sua luta pessoal. Seres que acreditam que as hipóteses são mínimas mas que, ainda assim, têm fé nas ínfimas possibilidades que se apresentam e creem que elas são razão suficiente para seguir em frente e atingir um resultado positivo.

Abomino pessoas acomodadas. Essas que vivem um dia atrás do outro sem esperar nada da vida. O típico “vamos andando”. Pessoas que se limitam a viver…ou, diria melhor, a sobreviver. O ir andando mata devagarinho, retira gostos, vontades e cores. O mundo passa a ser cinzento. Como se uma neblina cobrisse tudo o que se encontra nele. Os raios de luz passam a ser cada vez menos na vida dessas pessoas que “vão andando”, acumulando dias sem cor. Os dias, esses, mais não são que uma longa sucessão de “coisas poucas” ou de nadas. Uma linha contínua, sem altos e baixos. E por não haver luz nem cor são pessoas que começam a ver o mundo a preto e branco. Provavelmente será essa uma das razões pelas quais se tornam intolerantes a tudo o que possa soar a boa disposição, a cor, a vida.

É verdade que viver a 100%, sem medos, sem rotinas, sem “vamos andando”, lutando para ser feliz, é difícil. Obriga-nos, constantemente, a sair da caixa. Obriga-nos a desafiar o sentimento de aconchego e bem-estar que as rotinas nos dão. Deixa-nos muitas vezes com a sensação de estar próximo do precipício. Por vezes, viver desta forma até custa e dói. Avançamos com tudo para a guerra mas vamos de peito aberto. E por isso somos feridos. Feridas imensas que custam a passar mas…entre o nunca ter vivido estas situações ou vivê-las e ficar ferido, qual será a melhor opção? Na forma como eu vejo as coisas, há que vivê-las e vivê-las a 100%. Há que lutar. Há que expor o corpo às balas, esperando sempre o melhor. E se o melhor não chegar, sentar, lamber as feridas, curá-las e voltar para a guerra! Penso que só assim a vida poderá trazer coisas coloridas, intensas e verdadeiras. E são esses momentos intensos e verdadeiros que fazem a vida valer a pena e que lhe dão cor.

Li uma vez um artigo que referia os cinco arrependimentos mais comuns das pessoas à beira da morte. Lembro que grande parte das pessoas se arrependia de não ter aproveitado a vida da forma que queria, tendo vivido da forma que os outros queriam. Passavam também por não se terem permitido serem felizes (porque, muitas vezes, procuramos fazer felizes os outros esquecendo-nos de nós próprios).

Por isso, tiro o chapéu aos sonhadores! A quem tem a força de vontade de jogar tudo para o alto e de aproveitar a vida como bem lhe apetece. A quem tem coragem de desafiar as convenções, desafiar as leis do bom senso. A quem, contra todas as evidências, segue em frente com o firme propósito de procurar a felicidade. A quem não tem medo da guerra. A quem não tem medo de ser ferido. A quem não tem medo de ser apontado pelas pessoas cinzentas ditadoras de regras. A quem procura ser feliz a todo o custo. A quem sabe que a vida é um bem demasiado precioso para a deixar seguir entre lentas rotinas e episódios mornos. A quem sonha e abraça o mundo com tudo o que ele tem para lhes oferecer e consome a vida à boca cheia!

Tiro-lhes o chapéu e afirmo que são eles quem merece uma vida cheia e transbordante porque lutaram por ela! Porque não se limitaram a sobreviver. A eles apresento todo o meu respeito. O mundo precisa de mais gente assim. Sonhadores precisam-se!!!